Roteiro de Libertação

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CAPÍTULO 25

DEVERES IMEDIATOS

Parte 25
Porque perseverem, no mundo, as separações discriminativas da sociedade, isolando as classes e as raças humanas e formando grupos infelizes; porque o abuso do poder propicie a subtração das liberdades e dos direitos humanos; porque o homem continue escravo do homem e as conjunturas econômicas respondam pela miséria das massas; porque o obscurantismo a respeito da cultura real domine verdadeiras multidões e o acesso às escolas que libertam e burilam o pensamento constitua um privilégio para as minorias dominantes, devemo-nos empenhar em esforço hercúleo para mudar as estruturas vigentes.

 

Enquanto a dor física desgaste a alma, ou os problemas psíquicos gerem enfermidades orgânicas, ou as conjunturas emocionais produzam distúrbios na economia espiritual dos homens; enquanto a indiferença dos ricos marginalize o sofrimento dos pobres e o menor esforço receba estipêndios vultosos num atentado ao sacrifício das classes trabalhadoras; enquanto a morte pela fome dizime centenas de milhões de vidas ou apenas uma vida, o homem necessita modificar a forma de comportar-se, na Terra, ampliando os recursos da solidariedade e do auxílio fraterno.

 

Viceje o vício, que ceifa a juventude e entenebrece a vida; predomine a corrupção, que envilece a criatura; permaneçam os promotores da degradação dos costumes; assente-se o triunfo nos pântanos da vergonha moral; prospere a injustiça, mascarada de direito; reinem a violência e a agressividade, atestando a situação de primitivismo e semi-barbárie da civilização, faz-se imprescindível educar o ser humano e conscientizá-lo das superiores finalidades da sua vilegiatura no curto período do trânsito somático.

 

Desde que o egoísmo tenha prioridade no relacionamento entre os homens em face do êxito da intriga e da calúnia bem forjadas; diante da traição que se mascara de amizade; frente ao suborno da dignidade e da consciência, na disputa dos valores de monta insignificante, porque mui passageiros; perante a vitória da impunidade, da delinquência de qualquer espécie, a real cultura não se pode entorpecer pelos vapores do adesismo de frutos apodrecidos, mas levantar-se para profligar o abuso e exalçar as conquistas do bem, do verdadeiro e do belo.


Como ainda predomine o comércio de vidas, nos bordéis da licenciosidade e nos escritórios de luxo, que vendem "imagens"

ao público ávido de sensações; desde que permanece o tráfico de drogas e de alucinógenos, enlouquecendo dezenas de milhões de vidas jovens e aniquilando-as sob os disfarces da insensatez e do prazer; porque sobreviva a chantagem moral e a financeira e a submissão indigna faça parte da metodologia de situações vantajosas, eleitas pelo equívoco dos aproveitadores, é justo que o silêncio acumpliciador das mentes e caracteres honrados seja substituído pelo verbo quente e pela ação repulsiva ao estado de decomposição moral em que se encontra a quase totalidade do organismo social.

 

A quietação do homem justo diante do disparate do crime é conivência inconsciente para com a delinquência.

 

A acomodação da dignidade responde pela prevalência da desordem.

 

A imoralidade não espera a anuência da virtude para assentar o seu quartel, antes impõe-se, chocante e intempestiva, produzindo, pela violência dos costumes, uma aceitação a princípio tímida e depois aplaudida.

 

Justo que os contornos da honra não fiquem diluídos em sombras, nem os deveres do bem cedam lugar às permissividades a pretexto de tolerância e progresso.

 

O código irrefragável do "amor a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo" tem preferência a quaisquer outras posturas, porque é uma síntese soberana da lei moisaica e do antigo direito romano, que ainda, teoricamente, serve de base à Justiça humana.

 

As débeis tentativas da persistência do bem e da o dem deverão fortalecer-se e amiudar-se tomando o terreno que foi arbitrariamente cedido às paixões nefastas para prejuízo da harmonia social.

 

O homem tem o dever de recompor-se moralmente para viver em harmonia consigo mesmo e com as leis que vigem em a Natureza, refletindo a ordem da Criação.

 

Nunca se fizeram tão necessários quanto hoje os esforços pelo bem geral das comunidades e jamais houve tão grande urgência para as lideranças enobrecidas.

 

Substituir os hábitos perniciosos por comportamentos corretos; gerar atitudes e compromissos salutares no relacionamento com as demais criaturas; promover o trabalho realizador e educar o povo; produzir leis justas e fomentar o respeito pela sua vigência são as tarefas do homem integrado na vera filosofia do Cristianismo, desvestido de arbitrariedades e sofismas, acomodações utilitaristas e dogmas absurdos, numa tentativa de restauração do otimismo, que cede lugar à angústia e à neurose, ao mesmo tempo antecipando o amanhã pacífico e ditoso da Humanidade.

 

VICTOR HUGO

 

Bruxelas, Bélgica, 07/09/80

 


VICTOR HUGO
Divaldo Pereira Franco


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