Roteiro de Libertação

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CAPÍTULO 10

PROFECIAS E REVELAÇÕES

Parte 10
Atitudes incompatíveis com a ética comportamental recomendada pela Doutrina Espírita, o profetismo irresponsável e as revelações sobre as existências pregressas.

 

As previsões desastrosas sobre o futuro da Humanidade, que campeiam, apavorantes, são deduzíveis pela conduta que governos e homens das várias Nações se permitem, cultivando a beligerância sem disfarce, o egoísmo sem medida e a correria armamentista, a que se aplicam os grandes blocos do Oriente e do Ocidente, sob as justificativas de medidas preventivas para a paz.

 

Não há por que duvidar-se das notáveis informações precognitivas que vêm atravessando os séculos; em torno do fim dos tempos, desde as visões dos profetas antigos às palavras de Jesus, no "sermão profético", ou narrados por João, no incomparável Apocalipse, ou, ainda, as previsões de Nostradamus e outros não menos eminentes médiuns de todas as épocas...

 

Ressalte-se, porém, que os tempos negativos, infelizes e o mundo moral inferior serão os que darão lugar a uma vida menos atribulada do que a existente nestes tumultuados dias do planeta, que ainda transita de um estágio expiatório para uma fase de regeneração com as criaturas que o habitam.

 

Não se creia, portanto, literalmente, na extinção da vida, mesmo porque, se as formas desaparecessem, não se acabariam os seres em si mesmos, cujo berço e habitat definitivo são além da matéria, na sua estrutura íntima, portanto, espiritual.

 

Guerras, calamidades, desastres de todo porte sempre os houve, em razão de o lento processo da evolução moral dos homens, por sua livre opção, vir ocorrendo, por enquanto, através do fórceps da dor.

 

No que tange às supostas revelações reencarnacionistas, em que desfilam, no proscênio dos homens, personalidades famosas, mas nem sempre dignas, vultos lendários e nobres de toda estirpe, para que sejam consideradas deveriam partir de Entidades Elevadas, que o sendo, não se interessam por futilidades de tal monta, destituídas de significado para a evolução moral do Espírito, antes exalçando-lhe as qualidades negativas quão perniciosas do orgulho, da presunção, da falsa superioridade.

 

Convenhamos que o importante para todos nós, desencarnados ou encarnados, não é o que fomos, qual o papel transitório que desempenhamos no palco das existências corporais, mas o que hoje somos, o que ora valemos e fazemos, o que viremos a ser...

 

Espíritos irresponsáveis e folgazões comprazem-se em estimular as vaidades chãs, incensando aqueles com quem convivem, narrando-lhes fatos e acontecimentos mirabolantes, informando-os de reencarnações de pessoas importantes, com eles distraindo-se e, ao mesmo tempo, levando-os ao ridículo. O estudioso sincero do Espiritismo deve precatar-se de disparates e frivolidades desse porte, examinando-se com critério e concluindo, por si mesmo, pelo que é, pelas inclinações e tendências atuais, o que foi nas existências transatas.

 

Se à Divindade aprouve descer o véu do esquecimento sobre as lembranças das vidas anteriores, fê-lo por ser mais proveitoso ao Espírito ignorar do que perder-se em excogitações improdutivas, senão prejudiciais, em torno da questão.

 

Não se nega que, muitas vezes, para dirimir um grande problema, atender a urna premente necessidade, impulsionar o progresso, Espíritos Superiores concedem informações em torno do passado dos seus pupilos, sempre vazadas na discrição, na prudência e num conteúdo do qual se retiram salutares lições que revigoram o desfalecido na luta e o sustentam nas difíceis conjunturas.

 

Outrossim, escasseando o conhecimento das reencarnações de pessoas modestas e humildes, enquanto pululam as de afamadas e controvertidas criaturas, depreende-se que os primeiros, porque lutadores anônimos e abnegados, libertaram-se das dolorosas conjunturas, enquanto os outros, que malversaram os tesouros de que foram depositários, aqui prosseguem nas lutas do auto-aprimoramento, ainda fascinados pelas glórias e ilusões terrenas, sem haverem despertado para os altos compromissos da realização interior e da edificação do bem geral ao qual deveriam empenhar todos os esforços.

 

De somenos importância, portanto, essas preocupações que agitam os neófitos e os militantes invigilantes nas hostes espíritas.

 

A todos nós devem interessar o bom uso da oportunidade, o aprofundamento do estudo da Doutrina, com que nos armaremos de vigilância e responsabilidade para os cometimentos superiores da reencarnação, que tem como meta resgatar os erros do passado e adquirir valores positivos para o futuro.

 

VIANNA DE CARVALHO

 

Viseu, Portugal, 17/08/80

 

Dúvidas E INTRIGAS A notícia, embora aguardada, chegara sem tardança.

 

Aquele verbo, quente e forte, que chibateava as iniquidades, desnudando as impurezas morais da corrupção e do crime, nos redutos dourados, não poderia prosseguir trazendo o sol da verdade para o conhecimento do povo...

 

Os homens são os seus equívocos e aparências, que conseguem dissimular uns com os outros.

 

Jesus sabia que o preparador do caminho, seguindo à frente, a abrir as picadas na terra difícil, tombaria antes.

 

O cerco do mal sempre colhe os que se afinam com o erro, para os cometimentos inditosos.

 

Nunca faltaram comparsas para a ceifa, embora sempre seja escassa a companhia para a semeadura.

 

As conjunturas armaram o cenário para a tragédia e, em plena festança de licenciosidade e aberração, o Batista fora decapitado.

 

Tomando conhecimento da ocorrência, Jesus nublou a face, entristecendo-se.

 

Ele amava João e o enviara antes, numa tarefa arriscada e áspera, de que o Batista se desincumbira com fidelidade, encerrando, no holocausto da própria vida, o seu ministério.

 

A sua tristeza refletia compaixão pelos algozes, antecipando, na sua visão do futuro, as dores que os surpreenderiam, passadas as rápidas ilusões do momento.

 

Jesus retirou-se da multidão e, num barco, dirigiu-se para um lugar deserto a fim de meditar. O grande silêncio faculta a abstração do mundo, abrindo as facilidades para a comunhão com Deus.

 

Não mais, a partir de então, Ele se referiria ao companheiro que resgatara antigo débito e libertara-se de quaisquer futuras provas.

 

O conquistador, que viera para a grande empresa, retornara em triunfo, após vencida a batalha.

 

As querelas prosseguiam à volta do Mestre.

 

À medida que se sucedem os êxitos em todos os misteres da vida, multiplicam-se as dificuldades.

 

A inveja sabe urdir intrigas e o despeito dispõe dos recursos para a cizânia, com que procura envolver os que lhes caem nas malhas fortes.

 

Não apenas os inimigos declarados públicos fazem-se prejudiciais à obra, problemas que são em todas as circunstâncias. Também os amigos invigilantes, os companheiros dúbios, os recém-chegados fracos, cujas resistências estão combalidas.

 

Desvelando-se, a pouco e pouco, aos discípulos e ao povo, Jesus não ficava indene às paixões daqueles que Lhe partilhavam a tarefa.

 

Corriam, frívolas e apressadas, de boca em boca, as opiniões a Seu respeito. Suas palavras e conceitos eram confundidos e deturpados.

 

Os próprios discípulos, homens que eram, se disputavam privilégios e primazia no amor ou sentiam-se magoados supondo-se em desprezo, vitimados pelos pensamentos infelizes que se permitiam.

 

Angustiado, em face dos conflitos que o dominavam, terminada a multiplicação dos pães e dos peixes, de que se fartara a multidão, num momento em que o Rabi, após despedir o povo, se encontrava a sós, Tomé acercou-se e, sem maior preâmbulo, indagou: ?

 

Mestre, apesar do júbilo de que se encontram prenhes meus sentimentos, estranha inquietação me entristece a alma.


Por que não me consigo tranquilizar? O Senhor pousou os olhos estelares no discípulo sofrido e, abarcando a noite transparente, numa expressão visual profunda, respondeu:

"Só o amor em plenitude apaziguá. Quando o amor se avizinha da alma, produz alarido e excitação; quando, porém, a domina, propicia calma. O amor, no entanto, para alcançar o clímax, exige a doação total, sem o que promove a inquietação, a incerteza, a amargura.


Colhido pela resposta, simples e sábia, o aprendiz voltou à carga:

—Eu amo; não obstante, não me sinto amado; confio e não repouso; animo a esperança na alma e não me renovo.


"Tomé! — redarguiu o Amigo —, a dúvida sistemática é geratriz de muitos males no homem. Vejamos alguns exemplos da fé, a fim de entendermos melhor: o filete d"água avança, espaço afora, e transforma-se em regato; a semente estoura, libertando um filamento frágil, e faz-se planta forte; o dia começa tênue, e vence a noite... Não indagam, agem; não temem, avançam; nada pedem, doam-se... "Se esperas a vitória de fora e amor em retribuição, ainda não aprendeste a lutar, nem começaste a amar. " Ocorre — volveu o discípulo, timidamente, à lamentação?

Que não me sinto amado pelos companheiros e observo que, em face do meu comportamento estranho, sem os entusiasmos de João ou os aplausos de Pedro, t, u mesmo me relegas a um plano secundário... O Mestre, compadecido do companheiro, advertiu-o: Tomé, a intriga é serpente cruel que esmaga com os seus anéis coleantes e mata com a sua picada venenosa...

 

"O Filho do Homem nada pede: ama e dá-se. João é jovem como as uvas, que se enriquecem de vinho para o futuro, e Pedro é maduro como o trigo pronto para o pão, sendo natural que tenham suas próprias reações de referência ao Evangelho, que os sensibiliza. No entanto meu amor verdadeiro se expressará mais tarde, na solidão e no abandono de todos, entre duas traves levantadas... " Jesus silenciou por um pouco, penetrando nos longes e perto do futuro.


Compreendendo os conflitos que afligiam o homem

" de frágil fé, concluiu: Ambicionando o mar, não desprezes a fonte; desejando a montanha, não desrespeites a baixada. É necessário valorizar todas as concessões do Pai, sem exigir, nem reclamar, recolhendo as bênçãos de todas as oportunidades. Depois, torna-se preciso não esperar dos outros o que não se pode oferecer, compreendendo as falhas e as limitações do próximo, conforme as próprias condições.

 

"Quem aspira o firmamento não tem tempo para acusações ao charco.

 

"Não ouças, nem veicules querelas, queixas, intrigas...


"O candidato ao reino de Deus crê e ama, serve e ama, sofre e ama, não acusando, nem invejando nunca, como compromisso de honra para a sua e a felicidade do próximo. "

Mergulhando em grave meditação, o discípulo não percebeu quando o Mestre se afastou em silêncio, vindo a despertar ao chamado dos companheiros que se dirigiam ao barco para alcançarem a outra margem do lago.

 

AMÉLIA RODRIGUES

 

Braga, Portugal, 18/08/80

 


Amélia Rodrigues
Divaldo Pereira Franco


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