No Limiar do Infinito

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CAPÍTULO 4

REENCARNAÇÃO

Punge a alma vê-los no trânsito das aflições superlativas, que carregam como cangas pesadas que os esmagam lentamente.


Dilacera os sentimentos ouvi-los na plangência das agonias, que explodem em violenta erupção de desesperos incontroláveis.


São eles, os irmãos limitados, os atormentados pelas enfermidades orgânicas e mentais que os estiolam, irreversivelmente. Padecem as injunções dos descontroles da emoção e da fragilidade orgânica, jazendo atados a paralisias e demências entre esgares de dor e rudes pavores nos quais se debatem.


Expondo à visão alheia as doenças que os maceram, estertoram e se comovem, condoendo aqueles que os socorrem e os acompanham nas santas redenções a que se atam...


Todavia, há outros que passam despercebidos, mutilados nos recessos íntimos e se rebolcam em duras refregas que os espezinham numa continuada injunção de amargura.


Poucos lhes conhecem as sombrias paisagens interiores, nas quais se movimentam carregados de frustrações e ansiedades que os comburem. Vezes outras, incapazes de sopitar o exacerbar das paixões que os fulminam, ardem em alucinações que disfarçam a esforço insuportável.


Além deles, os irmãos fundamente golpeados em si mesmos, convocam a atenção os vilipendiados pelas dificuldades financeiras e sociais em lares onde a miséria de largo porte fez morada, quando não se apresentam ferreteados pelo ódio e pela impiedade dos que os recebem nos braços da paternidade revoltada ou da maternidade ultrajada...


Inúmeros se movimentam nos jogos da animosidade recíproca ou jungidos às situações humilhantes que os ferem em profundidade, abrindo feridas largas no

sentimento e nas aspirações.


Incontáveis iniciam a jornada nas amarras patológicas, carregando as pungentes chagas congênitas, com que se despedaçam em demorado curso, sem esperança, nem conforto. Portadores de psicoses transtornantes, de alienações que os asselvajam, crivam-se de opróbrios, enquanto agridem e ferem, longe de qualquer condição de recuperarem a normalidade...


Outros, aleijados e retorcidos, experimentam crescente soma de dores que não cessam.


Um número expressivo dá acolhida aos pensamentos subalternos, vitalizando desforços injustificáveis e espalhando miasmas das mazelas que a cada um sobrecarrega de azedume e acidez...


Em contrapartida, desfilam os estetas, quais argonautas deslumbrantes, campeões da beleza e da inteligência, da saúde e da fortuna, desperdiçando forças na inutilidade ou nas batalhas da insensatez, engendrando, alguns, planos inditosos em que se comprazem, fomentando os jogos da usura e os recreios que transformam em algemas de escravidão demorada, colocadas nos próprios pulsos... Outros passam, de vitória em vitória, cavalgando o poder ou esgrimindo os instrumentos que os glorificam: soldados, artistas, literatos que se destacam e enriquecem as galerias de glórias dos povos e das nações.


Milhões que renteiam com a ignorância e que experimentam as tarefas rudes, imediatas, nos campos e cidades, em misteres fortes e exaustivos, enquanto outros tantos se exaurem na ociosidade das praias e balneários refertos, entre inúteis e lúbricos, num festival hediondo de sexo, de tóxicos, de desgastes do corpo e da alma...


Uns nascidos nas imensas megalópoles e outros em furnas primitivas de sombra e barbárie.


Para bilhões, os casebres insalubres das favelas e das palafitas, e para alguns os berços dourados e as rendas de fina tecelagem sob o amparo de criadagem especial...


Centenas de milhões que iniciam a caminhada nos báratros da ignorância e do analfabetismo e reduzido número que frui os benefícios da cultura, das ciências e das artes...


Incontáveis que anelam possuir ou lograr o mínimo do máximo que tantos outros não valorizam, amolentados pelos excessos que os vítimam desde as primeiras experiências na abastança...


Como compreender tão extravagantes quadros que ferem a alma com invisíveis punhais ou que erguem o ser em júbilos nas asas das emoções complexas?


Por que o excesso num grupo de homens e a absoluta falta noutro clã?


Estes possuem haveres e não dispõem de paz, enquanto aqueles gozam de saúde e lhes faltam os bens materiais?


Será crível compreender-se que o Supremo Pai nos haja a todos criado no momento da elaboração do corpo para uma única vida humana, sendo tão variadas as circunstâncias e as contingências?


Criação em grupos separados? Alguns para as expressivas venturas na Terra e as excelsas glórias nos Céus, em detrimento de outros que suportam superlativas misérias que os desconsertam no corpo e na mente, projetando-os para as regiões de supremas desditas espirituais depois?


Homens que se exercitam nas primeiras experiências da razão, em regiões inóspitas, transitando da selvageria para a civilização e cidadãos que desfrutam do conúbio da beleza, da inteligência e do saber, criados no mesmo instante? Que se pode esperar dos primeiros, faltos de tudo, desarmados para as conquistas do espírito?


Constituem uns raças e povos privilegiados desde o começo em detrimento de outros que, milenarmente, são porta de acesso aos primeiros lampejos da cultura da mente e dos sentimentos?


Por que tão aquinhoada uma parte da Humanidade, em esquecimento de relevante número de criaturas primitivas?


Predestinação para a felicidade como para a desgraça?


Não, de forma nenhuma.


A vida do homem não é uma estreita e breve experiência entre o berço e o túmulo. Antes, as duas demarcações, entrada e saída do corpo, representam pórticos de trânsito pela infinita estrada da perfeição que a todos aguarda.


A vida é única no seu caráter de que criado uma vez, o ser espiritual jamais perece.


Os corpos de que se utiliza são indumentárias que lhe facultam a aquisição de labores evolutivos, nos quais adiciona conquistas, retifica erros, sobrepõe-se aos limites das paixões, destrói impedimentos, anula dívidas.


Toda expressão que se reveste de alegria ou de pena se fixa nas raízes que precedem à organização somática.


Toda concessão de felicidade ou desdita se vincula à anterioridade do corpo, facultando ao espírito crescimento e madurez.


Autor do destino, o ser espiritual insculpe, mediante os pensamentos, as palavras e os atos, o que lhe apraz para as conjunturas futuras. Sua meta, através do determinismo das divinas leis, é a perfeição. A dor e a desventura são-lhe o resultado das opções feitas, conseguidas a penates da própria vontade.


A ideia da vida única, de uma existência, apenas, ultraja a suprema magnanimidade do Pai Criador.


Enquanto que a reencarnação desvela Seu amor, Sua justiça, Sua misericórdia de acréscimo...


Fadado à imarcessível luz, sai o espírito das sombras de si mesmo, de reencarnação em reencarnação, para as sublimes claridades. "Nenhuma das ovelhas que o Pai me confiou se perderá", afirmou impertérrito, Jesus.


Pastor abnegado, Ele prossegue chamando e amparando quantos lhe buscam o redil.


Nenhuma preferência por este ou aquele, exceção alguma por quem quer que seja.


Amor até a autodoação por todos.


A sua vida imolada no madeiro da humilhação, que Ele exaltou por todas as vidas, é dádiva para todos aqueles que lhe queiram receber o ensino sublime.


A reencarnação é, pois, necessária para o crescimento do espírito, "criado simples e ignorante", conforme ensinaram os nobres Instrutores da Humanidade a Allan Kardec, neles refletindo-se o amor de Deus em regime de igualdade para com todos os filhos, na irretorquível demonstração de que somos todos irmãos em diferentes estágios de evolução, avançando no grande rumo...


A reencarnação é, portanto, dádiva do amor divino para a felicidade de todos os Espíritos na fatalidade de atingir a glória estelar que nos aguarda.




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