No Limiar do Infinito

Versão para cópia
CAPÍTULO 11

DESENCARNAÇÃO

Perda de pessoas amada "A perda dos entes que nos são caros não constitui para nós, legítima causa de dor, tanto mais legítima quanto é irreparável e independente da nossa vontade?" "Essa causa de dor atinge assim o rico, como o pobre: representa uma prova, ou expiação, e comum é a lei. Tendes, porém, uma consolação em poderes comunicar-vos com os vossos amigos pelos meios que vos estão ao alcance, enquanto não dispondes de outros mais diretos e mais acessíveis aos vossos sentidos".


L. E. — Perg. 934.


Observada a vida sob o ponto de vista espiritual, faz-se necessária uma revisão em tomo de muitos conceitos que se arraigaram na mente humana, que não possuem a legitimidade que se lhes atribuem. Dentre outros, no que diz respeito à desencarnação dos seres amados, ao Espiritismo cabe o nobre mister de demonstrar que a verdadeira perda se dá quando o ser se extravia da reta estrada do dever, derrapando insolitamente na licenciosidade, no crime ou na alucinação de qualquer tipo em que se apresente.


Quando sucede a transferência do ser querido de uma para outra esfera da vida — prosseguindo, não obstante, a viver em plenitude de ação e em campo mais amplo — isto não é "o pior que poderia acontecer".


Ocorrem no corpo inditosos acontecimentos, sem dúvida, muito mais graves e danosos, piores, portanto, do que a morte.


Infelicidade constitui o ato extravagante que gera desgraças alheias, mesmo quando guindando aquele que o promove a posição de enganoso relevo social ou econômico. Dia chegará em que a consciência que se entorpeceu sacode o letargo e acorda sob acúleos e espículos dolorosos, fazendo infeliz quem burlou os códigos da soberana justiça de Deus.


Toda atitude que perturba o próximo, denigre vidas, envenena existências é, sem dúvida, das piores coisas que podem acontecer a um espírito encarnado, em trânsito

para a própria libertação...


A enfermidade de longo porte para um temperamento irascível — verdadeira bênção que a vida propicia ao calceta e revel —, pode converter-se, pela rebeldia sistemática ou pelo desarvorar da resistência moral, em desdita espiritual, face à ingestão dos fluídos tóxicos da exasperação, da impaciência e da revolta que consomem aqueles que os agasalham por imprudência ou por amor-próprio ferido...


Nesse campo, repontam as paralisias constritoras, a cegueira, a surdez, a mudez, os problemas gástricos, cardíacos, das vias respiratórias, os processos de perturbação renal, os reumatismos e artritismos nos quais o padecente orgânico usufrui da lucidez mental em que se rebolca nas blasfêmias sem palavras, entregue a silenciosas mágoas ou danosos desgastes nervosos por se acreditar injustiçado, rebelando-se ante a cura que lhe parece demorar ou talvez não lhe chegue...


São, também, acontecimentos piores os usos que se convertem em vícios sociais e se impõem sustentados pela delinquência de que se utilizam, tais como o alcoolismo, a toxicomania, a perversão sexual em que ora derrapam milhões de indivíduos em desabalada correria para o homicídio e, logo após, o nefasto suicídio, caso a loucura pela total desagregação da personalidade enferma não os surpreenda antes.


A morte somente constitui desdita quando autopromovida, incidindo no injustificável suicídio.


* * *

Não se perdeu o afeto de quem retomou a vida espiritual.


Não foi a sua transferência de domicílio uma disgra real.


Precedente ao corpo atual, o espírito tem vivido sob as condições decorrentes das experiências anteriores em que atravessou os milênios, entesourando valores que são indispensáveis à evolução.


A paternal misericórdia e paciência divina assistem-o desde há milhares de séculos nas múltiplas transformações porque vem passando até hoje, ensejando-lhe sempre melhores oportunidades com que lhe torna o futuro superior ao passado.


Da mesma forma sobrevive ao desgaste orgânico de agora, recomeçando a aquisição dos bens imortais que a todos nos exornam a individualidade, caracterizando cada um na faixa evolutiva em que estagia.


Vinculados por fortes laços da afetividade resultante do clã espiritual em que transitam, esses Espíritos progridem fieis aos seus amores, mantendo os laços de

carinho e as expressões de sustentação com que rumarão para frente e para a felicidade.


A morte é ligeira interrupção dos implementos físicos, que dificulta um maior contato material entre aquele que se liberta e quem fica na rede orgânica. Aliás, morrer nem sempre significa libertar... Liberta-se das injunções do mundo físico quem se exercita na abnegação e na renúncia, vivendo em clima de menor fixação e dependência das paixões inferiores, das inferiores necessidades.


Sem embargo, mesmo quando ocorre à separação dos vínculos que unem o espírito ao corpo, com outros meios de intercâmbio depara o desencarnado, de que se utiliza para a manutenção da correspondência com os transeuntes da retaguarda...


Quando dormem os seres saudosos fundamente ligados aos amores livres são conduzidos pelo parcial desprendimento a reencontros ditosos de que se dão conta, às vezes pela mensagem dos sonhos, ou de que retornam vitalizados, luarizados, carregando diferente saudade, daquela funda ausência que os macerava, quando os recordavam.


Vezes outras, no convívio mental, através do intercâmbio intuitivo com que procuram diminuir a dor do sofrimento de quem porfia no corpo, inspirando e monologando pelos fios invisíveis, mas poderosos do pensamento, resultando, quase sempre, em diálogo refazentes e abençoados.


Ocasiões surgem em que interferem em acontecimentos e sucessos que dizem respeito aos familiares, modificando paisagens de sombra, alterando fatos e oferecendo valiosos contributos de gratidão em testemunho de imperecível dedicação.


Por fim, utilizando-se dos nobres mecanismos da mediunidade em suas complexas facetas, falando ou escrevendo, materializando ou aparecendo à visão psíquida num distender de mãos amigas e corações afetuosos, sustentando o amor e abençoando a oportunidade.


Trazem as notícias das regiões felizes em que se encontram, entretecendo esperanças e consolações com que colorem de luz imortalistas os escaninhos torpes da angústia, que cede lugar à alegria incontida e ao amor reconhecido ao Supremo Pai.


Referem-se aos lugares em que expungiram ou expungem os incautos, admoestando e ensinando aos que se não dão conta dessa realidade, de modo a fazêlos mudar de comportamento, poupando-se dessa forma aos expurgadouros e redutos de reparação a que se arrojariam se não recebessem a luminosa orientação.


Os diálogos ditosos com os Espíritos amados, que se podem fruir, graças à mediunidade sublimada pelo exercício do bem, de que nos dá conta o Espiritismo, constituem sublime concessão que se revela ao homem a mais perfeita emulação para que este triunfe sobre si mesmo, superando paixões e problemas, seguindo em atitude humilde e estoica na direção da Vida.


Mediante esse conúbio superior — a convivência entre o desencarnado e o encarnado no sagrado momento do intercâmbio mediúnico — pode-se aquilatar e antecipar os júbilos, a felicidade em que se constituirá o reencontro depois da vitória da vida sobre a morte, da liberação dos corpos, na reunião de que todos gomarão mais tarde, após vencida a sombra, a dor, a incerteza...


* * *

Não é perda, antes ganho, quando se traslada de uma para outra vibração o ser querido.


De forma alguma é a coisa pior, a desencarnação, antes uma abençoada libertação numa antern manhã de luz total e de felicidade real logo chegue o instante do restabelecimento da convivência, momentaneamente interrompida. E isto, por mais pareça demorar, logo mais sucederá, facultando que numa consideração retrospectiva parecerá ter sido esse grande e largo período da ausência, nada mais do que um minuto, um lapso de tempo, ora fartamente recompensado pela dita da perfeita comunhão em inefável clima de ventura integral.




Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 11.
Para visualizar o capítulo 11 completo, clique no botão abaixo:

Ver 11 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?