Garimpo de Amor

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CAPÍTULO 24

Amor e relacionamento

Quando se ama a outrem, a compreensão e a compaixão são essenciais.


O amor está dentro das criaturas aguardando o desabrochar, que pode ser mediante estímulos externos ou de natureza íntima. Surge, suave ou abruptamente, desencadeando-lhes uma série de emoções desconhecidas que apresentam motivações para viver, mas que antes permaneciam ignoradas, passando a proporcionar-lhes sentido psicológico à existência.


Muitas vezes, não se dão conta da sua presença interior, ou talvez quando começou a medrar-lhes no imo, na condição de dádiva superior, perdendose-lhe o contato e transferindo-se para outras faixas de interesses como de sensações.


Levando à espiritualização, propõe alteração de conduta e realização pessoal, porquanto amadurece as aspirações que mudam de metas, tornandoas mais significativas e de maior profundidade.


Pela necessidade de viver em sociedade, o ser humano não pode prescindir do amor e das suas manifestações que sustentam os relacionamentos, sem os quais a ausência de significado conduzirá à indiferença, à morte dos ideais.


É, todavia, nesses relacionamentos que deve desenvolver toda a potencialidade que lhe é inata, a fim de facilitar a movimentação da afetividade e produzir os efeitos essenciais ao companheirismo. Sem um sentido exato dessa função, os encontros pessoais tornam-se áridos de conteúdo, perdendo em profundidade o que pode ser adquirido em superfície.


No companheirismo - com nubente, parceiro, amigo, parente ou familiar, conhecido ou não - torna-se indispensável revestir-se de magnanimidade e compreensão a respeito do outro, eliminando os impositivos do ego, evidentemente sem a perda da dignidade, a fim de criar-se laços de verdadeira identificação afetiva que facultem bem-estar e prazer.


Quando dois indivíduos se buscam para um relacionamento de profundidade - no matrimônio, na união dos sexos, na amizade edificante - os sentimentos abrem-se a um entendimento mais amplo, que invariavelmente deteriora, à medida que se vão conhecendo, por se descobrirem as limitações, as dificuldades, os desempenhos do outro, o ser real que é cada qual, causando choque, decepção, desencanto, como consequência de imaturidade afetiva...


Ocorre que o mau hábito de projetar a imagem no outro sempre gera frustração.


Pessoas inseguras criam padrões de criaturas ideais, perfeitas, felizes, tudo aquilo quanto não conseguiram tornar-se e, atraídas por essa fantasia, transferem as aspirações frustradas para aquele que se lhes acerca e lhes inspira afeição. No começo do relacionamento, quando a ilusão prevalece sobre a realidade, o entusiasmo faz que se identifiquem aqueles caracteres na pessoa elegida. A convivência, intima ou não, dilui essa conceituação mítica, que lhe atribui valores que não existem, por necessidade de realização noutrem, que infelizmente não foi conseguida em si mesma.


O choque é inevitável, abrindo espaço para o desconcerto interno, por consequência, para a inibição do amor real, que desabrochará no futuro.


No relacionamento sexual, puro e simples, ou no conjugal, de maior profundidade, o êxito da união sempre dependerá do contributo essencial do amor.


Passadas as sensações iniciais da intimidade, surgem os desafios da convivência, que irá exigir tolerância de ambos os parceiros, interessados pela preservação da própria identidade, mas atraídos um pelo outro.


O amor gera amor. Autoamando-se, compreende-se melhor a maneira de amar-se a outrem.


Analisando a forma como se gostaria de ser tratado, preservada a sua liberdade, respeitados os seus interesses, abrigado na confiança destituída de formalismos, tem-se um roteiro inicial para entender como conduzir-se em relação ao outro.


Não desejando para si senão o que lhe parece proveitoso e criativo, assim deverá comportar-se em relação a quem ama.


Descobrindo essa linha de comportamento, é natural que se busquem companhia e afetividade, a fim de tornar a existência mais agradável, mais produtiva. Nessa busca natural, que faculta encontros variados, vem a necessidade de selecionar, que possibilita a eleição de determinada pessoa para um relacionamento mais significativo. Surgem, nesse momento, os grandes desafios interiores, que se impõem como mecanismos de segurança para a preservação da escolha. É nesse instante que os valores pessoais são colocados em teste.


A intolerância, por exemplo, filha espúria do egoísmo, é uma das grandes responsáveis pelo afastamento das pessoas, dificultando os relacionamentos que poderiam ser produtivos e compensadores. Não estando disposta a compreender que a deficiência de qualquer natureza faz parte da condição de humanidade, exige mais do que oferece, espera receber em escala mais ampla do que merece, aspirando infantilmente a preservar a conduta imatura, em detrimento da verdadeira compreensão a respeito dos limites emocionais, morais e comportamentais que tipificam cada um.


Quando se ama a outrem, seja qual for o tipo de vínculo que se estabelece, dois fatores tornam-se essenciais: a compreensão e a compaixão. A compreensão dilata a capacidade afetiva, abrindo campo ao auxílio colocado à disposição do outro, o interesse pela sua harmonia e felicidade, sem que, com esse sentimento, deseje-se tornar mártir do amor... A compaixão conduz a uma postura mais profunda, porque contribui para uma dilatação maior do entendimento, que envolve em ternura e bondade, abrindo-se à paciência, quando os outros contributos da afeição, de momento, não logram o desiderato.


Todo relacionamento é um compromisso de intercâmbio, de doação e de oferta, de generosidade e de libertação.


O companheirismo, por sua vez, é um relacionamento de valor significativo, porque disposto a auxiliar sempre que necessário; nada impondo nem a nada se recusando, está sempre aberto às condições que surjam favoráveis.


Não tem pressa em alcançar resultados opimos de imediato, porque se compraz em ser gentil, oferecendo amor e tolerância.


Ninguém é capaz de viver sem o amor, especialmente direcionado a alguém, à Natureza ou ao Soberano Senhor da Vida. Mesmo quando se vincula ao Criador, volve na direção das criaturas, que se tornam meta imediata a conquistar, a fim de transcender no rumo da Causalidade Absoluta. Sem o contato de natureza humana, sem o objetivo tangível, que experimenta as resistências morais e dá-lhes mais vigor, jamais será alcançado o objetivo último, que é a comunhão divina em plenitude.


Por isso, o amor deve sempre estar presente na vida, no companheirismo, na convivência difícil ou não, nos relacionamentos.


Buscando-se a essência espiritual que se é, o amor nutre-se da própria energia. Após a descoberta de quem se é e para que se encontra na Terra, alarga-se, então, no rumo do próximo, a fim de experiênciar-se o companheirismo, experimentar-se o relacionamento, adquirir-se sabedoria na convivência, desenvolvendo-se os sentimentos essenciais encarregados das emoções superiores da vida.


O companheirismo íntimo, individual, é o passo primeiro para o estabelecimento do amor fraternal fora do grupo afetivo em marcha para o universal, que albergará todas as criaturas num mesmo sentimento.




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