Setenta Vezes Sete

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CAPÍTULO 7

AO LADO DE JESUS

Mateus 20:20-28 Marcos 10:35-
O nome Salomé evoca a jovem que dançou para Herodes, pedindo macabra|

recompensa: a cabeça de João Batista.


Pequeno detalhe: O Evangelho não registra seu nome.


Quem o declina é Flávio Josefo, historiador judeu.


A Salomé da epopeia evangélica era respeitável senhora, esposa de Zebedeu e mãe dos apóstolos Tiago e João. Discípula fiel de Jesus, esteve presente no Drama do Calvário; participou de seu sepultamento e foi uma das mulheres que testemunharam o desaparecimento de seu corpo.


Alguns historiadores consideram a possibilidade de Salomé ser irmã de Maria de Nazaré ou, talvez, sua sobrinha.


Jesus estaria ligado a ela e seus filhos por laços de consanguinidade.


Encantada com a mensagem evangélica, Salomé empolgava-se com o Reino Divino que Jesus viera instituir e pensava no futuro dos filhos.


A semelhança dos demais discípulos, não tinha ideia muito clara a respeito do assunto.


Estavam todos imbuídos do espírito da raça, das tradições dos profetas, que proclamavam, há séculos, a vinda do mensageiro divino, que libertaria Israel do jugo romano e a elevaria à sua gloriosa destinação.


Como toda mãe, Salomé desejava o melhor para os filhos.


Esperava, portanto, uma situação de destaque para João e Tiago, na nova ordem.


Eram jovens, fortes, inteligentes...


Seriam seus principais prepostos, quando Jesus fosse coroado rei...


* * *

Tanto alimentou essa fantasia que não se conteve.


Em presença dos membros do colégio apostólico, dirigiu-se a Jesus, dizendo-lhe que tinha algo a pedir: Ele a contemplou com serenidade, certamente adivinhando o que viria:

—Que queres?


—Quero que estes meus dois filhos sentem-se, um à tua direita, outro à tua esquerda, em teu Reino.


Não fora o Mestre profundo conhecedor da natureza humana e, certamente, ficaria muito aborrecido.


Tantas lições, tantos exemplos...


Salomé não entendera nada!


Raciocinava em termos de imediatismo, de interesses humanos, envolvendo prestígio e poder, sem assimilar o que se esperava dos seguidores do Evangelho.


Contemplou os presentes, que ouviam vivamente interessados, e comentou:

—Não sabes o que estás pedindo.


Dirigindo-se aos dois irmãos:

—Podeis beber do.


cálice que beberei?


Ambos responderam, sem titubear:

—Sim, Senhor, podemos beber.


—Sem dúvida bebereis meu cálice.


Mas sentar à minha direita ou à minha esquerda, não me compete sabê-lo, e, sim, a meu Pai.


* * *

Podemos definir o cálice como as experiências impostas pela Vida.


Em algumas ocasiões, amargo, como fel.


Noutras, doce, como mel.


O cálice de Jesus, no desdobramento de seu apostolado, seria amargo.


Enfrentaria humilhações e zombarias, estaria sozinho nos testemunhos finais e morreria na cruz.


Os dois irmãos beberiam de seu cálice.


Experimentariam duros testemunhos, semelhantes aos que lhe seriam impostos.


Ambos foram vítimas das perseguições ao Cristianismo nascente.


Tiago foi o primeiro apóstolo a ser martirizado, decapitado no ano 44, a mando de um príncipe judeu.


Mas somente Deus poderia decidir de seus méritos ou qual a posição de ambos no Reino.


Isso significa que do ponto de vista espiritual o valor de um homem não está no cálice que lhe foi reservado.


Depende de como bebe seu conteúdo, de como se comporta ante os desafios da Vida.


O homem mais humilde na Terra poderá ser o mais importante no Céu.


Malba Tahan reporta-se ao assunto ao relatar a história de um rabi, famoso por sua palavra fácil e fluente.


Deus brilhava em seus lábios!


Certa feita, em sonho, sentiu-se transportado às regiões espirituais e lá constatou que sua situação era inferior à de um moço, pouco assíduo frequentador da sinagoga.


Ao despertar, ficou intrigado:

—Eu, figura de destaque na comunidade, intérprete da Lei, orientador espiritual do povo, abaixo de alguém que raramente aparece!


Decidiu ir à sua casa, a fim de decifrar o enigma.


Lá ficou sabendo que o moço cuidava de pais idosos e doentes.


Dotado de piedade filial raramente observada, dedicava suas horas livres em cuidar dos genitores, dando-lhes atenção e carinho.


Então o rabi entendeu por que estava em posição inferior.


Ele tinha Deus nos lábios.


O jovem estava melhor: Tinha Deus no coração.


* * *

Os membros do colégio apostólico indignaram-se com os dois irmãos.


Que atrevimento! Pretenderem os primeiros lugares!


O ambiente turvou-se.


Acusações foram trocadas. Instalou-se a discussão.


Serenamente, Jesus observou durante algum tempo o lamentável bate-boca.


Depois, pedindo silêncio, falou, incisivo:

— Sabeis que reis e governos dominam sobre seus vassalos e impõem a sua vontade.


Assim, entretanto, não deve ser entre vós. Quem quiser ser grande seja aquele que serve; quem quiser ser o primeiro seja o servo de todos.


É assim que o filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar sua vida em resgate de muitos.


Imaginamos o ato de servir como uma contribuição pecuniária ou a doação de algumas horas de trabalho numa entidade assistencial, num serviço em favor do próximo.


Nada disso!


Servir não é um programa a cumprir, com hora marcada e lugar determinado.


Trata-se de uma maneira de ser, em todas as horas e em todos os lugares, a começar pelo elementar cuidado com aqueles que habitam sob o mesmo teto.


Diga-se de passagem: Doce como mel ou amargo como fel, a melhor maneira de sorvermos o cálice da vida é com espírito de serviço.


Quem o Bem serve, é servido pelo Bem.


* * *

Detalhe importante: Os problemas de relacionamento humano decorrem, geralmente, da ausência do espírito de serviço.


Começa no lar.


Com poucas exceções, a criança encara qualquer compromisso, até mesmo o de guardar seus brinquedos, como intolerável prepotência dos genitores.


O adolescente quer morrer quando lhe passam elementares tarefas, como ajudar na limpeza ou arrumar seu quarto.


A dona-de-casa decreta estado de calamidade quando falta a doméstica.


O marido sente-se acima de qualquer compromisso no lar, proclamando que lhe compete batalhar pelo pão de cada dia.


No ambiente profissional, os funcionários mais conscientes e dedicados são tomados à conta de bajuladores e subservientes por seus colegas.


Na vida comunitária, muitos reclamam do poder público, cobrando providências relacionadas com problemas comunitários.


Raros se dispõem a participar de mutirões para resolvê-los.


Há incontáveis tratados de psicologia, sociologia e economia para explicar e sugerir soluções para as injustiças sociais, a miséria e o infortúnio que grassam na sociedade, sem nenhum resultado prático.


Para que tratados?


Precisamos apenas do cumprimento dessa cartilha divina - o Evangelho, onde está bem claro que o espírito de serviço é a base fundamental para edificação de uma sociedade igualitária, justa, e feliz.


Quando todos estivermos empenhados em fazer algo em favor do lar, da sociedade, da pobreza, edifícaremos o paraíso na Terra.


* * *

Ficamos espantados quando encontramos crianças, jovens e adultos dispostos à colaboração irrestrita, fazendo o melhor em favor do lar e da sociedade.


Serão etês em trânsito pela Terra?


Nada disso!


É gente como a gente.


Distinguem-se apenas porque já aprenderam que o espírito de serviço é a chave mágica que acerta o compasso da vida, ajustando-nos ao ritmo da harmonia universal.


Exatamente como ensina Gabriela Mistral, em O Prazer de Servir: Toda a Natureza é um anelo de serviço.


Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco.


Onde houver uma árvore a plantar, planta-a tu;


Onde houver um erro a corrigir, corrige-o tu;


Onde houver uma tarefa que todos recusem, aceita-a tu.


Sê tu quem tira a pedra do caminho, o ódio dos corações e as dificuldades dos problemas.


Há a alegria de ser sincero, a alegria de ser justo; Há, sobretudo, a incomparável alegria de servir.


Como seria triste o Mundo se tudo já estivesse feito. Se não houvesse uma roseira para plantar, uma iniciativa a desenvolver.


Não te seduzam somente as obras fáceis.


E belo fazer o que outros se recusam a executar.


Não cometas, porém, o erro de pensar que só tem merecimento executar as grandes obras; há pequenos préstimos que são bons serviços: enfeitar uma mesa, arrumar uns livros, pentear uma criança...


Aquele é quem critica, este é quem destrói.


Sê tu quem serve.


O servir não é só de seres inferiores.


Deus, que nos dá o fruto e a luz, serve sempre.


Poder ia chamar-se O Servidor.


E tem seus olhos fixos em nossas mãos, e nos pergunta todos os dias: Serviste hoje?A quem?


A árvore? Ao teu amigo? Aos teus familiares?




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Mateus 20:20

Então se aproximou dele a mãe dos filhos de Zebedeu, com seus filhos, adorando-o, e fazendo-lhe um pedido.

mt 20:20
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Mateus 20:21

E ele diz-lhe: Que queres? Ela respondeu: Dize que estes meus dois filhos se assentem, um à tua direita e outro à tua esquerda, no teu reino.

mt 20:21
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Mateus 20:22

Jesus, porém, respondendo, disse: Não sabeis o que pedis; podeis vós beber o cálice que eu hei de beber, e ser batizados com o batismo com que eu sou batizado? Dizem-lhe eles: Podemos.

mt 20:22
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Mateus 20:23

E diz-lhes ele: Na verdade bebereis o meu cálice, mas o assentar-se à minha direita ou à minha esquerda não me pertence dá-lo, mas é para aqueles para quem meu Pai o tem preparado.

mt 20:23
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Mateus 20:24

E, quando os dez ouviram isto, indignaram-se contra os dois irmãos.

mt 20:24
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Mateus 20:25

Então Jesus, chamando-os para junto de si, disse: Bem sabeis que pelos príncipes dos gentios são estes dominados, e que os grandes exercem autoridade sobre eles.

mt 20:25
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Mateus 20:26

Não será assim entre vós; mas todo aquele que quiser entre vós fazer-se grande seja vosso serviçal;

mt 20:26
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Mateus 20:27

E qualquer que entre vós quiser ser o primeiro seja vosso servo;

mt 20:27
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Mateus 20:28

Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos.

mt 20:28
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Marcos 10:35

E aproximaram-se dele Tiago e João, filhos de Zebedeu, dizendo: Mestre, quereríamos que nos fizesses o que pedirmos.

mc 10:35
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