Psicologia da Gratidão

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CAPÍTULO 6

4 A conquista da plenitude pela gratidão

A psicologia da gratidão, de maneira alguma, pode ou deve eximir-se do estudo da transcendência do ser humano.


A quase infinita multiplicidade de caracteres e de identidades das criaturas fez surgir, a partir do século XIX, as diferentes correntes de psicoterapia, todas valiosas, enquanto não generalizem os seus postulados, estabelecendo conceitos e métodos psicoterapêuticos rígidos para o atendimento aos seus pacientes.


Afinal, o grande êxito de qualquer recurso curativo está sempre vinculado ao esforço pessoal do enfermo, ao seu interesse pela recuperação da saúde e do bem-estar, oferecendo a sua indispensável contribuição, sem a qual os mais eficientes processos de auxílio, se não resultam inócuos, são de efêmera duração...


Toda generalização peca por produzir, quase sempre, fanatismo ou preconceito insano.


A Psicologia Clássica e as que surgiram em diferentes escolas de experimentação clínica têm o dever de considerar o ser humano além da dualidade corpo/mente, igualmente, a condição de Espírito imortal.


Mesmo não aceitando a possibilidade da sua sobrevivência à morte orgânica, é compromisso científico o estudo de todas as variantes sem preconceito quanto à sua legitimidade.


Isso porque os pacientes procedem de todas as camadas culturais e sociais, religiosas e positivistas, crentes e não vinculadas a nenhum credo espiritualista.


. . O resultado de tal procedimento será sempre positivo no auxílio à clientela de ansiosos e transtornados.


As pesquisas do magnetismo, por exemplo, assim como do hipnotismo, inicialmente combatidos com veemência, trouxeram, no último quartel do século XIX, em diferentes academias fixadas aos padrões do materialismo vigente, valiosa contribuição para a descoberta e o entendimento do subconsciente assim como, posteriormente, do inconsciente...


Adstritos aos preconceitos vigentes, foram rotulados de imediato todos os fenômenos dessa procedência e, mais tarde, também os mediúnicos e anímicos, como psicopatologias: histeria, dissociação, epilepsia, alucinações, personalidades múltiplas e outras designações que não correspondem à realidade.


Em consequência, ante essa conclusão, médiuns e sensitivos de diferentes qualidades, por mais demonstrassem a interferência dos chamados mortos nas suas comunicações sob rigoroso controle de notáveis cientistas, foram considerados portadores de estados de consciência alterada, portanto, psicopatas...


O Dr. Pierre Janet, por exemplo, com a sua tese do automatismo psicológico, reduziu todos os fenômenos a personificações parasitárias, sendo recebida com aplauso por muitos dos seus pares.


De igual maneira, o Dr. Flournoy, estudando Hélène Smith e constatando a sua mediunidade, também recorreu a explicações incapazes de enquadrar com segurança os múltiplos fenômenos observados.


Frederic Myers, por sua vez, constatando a realidade da fenomenologia mediúnica, especialmente por meio da Sra.


Newham, teve a coragem de afirmar que as comunicações não afetavam o estado normal das pessoas.


William James, o grande psicólogo pragmatista americano, havendo observado séria e longamente as comunicações mediúnicas da Sra.


Piper, convenceu-se da sua realidade e asseverou que, para se demonstrar que nem todos os corvos são negros, basta somente apresentar um corvo branco, desanimando os exigentes incrédulos...


Com o advento da Psicologia Transpessoal, com Maslow, Grof, Kubler-Ross, Pierrakos e toda uma elite de psicólogos, psiquiatras, neurologistas e outros especialistas nos memoráveis seminários em Big Sur, na Califórnia (EUA), apresentaram-se mais amplas possibilidades de êxito na aplicação de psicoterapêuticas em pacientes portadores de obsessões espirituais, de traumas e culpas de existências passadas, abrindo espaço para procedimentos compatíveis com a psicogênese de cada transtorno...


Cada ser humano é um cosmo específico, cuja origem perde-se nos penetrais do infinito.


Transcendente, reflete as experiências vividas e acumuladas no inconsciente pessoal profundo, assim como registradas no inconsciente coletivo, produzindo os lamentáveis processos de alienação.


A sombra coletiva resultante do preconceito acadêmico reinante domina a sociedade, e um sentimento ressentido gera culpa e animosidade, violência e frustração, medo e solidão, tornando ingrato o cidadão que se deveria transformar em um archote de deslumbrante luz alterando a paisagem social e moral da Humanidade.


A perspectiva da transcendência oferece ao ser humano um significado igualmente grandioso, porque não encerra o seu ciclo evolutivo quando lhe sucede a morte.


Transferem-se as suas metas do círculo estreito da injunção corporal para a amplitude cósmica, prolongando-se indefinidamente.


O ego transitório nessa nova percepção modifica o comportamento ante a fascinante compreensão da imortalidade, e libera o Self da sua constrição afugente.


Essa visão imortalista igualmente produz o amadurecimento psicológico, enriquecendo o indivíduo de segurança moral, de identificação com a vida, superando as crises existenciais que já não o perturbam.


A ignorância a respeito do ser integral responde por muitos conflitos, tais como o medo, a ansiedade, a incerteza e a falta de objetivo existencial, desde que, de um para outro momento, a morte, ceifando a vida, tudo reduziria ao nada...


A transcendência, por sua vez, faculta o sentido de gratidão em todas as circunstâncias, proporcionando comportamento saudável, relacionamentos edificantes e inefável alegria de viver com os olhos postos no futuro promissor.


O homem e a mulher que se identificam imortais têm perspectivas de alcançar a plenitude, em razão da possibilidade inevitável de ressarcir erros, de reabilitar-se dos gravames praticados, de recomeçar e conseguir êxito nos empreendimentos que foram assinalados pelos fracassos.


Agradecer emocionalmente ser-se transcendente é autopsicoterapia de otimismo que liberta o Narciso interno da sua imagem irreal, diluindo a síndrome enganosa de Peter Pan, e responsabiliza para a conquista da individuação, em defluência do amadurecimento psicológico que resultará no estado numinoso.


Não mais doenças nem estados doentes no indivíduo que se encontrou a si mesmo, que se descobriu imortal e avança no rumo da sua plenitude.


Exercício da gratidão

Todas as conquistas do conhecimento e da experiência de vida resultam do treinamento, do exercício.


Quando o Self se encontra em desenvolvimento, as emoções ainda se fazem caracterizar pelas heranças do instinto, que se vão modificando lentamente, até alcançar os nobres patamares do amor e da gratidão.


Não seja de estranhar que as condutas humanas durante esse processo apresentem-se afetadas pelo egotismo gerador da ingratidão.


O indivíduo atribui-se méritos que não possui, e tudo quanto recebe considera como em consequência do seu valor.


A permanência da sombra dificulta-lhe o discernimento, impondo-lhe situações embaraçosas e mesmo perversas.


Esse trânsito de curso demorado vai se modificando à medida que as experiências edificantes vão se acumulando como resultado do treinamento, proporcionando lucidez para a compreensão da felicidade após a descoberta do significado existencial.


O único sentido, portanto, de ser humano propõe como foco primordial a emoção do amor que será alcançada.


No oceano do amor, tudo se confunde em plenitude, logo, em superação do ego e dos arquétipos perturbadores.


Há necessidade imediata e inadiável de reservar-se espaço e tempo para o treinamento do perdão, tanto quanto das outras expressões do amor, a fim de se descobrir a alegria que, resultante de qualquer satisfação, seja um efeito do ato de amar.


Para que se possa alcançar esse desiderato, torna-se urgente o dever de mergulhar no Separa o encontro com a consciência, a princípio num monólogo e, depois, num diálogo edificante e iluminativo.


Jung estabeleceu cinco etapas no que diz respeito à aquisição da consciência, seu desenvolvimento no rumo da vitória plena.


A primeira etapa, que ele denomina como participation mystique, diz respeito à conquista da identificação entre a consciência do ser e tudo quanto se lhe refere, no entorno da sua existência.


Acontece que se torna difícil existir no mundo sem que ocorra esse fenômeno de interdependência entre ele e o que se encontra à sua volta.


Nesse sentido, a identificação é muito variada, considerando-se aqueles que, ainda vitimados pelas sensações, permanecem vinculados aos objetos e vivenciam-nos, sorrindo ou sofrendo.


Alguém se identifica e se apaixona pela casa em que mora, pelo instrumento de arte a que se dedica, pelo automóvel ou outro veículo qualquer, e passa a experimentar os sentimentos do Si-mesmo em relação a cada objeto.


Outros se vinculam às suas famílias de igual maneira e experimentam sentimentos de introjeção e projeção, além da própria identificação.


Na segunda etapa, já se expressa a consciência que distingue o Eu e o outro.


Ao alcançar esse período em que se pode diferenciar o sujeito do objeto, o Self que se é em relação ao do outro ser, passa a descobrir, a identificar as diversidades de que cada qual se constitui.


Nessa fase, ainda permanecem os resquícios fortes da projeção no outro, mas que se vai diluindo e favorecendo a identidade.


Na terceira etapa, as projeções transferem-se para símbolos, lições, princípios éticos, facultando a compreensão do abstrato, como a realidade de Deus em alguma parte...


O conceito vigente desse deus, quando punitivo ou compensador, representa a projeção transferida dos pais para algo mais transcendente ou até mesmo mitológico.


Na quarta etapa, tem lugar a superação das projeções, mesmo que assinaladas pela transcendência do abstrato e das ideias.


Surge, então, o centro vazio, que poderíamos denominar como o homem moderno em busca da sua alma.


O utilitarismo e o interesse imediato tomam conta do indivíduo, como substitutos das anteriores projeções.


Nesse comenos, há predominância do prazer e os desejos de fácil controle, podendo ocorrer, se não se permitem essas sensações emoções, a queda em transtornos depressivos.


Nesse mundo novo não existem conteúdos psíquicos, fazendo que cada qual se sinta realista.


Esse é o momento em que o ego se sente como o próprio deus, capaz de fazer e concluir sempre de maneira pessoal a respeito de tudo quanto lhe concerne, selecionando o que é verdadeiro ou não, aquilo que merece consideração ou desprezo...


Com tal comportamento egoico, não é difícil cometer equívocos lamentáveis, derivados da auto presunção, dos julgamentos precipitados a respeito dos demais, podendo tornar-se megalomaníaco.


Perde-se o anterior controle das convenções sociais em relação aos demais indivíduos e aos padrões de comportamento aceitos e convencionados.


Nem todas as pessoas, no entanto, no desenvolvimento da sua consciência, atingem essa etapa, permanecendo somente nas iniciais.


Por fim, na quinta etapa, quando já se encontra amadurecido psicologicamente, o indivíduo passa à reintegração da consciência com a inconsciência, descobrindo os próprios limites - do ego -, alcançando o que poderíamos denominar como uma fase de atualidade, conseguindo a função transcendente e o símbolo unificador.


Livre dos arquétipos em imagens que caracterizam o outro, conforme a experiência da etapa anterior, a quarta, identifica os gloriosos poderes do inconsciente.


Nessa fase de modernidade ou de atualidade, a consciência identifica a vida psíquica nas projeções, não mais compostas dos substratos materiais ou mesmo deles formadas, e sim a realidade de si mesma.


O insigne mestre, no entanto, não se detém aí, e há momentos em que ele parece propor mais outras etapas, cabendo-nos deter nessas, mais compatíveis com os objetivos do nosso trabalho.


Nessa fase em que a consciência identifica o inconsciente e fundem-se, surgem as aspirações do belo, do ideal, do uno, da individuação.


A fim de que seja lograda essa plenitude, o sentimento de gratidão à vida, a todos que contribuíram e contribuem para que o mundo seja melhor e as dificuldades sejam sanadas, que ofereceram sua ajuda no transcurso do desenvolvimento intelecto-moral, transforma-se num impulso para o estado numinoso, em que já não há sombra.


Nada obstante, para culminar nesse desiderato, faz-se indispensável o treinamento constante, o exercício da gratidão.


A princípio, pode mesmo apresentar-se como um ato de dever, o de retribuição por tudo quanto se desfruta, sem que haja a presença do sentimento por falta de maturidade psicológica interior.


O hábito, porém, que se formará irá estimular ao prosseguimento da valorização de todos os acontecimentos assim como das pessoas com as quais se convive, alargando a percepção de que esse sentido de fraternidade gentil e retributiva proporciona inefável alegria de viver.


Criado o estímulo gratulatório, tudo assume significado relevante, ensejando melhor entendimento a respeito dos acontecimentos existenciais, mesmo aqueles que se apresentam em forma de sofrimento, isto é, que têm momentâneo caráter afligente ou desagradável, que pode ser superado pelo empenho de ser-se útil, de compreender o esforço dos demais na construção do mundo melhor, entender-lhes os fracassos e os insistentes sacrifícios para corrigir-se...


Habitualmente, o julgamento a respeito da conduta dos outros, em especial análise quando se trata de questões perturbadoras contra alguém, logo se conclui de maneira equivocada, por certo, a manifestação da conduta do outro, de quem se lhe fez inamistoso, realizando uma projeção inconsciente dos seus próprios conflitos...


Todos os indivíduos têm dificuldades de vencer as questões perturbadoras, especialmente quando procedem dos atavismos que se organizaram no passado por onde jornadearam.


A tolerância, que é uma expressão de amizade inicial, facultará entender-se que não sendo fácil para si mesmo a mudança para melhor, não deve ser de maneira diferente quando se trata de outrem.


Tentando-se, embora com erros e acertos, o exercício da gratidão, momento chega em que o ser se enriquece do júbilo de ser gentil e agradecido, não apenas por palavras, mas principalmente por atitudes, tornando a existência agradável e, dessa maneira, ampliando o círculo de bem-estar em sua volta, mudando as paisagens emocionais desorganizadas.


A gratidão possui esse maravilhoso mister de transformar o mundo e tornar as pessoas mais belas e mais queridas.


Aplicativos gratulatórios

Quando se pensa nos aplicativos gratulatórios, o arquétipo correspondente organiza a história dos acontecimentos para proporcionar um novo passo na conquista da consciência.


Não se trata de uma aquisição convencional, mas da possibilidade de melhor entender-se a realidade.


É uma forma de se reconhecer a grandeza da vida, sua beleza e seu significado.


É natural que surja uma certa nostalgia conceptual em torno da gratidão conforme a herança ancestral, devendo ser superada pelo sentimento de ser útil e de participar ativamente no processo de crescimento da sociedade como um todo assim como do indivíduo particularmente.


O ser humano é um cocriador dos reflexos da realidade na história da evolução moral e espiritual revelada num todo que, muitas vezes, apresenta-se nas paisagens do inconsciente como sonhos arquetípicos, que se transformam em desveladores das metas a serem alcançadas.


Todas as criaturas têm papéis de relevante importância a desempenhar no Universo, permitindo que a consciência reflita as ocorrências do Cosmo e logre introjetá-las na consciência individual, por fim na coletiva.


Herdeiro das experiências pessoais, o ser humano é convidado a crescer em cada etapa do seu processo de desenvolvimento ético-moral, experiênciando pequenos valores que se transformam em significados profundos.


E natural que se deseje produzir realizações de grande porte, capazes de provocar admiração, num processo de exaltação do ego, nada obstante, são aquelas de aparente pequeno valor que aprimoram o caráter e contribuem para a saúde emocional, por estarem mais vivas no dia a dia existencial de cada um e de todos em geral.


A solidariedade, por exemplo, que fascina as massas, quando exaltada na comunicação midiática, raramente é exercitada como aplicativo gratulatório, devendo ensejar o hábito de ser-se útil, de estar-se vigilante e lúcido sempre para ajudar, contribuindo em favor da mudança do status quo vigente para um patamar histórico e moral mais elevado.


Redescobrir a solidariedade, participando ativamente dos labores coletivos e auxiliando com os recursos da compreensão, da bondade e do entendimento fraternal em torno das deficiências dos outros e das dificuldades que são enfrentadas pela maioria, ainda na infância psicológica, é conduta relevante e de alta magnitude.


Essa cooperação expressa-se mediante o interesse de tornar a existência na Terra mais feliz, diminuindo os nexos de atritos e de desconforto moral, social e econômico, através das pontes da gentileza e do auxílio de qualquer natureza que se pode colocar à disposição daquele que o necessita.


Esse esforço faculta consciência ao ego sobre a sua responsabilidade de superar a sombra e vincular-se ao Self em ação dinâmica portadora de edificações significativas.


Tal conduta favorece o indivíduo com a alegria de viver, auxilia-o na libertação do estresse, evitando que tombe na neurastenia ou na depressão.


Exercitando-se o sentimento gratulatório, automatiza-se o comportamento que se fixa no inconsciente, passando a exteriorizar-se noutras oportunidades sem nenhum esforço.


A consciência objetiva (a psique) está sempre relacionada com a subjetividade do ego, sendo portanto imprevisível, enquanto o inconsciente com os estereótipos arquivados responde com significação esperada e que se deseja.


Ampliando o elenco da gratidão, vale considerar-se a ternura que vem perdendo espaço no comportamento dos indivíduos armados contra as ocorrências perturbadoras, e praticamente só é expressa nos relacionamentos mais íntimos, nos momentos de emoção afetiva especial entre os familiares e amigos mais próximos.


A ternura, no entanto, deveria ser uma conduta natural, irradiando gentileza e prazer na convivência com tudo quanto cerca o indivíduo: a natureza e suas expressões, os seres humanos, mesmo aqueles inamistosos, que são atormentados pelos conflitos em que se facultam permanecer.


A ternura é resultado da cultura e da vivência das ações superiores do amor, que estabelece paradigmas de conduta enobrecedora, externandose em curiosos fenômenos de simpatia e de generosidade.


Todos os seres necessitam do estímulo da ternura que mantém os relacionamentos nos momentos difíceis, as afeições quando se vão desgastando, interrompendo o fluxo da animosidade quando se apresenta.


Nas uniões sexuais, por exemplo, um dos fatores de futuros desentendimentos é a falta de ternura com que se relacionam os parceiros.


Mais atraídos pelo prazer sexual, as pessoas quase não valorizam a convivência, porque são carentes afetivos interiores que esperam ser preenchidas pela outra, que também padece da mesma ausência de afetividade pessoal.


Passadas as sensações do prazer valorizado, surgem os atritos dos solitários a dois, que se olvidam de ser solidários reciprocamente.


Não havendo a ternura que estreita os vínculos do amor entre aqueles que constituem a parceria, o gozo desfrutado é muito fugaz e dá lugar a aspirações diferentes, abrindo a mente a sonhos e ambições por outrem que lhe proporcione mais do que a febre do desejo e da realização rápida.


Em consequência, nasce a insatisfação, a procura de alguém que seria o ideal mitológico da perfeição, sem a preocupação pessoal do que esse buscado com ansiedade também deseja.


Seria o caso comum de muitas pessoas que dizem estar aguardando o ser ideal para se lhes vincular, tendo em vista que essa é uma ambição generalizada.


E como todos estão aguardando que seja o outro o preenchedor do seu vazio existencial, aumenta o número dos solitários e insatisfeitos em todo lugar, mesmo na multidão, na família, nas vinculações da afetividade apressada...


A ternura propõe a preocupação portadora de bem-estar, quando se pensa no outro, buscando a melhor maneira de fazê-lo feliz, mantendo a comunicação jovial, os toques afetuosos demonstrativos da necessidade da presença e da reciprocidade afetiva...


O tempo sem tempo de que todos se queixam na atualidade parece responsável pelas carências de toda ordem, quando em verdade é exatamente a ausência da afetividade que gera as fugas psicológicas, as transferências para as coisas e os lugares, aplicando a oportunidade útil em buscas e em atividades secundárias frustradoras.


E indispensável encarar-se a própria deficiência afetiva e procurar-se remontar às causas próximas e também remotas, reservando-se momentos para o autoexame da consciência, para a transcendência, para o encontro com o Si profundo.


Toda vez que a sombra mascara os sentimentos do indivíduo impedindo que a realidade assome, a fuga mantém-no encarcerado no conveniente, naquilo que gostaria de ser, empurrando-o para o medo de ser desvelado, gerando conflito totalmente desnecessário e de fácil eliminação, usando a coragem do discernimento para se assumir como se é, embora com limites e dificuldades, ou com as bênçãos e as realizações já conquistadas.


A sombra sempre vigilante está armada contra as aquisições novas, em mecanismo de autodefesa para a sobrevivência, ocultando-se no ego.


Nunca será demais o cuidado para a identificar e trabalhá-la, diluindo a sua influência e libertando-se para assumir a própria realidade.


A gratidão contribui para essa batalha silenciosa que se trava na psique, porque oferece uma visão ampla do mundo, e profunda de todos aqueles que fazem parte do círculo das amizades humanas.


Rendendo-se à gratidão

Enquanto o sentimento da gratidão não consegue tornar-se natural, espraiando-se generoso, a maturidade psicológica do indivíduo apresenta-se aquém da meta que deve ser alcançada.


Considerando-se o impositivo de consegui-lo mediante o esforço moral bem-direcionado, o indivíduo aflige-se no tormento dos conflitos existenciais, valorizando as reações e comportamentos negativos da convivência social.


A sua ausência na agenda emocional traduz primarismo evolutivo, nada obstante a ingratidão significar inferioridade moral que requer terapêutica especializada e cuidadosa, qual ocorre com as enfermidades que sutilmente devoram as entranhas do ser humano.


O ingrato, por efeito, padece de ansiedade, de baixo nível de autoestima, de medo em relação aos enfrentamentos, sendo portador de complexo de inferioridade.


Quando é homenageado ou distinguido por afeições sinceras, ou mesmo mimoseado com algo, atormenta-se e, interiormente soberbo, silencia o sentimento gratulatório, demonstrando o transtorno distímico de que é vítima...


Noutras vezes, experimenta mágoa ou desconforto emocional, acreditando-se credor de mais deferência, enquanto inconscientemente inveja o outro, o ser generoso e amigo que o busca dignificar.


Suspeita da lealdade de qualquer afeição, buscando motivos falsos para justificar-se, em razão da ausência de mérito que reconhece conscientemente, em verdadeiro paradoxo de conduta emocional.


Refugia-se numa aparência que disfarça os sentimentos, bloqueando as vias do relacionamento, mantendo atitudes agressivas e temerosas com que afasta as demais pessoas do seu círculo de amizade, aliás, muito reduzido.


Desse modo, compraz-se na solidão até o momento em que, su-pervalorizando-se, faz-se loquaz, importante, chamando a atenção para os seus títulos de destaque, após cuja catarse glamourosa, retorna ao mutismo, à conduta desagradável.


Noutras circunstâncias é gentil com os estranhos tendo por meta conquistá-los através de uma imagem bem-projetada, sendo rude, logo depois de conseguido o objetivo.


Esses pacientes são encantadores fora do lar e verdadeiros verdugos domésticos de difícil convivência.


A sombra neles predomina e asfixia as manifestações do Self, de forma que se mantenham na postura de vítimas da sociedade, de indivíduos incompreendidos.


A gratidão é sentimento nobre que procede das profundas nascentes da psique.


Todas as decisões superiores que dignificam o ser humano e a vida exteriorizam-se do psiquismo — o Self — e são captadas pelo córtex posteromedial que transmite a mensagem por diversas redes neuronais, encarregadas de atender o impulso original, transformando-as em emoções de prazer, de felicidade.


Com uma lentidão de poucos segundos, atingem o ápice em relação às outras emoções que se expressam com maior celeridade na organização fisiológica.


Por essa razão, as emoções defluentes da gratidão constituem-se de bem-estar, de alegria, compensando as despesas energéticas decorrentes das neurotransmissões com ondas mentais harmoniosas e benéficas.


O hábito de ser grato, pela sua repetição, equilibra as descargas de adrenalina e de noradrenalina, ao tempo em que o cortisol mantém o controle dessas substâncias químicas, neutralizando os excessos que poderiam ocorrer, produzindo em consequência alterações glicêmicas, do ritmo cardíaco...


como sucede com as emoções inferiores como a ira, o medo, a ansiedade, a mágoa...


Mediante reflexões sinceras pode o indivíduo render-se completamente à gratidão, evitando condutas agressivas e atitudes mentais pessimistas.


Nessa análise, descobre-se quanto se possui digno de reconhecimento e quão pouco se necessita para uma vida plena.


O essencial encontra-se sempre ao alcance do ser em evolução, sendo o secundário resultado de desmedida ambição egoica.


Por meio desse enfoque podem-se identificar determinadas faltas e carências que são valorizadas, produzindo sofrimento, somente por falta de entendimento da sua finalidade.


É o caso das enfermidades, das ocorrências mal sucedidas, dos fenômenos ditos aziagos que fazem parte do processo de crescimento moral e espiritual, como consequências das ações transatas que lhes deram origem em existências pregressas.


Muitas vezes, uma decepção com alguém que é afeiçoado, ao invés de ser um mal converte-se em um bem, porque o outro desvela-se, facultando melhor possibilidade de o entender além da sombra em que se oculta.


Insucessos de um momento, se bem-administrados, transformam-se em lições de profunda sabedoria, libertando o ego da sua injunção afugente.


Tudo, em verdade, que acontece, mesmo produzindo sensações desagradáveis ou emoções desconsertantes, faz parte das experiências que promovem o ser humano, desde que se lhes compreenda a finalidade, expressando gratidão pela sua ocorrência.


Não somente aquilo que proporciona prazer e sucesso que merece gratulação, mesmo porque o seu é um trânsito de breve curso como aqueles que respondem pela insatisfação e pelo momentâneo mal-estar...


A compreensão lúcida de que tudo tem um sentido moral e um significado psicológico relevante proporciona harmonia íntima, trabalhando pela superação de como se encontra, a fim de se alcançar a plenitude.


Por outro lado, muitas existências aquinhoadas por admiráveis tesouros, como equilíbrio orgânico e saúde, beleza, prestígio social e recursos econômicos, atormentam-se em razão do excesso, tombando no tédio, nas fugas psicológicas que levam a naufrágios morais esses privilegiados.


Deparam-se, em consequência, duas posturas: aquela que se caracteriza pela carência, pelo sofrimento, pela falta de triunfos materiais, que proporcionam alegria quando bem-administrados, e a outra, referta de valores preciosos, mas vazia de significado...


Indispensável, sem dúvida, a entrega irrestrita à gratidão, à vivência da alegria de aprender, à aquisição da saúde integral em marcha para a individuação, a perfeita integração do eixo egol Self.


A psicologia da gratidão abre-se, então, num elenco de excelentes recursos propiciatórios para a felicidade do ser humano.


Momento chega em que o ser se enriquece do júbilo de ser gentil e agradecido, não apenas por palavras, mas principalmente por atitudes, tornando a existência agradável.


A gratidão torna o mundo e as pessoas mais belas e mais queridas.




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