Psicologia da Gratidão

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CAPÍTULO 11

9 A psicologia da dignidade

Algumas escolas psicológicas insistem que o indivíduo nasce plasmado pelos fatores genéticos e torna-se fatalmente o resultado da programação hereditária.


Ainda afirmam que o contributo da educação é suspeito de ser produtivo na sua transformação moral, quando as suas são tendências perturbadoras e responsáveis pelo comportamento alienado ou desastrado, dócil ou afetivo, pacífico ou violento...


Não se podendo negar o impositivo genético na construção da aparelhagem fisiológica, o indivíduo é, antes de tudo, o Self responsável pelos seus conteúdos psíquicos, o Espírito, que herda de si mesmo as experiências vivenciadas em existências pretéritas.


Não sendo a concepção fetal o momento da criação da psique, nem a morte biológica o término das suas funções, o ser energético e pensante evolui lentamente, qual aconteceu com as formas biológicas desde os ensaios grotescos dos seres primários que se tornaram os protótipos iniciais da atual organização humana.


. . Pode-se mesmo recuar esse período ao das primeiras expressões moleculares no fundo dos oceanos, quando fascículos de luz, que vieram de outra dimensão, mergulhando nas águas salgadas, passaram a estimular as referidas moléculas, formando os organismos unicelulares, ordenando-se em expressões pluricelulares e seguindo o processo evolutivo...


Esses mesmos fascículos de luz desenvolveram-se no que viria a ser a energia vital, o psiquismo animal, o ser espiritual do período de humanidade...


Não são, desse modo, os caprichos dos genes que formam o ser, as suas características físicas, emocionais e psíquicas, embora a sua prevalência, mas, sim, o Espírito que neles imprime as necessidades de desenvolvimento intelecto-moral.


Assim sendo, a educação desempenha um papel de alta relevância no seu desenvolvimento cultural, emocional, comportamental, trabalhandolhe os valores internos e impulsionando-o à conquista do Infinito.


A aquisição de hábitos saudáveis, aqueles que são considerados edificantes e produzem harmonia emocional no grupo social, a transformação das tendências agressivas e dos sentimentos de baixa estima para melhor, o esforço para qualquer realização dão-se por intermédio dos processos educativos, especialmente aqueles de natureza moral, que são os exemplos, ao mesmo tempo em que, mediante o estudo, ocorre o desenvolvimento cultural e intelectual, num somatório de valores que enobrecem o ser humano.


A educação, no seu sentido lato, está reservada, portanto, a grande tarefa de construir o homem e a mulher melhores e mais sociáveis, neles desenvolvendo os germes do amor e da dignidade, com os quais progride espiritualmente, tornando-se úteis à comunidade, após transcenderem os limites egoicos, quando lhes é possível adquirir a consciência de paz e dos valores éticos que constituem a vida pensante.


Houvesse o fatalismo genético sem chance de mudança, o significado do progresso desapareceria, permanecendo a brutalidade ancestral, o primitivismo arbitrário, sem as claridades do saber, do comportar-se, da auto iluminação.


Em assim sendo, nenhuma das doutrinas científicas e filosóficas teria razão de existir, porque a psique estaria incapacitada para as assimilar, na sua condição de independente dos fenômenos fisiológicos automatistas.


É incontestável no Universo a presença da força do deotropismo como fonte convergente de tudo e de todos.


À semelhança da luz que atrai os vegetais, vitalizando-os e auxiliando-os nos milagres que se iniciam na germinação e prosseguem até a inflorescência e frutificação, a atração de Deus como Criador tornase a poderosa emulação para os fenômenos que ocorrem em toda parte.


Fonte inesgotável de energia, é a causalidade transcendente de tudo...


Lucigênito, o ser humano, através dos complexos processos e mecanismos da evolução, avança na busca do estado numinoso, da perfeição que lhe está destinada.


Uma ordem moral, em consequência, responsável pelo equilíbrio galáctico, vige no cosmo e manifesta-se em tudo como Lei de Progresso que comanda o desenvolvimento ético e espiritual, nada ficando indene à sua ação de convergência.


Por tal razão, a evolução é inevitável, incessante.


Bastem alguns instantes de reflexão em torno da vida em todas as suas expressões e se perceberá essa fatalidade iniludível, que se manifesta no impulso inicial, facultando a complexidade das formas e das apresentações, fixando a sua historiografia caracterizada pelos fenômenos cada vez mais nobres e melhores, estruturados em incessante desdobramento.


Jamais ocorre, nessa progressão, nenhum tipo de retrocesso, de retorno aos momentos caóticos do princípio, nos quais, de alguma forma, sempre houve ordem...


Essa ordem moral foi detectada no século XIX, dentre outros, pelo teólogo inglês, mestre em Oxford, CS.


Lewis, que a denominou como lei moral, dessa maneira evitando a designação de Deus, que desagradava os cientistas de então...


Através desse conceito, o eminente pensador estabeleceu o conceito que se encontra na lei do comportamento correto, que oferece a melhor conduta para as situações mais diversas, pautadas dentro da ética do bem, filho nobre do dever.


Logo propôs o conceito do certo e do errado, que é universal entre as criaturas humanas, embora as diferentes manifestações encontradas entre os povos primitivos e os civilizados, efeito natural da Lei de Progresso.


Allan Kardec, o preclaro estudioso dos fenômenos da vida e da imortalidade, por sua vez detectou a lei natural, que é a lei de amor, defluente de Deus, e apresentou um complexo e completo esquema sobre as dez leis morais que dela se derivam, abarcando tudo quanto se faz necessário para o estabelecimento da psicologia da dignidade humana, do comportamento correto.


O esquema kardequiano inicia-se com a análise Da lei divina ou natural e termina no capítulo Da lei de justiça, de amor e de caridade, para deter-se num estudo pleno a respeito Da perfeição moral, que antecede os valiosos esforços da Psicologia junguiana, estabelecendo como o instante pleno da vida aquele que diz respeito à individuação, ao estado numinoso.


O insight kardequiano encontrava-se em germe no Universo e todos quantos sintonizavam com as leis cósmicas igualmente o captaram, vestindo a ideia de acordo com as próprias características emocionais, culturais, religiosas.


Em todo esse colossal edifício filosófico de natureza moral ressaltam os valores que dignificam a existência da vida na Terra, o natural esforço de cada criatura humana para a superação dos vícios ancestrais e a aquisição das virtudes, que são as realizações edificantes do processo evolutivo.


Todas as proposituras da vida humana estabelecem a ética do comportamento correto, em razão de outra lei, a de causa e efeito, que demonstra a harmonia em tudo, concedendo ao ser pensante o livrearbítrio, mas também a responsabilidade em torno dos seus pensamentos, palavras e atos, porquanto, sendo ele o semeador, também é o ceifador de tudo quanto ensemente.


Esse impositivo estabelece o princípio da consciência, da responsabilidade que abre campo para a instalação da culpa ou da tranquilidade, de acordo com o comportamento de cada indivíduo.


Todos são livres para as condutas mentais, emocionais e morais que lhes aprouver, assim como das suas consequências.


Indispensável, portanto, a manutenção da lei moral, que induz à conduta psicológica saudável.


Aquisição da dignidade humana

A essência do ser humano é o Self que procede do Divino Psiquismo.


Em toda a sua trajetória evolutiva, a busca da dignidade humana constitui lhe o grande desafio, culminando no sentido existencial até alcançar a própria transcendência.


A semelhança de um diamante bruto no início sofre os vários processos de lapidação para alcançar a transparência que o transforma numa estrela reluzente.


Etapa a etapa, no processo de desenvolvimento, faculta-se o surgimento do ego, da sombra, das expressões da anima e do animus, que se encontram adormecidos, para os sintetizar em grandiosa harmonia, como no princípio, quando unidade...


Ocorre, porém, que a unidade inicial era grotesca, sem discernimento, sendo um conjunto que se deveria expressar qual semente que necessita dos fatores mesológicos para desabrochar a vida em latência.


À medida que houve a sua fissão, que facultou o surgimento do ego, logo se apresentaram os demais arquétipos com a predominância da sombra responsável pela situação de ignorância que permaneceria ao longo do fenômeno do seu desenvolvimento.


Adquirida a consciência, mesmo quando no período da fase embrionária no reino animal, em forma de uma inteligência primária, o discernimento entre o certo (o que produz prazer e gera bem-estar emocional) e o errado (o que proporciona sofrimento e desgaste), o bem e o mal, dando lugar às necessidades de elevação, de mudança de patamares que deveriam ser vivenciados, até ser alcançada a harmonia entre os opostos: o yang e o yin.


Essa identificação entre as duas partes diferentes em unificação de identidade representa a bênção da sombra no Self, que, após colher os resultados positivos desse conhecimento, dilui-a, absorvendo-a em tranquilo processo de assimilação dos seus conteúdos, transformando aqueles que lhe constituíam obstáculo em valiosos impulsos para mais amplas conquistas.


Havendo sido descoberta a ética moral, nesse ampliar de percepções éticas, a necessidade de conduta digna logo se apresentou ao Self, que passou a vivenciá-la, superando a pouco e pouco as síndromes perturbadoras dos mecanismos inferiores que foram ficando na história do passado.


Tal dignidade, no entanto, supera algumas convenções sociais vigentes, nas quais há predomínio da sombra, em razão dos interesses mesquinhos que invariavelmente representam o comportamento das pessoas.


Nessa conduta, o egoísmo prevalece, em razão dos conflitos que os assinalam, especialmente os medos disfarçados, as desconfianças inquietantes, as inseguranças e as culpas não absorvidas, as invejas perniciosas, constituindo um pano de fundo para os esconder, vivendose as manifestações da persona em detrimento do Si-mesmo...


Ditas convenções também respondem por alguns transtornos nas constituições emocionais débeis, que lamentam a falta de possibilidade de participação nos aglomerados exitosos, cheios de ruídos e de embriaguez dos sentidos, que os marginalizam e os isolam nos guetos onde se homiziam infelizes...


A dignidade humana é o degrau moralizado e emocional tranquilo que o Self alcança, após a superação da sombra, haurindo os seus elementos na psicologia de Jesus, que reverteu os padrões éticos dominantes no seu tempo, elaborando novas propostas de integração no pensamento cósmico.


Até ele enunciar os postulados da auto edificação moral, o vencedor sempre era aquele ser agressivo que anatematizava o outro que se lhe submetia pela força, pelas manobras cavilosas, que permanecia derrotado e submetido à humilhação, ao desdouro social.


Com ele, o verdadeiro vencedor é aquele que se auto vence, superando as paixões primárias e conflitivas do ser fisiológico, dos primórdios do ser psicológico, todo dúvidas e angústias, para se apresentar em equilíbrio, mesmo quando as circunstâncias não se apresentam como as melhores.


Com ele, a vitória máxima lograda por um ser humano é a conquista da faculdade de amar e de entrega aos ideais de enobrecimento que o promovem a uma situação psicológica mais feliz e resulta na constituição de um grupo social sem sombra e sem desarmonia.


Ele demonstrou que a finalidade existencial que deve atrair o ser humano está exarada no sentido da auto iluminação, da superação dos próprios limites, num continuum incessante que conduz à paz.


A dignidade, portanto, é esse valor conseguido pelo esforço pessoal que destaca o indivíduo do seu grupo pelos valores intrínsecos de que se investe, tornando-se líder e possuidor da honra e da posição especial que foram conseguidas através dos tempos.


Isso, porém, não o torna jactancioso, que seria estar escravizado à sombra, nem tampouco o faz diferente na maneira como convive com as demais pessoas.


É simples, porque íntegro, manso, mas não conivente com os comportamentos heterodoxos, pacífico, no entanto não leniente com o ultraje ou o crime, humilde, sem a preocupação do uso de andrajos e descuidos de higiene para com o corpo, que reconhece ser o sublime instrumento para a sua evolução.


Quem se poderia apresentar com a dignidade de Jesus, ultrajado, mas não ultrajante, vencido, mas não submetido, crucificado e com os braços abertos simbolizando um infinito afago dirigido a todas as criaturas?!...


(...) E quando tudo indicava que se encontrava destruído, ei-lo ressurgindo da sepultura em momentosa manhã de imortalidade.


O Self que se exorna de dignidade exterioriza todo o sentido profundo da lei da gratidão e da sua psicologia que exalta a vida, que a fomenta e a mantém em todas as fases e circunstâncias em que se apresente.


Nos conceitos sociais vigentes, a dignidade tem sido confundida com o poder político, econômico, religioso, comunitário, legislativo, governamental...


Razão pela qual se confunde destaque exterior com enriquecimento íntimo de valores transcendentais.


E também motivo pelo qual esses que logram os lugares de relevo na sociedade tornam-se verdadeiros equívocos para as massas que deles esperam outros comportamentos além dos que são apresentados nos conciliábulos de corrupção, de desmandos, de acobertamentos dos crimes praticados pelos seus comparsas.


Pode-se, sem dúvida, encontrar dignidade em alguns indivíduos que alcançaram esse destaque, não sendo, porém, a posição que a define ou a apresenta, e especialmente naqueles que permanecem no desconhecimento das massas, os anônimos e nobres construtores da Humanidade melhor.


Mantendo a herança do passado como advertência inscrita no inconsciente profundo, o Self sempre cresce, graças à faculdade de compreensão do que constitui valor real em relação àqueles que são apenas aparentes.


Qualquer situação que se vincule a erros do passado dispara o gatilho da lembrança inconsciente e logo se recompõe, tomando comportamentos diversos mediante os quais não mais se permite a instalação da sombra já superada.


Explicite-se, pois, a necessidade da construção da dignidade humana em todos os passos da existência física, e a gratidão envolvendo cada sentimento que se exterioriza do ser, tornando-se doce e suave encantamento enriquecedor.


HERANÇAS PERTURBADORAS

A indiferença moral por tudo quanto se recebe da vida, dos missionários do passado que contribuíram para os valiosos tesouros que hoje são utilizados em forma de longevidade, conforto, saúde, ciência e tecnologia, repouso e convivências agradáveis, responde pela ingratidão.


O ser ingrato é responsável por dissabores e desencantos que afetam o núcleo familiar e o reduto social onde se encontra em ação.


Se a claridade é bênção que facilita as realizações, a treva é geradora de dificuldades para as mesmas atividades.


Assim é o ingrato, que respira prepotência e soberba, na sua tormentosa condição de explorador do esforço alheio.


Um motorista de táxi percebeu que, ao deixar um cliente no aeroporto, este esqueceu-se de carregar a pasta que ficou no banco traseiro.


Preocupado, o modesto servidor deteve-se no retorno à cidade, parou o carro, examinou a pasta e encontrou-a abarrotada de documentos e de valores amoedados.


Receando o desastre para o desconhecido, fez a volta, acelerado, estacionou o veículo, correu ao terminal, e recordandose vagamente da companhia que o cavalheiro indicara, à porta da qual deveria estacionar, correu na sua direção.


Com rara felicidade, encontrou o proprietário do valioso objeto que acabara de fazer o chekin e parecia procurar a pasta entre as duas sacolas de compras que carregava nas mãos.


Sorridente, acercou-se-lhe e entregou-lhe a maleta com todos os seus bens.


E certo que não esperava nenhuma retribuição.


Estava feliz pela oportunidade de fazer o bem.


No entanto, o passageiro, agressivo e insensível, olhou-o com certo espanto, como se houvesse suspeitado que fora ele quem retivera o seu volume, e não lhe disse uma palavra sequer, saindo com velocidade na direção da sala de embarque...


O motorista experimentou um frio percorrer-lhe a espinha e uma estranha sensação de angústia.


Meneou a cabeça, aturdiu-se, e tomou o carro em direção à cidade.


No mesmo momento em que dava a partida, outro passageiro sinalizou-lhe que necessitava do veículo, ele se deteve, e o estranho adentrou-se.


Pediu o endereço e partiu.


Estava atordoado e, de quando em quando, como se estivesse num monólogo pesado, meneava a cabeça.


O passageiro perguntou-lhe o que se estava passando.


Necessitado de uma catarse, ele narrou a ocorrência, acrescentando:

— Nunca mais eu devolverei qualquer coisa que fique no meu carro por esquecimento de quem quer que seja.


E porque sou honesto, não ficarei para mim, mas preferirei atirar no lixo a voltar para entregar.


E arrematou:

— Eu não desejava nada, nem sequer o reembolso da despesa que me custou para lhe fazer a devolução.


Tudo seria para ele somente prejuízo, porque ele nunca saberia onde procurar o seu volume, desde que nem sequer anotou o número da placa do meu carro...


Fez uma pausa e concluiu:

— O pior foi o seu olhar severo de dignidade ferida, como a dizer que eu fora o responsável pelo seu esquecimento, ou que lhe furtara a maleta...


A gratidão é combustível para a claridade da vida, assim como a cera para o pavio da vela manter-se aceso.


A ingratidão é bafio pestilento que contamina os outros com os seus miasmas e pode torná-los semelhantes.


Por que alguém se atribui tanto mérito que nem sequer lhe ocorre algumas palavras de reconhecimento pelo que recebe? Onde está a sua superioridade que exige sejam os outros que se disponham sempre a servi-lo?


A ingratidão é síndrome de atraso moral e de perturbação emocional que infelizmente sempre grassou na sociedade de todos os tempos.


Herança perturbadora, que procede dos atavismos iniciais do processo evolutivo, mantém o indivíduo no estágio de predador, e está demonstrado que o ser humano é o maior dentre todos os outros, causando sempre prejuízos à natureza, à comunidade, à família e a si próprio...


Esse patrimônio infeliz faz parte do conjunto de outros vícios morais e espirituais que fixam as suas vítimas no atraso social.


Sombra perversa, prejudica o discernimento do Self, demonstrando o estágio ancestral em que o indivíduo se detém.


Ei-lo em pessoas que são muito simpáticas em relação aos estranhos, exclusivamente com o fim de os conquistar, enquanto são grosseiras com aqueles com os quais convivem, que as ajudam em silêncio e dignidade, e que os detestam, porque lhes reconhecem a superioridade.


A ingratidão é descendente da inveja mórbida que não consegue perdoar quem se lhe apresenta com recursos superiores aos que porta.


E rude de propósito, porque não podendo igualar-se, gera perturbação e desconfiança, a fim de atrair para baixo quem se lhe encontra em situação melhor.


Egotista, o ingrato somente sorri quando pretende lucro e unicamente demonstra gentileza quando espera projeção do ego.


Sob o ponto de vista psicológico, a ingratidão é síndrome de insegurança e de graves conflitos íntimos que aprisionam o ser atormentado.


A gratidão deve ser treinada, a fim de poder ser vivenciada.


Como as heranças perturbadoras predominam nos comportamentos humanos, pela duração do período em que se estabeleceram, é necessário que novos hábitos sejam fixados, substituindo aqueles negativos, até poderem transformar-se em condutas naturais.


A convivência social torna-se, não poucas vezes, muito difícil, exatamente por causa dessas heranças perversas do ego, que recalcitra em abandoná-las, comprazendo-se na censura, quando podia educar, na acusação, quando seria melhor socorrer, na maledicência, quando se torna perfeitamente viável a referência enobrecida, desculpando os acidentes morais do próximo.


O ser humano está em constante evolução como tudo no planeta, melhor dizendo, no Universo.


Não existe uma lei de estancamento, pois que esta conspiraria com o fatalismo da evolução e do processo ininterruptos.


Tudo evolui, passando por inúmeras etapas do programa de crescimento.


Sob o ponto de vista moral, esse mecanismo proporciona sempre conquistas novas, enriquecimento interior se o indivíduo encontra-se lúcido para o registro de cada etapa, para a alegria e gratidão pelos novos passos que mais o aproximam da meta proposta, que almeja alcançar.


Transformar, portanto, essas heranças doentias em experiências renovadoras é uma das metas a que se deve dedicar todo aquele que aspira ao bem, ao belo, ao amor, à vida...


Dignidade e gratidão

Na pirâmide demonstrativa da autor realização apresentada por Abraham Maslow, o eminente psicólogo tem o cuidado de estabelecer uma hierarquia das necessidades humanas, iniciando-as por aquelas de natureza fisiológica, portanto de preservação da vida (alimento, água, oxigênio).


O ser humano, segundo ele, lutará sempre para atender essas necessidades que são fundamentais, num processo de seleção em níveis diferenciados até alcançar o das experiências limites, que passa a ser o clímax do processo de amadurecimento psicológico saudável, portanto ideal.


Nesse grandioso afã, todas as experiências permitem conquistas novas, libertando-se de umas para outras necessidades que abandonam o plano físico para se transformarem em anseios emocionais e idealísticos superiores.


O Dr. Frankl, por sua vez, adotou a proposta do significado existencial como de maior relevância, considerando que, atingido um patamar de autor realização em determinada área, o indivíduo pode permanecer incompleto noutra; quando, no entanto, se vincula a um sentido psicológico, mais fácil se lhe torna o crescimento interior rumando na conquista da individuação.


Asseverava Epicuro que as pessoas felizes lembram o passado com gratidão, alegram-se com o presente e encaram o futuro sem medo.


Nessa atitude epicurista, o ser humano mantém a sua meta existencial, agradecendo tudo quanto lhe aconteceu no pretérito e tornou-se-lhe base para as alegrias da atualidade, dispondo de coragem para os futuros enfrentamentos, certo da conquista da beleza, da ética, da harmonia.


Preparando-se inicialmente para conseguir a vitória sobre as dores físicas, logo percorre o caminho da coragem ante os insucessos emocionais, morais e as demais vicissitudes, numa atitude hedonista que lhe faculta alegrias contínuas e antevisão do porvir abençoado pela superação das ocorrências que infelicitam.


Uma atitude de tal monta reveste-se, sem dúvida, de dignidade, desse valor moral que enriquece aqueles que permanecem fiéis aos postulados do dever e da honra.


Pode-se acrescentar que a dignidade é o resultado das aquisições éticas decorrentes dos comportamentos que se fixam na justiça, na honradez e na honestidade.


Essa conduta digna é sempre a mesma, vigorosa e forte, que suporta a zombaria dos pigmeus morais, não se submetendo ao desconhecimento proposital imposto pelos servos da ignorância e áulicos das situações deploráveis.


Grande número de desfrutadores das oportunidades mundanas, sem nenhuma responsabilidade de fomentar o progresso, sorrindo sempre e parecendo felizes nos carros alegóricos das fantasias, terminam vitimados pela síndrome da ansiedade esquiva, que os atira aos calabouços de conflitos muito graves, especialmente porque tentam disfarçar os medos e as angústias que lhes sitiam o Self, sem o caráter moral para o autoenfrentamento, do que resultaria o equilíbrio emocional.


Pascal afirmava com sabedoria que a nossa dignidade consiste no pensamento.


Procuremos, pois, pensar bem. Nisto reside o princípio da moral.


Evidente é, pois, que todas as construções têm início no pensamento, na elaboração das ideias, na área psicológica.


Quando têm por finalidade o desenvolvimento dos tesouros morais, o pensamento enfloresce-se de corretas elaborações, daquelas que promovem o bem, abrindo espaço para a conduta moral.


Mediante esse comportamento que é psicoterapêutico preventivo em relação a muitos transtornos que são evitados, o ser amadurece emocionalmente, dispondo-se a enfrentar quaisquer situações desafiadoras com coragem e ética, jamais se utilizando de expedientes reprováveis para lograr as metas que almeja.


Definindo os rumos da arte de pensar, logo se desenham as avenidas do bem proceder, contribuindo decisivamente para o bem geral.


Torna-se compreensível a necessidade do comportamento digno, elaborado mediante os pensamentos e as ações saudáveis, incluindo o sentimento de gratidão que se encarrega de envolver tudo nas vibrações da afetividade.


Sem essa afetividade que discerne os significados existenciais e os bens decorrentes da experiência humana, desaparecia o sentido psicológico proposto para a jornada.


O homem e a mulher gratos são elementos decisivos na estrutura da sociedade, que mais se valoriza e engrandece, quando se compõe de seres que dignificam a própria condição de humanidade.


O ingrato, por sua vez, torna-se morbo no clã onde vive no conjunto social e em todos os grupos em que se movimenta.


A sua presunção e conflitos, somados com as tendências perturbadoras da inferioridade, estimulam a decomposição do organismo geral, no qual se encontra, na condição de planta parasita devastadora, que surge débil e culmina destruindo o cavalo no qual se hospeda...


A educação firmada em princípios de dignidade estatui a gratidão como norma de conduta saudável, sem a qual se torna difícil, senão impossível, a estruturação de um conjunto humano equilibrado.


Velho hábito vicioso, instala-se nos indivíduos desde a infância, que é o de receber dádivas e não as valorizar, sempre tendo em vista o preço, a grife, a aparência, como se fora credor de todos os sacrifícios dos outros, sem nenhuma consideração pelo que recebem, não demonstrando nenhuma gratidão.


Essa conduta egotista trabalha em favor da indiferença afetiva dos demais, que passam a desconsiderar esses ingratos, deles afastando-se e vacinando-se contra o hábito superior da gratidão...


Não são poucas as pessoas que, após a desconsideração dos insensatos rebeldes e cheios de si, desanimaram-se nos propósitos de bem servir e de ajudar, receando as recusas, os humores negativos, passando a cuidar dos próprios interesses.


Certamente, aquele que assim procede, dando validade à ingratidão dos enfermos espirituais, ainda não consolidou o sentimento nobre, estando em experiência, em exercício, aguardando resposta favorável ao seu gesto.


Mas é natural que assim aconteça, porquanto ninguém atinge o acume de um monte sem iniciar a caminhada pelas suas baixadas...


A medida que ocorre o amadurecimento psicológico e a dignidade atinge alto nível de emoção, nada diminui o comportamento honorável nem o sentimento gratulatório.


Conta-se que certo executivo tinha o hábito de adquirir o jornal do dia, após o expediente, em uma banca fronteira ao edifício em que trabalhava.


Sempre que solicitava ao responsável o periódico, este atirava-o com mau humor na sua direção, e ele retribuía o gesto infeliz com palavras de gratidão.


Certo dia, um homem que trabalhava junto e que se cansara de ver a cena desagradável, perguntou ao cavalheiro:

— Por que o senhor volta sempre a adquirir o jornal na banca desse estúpido, que sempre o trata mal?


Depois de reflexionar um pouco, o gentil homem respondeu:

— Por uma questão de princípio.


Eu me impus a tarefa de não permitir que a sua grosseria me fizesse fugir, ou me tornasse deseducado e igual a ele, já que sou muito grato à vida por tudo quanto me tem favorecido.


O mal não afeta o bem, que lhe é o antídoto.


Perseverar na conduta correta, mesmo quando ultrajado ou desconsiderado, transforma-se no desafio da saúde moral no comportamento social, a fim de o modificar, trabalhando em favor de uma nova mentalidade que se há de estabelecer entre todos no futuro.


A gratidão é combustível para a claridade da vida, assim como a cera para o pavio da vela manter-se aceso.




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