O Despertar do Espírito

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CAPÍTULO 6

ATIVIDADES LIBERTADORAS

A alegria é a mensagem mais imediata que caracteriza um ser saudável.


Quando se instala, todo o indivíduo se expressa num fluxo de energia que o domina, que se movimenta dos pés à cabeça e dela à planta dos pés.


Há um continuum de vitalidade que irriga todo o corpo, demonstrando que se está vivo, sem áreas mortas nem constrangimentos psicológicos inquietadores.


A infância é o exemplo natural da verdadeira alegria.


Porque ainda não tem consciência de culpa, toda ela esplende num sorriso, entrega-se à espontaneidade, exulta no contato com as coisas simples, com os pequenos animais, com os brinquedos, e até mesmo com ocorrências perigosas.


Dir-se-á que essa atitude é resultado da inocência. Sua nudez é natural, todas as suas expressões são destituídas de objetivo.


Pode-se compará-la ao estado de pureza das figuras mitológicas de Adão e Eva, no Paraíso, antes da sedução pela serpente, a fim de que provassem da árvore do Bem e do Mal, após o que se descobriram, e experimentando consciência de culpa esconderam-se...


Não poucas vezes, porém, esse encantamento juvenil desaparece sob a pressão de adultos severos e irritados que sempre agridem, esquecidos que o seu humor negativo irá prejudicar significativamente o desenvolvimento emocional da criança, atirando-lhe petardos mentais e verbais devastadores, quando não se utilizam covardemente da agressão física para exteriorizarem os conflitos que os devoram.


A alegria estruge diante das ocorrências simples e descomprometidas, tais uma pequena jornada que se realiza caminhando descalço, sentindo as folhas e a terra gentil sob os pés, experimentando o contato com a natureza pulsante de vida.


Noutras vezes, surge, quando se rompe a masmorra dos limites e se espraiam os olhos por sobre o mar, viajando sem medo pela imaginação; ou se apresenta quando tem início a Alva colorindo a Terra e vencendo a sombra, em mensagem de vitalidade, de despertar; ou se manifesta no momento em que se estão plantando sementes após o amanho do solo...


A alegria é a presença de Deus no coração do ser humano, cantando, sem palavras, melodias de perenidade, mesmo que de breves durações.


Diante de tais ocorrências naturais, enriquecedoras, o superego não se apresenta dominante, impondo o que se deve ante aquilo que se não deve vivenciar, como herdeiro que é de todas as imposições agressivas dos genitores ou castrações impostas pelo grupo social, religioso, étnico, que ficaram arquivadas no nível abaixo-próximo da consciência.


Nesse contributo da alegria o indivíduo é livre, desalgemado, retornando à pulcritude do período infantil, antes das imposições caprichosas dos esquemas de coerção.


Vivendo-se em sociedade formal, com suas regras criadas para agradarem ao ego narcisista, a alegria espontanea raramente se expressa, em razão dos constrangimentos ou das adulações que propõem conduta artificial, disfarce de sentimentos, nivelamento de aparências e comportamentos iguais.


Para que essa convivência social se expresse dentro dos padrões estabelecidos, surge a necessidade de educarse a criança a comportar-se conforme o conveniente, limitando-lhe a área dos movimentos, o campo de ação.


Nesse momento quando não se age com o necessário cuidado e respeito pelo ser em formação, rompe-se-lhe a integridade, estabelecendo-se disputas, lutas que não podem ser vencidas pelo educando, terminando por anular-lhe a identidade, tornando-o submisso em mecanismo de sobrevivência adequada, formal, sem o brilho da naturalidade que foi alterada.


O comportamento passa por grave modificação, expressando-se como automatismo social sem sentimento afetivo.


A imagem daquele que lhe rompeu o elo de ligação com o Si profundo passa a dominar-lhe o mundo emocional, apresentando-se perturbadora, detestável, que se refletirá nas demais pessoas, que serão aceitas, temidas, mas não amadas.


A alegria é o prêmio que se conquista através da autoidentificação.


Auto-identificação

O autodescobrimento, resultado da imersão no ser profundo, é meta prioritária para que seja conseguida a autoidentificação.


Trata-se de um grande esforço para vencer-se todo um contingente de imposições injustificáveis, que construíram no mundo íntimo as máscaras para a conivência no grupo social, bem como para a autossatisfação habitual, com o que se pode viver, porém de maneira incompleta.


Considerando-se todo o contingente de mitos que passaram a habitar o panteão da imaginação infantil, a sua influência torna-se mórbida, por facultar o excesso de fantasias, de ilusões, nas quais o ego se refugia, evitando o contato com a realidade que parece cruel.


Nesse contexto do desenvolvimento emocional, surgem as expressões da sexualidade que, não havendo sido antecipada por lúcidos esclarecimentos, conduz a comportamentos inconscientes de culpa, a viagens mentais impossíveis de serem realizadas, a graves tormentos íntimos, que tentam ocultar a ocorrência normal imposta pelos hormônios do processo de crescimento biológico.


Estacionando nessa fase o amadurecimento psicológico, o indivíduo permanece retido na infância mal vivida e, seja qual for a idade orgânica, não adquire um correspondente desenvolvimento emocional.


Todo aquele que deixa de conhecer a própria identidade sofre uma alteração significativa para pior, no seu processo de crescimento, que o torna desvitalizado interiormente, sem espírito lúcido, incapaz de decisões acertadas, sem contato com o corpo que passa a ignorar ou odiar, formulando programas de auto-anulação em torno das funções e impositivos naturais.


Em tais condutas, surgem muitos ditadores domésticos e de grupos, religiosos fanáticos e insensíveis, governantes perversos, que se vingam nos demais infligindo aquilo que os aflige, impondo leis arbitrárias, diretrizes impossíveis de serem aceitas com equilíbrio, auto-realizando-se no sofrimento que estabelecem para os outros, sádicamente vivenciando a sua alegria mórbida.


Essa perda de identidade atormentará o ser até quando se resolva por uma terapia conveniente, conquistando a coragem de trabalhar por adquirir a auto-identificação, a fim de saber o que deve ser feito para tornar-se alegre e feliz.


E sempre ideal que essa terapia tenha sido iniciada quanto antes, evitando-se fixações enfermiças e transtornos que fazem da existência um calvário silencioso.


Quando o eu se identifica com qualquer realização, ocorrência ou pessoa, torna-se-lhe submisso, sofrendo-lhe a influência.


A medida, no entanto, que se desidentifica, passa a dirigir e comandar em estado de liberdade emocional.


Por efeito, auto-identificar-se é desidentificar-se de tudo aquilo que foi assimilado por imposição, constrangimento, circunstância de conveniência, sem a real anuência do Si profundo.


A auto-identificação, embora a diversidade de conceituação, pode ser considerada como a conquista dos valores nobres e libertadores que se transformam na suprema aspiração do ser.


A dificuldade é estabelecer-se aquilo que, em verdade, pode ser considerado como aspiração mais elevada, tendo-se em vista que há uma variedade constante de aspirações que surgem à medida que o indivíduo cresce e se desenvolve, aspira e elabora o conceito de felicidade.


Considere-se aqueles que se auto-identificam apenas com o corpo, com a profissão, a vida emocional ou intelectual e teremos uma relativa conquista, porquanto, lograda essa meta, desaparece o valor da vitória.


Noutros casos, a auto-identificação pode ser considerada como a busca da consciência pura, que somente é conseguida após a experiência do eu tornado fator primordial e central da consciência.


Ainda se pode analisá-la do ponto de vista da harmonia com o Si, ou o Eu superior, ou o Espírito que se é, liberando-o das masmorras que o limitam, e passando por diferentes fases do processo de emancipação.


Alcançar essa essência do Ser, como fator espiritual e permanente da vida é o objetivo.


Esse encontro se opera quando se passa à auto-observação como centro de busca, examinando-se o comportamento interior, as ambições e experiências, para descobrirse que há um mundo íntimo vibrante, sensível, aguardando.


Através do olho mental penetrante consegue-se a introspeção saudável, direcionada para as ocorrências psicológicas, desse modo adquirindo-se um conhecimento consciente.


Iniciando-se nas sensações, graças à bem direcionada conquista do corpo, sua vitalidade e movimentos harmônicos, passa-se ao segundo estágio, que são as emoções, os sentimentos, e que se torna mais difícil, pelo hábito de experiências externas, objetivas.


Quando se viaja para o campo subjetivo, defronta-se dificuldade que somente é vencida pela perseverança, a fim de alcançar-se a área das atividades mentais, captando as diferenças entre o que se pensa e o que se é, a mente e o eu...


A técnica apresentada pela psicossíntese é de perfeita consonância com a realidade do Espírito, quando o indivíduo pode afirmar que tem um corpo, mas não é o corpo, que está no corpo, no entanto, a realidade paira acima dele.


Conseguir-se essa distinção entre o que se é e o que se tem, exige correção de linguagem, como por exemplo quando se diz costumeiramente: - Meu corpo, minha casa, meus bens, meu espírito...


O Despertar do Espirito Não é o Espírito uma posse do corpo, mas, esse que, àquele pertence. O correto será afirmar-se: - Eu Espírito, tenho um corpo, uma casa, bens, que afinal são transitórios e mudam de mãos, menos o Ser essencial, que permanece após todas as conjunturas e ocorrências.


Da mesma forma, passando-se à análise da vida emocional, ela é possuída, mas não possuidora, isto é: - Eu tenho uma vida emocional, mas não sou a vida emocional.


O mesmo ocorre com a inteligência, com o intelecto em geral.


Têm-se esses atributos, mas obviamente não são eles o ser.


A diferença se encontra entre o eu e as suas experiências, realizações e conquistas.


Desidentificar-se das sensações, necessidades de coisas, ambições, lembranças do passado e aspirações para o futuro, é viajar para a autoconsciência, distinguindo-se o que se deseja daquilo que realmente se é.


O ego tem desejos, porém, o eu não são os desejos.


Lentamente, vai-se conquistando o corpo, orientándose os processos das ocorrências emocionais, ficando-se no centro da pura autoconsciência.


Em terapia pela psicossíntese é muito importante a desidentificação, a fim de que o ser realize a sua higiene psicológica, evite impregnações externas e internas, contribuindo para que os indivíduos supercivilizados ou super-intelectualizados se encontrem com a realidade do que são, superando a contingência daquilo em que estão.


O estar pode ser afetado por muitos fatores internos e externos da experiência humana, como parkinsonismos, síndromes de pânico, de Alzheimer, degenerescências física e psíquica, ou choques outros traumáticos desestruturadores.


A terapia da desidentificação ou auto-identificação proporciona humildade, respeito pela vida, solidariedade, conduzindo o indivíduo para desenvolver papéis de pais, protetores, filhos, amigos, esposos, executivos, etc, demonstrando que esses são deveres a atender no conjunto social, mas não apenas isso, que são parciais, desde que se é o agente de todas as ocorrências, e não apenas a personagem transitória.


O que se necessita é conseguir uma verdadeira síntese de todas as experiências e papéis desempenhados pela persona, e não o surgimento de uma nova personalidade.


A auto-identificação, portanto, é conseguida, partindo-se das sensações para as emoções, para o intelecto, chegando-se ao centro da autoconsciência.


Educação e disciplina da vontade

A vontade é uma função diretamente vinculada ao Eu profundo, do qual decorrem as várias expressões do comportamento, que nem sempre o ego expressa com o equilíbrio que seria desejável.


Ainda pouco elucidada, tem permanecido em campo neutro de considerações, expressando-se mediante conceitos que se tornaram mecanismos de conduta, gerando, por efeito, mais graves consequências que benefícios.


O primeiro deles é a inibição, que se adota mediante a violência ante as suas manifestações, como se o indivíduo estivesse diante de um animal a ser domesticado pela punição e pelo cabresto, impedindo-a de expressar-se.


O segundo, é o impulso direcionado por meio da força, como se estivesse tratando de uma máquina emperrada, que deve ser acionada sem a contribuição do motor, sofrendo empurrões de braços e músculos vigorosos.


Num, como noutro caso, a vontade se encontra sob injunções perturbadoras, experimentando comportamentos agressivos que não contribuem para a sua fixação, antes impedem-na de expressar-se.


Esse fenômeno volitivo encontra-se latente em todos os indivíduos, embora alguns declarem que são destituídos da sua presença.


Ocorre que, nem sempre se procede à disciplina e educação do ato de querer conforme deve ser realizado.


Passando por várias fases, a vontade tem que ser orientada, especialmente quando se estabelecem metas a conquistar, que resultam do interesse em torno daquilo que se deseja conseguir.


Inicialmente, torna-se indispensável querer-se exercitar a vontade, ao invés de refugiar-se em mecanismos conflitivos-comodistas, por meio dos quais, justifica-se não se possuir vontade suficiente para serem alcançados os objetivos que se gostaria de atingir.


Sem tentativas repetidas o embrião existente da vontade não encontra campo para desenvolver-se.


Naqueles em quem o comportamento é cômodo, e se contentam com o que já possuem, mesmo que aparentando anelar por uma mudança de situação, é certo que a vontade permanecelhe soterrada nos escombros da preguiça mental.


Considere-se como elementos essenciais para o desenvolvimento do ato volitivo, alguns fatores essenciais, tais como o desejo real de querer, a persistência na execução do programa que seja estabelecido e o objetivo a alcançar.


Toda experiência educacional experimenta transição, em cujo curso, passados os primeiros tentames exitosos, os resultados parecem experimentar retrocesso, o que, naturalmente produz desânimo.


É natural que isso aconteça como efeito da carência de registros vivenciais nos refolhos do Eu profundo, não habituado à disciplina, irrefletido e mal condicionado.


Todo ser humano tem um conceito e uma filosofia existencial de natureza pessoal, assim como a respeito do mundo, que lhe constituem normas de comportamento, sem os quais o trânsito psicológico se opera de forma anômala, senão patológica. Assim sendo, o desejo de querer aprimorar-se, aprofundar realizações, atingir estados de harmonia, torna-se valioso para o exercício da vontade.


Tomese como exemplo o interesse para memorizar-se determinado conteúdo literário, profissional, artístico, etc. De início, é imperioso o desejo de adquirir o conhecimento, considerando a sua validade, o seu significado, o quanto pode ser útil, e naturalmente, face à importância que se lhe atribui, o desejo impõe-se vigoroso.


Essa avaliação é de relevante importância, porquanto significará a tenacidade que se deverá aplicar para consegui-lo.


Estabelecida a significação do que se deseja, o esforço de perseverar torna-se o inevitável próximo passo, porquanto, não serão nos primeiros tentames que se conseguirão os resultados almejados.


Provavelmente se repetirão acertos e erros, que em nada alteram o exercício que se fixará como fenômeno de automatização até repetir-se sem qualquer esforço.


O objetivo é de significado essencial - desde que seja alcançável, não se apresentando fora dos limites e da capacidade de conquista - porquanto a sua qualidade impulsionará o candidato ao encontro do êxito.


A existência humana é rica de objetivos e metas, que variam conforme o estágio em que cada qual se encontra ou através de vertentes que encaminham para interesses menos significativos, que também são desafiadores.


Ocorre que, no cotidiano, um interesse de aparência secundária torna-se essencial para a circunstância, desviando a atenção temporariamente, sem que isso prejudique a meta que se almeja atingir.


Esse aparente desvio pode tornar-se de grande valor, face ao êxito no empenho, que contribuirá com mais significativo esforço para a conquista do mediato em programação.


Essa deliberação em não ceder o passo para que seja conseguida a realização é de salutar efeito, tornando-se meio estimulante para novos tentames e contínuos esforços.


Como as metas de uma existência são muito variadas e variáveis, a seleção daquela que deve ser tida como prioritária é relevante, não podendo fugir da realidade do que é ou não realizável, em razão da transitoriedade e da relatividade de tudo quanto é terreno, nunca se podendo possuir de uma vez além do que é factível vivenciar-se, selecionando o que se torna mais significativo quanto oportuno.


Nesse passo, desenha-se o caráter da responsabilidade ante o que se almeja e como utilizar sua conquista após adquirida.


Tal responsabilidade não pode ser dissociada da faculdade de renunciar a outros valores, o que produz de imediato o medo pela liberdade da escolha, que afeta inevitavelmente o livre-arbítrio.


A pessoa tem que assumir a responsabilidade da sua aspiração, consciente de ser isso que deseja, afirmando-se capaz de enfrentar obstáculos e desafios até consegui-la.


Esse treinamento deverá ser repetido, introjetado, de forma que se torne fundamental na busca e edificação da vontade.


Pode iniciar-se em pequenos treinamentos ante as ocorrências do cotidiano, tais a paciência em conjuntura de qualquer natureza, enquanto espera por algo, seja uma refeição ou um atendimento por parte de outra pessoa, uma correspondência ou uma chamada telefônica, um lugar na fila de algum labor ou mesmo em um diálogo, quando outrem mais loquaz não lhe dá chance...


Esses pequenos testes de vivência da vontade, tornam-se básicos para novos cometimentos mais complexos na área das aspirações emocionais e morais.


Convém ter-se em mente que a finalidade daquilo que se busca não anula as ocorrências e interesses tidos como secundários, da mesma forma que esses não nos devem desviar dos objetivos essenciais que são direcionados ao fundamental.


A vontade ideal será aquela que reúne o dinamismo do querer e a energia positiva encaminhada para aquilo pelo que se anela, em perfeito equilíbrio, sem que uma se sobreponha à outra.


Essas forças exteriorizam-se através de impulsos que devem ser canalizados em favor da meta, resultando na conquista da vontade.


Por fim, será conveniente ter-se em mente que o tempo é fator valioso, nunca se deixando de levar avante o intento, por não se haver triunfado nos primeiros momentos.


Do primeiro impulso até a conclusão do exercício e da educação da vontade - e esse mecanismo estará sempre em desenvolvimento, enquanto o indivíduo cresça moral e intelectualmente - mais firme e natural se tornará, facultando realizações dantes jamais imaginadas.


Desse modo, quando alguém exclama: - Não posso; não tenho tão grande força de vontade quanto gostaria, está escusando-se de empenhar-se e trabalhar-se, em atitude de transferência de valores para os outros, que seriam mais bem dotados, enquanto que a ele teriam sido negados.


Esse labor, por fim, exige do candidato a autoconsciência das suas possibilidades e dos seus sentimentos em relação ao querer.


Descobrindo emoções perturbadoras e depressivas, que o levam à autodesvalorização, faz-se imprescindível uma verificação de conteúdos psicológicos, que lhe facultem autocrítica honesta e desejo de superarse, o que trará benefícios salutares para ele mesmo e para o grupo social no qual se encontra.


Há muitos recursos que podem ser utilizados para esse fim, que são as leituras edificantes, que fortalecem o ânimo; a oração, que eleva o padrão dos sentimentos e propicia vibrações harmônicas e de autoconfiança; a meditação, que harmoniza as emoções: o serviço fraternal direcionado em favor de outrem, que produz resultados estimulantes para a execução do programa no qual se está empenhado.


Esteja-se vigilante para que o trabalho de disciplina e educação da vontade não gere ansiedade, tensão, cansaço, porquanto esses seriam resultados negativos para o projeto que se almeja.


Somente através de experiências compensadoras é que se conseguem novos estímulos psicológicos para tentames cada vez mais audaciosos.


A vontade bem direcionada é fator essencial para uma vida emocionalmente saudável e enriquecedora, portanto anelada por todo indivíduo que pensa e luta para ser feliz.


Sublimação da função sexual

O sexo, no ser humano, em razão do seu atavismo de instinto básico da evolução, constitui-se um espinho eravado nas carnes da alma.


Persistente e responsável pela reprodução animal, desempenha papel fundamental no complexo mente-corpo, tornando-se responsável por incontáveis patologias psicofísicas e desintegração na área da personalidade.


Os estudos cuidadosos de Freud trouxeram ao conhecimento geral os conflitos e torpezas, os tormentos e desaires, as aspirações e construções do belo, do nobre e do bom, como também as tragédias do cotidiano que se encontram enraizadas na área da função sexual, por milênios considerada degradante, corruptora, posteriormente pecaminosa e imunda, recebendo em todo lugar tratamento cruel e merecendo punições selvagens, por ignorância da energia de que é portadora e do alto significado de que se reveste.


Mais tarde, outros estudiosos seriamente preocupados com o ser humano aprofundaram a sonda da observação na libido e ampliaram o campo de conceituações, facultando interpretações valiosas em favor da saúde mental e emocional das criaturas humanas.


As religiões que, no passado, se faziam responsáveis pela orientação filosófica e comportamental das massas e dos indivíduos, mediante austeridade injustificável, decorrente de pessoas sexualmente enfermas, tornaram-se responsáveis pelas castrações e submissões punitivas a que o sexo foi submetido, permitindo-se-lhe a consideração de elemento reprodutor, mas vedando-lhe ou tentando impedir-lhe as expressões de prazer e de compensação hormonal.


E inevitável ter-se em conta que, mesmo se considerando a necessidade da alimentação, que é imprescindível à existência física, o paladar deve propiciar prazer, sem que, com isso, se decomponha o sentido da nutrição orgâO Despertar do Espirito nica.


É do ser animal, como do vegetal, a adaptação aos fatores que lhe propiciem desenvolvimento, que é essencial à vida.


Constituído por sensações e emoções, o ser humano frui o prazer de forma diferente dos demais animais, que não têm discernimento racional e cujas vidas são também resultado de condicionamentos.


O prazer, portanto, está associado a toda e qualquer conduta humana, apresentando-se sob variada conceituação ou forma com que seja identificado.


Enquanto no passado a função sexual era propositadamente ignorada ou escondida, na atualidade já não se pode manter o mesmo comportamento ilusório, que oculta a hipocrisia no trato com as questões fundamentais da existência humana.


A denominada liberação sexual, demasiadamente difundida se, por um lado, fez um grande bem à sociedade, convidando-a à reflexão em torno da sua predominância em a natureza, que não pode ser negada, por outra forma, trouxe também tremendo desafio comportamental ainda não absorvido corretamente no relacionamento entre os indivíduos, gerando crises e perturbações igualmente graves, que têm infelicitado enormemente a maioria dos relacionamentos de toda natureza.


Da submissão escravagista do pretérito, passou-se com rapidez para a liberação irresponsável, que responde por novos tormentos que estiolam muitas vidas e produzem dilacerações profundas no ser.


As velhas conceituações teológicas e pretensiosamente moralistas aturdiram a humanidade, que se libertou do totalitarismo das imposições religiosas ortodoxas e saltou para o prazer desmedido com avidez inimaginável, desorganizando a estrutura emocional do ser, que não estava preparado para os cometimentos da libertinagem.


Esse esforço pela libertação sexual dos absurdos impostos pelas castrações morais e pelo fanatismo religioso, nos tempos modernos encontrou em Rousseau o seu primeiro pensador partidário, quando propôs a doutrina do retorno à Natureza, formulando edificantes postulados educacionais - embora ele próprio fosse um pai incapaz de cuidar dos filhos, que internou em um Orfanato - abriu perspectivas novas para a comunhão sexual, além da sua função meramente reprodutora.


Posteriormente, os seus seguidores e outros pugnaram pelo retorno ao romantismo e aos prazeres hedonistas vividos pelos gregos e romanos do passado ou pela efervescência renascentista, estimulados pelo teatro, mais recentemente também pelo rádio, a televisão e os tormentos de pós-guerras, que atiraram os seres humanos na busca exacerbada do gozo, quando constataram a falência das convicções religiosas e a falácia de muitas das suas teses de conveniência, sem valor real de profundidade.


Com os movimentos hippie, punk e tantos outros que invadiram a sociedade, tomando conta, particularmente, das mentes jovens, a revolução sexual esqueceu de que a função do prazer físico não pode ser dissociada da contribuição do amor, que nele sincroniza as emoções, que são os reflexos psicológicos do conúbio orgânico e a harmonia espiritual de ambos os parceiros.


Merece sejam sempre consideradas no capítulo das relações sexuais, as necessidades de caráter psicológico da criatura e não apenas a busca física para saciá-la biologicamente.


São exatamente os conflitos emocionais - medo, castração, culpa, autopunição -, geradores de insegurança, que exercem fundamental importância no relacionamento dos parceiros.


Além disso, a busca de alguém ideal, que possa completar espiritualmente o outro, evitando frustrações do sentimento, transcende o prazer físico puro e simples.


A identidade sincronizada, face ao entendimento e à compreensão afetuosa entre os indivíduos que se buscam, representa poderoso mecanismo que faculta a plenificação que resulta da comunhão sexual.


A satisfação biológica da função, sem o contributo emocional, além de ser profundamente frustrante, produz culpa e desinteresse futuro.


Tentando-se fugir de ambos os conflitos, busca-se insensatamente o álcool e a droga aditiva, que pareceriam estimular e encorajar a novos relacionamentos, tornandoos, no entanto, mais dolorosos e perturbadores.


A médio e longo prazo, ambos recursos terminam por prejudicar terrivelmente a função sexual, que também se expressa pela imaginação que, nessa circunstância, estará sob injunção angustiante.


Todos os artifícios disponíveis para o intercâmbio sexual compensador cedem lugar aos sentimentos de amor, de camaradagem, de alegria em compartir e repartir emoções, o que evita a extroversão de um sobre a inibição do outro.


O sexo, com a sua finalidade dignificante de facultar a procriação, seja de natureza física, seja artística, cultural, comportamental, também desempenha papel relevante na construção espiritual do ser humano.


As suas energias, que ainda permanecem pouco identificadas, podem e devem ser canalizadas igualmente para fins mais sutis e elevados, enriquecedores da vida, mediante a sublimação e a transmutação.


Não se trata da interrupção ou da anulação da faculdade de expressar a função sexual, mas de canalizá-la com segurança em direção mais fecunda e criativa na área dos sentimentos e da inteligência.


Freud reconheceu essa necessidade de sublimação do instinto sexual orientado para o bem-estar social, e acrescentamos, também espiritual da própria criatura assim como da Humanidade.


O ascetismo e o misticismo tentaram sem resultado saudável, com as exceções compreensíveis, esse empreendimento que, de alguma forma, em razão da metodologia castradora deixou marcas mais afligentes que positivas tanto no organismo individual quanto no social.


Essas energias sexuais somadas e bem canalizadas ofereceram incomparável contribuição à cultura da sociedade em todos os tempos, reconhece o eminente mestre vienense.


A sublimação ou transmutação das energias sexuais pode ser realizada mediante a introspeção, a fixação nos objetivos íntimos acalentados sem violência nem rebeldia pelos impulsos fisiológicos, orientando-os de forma saudável e substituindo-os pelas reflexões em torno do seu aproveitamento na construção dos ideais pelos quais se anela.


Todos os místicos buscaram esse élan com a Divindade, desde tempos imemoriais, denominando o êxtase como samadi, bem-aventurança, nirvana, plenitude...


Através dessa experiência profunda, há uma completa conquista psicológica de felicidade.


Certamente, essa sublimação impõe expressivo contingente de renúncia, de vontade de consegui-la e de perseverança na conquista do objetivo.


Para alguns, pode ser uma forma de sofrimento, porém, sem masoquismo, porquanto o objetivo não é sofrer, mas libertar-se de qualquer injunção que acarrete padecimento.


Nessa fusão, que é resultado da sublimação, a personalidade desaparece no Ser estrutural, no Self, que passa a conduzir o comportamento psicológico sem conflito, unindo as duas polaridades - masculina e feminina - através das quais se expressa o sexo, em uma unidade harmônica.


Essa integração das duas polaridades não impede que se possa manter um exercício saudável da função sexual e, ao mesmo tempo, a sua canalização mística, interior, sem atropelos ou tormentos, que levariam a liberar-se da sua exclusiva finalidade orgânica, ampliando-a, desse modo, de forma expressiva na sua capacidade criativa.


Pode, portanto, apresentar-se entre aqueles que superem a função sexual - não a exercendo - e aqueloutros que, embora vivenciando-a, também elegem a sublimação, experimentando momentos de alta identificação com a Divindade.


No aspecto do autodescobrimento, o indivíduo desenvolve a vida interior que requer as energias do sexo como sustentáculo vigoroso para os empreendimentos emocionais e espirituais a que se afervora.


Além desse aspecto e vivência interior da sublimação, existe outro método para ser percorrido, qual seja o da substituição do prazer sexual por outras expressões de gozo e de alegria, nas quais, os sentidos físicos se relaxam e se renovam, e se apresentam desde as coisas mais simples até as mais complexas e elevadas, mediante a contemplação da natureza na sua grandiosa simplicidade e grandeza até as mais altas manifestações da arte e da cultura...


Também pode-se incluir nesse desempenho o aumento do círculo da afetividade, no qual o intercâmbio emocional, estético e fraternal, derivado do amor, proporciona renovação de entusiasmo e de estímulos para a continuação da experiência evolutiva, emulando para a perfeita identificação com o seu próximo e o grupo social com o qual se encontra envolvido.


Noutro aspecto, o empenho em entregar-se às criações da cultura, da ciência, da arte, da religião, dos objetivos sociais e de solidariedade, consegue contribuir com eficiência para o êxito do programa da sublimação.


Essa necessidade de sublimar e transubstanciar as energias sexuais, pode igualmente ser considerada como terapia preventiva, considerando-se as ocorrências de enfermidades impeditivas do exercício da função sexual, o envelhecimento, o equilíbrio existencial, que inevitavelmente ocorrem no percurso da existência física, podendo então ser transferidas para expressões de outros níveis além do físico, proporcionando outros tipos de prazer, quais o emocional, o espiritual, o humanitário.


Quando o indivíduo se dedica à sublimação e transubstanciação das energias sexuais, o seu amor se amplia, irradiando-se sem pressão ou constrangimento sobre as demais pessoas, que o sentem experimentando agradável sensação de bem-estar e enriquecendo-se de júbilo ante o seu contato.


Com essa conquista, experimenta-se incomparável alegria de viver, tornando a existência um verdadeiro hino de louvor às Fontes Inexauríveis da Criação, de onde tudo e todos procedem.


Observa-se, nesse contexto, que os santos e missionários do amor em todos os campos do conhecimento, a fim de realizarem as tarefas que se impuseram ou às quais ainda se propõem, normalmente exaustivas e desgastantes, são tomados, invariavelmente, de grande compaixão pelas demais criaturas vegetais, animais e humanas.


Jesus, como exemplo máximo, sempre que atendia as multidões, socorria-as com infinita compaixão pelas suas necessidades, suas aflições, suas lutas...


e repletava-as de paz e alegria.


Quem mantivesse com Ele qualquer tipo de contato transformava-se, porque o Seu irradiante amor como luz não ofuscante penetrava-lhe os escaninhos mais secretos e sombrios, alterando-lhe as estruturas.


A energia sexual, pela sua constituição íntima, é criativa, não apenas das formas físicas, mas principalmente das expressões da beleza, da cultura e da arte.


À medida que é expandida, mais sublime se torna, quando direcionada pelo amor; mesmo que, na sua primeira fase, tenha conotação carnal, vai-se depurando e sublimando até adquirir um sentido de liberdade, de auto-realização, facultando ao ser amado a felicidade, mesmo que seja compartida com outra pessoa.


Nesse cometimento, portanto, de sublimação e transmutação das energias sexuais, o cuidado a ser mantido diz respeito à superação de qualquer sentimento de culpa ou de condenação aos impulsos orgânicos, a fim de que seja evitada a inibição, tornando-se uma repressão inconsciente, fator de graves perturbações nos propósitos estabelecidos.


O que se deseja, nesse grande desafio de plenificação, é a utilização correta das energias da alma, que vertem através do corpo e se encarregam de manter-lhe o equilíbrio.


Em outros casos de abuso das forças genésicas, pelo transbordar da função sexual, a própria natureza cobra o imposto do mal uso, perturbando-a, frustrando-lhe o prazer ou talando-a psicologicamente, o que conduz a transtornos psicopatológicos de lamentável curso.




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