Triunfo Pessoal

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CAPÍTULO 9

O Significado Existencial

Encontro Com O Self

A visão hedonista sobre a existência humana tem levado multidões às alucinações do prazer, numa interpretação totalmente equivocada sobre a realidade do ser. A descoberta do significado da vida é de relevante magnitude, porque dá sentido à luta e aos desafios que surgem frequentemente, convidando o indivíduo ao avanço e ao crescimento interior.


Esse sentido existencial é uma forma de religiosidade que deve possuir um alto significado motivador para que o indivíduo não desfaleça nos empreendimentos evolutivos.


Não raro acredita-se em significados meramente materiais como os objetivos de toda atividade humana. Por certo, a conquista de valores imediatos produz estímulos internos; concitando ao prosseguimento dos esforços e à sua manutenção otimista. No entanto, serão aqueles subjetivos, nem sempre identificados pela forma e característica do convencional, que despertam e induzem ao prosseguimento de todos os sacrifícios.


Há quem, de maneira pessimista, assinale que a vida humana é uma infrutuosa experiência, na qual a dor e as transformações perturbadoras desempenham papéis significativos. Outros creem que o tédio e o desfalecimento que tomam conta dos indivíduos são responsáveis pela falta de metas legítimas, porque o ser humano é somente "um animal que pensa." Nada obstante, a beleza, a arte, a cultura, a ciência, a solidariedade, os sentimentos humanitários, a fé religiosa demonstram que o ser humano é um incessante conquistador, que avança resoluto na busca do fim pelo qual anela.


Se não cultiva um ideal religioso, encontra-se desvinculado do Fulcro gerador de vida, e, desse modo, desfalece com mais facilidade, por encerrar na anóxia cerebral e, portanto, na morte orgânica, todos os objetivos existenciais, o que não deixa de ser um grande engano. Há, mesmo, nesse tópico, indivíduos que, em se vinculando aos ideais de engrandecimento humano, tornamnos sua religião, na qual se realizam e desenvolvem outros contingentes de forças físicas, morais e psíquicas que os auxiliam nos enfrentamentos,

" tornando-os heróis internos, em si mesmos; vencedores de alto significado.


O Espírito humano é o mais elevado clímax da evolução antropossociopsicológica na Terra. No entanto, não constitui a etapa final desse processo, porque novos investimentos lhe são oferecidos ou adquiridos, quando encerrando alguns ciclos de conquistas, abrem-se-lhe novas frentes para o próprio engrandecimento.


Encontrando-se no campo objetivo da vida, crê-se que tudo deve ser considerado através dos padrões físicos, fisiológicos; materiais.


O ser humano, todavia, é um feixe de emoções por deslindar e desenvolver, de forma que se facultem estados interiores de bemestar e de plenitude, que independem de coisas e de lugares, de circunstâncias e de posses.


Não se trata de uma questão filosófica ou teórica, mas de uma realidade existencial, na qual todo indivíduo experiência valores internos que lhe podem estimular ao autoconhecimento ou bloquear-lhe as percepções extrafísicas.


Inevitavelmente, vendo a vida como um amontoado de enigmas; certo aturdimento invade a pessoa, que parece desestruturada para os resolver, temendo ser vencida pela variedade dessas ocorrências inesperadas. Sem embargo, o largo passo da Cultura; da Ciência e da Tecnologia, desvendando sem parar o desconhecido, diminuindo as dores excruciantes que antes eliminavam milhões de seres, muito vem contribuindo para que outros, que jazem ocultos e desafiadores, sejam também ultrapassados, deles retirando-se os benefícios que são decorrentes da sua solução.


Os atavismos que remanescem no ser, mantendo-o na faixa primária das reações comportamentais, têm tornado a existência tumultuada e, às vezes, quase insuportável, com os estertores das guerras de toda natureza, que se multiplicam no ser e à sua volta. Igualmente, as propostas filosóficas, éticas, morais; religiosas e humanitárias vêm trabalhando para que se altere essa situação lamentável, provocada por alguns ignóbeis legisladores que, atormentados e insanos, fazem-se responsáveis pelos tenebrosos comportamentos que assaltam a sociedade; tornando-a, muitas vezes, mais perigosa do que as selvas...


O esforço para se encontrar o significado existencial deve ser contínuo, porquanto a sua falta, o seu não conhecimento podem produzir transtornos internos que dão surgimento a processos psiconeuróticos.


Pessoas inteligentes, lúcidas, estoicas, bem-situadas financeiramente, amadas, quando perdem o sentido da vida e tombam nesse vazio existencial, que a Religião sempre preenche oferecendo metas transpessoais, sentindo-se inúteis; desenvolvem transtornos neuróticos que necessitam ser superados, reencontrando a razão de ser da vida, a utilidade de viver, as imensas possibilidades que lhes estão ao alcance para se tornarem felizes e plenas.


São, portanto, valores subjetivos, como a oração, a meditação; a reflexão, a calma e o trabalho em favor da renovação pessoal; que conseguem preencher emocionalmente, reestruturando o indivíduo em relação à existência humana.


Essa viagem silenciosa é intemporal, não podendo ser realizada em determinado período de tempo, através de objetivos imediatos, mas por meio de experiências psíquicas e emocionais que transcendem a consciência atual, oferecendo-lhe. meta segura mais adiante.


A necessidade da Religião ressalta pelo significado profundo de que se reveste, oferecendo compensação e equilíbrio após a vilegiatura carnal. Então, o significado existencial incorpora-se ao consciente atual e estimula as funções do pensamento, que passarão a trabalhar pela qualidade de vida e não apenas pela conquista de coisas que poderiam pressupor a totalidade externa das aquisições.


Ambições Desmedidas

As imagens arquetípicas do prazer, que surgem e permanecem no imo de todo indivíduo, respondem pelo que se convencionou denominar a conquista dos valores objetivos.


A educação hedonista, desde cedo, trabalha o aprendiz para que ele desenvolva a capacidade de não se deixar enganar, para os objetivos que lhe ofereçam recursos para triunfar no concerto social. As suas aspirações são direcionadas pelos pais e educadores que estabelecem quais as atividades rendosas, os empreendimentos lucrativos, os mecanismos sociais para o poder e o destaque na comunidade, empurrando os educandos em formação para esse campeonato insensato. Não conhecendo o pretérito desses Espíritos, violentam-lhes os objetivos do renascimento corporal, impondo-lhes, pela cultura e comportamento programado, a conquista daquilo que pode preencher as necessidades temporais e acalmar os desejos esfogueados.


Concomitantemente, abrem-se-lhe, na atualidade, as portas da libido mediante a experiência sexual antes da maturidade psicológica, produzindo conflitos vários que se lhes insculpem nos refolhos do ser proporcionando transtornos e aflições.


Vivenciando apenas a expressão física, esses educadores inábeis desenvolvem, nos seus aprendizes, como necessidade preponderante a valorização da ambição para atingir as metas sociais a qualquer preço, mesmo quando isso desenvolva perturbação íntima e conflito de consciência. Crêem que podem anular o discernimento, orientando para um único roteiro, que é o poder, que os aturde, ou que os infelicita quando conquistado; encerrando, nessa fantasiosa proposta, o sentido e o significado existenciais.


Vinculados a essas ambições desmedidas, surgem os impositivos da moda, estabelecendo padrões de beleza física; mediante descabidos mecanismos, que variam de época para época, conforme a perda do sentido da vida e o tédio disso decorrente.


Violentando a constituição orgânica do homem e da mulher; que pretendem competir com os mitos ancestrais, na beleza, na aparência, na força, e atingirem o pódio da perfeição estabelecida, surgem os ditadores da elegância impondo alguns dos seus conflitos e arrastando multidões imaturas para os seguirem em revoada que termina, quase sempre, em quedas desastrosas nos transtornos neuróticos, tais a anorexia, a bulimia, o desprezo por si mesmo, quando não conseguem atingir as medidas estabelecidas, caindo em sórdidos poços de depressão. Outrossim, sob a desculpa de irrigar bem o organismo e estimular o coração, são apresentados programas exagerados de musculação e de ginástica, que terminam por levar jovens ambiciosos e desestruturados aos esportes radicais com gravíssimos prejuízos psicológicos e orgânicos.


O fenômeno biológico é irreversível, e todos aqueles que nascem, morrem, abandonando a carcaça que lhes atendeu os compromissos durante o prazo para o qual foi programada.


A alucinada ambição de manter a juventude mediante implantes, cirurgias, hormônios e métodos bizarros, somente levam à inutilidade da vida, que perde o seu significado quando não é conseguido o objetivo banal, que se transforma em algoz impiedoso. Mas não cessa aí a luta daqueles que se entregam exclusivamente ao fenômeno passageiro. A competição que se teme, em relação aos mais jovens, com melhores possibilidades de êxito, cada vez mais juvenis, sem qualquer sentido de discernimento e compreensão para as atribuladas situações a que são empurrados pela beleza física, pela perfeição de linhas; pela elegância, que logo cedem lugar às naturais enxúndias e celulites, que se apresentam em diferentes partes do corpo; exigindo-lhes mais malhação, mais alimentação específica, mais tormento íntimo, mais entrega ao sexo, ou às libações alcoólicas; ou às ingestões de drogas químicas, tornam-se-lhes mecanismos de fuga que os ajudam a suportar as tensões...


Os deuses de um dia logo tombam do trono, cedendo lugar a outros que os substituem, desaparecendo nas sombras dos tormentos que vencem alguns e os submetem a processos de desesperação incomparável.


Com a precipitação para que sejam amainadas as ambições desmedidas, a criança e o jovem hodiernos dispõem cada vez de menos tempo para a imaginação criativa, para esse período enriquecedor, para os folguedos saudáveis, interrompidos pelas imagens da violência e do sexo em desalinho, quando o Self nessa fase, desenvolve-se e amadurece, estabelecendo as diretrizes de segurança e equilíbrio para a própria existência.


Da mesma forma, os esportes que celebrizaram os gregos; especialmente os atenienses, tornando-se profissionalizados; facultam que gangues e máfias administrem a maioria deles; transformando os desportistas vítimas das suas maquinações e perversidades, viciando uns para os aniquilar, utilizando-se de outros para lucros exorbitantes, marginalizando os competidores que não se lhes submeteram, destruindo o idealismo, a competitividade saudável que sempre existiram, para que as rendas sejam cada vez mais altas e os grupos dominadores mais poderosos.


A semelhança dos antigos gladiadores, os indivíduos despersonalizam-se, vivendo sob os holofotes da ilusão, sem amor, mas sempre cercados de interesses servis, sem paz, no entanto obrigados a parecerem modelos de conduta após alçados ao estágio mitológico.


Entre aqueles que armazenam valores amoedados, ao atingirem o topo, não lhes bastam o volume incalculável de dinheiro que acumulam, mas é necessário tornar-se o homem mais rico do mundo, um dos dez mais, o melhor investidor da Bolsa...


Enquanto isso, o ser humano que é permanece em plano secundário, valendo, enquanto domina, e abandonado assim que começa a descida nas requisições para as movimentadas festas sociais, substituídos por outros não menos ambiciosos e neuróticos.


Sem dúvida, alguns indivíduos que não perderam o sentido da vida, embora mantendo as ambições desmedidas, olharam para trás ou para baixo, como se convencionou dizer, e reservam algumas das suas moedas para as obras humanitárias de benemerência, com as quais, isto sim, imortalizam-se no mundo.


Outros, que se destacam na mídia devoradora e perversa; recordando-se das suas dificuldades iniciais, quando lúcidos e ainda não intoxicados pelos vapores da alucinação momentânea do êxito, apresentam-se em espetáculos beneficentes para atraírem público, revertendo às dádivas da sua imagem para auxiliar obras meritórias e vidas em soçobro.


Uma identificação religiosa do indivíduo trabalhará em favor da mudança das ambições desmedidas para a conquista do necessário, daquilo que produz poder e prazer, mas que não se transforma em gozo neurotizante de funestas consequências.


O ser humano deve aprender a ser feliz conforme as circunstâncias, introjetando e vivendo a compreensão da sua transitoriedade física e da sua eternidade espiritual.


Na juventude, a visão, não poucas vezes, distorcida pela imaturidade psicológica, pelo deslumbramento e pujança dos hormônios, o sentido da vida apresenta-se sob um aspecto que não corresponde à realidade. Só mais tarde, quando a maturidade e a velhice dominam as estruturas emocionais e orgânicas, é que se adquire o conhecimento real do sentido existencial.


Será maravilhoso o dia, quando se possa difundir o significado da vida e estimular os começantes nas experiências humanas a descobrir, cada qual, conforme suas emoções, o que lhe será de melhor e de mais compensador proveito. Assim, serão evitadas muitas manifestações neuróticas, especialmente as que decorrem do vazio existencial ou da frustração pelas não conseguidas ambições desmedidas que não têm fim...


Aflições da posse e da não posse

Envolvida pela filosofia da posse, a criatura humana pensa que o significado existencial seja essa conquista.


Assim acreditando, pensadores variados, desde remotas épocas da civilização ocidental, estabeleceram critérios para a sobrevivência feliz do ser, no báratro das incertezas terrestres.


Propuseram que a finalidade da vida, o seu sentido existencial; é o gozo e somente através da posse de recursos amoedados e outros se torna possível atender a essa exigência, porque aquele que tem pode e quando pode adquire o que lhe apraz, o de que necessita, condição essencial para ser feliz.


No jogo dos interesses sociais, no entanto, pode-se perceber que nem sempre a posse é responsável pelo significado que conduz à felicidade, porque não poucos aquinhoados apegam-se de tal forma aos bens que pensam possuir, que terminam sendo por eles possuídos em tormentosos dramas emocionais.


Receiam os acontecimentos internacionais, que alteram a escala de valores das moedas e dos empreendimentos, dos juros e câmbios, o que lhes produz ansiedade incontrolada, pela ameaça de perderem altas somas nas variações da Bolsa, na qual investem expressivas somas, que os fazem ricos e inquietos.


Passam a esquecer a própria identidade, acreditando que não são capazes de gerar simpatia e amor, companheirismo, e afetividade, porque aqueles que se lhes acercam, talvez estejam interessados nas suas posses mais do que nos seus sentimentos.


Quando isso não ocorre, o inverso se manifesta, gerando a crença absurda de poderem comprar fidelidade, carinho, saúde e paz.


Certamente, em determinados momentos, as moedas auxiliam na aquisição de recursos outros que propiciam segurança, equilíbrio orgânico, acompanhamento. No entanto, iludem-se, na maioria das vezes, aqueles que se aferram às posses, porque os seus nomes célebres e os seus tesouros atraem aventureiros de todo porte que desejam ser vistos ao seu lado, que planejam conúbios sexuais para os explorarem depois, enquanto se entregam, esses usufrutuários, a outros enganadores que os dilapidam e os abandonam após o uso...


São tais paradoxos humanos que produzem as vidas vazias, as vidas ressequidas, a falta de sentido existencial e de significado para lutar-se e crescer-se interiormente, descobrindo-se a real felicidade de viver.


Se, de um lado, existem os escravos do que têm, enxameiam no mundo aqueloutros estranhos dependentes da não posse, cujas vidas somente adquiririam qualquer significação se possuíssem...


Quanto mais adquirem, mais esperam reunir, transferindo para o futuro as suas aspirações e vivendo do que falta, em tormentosa conjuntura neurótica.


A verdadeira libertação da posse enseja também a da não posse. O que não se tem, bem examinado, não faz falta, porque é possível viver com aquilo que está ao alcance, desde que se coloque a mente e o sentimento no padrão em que se encontra.


Quem tem dinheiro e poder, às vezes sofre carência de saúde e de paz, ou de amor e de ternura, ou de liberdade para fazer o que lhe interessa e não somente o que as circunstâncias lhe exigem.


Igualmente, quem não o tem, pode encontrar-se em alegria e confiança de melhores dias, ou em clima de resignação; experienciando a escassez que o auxiliará a administrar a abundância quando ou se chegar a alcançá-los.


Ultrapassada a questão da posse e da não posse, ocorreu a alguns filósofos que a existência é sempre assinalada pela dor, e em face dessa constatação, apresentaram a proposta estoica, que via o mundo apenas do ponto de vista material. O significado da vida deveria ser a luta travada para superar o sofrimento, vivendo de acordo com a Natureza e resignando-se aos impositivos do destino, à justiça, porque o mundo, em consequência, seria justo; em razão de ser racional. Através do eudemonismo, na visão estoica, a finalidade existencial consiste em exercitar a própria virtude, aprimorando-se sempre para alcançar a felicidade.


Embora a proposta eudemonista, os estoicos também se empenharam muito em favor de mudanças do conjunto, através de severas críticas sociais e políticas.


Iniciado por Zenão de Cítio e desdobrado o estoicismo em diferentes fases do desenvolvimento da cultura e do tempo, foi adotado por notáveis pensadores do pretérito remoto e próximo; que o levaram a Roma e o espalharam por toda a Europa, dando lugar, no período novo, quando adotado pelos romanos, a especulações de caráter religioso e moral, havendo-se destacado nessas fileiras, dentre outros, Sêneca, Marco Aurélio, Epícteto; que lhe ofereceram considerável contribuição.


Assim mesmo, a atitude estoica não deve ser encarada como a meta do significado existencial, porque, não raro, ao aceitarem-se as injunções do mundo material surgem situações morais e emocionais que não podem ser controladas, e que induzem ao desespero e ao desequilíbrio, tanto quanto o inverso é verdadeiro.


A busca do significado prosseguiu e encontrou no idealismo a primazia do mundo transcendente ou das ideias sobre o material; orgânico e único. O conceito é vasto e situa na consciência todas as coisas e o próprio mundo, convidando o ser à percepção dessa realidade. Iniciado na Escola de Eleia, na Grécia, vicejou largamente através dos tempos, tornando Descartes o pai do idealismo moderno, que propunha a busca da verdade legítima; que não pode ser encontrada nas coisas, seja como for que se apresentem. Dividindo-se, posteriormente, em duas correntes: o empírico e o absoluto, foi enriquecido por filósofos extraordinários, que tentaram demonstrar a necessidade da conquista interna relevante. Hegel, por exemplo, propôs que a verdade precede e gera o ser.


Nessa proposta, o pensamento de Platão ressurge, quando demonstra que o ser é o real, sobrevivente e precedente ao não ser, elucidando que o Espírito vem do mundo das ideias, ao qual retorna, assim estabelecendo conduta ético-moral expressiva e dedicação aos nobres objetivos existenciais.


A busca psicológica do significado existencial deve revestir-se; portanto, de uma visão idealista do mundo, sem os excessos que desprezam os valores materiais, mas também sem o apego a esses, pensando-se em assegurar o futuro para onde se marcha.


A saúde emocional e orgânica resulta, nessa tese, dos fatores que diluem a ansiedade e alteram as heranças do passado; oferecendo novos arquétipos que podem ser elaborados conforme as necessidades que surjam e as aspirações que o inconsciente pessoal libere, já que nele encontram-se armazenadas as propostas do progresso e da felicidade humana.


Consciente das naturais limitações impostas pelo não ser, que é o corpo, sempre em constantes alterações, o indivíduo dá-se conta que é necessário superar a clausura carnal e alcançar o Self, concedendo-lhe primazia no comportamento, de forma que os conteúdos psíquicos identifiquem-se com o ego, harmonizando aspirações e anseios que devem marchar juntos.


Alcançar o ser consciente, descobrindo os objetivos essenciais da existência, torna-se uma psicoterapia preventiva, trabalhada pelo autoconhecimento, ou de natureza curadora, quando estejam em processo de instalação os desafios e conflitos que resultam da busca equivocada da posse ou da não posse, até então tidas como objetivo essencial do indivíduo.


Encontro Com O Self

O notável psiquiatra Carl G. Jung definiu o Self como: "a totalidade da psique consciente e inconsciente", acrescentando que: "essa totalidade transcende a nossa visão porque, na medida em que o inconsciente existe, não é definível; sua existência é um mero postulado e não se pode dizer absolutamente nada a respeito de seus possíveis conteúdos?


Nada obstante a sua muito bem-elaborada conceituação, se o consideramos como o Espírito imortal que precede à concepção e sobrevive à dissolução carnal, teremos, nos depósitos profundos do seu envoltório semimaterial, que é o períspirito, o mero postulado que é o inconsciente pessoal, no qual estão arquivadas as experiências ancestrais resultantes de todas as reencarnações ao longo do processo evolutivo a que se encontra submetido. Esse arquétipo, imagem original ou imago Dei que vige no ser humano e concede-lhe a abrangência da consciência e da inconsciência; respondendo pela sua totalidade, procede do Arquétipo Primordial, Consciência Cósmica, Deus ou Causalidade Absoluta.


Toda atividade consciente ou não do ser humano deve dirigir-se para a perfeita identificação do Si-mesmo, integrando os conteúdos psíquicos remanescentes das memórias pretéritas - extratos das reencarnações ínsitos no inconsciente pessoal —

com o ego, de maneira que a sua seja a busca desse Arquétipo Primordial, de modo a conseguir a harmonização de natureza cósmica, que deverá ser a fatalidade do processo evolutivo.


Nessa jornada de integração dos conteúdos psíquicos com a realidade do Eu, os valores éticos se destacam propondo o equilíbrio do ser, que se liberta das fixações perturbadoras que dão curso aos distúrbios neuróticos, assim como aos conflitos que procedem dos erros cometidos, e que se impõem como necessidades reparadoras em forma de transtornos de diferentes graus.


A autoconsciência se lhe afirma à medida que descobre o objetivo essencial da existência humana, que é a autoidentificação, percebendo todos os valores que se lhe encontram em latência aguardando o desenvolvimento das possibilidades para torná-los vibrantes e participantes da vida.


Os remanescentes conflitivos cedem, então, lugar à saúde emocional, a pouco e pouco, substituídos pela segurança de conduta, pelas realizações enobrecedoras, pela superação dos tormentos da consciência bem como da culpa, permitindo-se crescer sem fronteiras ou limites, desbravando todo o potencial inconsciente que jaz ignorado, não obstante seja portador de tesouros incalculáveis, e não somente de angústias e perturbações que ressumam periodicamente em forma de desequilíbrios.


O ser humano é o protótipo máximo do processo evolutivo até o momento, cabendo-lhe descortinar horizontes grandiosos e avançar com decisão para conquistá-los.


Para quem se empenha nessa luta, não existem limites que não possam ser conseguidos, desde que as dificuldades e os desafios sejam considerados como estímulos e possibilidades por alcançar.


O hábito da reflexão e o exame dos conteúdos espirituais que procedem das diferentes épocas do pensamento tornam-se valiosos contributos para a conscientização do Self, que supera os automatismos anteriores a que se vê compelido para agir com acerto e consciência nos variados cometimentos que lhe dizem respeito.


Se, por acaso, algum distúrbio lhe tisna, por momentos, a claridade do discernimento, compreende que se trata de uma herança perturbadora que deve ser ultrapassada, diluindo-a; mediante a autoconsciência, que permite encontrar o melhor recurso a ser utilizado. Ante as investidas neuróticas, defluentes de fatores endógenos ou exógenos, que fazem parte do processo evolutivo, aceita-as e enfrenta-as com lucidez mental e compreensão emocional, permitindo--se novas experiências saudáveis que se sobrepõem ao conflito, eliminando-o.


Ninguém atravessa a existência sem essas heranças perturbadoras, que se encontram na própria essência do ser.


Apesar disso, a consciência do Si ajuda-o a enfrentar os aparentes impedimentos, insculpindo novos valores que se desenvolverão lentamente, conquistando os espaços antes ocupados pelos temores injustificáveis ou culpas superáveis.


Fobias, ansiedades, amarguras, fixações torpes, encontram-se no inconsciente pessoal, resultantes das experiências variadas que não foram eliminadas por-catarses indispensáveis à sua eliminação. Para tanto, os processos psicoterapêuticos têm por meta, além de os sanar, integrar o ser nos valores profundos do Self, na sua consciência divina, onde pulsam as vibrações cósmicas do amor, encarregadas da sustentação da vida e de todos os seus atributos.


Quanto maior for a conscientização do Self, mais fáceis se lhe tornam os avanços no desdobramento dos inimagináveis tesouros de conhecimentos, belezas e harmonias, que estão adormecidos nos seus refolhos mais delicados e profundos.


A adoção de um comportamento rico de religiosidade, sem temor nem ansiedade, sem transferência da realidade objetiva para as fugas subjetivas, superados os mecanismos conflitivos que induzem à busca da fé religiosa somente para fugir dos desafios mundanos, constitui uma metodologia preciosa e saudável para o mister de integração plena e tranquila nos superiores objetivos existenciais.


Na condição de Psicoterapeuta por excelência, Jesus; analisando os conflitos que atormentam o ser humano, exarou com sabedoria, conforme as anotações de Mateus, no capítulo cinco do seu Evangelho, no versículo vinte e cinco: "Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao guarda, e sejas lançado na prisão."

Inevitavelmente percebe-se que o adversário é interno, são as paixões dissolventes que aturdem o ser, e que, em desalinho; encarceram a consciência nos conflitos, gerando os tormentos a que se entregam todos aqueles que se deixam vencer pela culpa; transformada em fobia, ou em angústia, ou em ansiedade, ou em insegurança, ou em transtorno neurótico de outro porte qualquer.


Logo depois, no versículo vinte e seis do mesmo capítulo, Ele aduziu: "Em verdade te digo que de maneira nenhuma sairás dali enquanto não pagares o último ceitil."

A oportuna referência tem um caráter terapêutico, lecionando que se faz necessária para a paz íntima, a reconciliação com o adversário — os referidos hábitos mórbidos, perturbadores; transformando-os em agentes de progresso e de renovação; mediante os quais se instalam o equilíbrio, o bem-estar, a saúde; o Reino dos Céus na Terra transitória.


Essa salutar identificação dos valores do Self, a perfeita integração nele, constituem uma das bem-aventuranças, aquela que faculta ao homem a felicidade terrena, prelúdio da vida espiritual futura a que está destinado.




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Mateus 5:25

Concilia-te depressa com o teu adversário, enquanto estás no caminho com ele, para que não aconteça que o adversário te entregue ao juiz, e o juiz te entregue ao oficial, e te encerrem na prisão.

mt 5:25
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