Triunfo Pessoal

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CAPÍTULO 10

Reintegração Na Religiosidade

O ser humano é um animal essencialmente religioso em razão da sua procedência. Mesmo nos hábitos mais modestos, assim como nos convencionais, encontram-se os atavismos da religiosidade que lhe é inata.


Quando alguém diz: bom dia!, ou durma bem! Ou seja, feliz!


etc, imagens arquetípicas predominantes em a sua natureza interna exteriorizam a sua procedência espiritual, o seu sentido religioso existencial, mediante uma formulação rica de desejos saudáveis.


Igualmente, quando pragueja ou recalcitra, amaldiçoando ou blasfemando, repete imagens do mesmo tipo, no sentido oposto; que se lhe encontram no inconsciente pessoal, remanescentes da vigência religiosa que lhe é ancestral e predominante.


Toda a história cultural do ser humano está fundamentada nos mitos, nas crenças, nas heranças pretéritas do processo evolutivo.


Foram essas conquistas, logradas ao longo dos milênios, que facultaram à Cultura e à Civilização a elaboração de uma segura escala de valores morais e espirituais que contribuem para o equilíbrio do ser através das experiências que lhe são lícitas vivenciar ao longo da existência corporal.


Sem o conhecimento desses valores - liberdade, felicidade; amor ao próximo, respeito, responsabilidade, direito à vida, à educação, ao labor, à recreação, para serem citados apenas alguns - o sentido existencial desapareceria, em face da ausência de motivações para a luta pelo trabalho, do esforço para a preservação da saúde, do empenho para a busca da felicidade, do devotamento pela constituição da família, do grupo social...


Esses valores éticos e espirituais estão presentes em todas as religiões e são fundamentais no pensamento filosófico, sempre responsável pela elaboração de respostas para as enigmáticas interrogações sobre o ser em si mesmo, a vida, a morte, a realidade, o destino, as ocorrências felizes e desditosas...


Remontando-se aos recuados períodos do desenvolvimento antropológico, por exemplo, o Paleolítico, pode-se encontrar o homem primitivo de então, tentando expressar o seu medo ou respeito, para ele inexplicáveis forças que se lhe sobrepunham; utilizando-se de cultos bizarros, expressos em gravetos e pedras sinalizados, que eram colocados junto às fogueiras, numa forma muito primária de culto religioso. O arquétipo da fé religiosa já se lhe apresentava como necessidade de sufragar algo que supunha sobrevivente à morte no clã ou fora dele...


Na visão junguiana se afirma que a personalidade humana é constituída pela consciência e tudo quanto ela pode abranger, e pelo interior de amplidão indeterminada, ilimitada da psique inconsciente. Nessa personalidade muito complexa haveria algo de indelineável e indefinível, tendo-se em vista que uma grande parte, a que se expressa externamente, possui consciência; podendo ser observada, enquanto que inúmeras ocorrências permanecem informes, inexplicáveis.


Assim raciocinando, pensa-se que há uma fonte geradora desses fatores desconhecidos que provêm de uma consciência mais ampla, de uma psique mais bem-elaborada e que se poderia denominar como intuição. A palavra pretende significar que o acontecimento não foi previsto, aparecendo inesperadamente; sem uma procedência determinada, como se ele próprio se produzisse.


Essa intuição, numa análise religiosa, procederia da Divindade que administra tudo quanto haja criado.


Através dessa reflexão, acreditava Jung no valor de qualquer confissão religiosa, especialmente a Religião Católica, pela autoridade exercida sobre as criaturas, atendendo--as nos seus momentos graves e de conflitos, mediante a absolvição do pecado ou a sua condenação pelo permaneci-mento nele. De alguma forma, no passado, esse mito constituía uma proteção para todos aqueles que se sentiam fragilizados e necessitavam do apoio de algo forte e dominante.


O enfraquecimento moral do clero e a decadência do poder da fé religiosa, de alguma forma deixaram a criatura humana desprotegida, e, à medida que surgiram outras confissões, foram gerados mais conflitos do que segurança e apoio.


Atendendo aos seus clientes, Jung, não poucas vezes, buscava informar-se qual era a religião que professavam, recomendando aos católicos que buscassem os seus sacerdotes para se confessar e, comungando, receberem a absolvição, mesmo que através de penitências sempre libertadoras; quando protestantes; em razão de haverem gerado muitos conflitos e perdido os dogmas e os ritos que se enfraqueceram, a solução seria sugerir maior integração nos postulados evangélicos, que lhes poderiam servir de suporte para se precatarem das amargas experiências imediatas, para as quais não possuíssem resistências.


Superando o conceito de que toda neurose tem suas raízes fincadas na sexualidade infantil reprimida, ou encerra uma insuportável ânsia de ambição e de poder, a proposta, válida; apresenta-se através de uma análise dos outros conteúdos psíquicos no ser incapazes de suportar as referidas experiências imediatas.


Não se pode descartar, no entanto, a hipótese espírita da reencarnação, na análise em tela, a fim de explicar-se a existência de fatores causais - anteriores à concepção — que podem expressar-se por meio da repressão da sexualidade infantil, ou da ambição e do poder, em razão das heranças graves que se encontram hoje no inconsciente pessoal do portador do transtorno neurótico.


Nesse caso, o Self, expresso na personalidade humana, possui a totalidade dos fatores conscientes observáveis, assim como de todos aqueles que são indefiníveis e indelineáveis.


O esforço que se deve empreender para o indivíduo conseguir a sua reintegração religiosa é valioso e tem caráter de urgência.


Essa reintegração, bem se vê, não faz pressupor-se uma vinculação a tal ou qual confissão que predomine na consciência geral, mas que melhor atenda aos quadros de valores e necessidades de cada pessoa.


Necessidade Da Fé Religiosa

A crença religiosa pode expressar-se sob dois aspectos psicológicos: um castrador, proibitivo, gerador de culpa, e outro estimulante, psicoterapêutico, consolador.


No primeiro, apresenta-se como fenômeno de transferência dos conflitos que parecem apaziguar-se mediante a eleição de uma confissão doutrinária que pertence ao indivíduo, portanto tornando-o melhor e mais presunçoso do que os demais, em uma falsa autorrealização, por efeito, não raro, de dificuldade de ajustamento e vitória no meio social. Trata-se da fé cega, aquela que impõe seus dogmas e conteúdos sem permitir reflexão nem análise, contribuindo para que o adepto se sinta autoconfiante e aparentemente pleno. Os seus conflitos, dessa maneira, não são superados, mas recalcados no inconsciente e espocam em clima de fanatismo que se exterioriza mediante as perseguições de lamentáveis consequências - resultado da insegurança pessoal e da instabilidade emocional.


No segundo, oferecendo oportunidade de reflexões e aprofundamentos numinosos, estabelece parâmetros de segurança através da contribuição dos estudos científicos, que demonstram a realidade dos seus postulados doutrinários.


Suportando os desafios experimentais em laboratórios, torna-se racional e lógica, pois que possui um suporte filosófico para explicar as ocorrências morais, sociais, do destino, do sofrimento e as infinitas possibilidades de triunfo em relação ao futuro.


Evidentemente, não se trata do triunfo apenas material, mas; conforme acentuou Jesus — que Ele vencera o mundo —

portanto, de um triunfo interior. Essa ânsia tresvairada e patológica de vencer no mundo econômico, social, político ou sob qualquer aspecto material em que se apresente, gera conflito; porque desenvolve a ansiedade mórbida. A vitória, porém, sobre o mundo das paixões, das disputas perturbadoras, eis a proposta psicoterapêutica da fé religiosa, que faculta a compreensão das ocorrências negativas, ensejando resignação ante aquelas que não sejam as esperadas, as agradáveis, mas que, bem compreendidas, podem ser dinamicamente transformadas em recursos de harmonia e de bem-estar.


São muitos os conflitos e transtornos psicológicos desencadeados pela fé religiosa totalitária, excessivamente dogmática, imperiosa, por inibir os valores da personalidade e bloquear o discernimento da psique. No entanto, tendo-se em vista os diferentes níveis de consciência em que transitam as pessoas, algumas que ainda se detêm na consciência de sono; impossibilitadas psicologicamente de altos voos de discernimento e de identificação, submetem-se pelo medo à boa conduta, aos valores impostos, retendo os impulsos primitivos que, sem esse controle arbitrário, as levaria a situações deploráveis, qual ocorre amiúde com aqueles que se encontram divorciados desses procedimentos religiosos.


Com tendência inata a temerem para acreditar, em vez de crerem por amar, essas criaturas operam interiormente uma transformação moral para melhor, evitando os vícios turbulentos; tendo como suporte a fé fanática, e nela sentindo-se saudáveis e realizadas até o tempo em que dura essa aceitação, podendo ocorrer-lhes a morte durante esse comportamento, morte, aliás; que aceitam sem pânico ou ansiedade. Esses fiéis são mais resistentes aos transtornos depressivos que conduzem ao suicídio, porque apoiam-se na crença da imortalidade, esperando a consumpção natural àquela provocada pelo gesto insano. Em sentido oposto, as pessoas que não se firmam em expressão religiosa alguma, quando surpreendidas pelos fenômenos psicopatológicos ou pelos desastres morais, sociais, econômicos; que, às vezes, os desencadeiam, possuem menos estrutura emocional, atirando-se, desesperadas, no fosso profundo da autodestruição. Nesse, como em outros fenômenos humanos; sempre ocorrem exceções que, dessa forma, confirmam a regra geral.


A fé religiosa segura, resultado da experiência pessoal com a transcendência, faculta uma perfeita integração do ego com o Self auxiliando-o no deciframento de muitas incógnitas íntimas, que desaparecem, eliminando possíveis fatores de insegurança emocional. Esse encontro com a transcendência pode ser denominado como experiência mística, aquela que dilata os horizontes do psiquismo na direção de outras realidades não palpáveis, no entanto, existentes e vibrantes no Universo.


Na análise entre o dogma religioso e o fato científico, não poucas vezes se tem afirmado que o primeiro, porque impõe e abrange a totalidade, e sendo irracional, porque afirma e reproduz a existência psíquica, possui mais poder psicológico sobre o indivíduo do que a ocorrência racional que produziu a teoria em que se expressa. Nesse dogma estariam todos os arquétipos ancestrais das experiências da gnose exteriorizada nas variadas revelações espirituais de todos os tempos. E esse fenômeno encontra-se no âmago de todas as religiões do passado e do presente. Isto porque os fenômenos despertaram o ser humano antes que ele se desse conta da sua possibilidade:


sonhos, aparições, desdobramentos da personalidade e viagens astrais, transes espontâneos que sempre aconteceram na história da Humanidade...


Essas ocorrências sucederam mesmo sem a compreensão daqueles por quem se expressavam.


O dogma religioso teria o conteúdo genérico de todas as experiências da psique, enquanto que a teoria e o fato científico abrangeriam somente os painéis da consciência, variando; muitas vezes, ou sendo substituídos por outros de mais recente conquista. Procedente do inconsciente, das suas imagens arquetípicas, o dogma religioso pode abordar abstrações que impõem punições à culpa e a liberam através de sacrifícios; mortificações, penitências, que são dramatizados, resultando em processos psicoterapêuticos valiosos.


Apesar do sentido positivo do dogma das religiões em determinadas circunstâncias, não se pode negar a excelência da fé religiosa racional, que enfrenta a culpa de forma positiva; analisando a dramatização do pecado e possuindo os instrumentos específicos para a redenção através da reparação do mal que se haja praticado pelo bem que se pode realizar.


A análise racional do erro e do pecado, do escândalo e do crime cometidos, enseja a consciência da desnecessidade do sofrimento como mecanismo de libertação, oferecendo, em contrapartida, a ação benfazeja, dignificadora, que levanta a vítima e apazigua o algoz, que reorganiza os valores desrespeitados e equilibra o grupo social, facultando bem--estar naquele que temia e agora ama que se atormentava e ora se acalma.


A união, portanto, positiva, de alguns dogmas, tais a existência de Deus, a realidade do ser imortal, a reencarnação, que se impõe como processo de evolução, quando confirmados pela experiência racional da investigação científica, constatando-se essa sobrevivência do Espírito mediante a sua comunicação intelectual e física - objetiva e subjetivacontribui com maior eficiência para que a fé religiosa se expresse de forma terapêutica e saudável, não gerando novos conflitos nem evitando comportamentos que seriam proibidos e deixam de ser vivenciados apenas pelo bom motivo de saber-se os danos que causam.


A fé religiosa, em sua necessidade de harmonização do ser humano, é uma experiência pessoal e intransferível, que pode ser despertada por outrem, todavia tem que ser vivenciada pelo indivíduo.


Apoio terapêutico pela religiosidade

O homem que crê tem muito mais possibilidades, nos vários compromissos existenciais, do que aquele que vive atormentado pela dúvida ou que simplesmente não crê.


Quando alguém enfrenta uma batalha sem a certeza da vitória; de alguma forma já perdeu uma grande percentagem de probabilidades para triunfar. Os próprios conflitos perturbam-no e o impedem de discernir com claridade, bem como de agir com segurança.


Um dos fatores de desequilíbrio do comportamento é a tensão; resultado da ansiedade mal controlada. Nesse estado de tensão, o indivíduo pode ser acometido pelo medo e tornar-se perigoso para si mesmo, assim como em relação aos outros. Há nele uma perda do sentido da autocrítica e, dessa forma, torna--se incapaz de compreender psicologicamente a situação em que se encontra.


Algumas vezes, percebe inconscientemente a presença de forças perturbadoras e conflitos - expressões de má consciência - que o podem levar a situações graves e atitudes criminosas.


A fé religiosa, a católica, por exemplo, pode auxiliado, em razão da confissão, que lhe descarrega a tensão, e da absolvição que o sacerdote lhe oferece e o sacramento eucarístico lhe propicia; tranquilizando-o.


Cabe, porém, ao indivíduo, não obstante esse apoio religioso; buscar a sua vida imediata, sua própria experiência de vida; eliminando as exigências das tradições, expressando-se em sonhos pessoais, únicos, não repetidos por ou-trem, mesmo que seja portador de problemas semelhantes. Isto porque, quando esses sonhos repetem-se mais ou menos idênticos, procedem dos arquétipos que expressam temas coletivos que se encontram no inconsciente geral, como heranças das culturas, das crenças e das aspirações ancestrais.


As tendências primárias e as heranças da violência passada; que permanecem na estrutura psíquica do ser humano, é que o levam aos atos de hediondez e de perversidade que se vêm repetindo através da História, em razão também de haverem sido praticados por ele mesmo, nos processos das reencarnações passadas.


A presença da religião no seu mundo íntimo, que o ampara e estimula ao Bem e à sua prática, produz-lhe um efeito terapêutico superior, por ensejar-lhe possibilidades de reconstrução do que foi destruído e de renovação pessoal ante a vida. Não se pode ignorar que, por outro lado, o maior número de guerras que sofreu a Humanidade teve origem nas paixões religiosas ínsitas em personalidades psicopatas, que se deixavam conduzir pelo fanatismo, tornando-se perversas, em consequência da insegurança pessoal e dos distúrbios interiores em que estorcegavam.

Conduzindo o seu passado nele mesmo - herança das experiências transatas e dos processos da evolução - somente através do esforço e da luta íntima renhida é que se pode libertar dos atavismos primitivos e das experiências degradantes a que se vinculou anteriormente. Quando, porém, como efeito danoso desses comportamentos, já se lhe instalou o transtorno neurótico e a sombra densa predomina na sua conduta, a Religião ainda pode oferecer-lhe recursos saudáveis para que a personalidade lúcida e consciente - e a sombra possam marchar juntas; convivendo sem atritos nem imposições de uma sobre a outra.


A Religião propicia a distinção moral entre o bem e o mal; propelindo o crente para o primeiro, no qual há uma recompensa afetiva, espiritual, que proporciona alegria de viver.


Em uma análise profunda dessa dualidade, no entanto, ao infinito, ocorre uma fusão de ambos os conteúdos, porque o mal transitório conduz à aprendizagem para o bem permanente, e todos os homens e mulheres passam pelas experiências amargas e perturbadoras, a fim de fixarem os estímulos positivos, aqueles que não geram culpa nem desarticulam os painéis da consciência, que prevalecerão triunfantes.


Uma religião que concilie o dogma com a razão poderá oferecer uma instrumentação psicológica muito segura para esse apaziguamento da sombra no desiderato da união com a personalidade consciente, retirando-lhe o conteúdo vulgar; primitivo, portador de malignidade.


Infelizmente, o ser humano vem perdendo o contato com a terra, com a fraternidade, em face dos conflitos de opiniões, das imposições do intelecto sobre o sentimento, da robotização que transforma o ser humano em máquina, a repetir atividades que lhe destroem a capacidade de criar, de enriquecer-se de novos valores espirituais. Isso resulta do prejuízo experimentado pelas religiões que vêm perdendo o contato com os fiéis, algumas mais interessadas no número, nas massas rendosas, que oferecem proventos materiais e edificam santuários cada vez mais extravagantes, que anestesiam as necessidades profundas da emoção com falsos milagres de ocasião, deixando os crentes mais aturdidos e desesperados, quando despertam posteriormente.


Continuam recebendo as multidões, porém, constituídas por pessoas vazias de harmonia e de sentimentos solidários. Outras; preocupadas com a política terrestre, especialmente em relação à preservação dos tesouros e posses acumulados, não dispõem de conselheiros e pastores suficientes para os indivíduos que necessitam de atenção pessoal, fugindo, ao se sentirem órfãos da Mãe espiritual para as madrastas viciações, que são as dependências químicas e alcoólicas, sexuais e brutalizantes, que pensam substituirão a tranquilidade que perderam.


Não se poderão impor a essas criaturas leis que as tornem melhores e mais harmônicas, porque se tratam de conquistas interiores, pessoais e intransferíveis, somente possíveis quando cada qual opere a sua transformação interior para melhor.


É necessário que a proposta religiosa se expresse no trabalho em favor do homem lúcido, em vez da repressão daquele ser inferior que nele vige, ajudando-o a melhorar-se, a cooperar; evitando que se rebele e o agrida. Não será através do corte da cabeça que se poderá eliminar a dor que dela procede... Também não será por métodos castradores, proibitivos, inibidores, que se atenderão aos transtornos neuróticos, mas exatamente de forma diferente, isto é, buscando-se as raízes de onde procedem para erradicá-las sem violência, mediante a identificação e superação das suas mensagens.


Nessa operação, torna-se inadiável a contribuição da imaginação ativa, método superior para tornar os conteúdos inconscientes perfeitamente conscientes, conquistando-os, para que eles se harmonizem com o ego.

Pode-se estabelecer que a união do ser humano com Deus, no Cristianismo, está representada por Cristo e pela Sua cruz, o amor e o sacrifício, que avançam juntos, abrindo espaços emocionais para compreender-se a própria natureza, suas necessidades e exigências, trabalhando-as com paciência e resignação, ao mesmo tempo ascendendo emocional e espiritualmente em viagem segura dos vícios e dependências perturbadores para outros patamares de satisfação e de bem-estar, sem culpa nem ansiedade, ante a certeza de se estar avançando com segurança para o encontro com a plenitude, com o Reino dos Céus.


Esse esforço propiciado pela Religião conduz ao Si--mesmo consciente das suas responsabilidades, a uma introspeção; evitando projetar a própria sombra, o que faculta assumir os resultados dos seus empreendimentos e condutas, não transferindo as consequências para os outros, e descobrindo-se membro atuante do mundo, no qual tudo tem um significado igualmente íntimo.


O que acontece fora tem a ver com o que se passa no íntimo do indivíduo. Assim, iluminando-se a sombra, obter--se-á como resultado uma grande contribuição em favor do grupo social, do mundo em geral.


Essa aquisição de consciência do Si constitui uma vitória muito grande para a sociedade, em razão das projeções recíprocas que povoam o universo dos grupos sociais, que não assumem os valores reais que os constituem, fugindo através de mecanismos sombrios que os escondem por momentos, mas não os retêm por largo tempo.


Essa função religiosa - a da conscientização espiritual do Self — torna-se de excelente resultado terapêutico, auxiliando o ser humano a crescer e desenvolver o seu Deus interno, a princípio viajando em sua direção, internalizando--se, para depois exteriorizar-se e projetá-lo na direção do mundo onde vive.


A consciência religiosa espiritista, a que decorre de uma visão profunda do ser, do seu destino, das possibilidades infinitas que possui e deve utilizar na construção da sua realidade maior; enseja essa terapia preventiva aos transtornos neuróticos, ao mesmo tempo ajudando a curá-los, quando instalados, mediante a compreensão do que cada um pode e deve fazer por si mesmo na atual trajetória reencarnacionista.


Religião E Saúde

A adoção de uma conduta religiosa que trabalhe o indivíduo; nele edificando valores de dignificação e de bem-estar, é valioso contributo psicológico para a sua saúde.


Freud informava que a Religião é, por si mesma, uma neurose compulsiva. Certamente a tese não pode ser generalizada, pois Jung, por sua vez, reconheceu a sua necessidade para um bom e saudável equilíbrio psicológico, antineurotizante, desde que constitua estímulo para o prosseguimento das lutas e para o trabalho de renovação interior do indivíduo.


O mesmo ocorre com a Ciência, que algumas personalidades podem utilizar-se de forma dogmática, facultando-se intolerância e fuga compulsiva em torno das incertezas que a existência proporciona.


Há uma necessidade de o indivíduo segurar-se em algo que o poupe da ansiedade, do medo, e a fé na Ciência, em face do seu conteúdo racional, pode tornar-se neurótica e compulsiva. Nem todos, porém, assim procedem, havendo a diferença entre os comportamentos saudáveis e os neuróticos.


É necessário examinar se a Religião mantém o indivíduo infantilizado, dependente dos seus postulados e receoso das lutas que deve travar, a fim de adquirir a sua maturidade psicológica; ou se tem um caráter libertador. Na segunda hipótese, os seus paradigmas e teses devem contribuir para a sua auto aceitação; para o reconhecimento dos próprios limites, contribuindo para que possa desenvolver todos os valores que lhe dormem latentes; especialmente ampliando--lhe a capacidade de amar ao seu próximo, a Natureza, a vida e a si mesmo...


A Religião não pode servir de fuga psicológica para o indivíduo poupar-se ao enfrentamento dos seus conflitos, dos processos de libertação do sofrimento, que pode ser modificado mediante a coragem de defrontá-los e trabalhá-los corajosamente com os instrumentos da realidade.


O amor a Deus deverá ser uma manifestação natural que emerge do Selfe vitaliza o ser total, sem a preocupação de ser amado por Deus, o que pareceria um paradoxo, caso não o fosse amado, quer nele se acredite ou não.


Nessa constatação, nesse emergir do inconsciente profundo pessoal, a imagem de Deus todo Amor, porque saudável, elimina a necessidade masoquista do martírio, do sacrifício, do sofrimento, como, às vezes, demonstra-se para os outros, que somente se justificam quando as situações impõem o testemunho de fé, isto é, a perfeita coerência entre aquilo em que crê e expressa, e as defecções que lhe são impostas, tornando-se alguém decidido e sem medo ante essas conjunturas, sendo fiel ao comportamento íntimo e externo que adota.


Quando a Religião liberta do medo e da ansiedade, quando proporciona a coragem natural para o auto enfrentamento, tornase terapêutica e geradora de saúde.


O homem livre busca Deus exatamente porque se encontra em liberdade, e deve avaliar se pode ser conceituado como um Espírito, Energia Suprema ou como um Fenômeno da Natureza; que se lhe torna uma necessidade compulsiva como ocorre com a dependência do álcool ou de outras substâncias químicas... - Feita essa avaliação, e constatando-se que não se trata de um epifenômeno de procedência neurótica, mas de uma realidade na qual se acredita sem qualquer conflito, estabelece-se um vínculo emocional, religando-o a Deus e passando a amá-lo com espontaneidade.


A Religião, pelo seu sentido de condução ao infinito das origens, no passado, e pela proposta de incomensurável, em relação ao futuro, proporciona experiências de autoidentificação; que se pode considerar como uma verdadeira graça dessa Divindade.


Obviamente, a vinculação do ser a uma doutrina religiosa não o deve conduzir a qualquer manifestação de fanatismo, que representa o seu conflito projetado para o exterior, em face da insegurança e do medo do enfrentamento do Si-mesmo.


Através da Religião, o homem aprofunda reflexões e mergulha no seu inconsciente, fazendo que ressumem angústias e incertezas, animosidades e tormentos que podem ser enfrentados à luz da proposta da fé, e que são lentamente diluídos, portanto; eliminados, a serviço do bem-estar pessoal, que se instala lentamente, tornando-o cada vez mais livre e, portanto, mais feliz.


A instalação da fé dogmática - seus fundamentos essenciais -, mas racional, porque enfrenta os desafios com tranquilidade; abre espaço ao livre-arbítrio que, do ponto de vista psicológico; nem sempre é realmente livre, em face dos fatores emocionais e orgânicos que influenciam as decisões e as escolhas, os comportamentos e as observações de que se é objeto, variando; portanto, de acordo com as circunstâncias e os níveis de consciência nos quais cada um estagia.


Graças à opção religiosa, sem o abandono dos admiráveis suportes psicológicos e psicoterapêuticos, o binômio saúdedoença modifica-se para uma estrutura unitária, que é a saúde; na qual ocorrências transitórias de mal-estar, de enfermidade de qualquer natureza, não afetam o estado normal de equilíbrio e de harmonia psicológica.




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