Além da Morte

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CAPÍTULO 28

MEDIUNIDADE COM JESUS

No plano de estudos e trabalhos estava programada uma sessão de desobsessão, em nosso antigo Centro, onde, anos atrás, me candidatara ao serviço do Bem.


Somente o fato de ali retornar, na condição de desencarnada, revendo os amigos no afã do socorro mediúnico, entrelaçados pela prece, era algo que me comovia. Depois, a soma de conhecimentos que poderia armazenar, em apenas uma noite, corresponderia a significativa coleta de apontamentos expressivos que não podia desdenhar.


No dia aprazado, às dezoito horas, rumamos, em grupo, sob a direção da irmã Zélia, para tomar parte na preparação do recinto, para as operações mediúnicas da noite.


Àquela hora a azáfama era grande. Entidades laboriosas, postadas à entrada da sala, guardavam o recinto, defendendo-o da incursão dos Espíritos mal intencionados.


Uma estranha muralha, com dois palmos aproximadamente de espessura, circundava o recinto e, ante a minha admiração íntima, a Benfeitora esclareceu tratar-se de construção fluídica para defesa da Casa. No interior, Espíritos familiares desdobravam-se em cuidados meticulosos, desde a assepsia mental do recinto, até a colocação de aparelhagem complicada, em várias posições.


As dezenove horas, começaram a chegar as primeiras almas sofredoras e atribuladas no nosso plano, que se juntavam às que se encontravam no recinto, desde a véspera. A princípio, aparentemente a sós, depois, em grupos, confabulando, inquietas, mergulhadas nos mais mesquinhos problemas que se lhes afiguravam importantes, eram conduzidas a lugares adredemente reservados. Outros vinham assistidos por enfermeiros de brancas vestes, amparados cordialmente e colocados em leitos, como nas Enfermarias da Terra.


Uns traziam expressões de dor e inquietude, gemendo ou chorando, enquanto outros ostentavam semblantes de zombaria, gesticulando, arrogantes, embora o estado deplorável das vestes e da própria organização espiritual. Parecia não darem conta de si mesmos, aplicando o tesouro do tempo na ostentação do orgulho e da crítica pertinaz. Religiosos motejadores, de aparência cruel, proferindo expressões rudes, não tiveram acesso à sala mediúnica, ficando à porta, coléricos, em atitudes lamentáveis. Alguns ficavam a certa distância, distinguindo as mãos amigas que os ajudavam, enquanto outros pareciam muito distantes, sem percepção nenhuma, sendo trazidos ao campo magnético dos trabalhos por inspiração irresistível dos seus tutores espirituais. Outros, ainda, alheados de tudo, apresentavam-se à vontade, constituindo o conjunto uma cena entristecedora e comovente.


Começavam a chegar os primeiros encarnados.


Orientadas pela Benfeitora, verifiquei que alguns encarnados chegavam seguidos por grande número de Espíritos vulgares e viciosos, que ficavam fora das defesas magnéticas, sem as poderem atravessar com os seus tutelados habituais.


—Aguardarão suas vítimas — informou a Instrutora —, depois que se deslocarem da reunião. Muitos companheiros que vêm à sessão, logo que se afastam dos elos magnéticos da prece e do entendimento, no templo, retornam aos problemas mentais, semi-hipnotizados como vivem pelos obsessores que os seguem transmitindo errôneas ideias e hipóteses falsas, até que se lhes esgotam as precárias energias defensivas que conseguiram armazenar no serviço, retornando, de mãos vazias, aos braços dos vampiros com os quais sintonizam. "Alguns — prosseguiu, penalizada —, embora libertados momentaneamente das expressões obsidentes, penetram o recinto, com desrespeito e indiferença, entregando-se, durante o trabalho, ao sono reprochável, resultante da intoxicação mental de que são portadores, ou se deixam conduzir pelos pensamentos habituais, refazendo as ligações mentais e ameaçando o serviço venerando, pela possibilidade de invasão intempestiva dos seus algozes revoltados, constrangidos, na retaguarda, e que, destarte, encontram brechas no conjunto que deve ser protegido e defendido por todos.


Às dezenove horas e trinta minutos, deu entrada na Casa o Mentor dos trabalhos, responsável pelo serviço da noite.


Os cooperadores espirituais expuseram-lhe as tarefas concluídas, apresentando as dificuldades e explicando as diferentes qualidades de Espíritos desencarnados presentes, as medidas tomadas e a situação mental dos encarnados, no momento.


Após carinhosa inspeção e rápidas observações, Entidades intercessoras rogavam-lhe permissão para se comunicarem com parentes presentes ou pediam providências para seres amados em situações delicadas. Continuavam imanados aos "velhos problemas da carne", situando as ansiedades no socorro material, com prejuízo da aprendizagem que se derivava do sofrimento dos seus queridos.


Algumas mães aflitas, esposos ansiosos, irmãos e amigos em sofrimento, solicitavam interferência direta e auxílio, e a grande maioria rogava oportunidade de comunicação pelos instrumentos mediúnicos.


Delicado, porém enérgico, o Instrutor explicava a uns, expunha a outros, que o serviço a realizar-se encontrava-se programado com antecipação, e que, no momento, muitas eram as dificuldades a transpor no concernente à colheita de resultados.


No plano físico, começavam a leitura e conversações preparatórias. Conversação sadia, tertúlia edificante.


—Muito embora as comunicações somente sejam possíveis às vinte horas — explicou a irmã Zélia —, esse espaço de tempo destina-se à desintoxicação ou desencharcamento mental dos encarnados e harmonização psíquica dos médiuns com os desencarnados que se vão comunicar.


Nesse momento, aproximando-se do nosso Grupo, o Instrutor Espiritual saudou a irmã Zélia e congratulou-se conosco, pela presença no trabalho da noite. Velho amigo, abraçou-me, informando-me estar cientificado de que eu iria ocupar o canal psicofônico do médium Marcos, para breves palavras. O médium — explicou-me ele —, por sua vez, estava instruído nesse sentido, desde as vésperas, embora não se recordasse, conscientemente.


— Como você sabe — esclareceu, sorrindo —, o acaso é resultante de um trabalho feito com muita antecedência.


Desejando-me feliz intercâmbio, afastou-se para continuar os misteres que lhe diziam respeito.


Fiquei emocionada e reconhecida.


Quase à hora da prece de início da operação de intercâmbio, dois retardatários deram entrada no recinto, prejudicando, seriamente, a estabilidade psíquica geral.


— São infelizes indisciplinados, — obtemperou irmã Zélia ao constatar a consternação geral dos trabalhadores presentes. "Nossos irmãos — prosseguiu — infelizmente, se habituaram à negligência e, por mais os advirtamos, demoram-se na atitude indiferente, entre prazer e dever.


E continuando, arrematou:

— Agitados e confusos, como se encontram, não poderão tomar parte na reunião. Ficarão fora das defesas internas até que se ajustem mentalmente ao clima local.


A prece foi feita pelo Diretor encarnado que, a esse tempo, estava parcialmente incorporado pelo Instrutor espiritual e fortemente inspirado.


As palavras simples e sinceras do "velho" amigo de ontem, comoveram-me ainda mais.


Devotado Instrutor do nosso plano utilizou-se da organização do médium Marcos para as orientações de início.


A primeira comunicação ocorreu logo. Era uma alma impertinente ligada ao médium, em difícil processo de reajustamento, sob o lastro de uma dívida que se repetiu em várias encarnações com insucesso de ambos — informou a orientadora, sempre prestimosa.


Nesse momento, notei que algumas manchas, à semelhança de bolas escuras, caíam sobre o médium.


Com o olhar, interroguei irmã Zélia. O esclarecimento veio rápido:

— São as vibrações da assistência encarnada — disse, tristonha. "Alguns companheiros nossos, do plano físico —prosseguiu à meia voz —, além de não cooperarem, atrapalham com pensamentos de dúvidas, indiferença e até, não raro, de mofa. Não se apercebem do grande drama que envolve as duas almas e, por isso mesmo, prejudicam o registro das impressões, pela mente do médium que, assim, ainda mais se desequilibra.


Chamando-me, a amiga incansável apontou respeitável senhora, indagando:

— Notas algo?


—Sim. Está dormindo.


— Exatamente. O fenômeno aí é hipnose à distância. Seu perseguidor ficou na retaguarda; no entanto, continua ligado ao seu pensamento pela ideia. —E não se pode fazer nada por ela? —indaguei, penalizada.


— É o que estamos tentando, no presente momento respondeu —.


Trabalhando e procurando ajudar, convidamo-la à colaboração e à vigília, em favor dos demais sofredores. Convém não esqueçamos que a Lei é a mesma e invariável, para todos. Cada alma ésempre socorrida, no entanto, a ascensão só se fará pelos pés em movimento no Bem, de quem deseje subir. "Infelizmente — continuava, esclarecendo, — a nossa consóror, como muita gente, em chegando à reunião, acomoda-se, e, distante da atenção séria e do respeito ao Senhor que nos rege os destinos, por cansaço ou negligência, entrega-se ao sono, sem lhe oferecer a menor resistência. "


—Que fazer? — Inquiri, condoída.


—Orar por ela e por todos, confiando no tempo. Ao fim de alguns anos, despertará, talvez, mais infeliz, visto que a enfermidade obsessional se complicará, conduzindo-a a enfermidade mais séria. A lâmpada somente acende quando provida de pavio, embora o óleo abundante onde flutua.


Outro senhor, em cadeira vizinha, demorava-se inquieto. Os bocejos sucediam-se, enquanto a mente derramava, qual fruto apodrecido quando comprimido, substância escura e viscosa.


— É um discípulo e escravo da gula — acentuou a delicada trabalhadora. Embora as advertências do Diretor da reunião, bem como das regras de saúde, o nosso amigo sobrecarregara o estômago e chega à sessão semicongestionado e enfadado, como se, indisposto qual se encontra, tivesse vindo fazer um favor desagradável, mas de que se não pode furtar.


E apontando vários fatores positivos de insucesso nos trabalhos mediúnicos, por parte, quase na totalidade, da irreverência dos encarnados, a prestativa mensageira lembrava-me que este é o material com que o tempo e a perseverança do Mestre vão modelar a felicidade e a ventura do futuro.


As comunicações sucediam-se.


Enquanto o Diretor encarnado atendia aos comunicantes, Entidades esclarecidas pregavam a grupos compactos, enfermeiros ativos conduziam sofredores, passistas socorriam aflitos...


— Mediunidade nos dois planos da vida — elucidou a Senhora Zélia. — Mediunidade com Jesus, pensando feridas, consolando corações, instruindo mentes, acendendo luz e socorrendo. Mediunidade e Jesus amando o homem e renovando o mundo.


O tempo passava.


O Instrutor aproximou-se de mim e convidou-me à incorporação.


— A irmã dispõe de seis minutos — informou, bondoso. — Seja breve, O essencial não é dizer muitas palavras, mas dizer o máximo com o mínimo de expressões, no menor tempo possível.


Ajudada pela abnegada Orientadora, aproximei-me do médium e, orando, fui-me assenhoreando do aparelho psicofônico, experimentando as mais complexas sensações. Enquanto leve perturbação das faculdades mentais me preocupava, grande lucidez tomava o médium em concentração. Como se fosse desmaiar, ouvi enérgica voz, ordenando-me:

— Pode falar. Você já está incorporada.


Súbita aflição povoou-me o cérebro, turbilhonando-me as ideias. Atropelavam-se, no meu mundo mental, evocações e desejos, misturados a inquietante receio.


Lembrei-me, então, do Celeste Amigo, e tentando reter-Lhe a veneranda figura, recordei-me de uma das oleogravuras terrenas em que Ele aparece meditativo, contemplando Jerusalém adormecida, e verifiquei que, ao desejar votos de felicidades e venturas aos irmãos, a boca do médium, abrindo-se, enunciou as primeiras palavras que se desenhavam na minha vontade. Deslumbrada, notei que a organização mediúnica do amigo encarnado emoldurava-se de suave claridade e que, do cérebro e do coração, desprendiam-se, em colorido múltiplo, fachos brilhantes que variavam de intensidade, à medida que o meu pensamento era registrado e transmitido.


Reunindo todas as forças para deter a onda emotiva que me espreitava, recataloguei ideias. E, à medida que a palavra, a princípio vacilante, depois mais ritmada, expressava os meus desejos, confundi-me na aura do instrumento, vivendo, em mim mesma, a felicidade de testemunhar, aos amados, a vitória da vida sobre a fragilidade da carne.


O tempo corria e, sob o controle do Instrutor dirigente dos trabalhos, senti a necessidade de limitar os anseios crescentes, despedindo-me, emocionada e jubilosa.


Agradável bem-estar empolgava-me, e aos meus ouvídos continuava a escutar as palavras enunciadas, agradecendo ao Céu o contentamento imerecido daquele instante.


Logo depois, o Amigo Espiritual, ocupando a mesma organização psicofônica do encarnado de que me utilizara, proporcionou elucidações cheias de alento, nas quais se misturavam sabedoria e bondade, recordando-nos o conhecido roteiro da Caridade e do Amor.


À hora aprazada, depois da prece de reconhecimento, foram encerrados os serviços.




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