Além da Morte

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CAPÍTULO 25

DITOSO ENCONTRO

Os dias sucediam-se cheios de ensinamentos.


Quando, depois de grande período de cegueira, voltamos a enxergar, ficamos deslumbrados com a beleza da visão e quedamo-nos extasiados. Os cenários mais conhecidos apresentam novos motivos e detalhes que antes não foram percebidos, mas agora nos convidam a meticuloso exame e acurada observação. Em relação à alma que regressa à Pátria espiritual o fenômeno é o mesmo.


A natureza que envolve o EducandárioHospital de nossa Colônia, muito semelhante à paisagem terrena, diversifica-se somente pela exuberância de cores e o aformoseamento mais cuidado do ambiente. É que a visão ampliada favorece a observação. Mesmo na Terra, quantas vezes passamos por verdejante campina sem dar-lhe a menor atenção? Não são muitos os homens que se deixam extasiar por um crepúsculo, na quadra da Primavera, ou por uma noite enluarada, nos meses de Verão.


Com os olhos cobertos de tristeza, na jornada da carne, o homem tudo vê triste. No entanto, o Senhor povoou a habitação terrena com maravilhas deslumbrantes para encanto e felicidade dos espíritos em jornadas.


Em nossa esfera, porém, fascinados pela ânsia de crescer, evoluir e reparar, a Natureza é mensagem de constante harmonia, sublimando a saudade, concitando ao alento e felicitando o coração.


Com o concurso do trabalho, as lembranças pouco felizes deslizam da mente e mergulham no dever, impelidas pelas necessidades de renovação íntima.


No meu segundo aniversário de desencarnação, fui surpreendida com uma notícia feliz, a mim trazida pelo desvelado amigo Adrião: ia receber a visita de mamãe.


Tão grande foi a minha emoção que pensei ser vítima de um vágado. Esfogueamento inesperado tomou-me a face, que se banhou de suor, e a mente retomou aos antigos sítios.


Recordava-me do coração materno com saudade e gratidão. Aquela figura alta de mulher humilde, acostumada ao sofrimento e à privação, que tanto se martirizara pelos filhos, novamente me voltou ao espírito.


Em minhas indagações mudas, habitualmente buscava-a através dos colóquios da prece. Onde estaria? Qual a sua situação? Seria feliz? Ainda estaria desencarnada ou já teria voltado à Crosta. Onde?...


Saber, no entanto, que iria recebê-la, apesar da indigência que eu carregava comigo, constituía uma ventura, minha filha, que te não posso descrever.


O dia parecia não passar, embora os trabalhos normais me preenchessem as horas. Encontrar-nos-íamos às 22 horas, no jardim da Enfermaria, residência onde me hospedava.


Quando a noite desceu, procurei repassar mentalmente os fatos da minha vida na Terra, e, embora emocionada, perturbava-me a lembrança de que carregava mãos vazias ao ter de apresentar-me à mamãe. Se me perguntasse que fizera da existência física com que Deus me presenteara, através da sua renúncia e da sua carne, que lhe responderia eu? Maquinalmente recordava a lição de O Evangelho Segundo o Espiritismo no que diz respeito ao desvelo dos filhos para com os pais

(*) . Afligia-me a lembrança de quantos sofrimentos causara à alma bondosa e simples, e o remorso acudiu-me ao chamado.


À hora aprazada, acompanhada da irmã Zélia, deu entrada no pequeno jardim aquela que agora, mais do que nunca, era uma felicidade para a minha alma. Procurei conter as lágrimas, sem o conseguir, porém. Vestia-se de branco tecido leve e notei quanto estava bela. Sorria como outrora, sorriso misturado à mesma tristeza enigmática. Seus olhos grandes brilhavam também, banhados de lágrimas. Abraçamo-nos demoradamente e todo um turbilhão de aflição que trazia comigo desatou em copioso pranto. Sentia-me pequena, outra vez, nos seus joelhos, àporta de nossa casinha humílima, sem palavras, sem raciocínio, sem indagações. A grande saudade tinha

(*) Capítulo 14 - Piedade Filial (Nota da Autora Espiritual) sede de repouso, e, por mais desejasse falar, a palavra estrangulada na garganta não se fazia ouvida.


— Agradeçamos, minha filha, ao Senhor Jesus —foram as suas primeiras palavras —, a felicidade imerecida desta hora.


— Mamãe! — eis quanto pude dizer.


Sua palavra clara, misturada a uma imensa ternura, fez-me relato ameno das suas atuais tarefas, bem como das lutas que precederam aquela hora, louvando o Mestre. Bendizia a extrema pobreza, as superlativas aflições e toda sorte de desgostos e abandonos que experimentara, funcionando como ensinamento corretivo e equilibrante para o seu espírito.


A Terra fora-lhe abençoada escola de redenção, em cujo seio aprendera a lição brilhante do sofrimento, reparando antigos desmandos. Desejava retornar, outra vez, para recomeçar; todavia, no momento não lhe era possível. Papai retornara já e encontrava-se na estância de abençoadas retificações...


Informou-me estar cooperando na Crosta com as equipes espirituais que ajudam os ébrios, na tarefa de libertação dos vampiros, atendendo aos implacáveis perseguidores. Por essa razão e por outros impositivos não me pudera visitar anteriormente, apesar do seu grande desejo. Estivera comigo nos primeiros minutos, após a minha desencarnação e enquanto hospitalizada

, na fase mais difícil da libertação física. Eu não a percebera, entretanto.


A querida Zélia seguia o nosso colóquio com acentuado interesse fraternal. Opinava, esclarecia, ajuntava anotações, sempre que oportuno.


O tempo escoava célere.


Desejava indagar, apresentar a minha felicidade e as minhas inquietações. Mas antes de o fazer, a voz materna confidenciou-me:

— Filha, o tempo é precioso tesouro do Banco Divino. Não podemos malbaratá-lo em expressões ocas de júbilo inoperante nem com frases pessimistas de sofrimentos inexistentes. Rendamos graças, incessantemente, e avancemos. Estou informada das suas novas responsabilidades e exulto com o mais puro contentamento. O verbo mais simpático para nós conjugarmos, no momento, é o REPARAR.


A alva banhava de claridade o promontório a distância. Estivemos juntas mais de seis horas consecutivas. Chegava o momento das despedidas.


— Estaremos juntas pelo pensamento e ligadas pelos deveres no campo do Bem — falou mamãe. Reencontrar-nos-emos sempre que as nossas tarefas nos permitam. Trabalhe, renove-se e persevere no caminho sacrossanto do auxílio. Não poupe esforços nem sacrifícios. A moeda do amor é de difícil aquisição, filha, não esqueça.


Abraçamo-nos e novas emoções nos tomaram a ambas. Além acenaram, irmã Zélia e mamãe, banhadas da luz nascente da madrugada.


Não me pude recolher. Continuei no banco onde nos demoramos, recapitulando, recordando.


Realmente o dia começa com a alva. Era necessário começasse o meu novo dia.


Lembrei-me, então, de ti, minha filha, na caminhada dos homens, e compreendi que necessitava crescer e desdobrar-me. Jesus convidava-me, em silêncio, a seguir o rumo do sacrifício.


Aspirei o ar balsâmico da manhã e pousei os olhos no disco solar. Delicada melodia varria a natureza. Seria externa ou era apenas a música de recolhimento e gratidão que o meu coração cantava?




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