Além da Morte

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CAPÍTULO 24

CASTIGO AO CRIME

Entre os companheiros de Enfermaria, Clélia, a jovem epiléptica, era uma das internadas a quem muito me afeiçoara. O seu rosto cândido e pálido, quase infantil, banhado por permanente nostalgia, falava-me muito à ternura.


Sempre que me encontrava a serviço, utilizando os panos da limpeza, demorava-me a fitá-la. E sempre que dispunha de alguns minutos de repouso, aproximava-me do seu leito, procurando ser-lhe útil e animando-a com promessas de felicidade e júbilo. Entretanto, por mais insistisse, a jovem permanecia mergulhada em si mesma, qual pérola engastada no imo de concha consistente.


Intrigada e compungida, no ensejo mais próprio roguei ao Administrador Aurélio, que nos visitava quase diariamente, esclarecimentos que me favorecessem com as possibilidades de auxiliar com mais eficiência.


— É um caso típico — disse-me — de Castigo ao Crime. Ninguém malbaratará a existência na carne, desrespeitando o vaso físico e fugindo depois, à Justiça. Na Terra ainda é possível guardar-se o crime em mil malhas e escapar à Lei. Todavia, nenhum criminoso, por mais se adie o instante da reparação, escapará ao despertar da consciência, em qualquer tempo ou lugar, em nome da Verdade.


O crime, conhecido pela velha sabedoria como "sombra que persegue a alma", faz se encontrem, no mundo espiritual, vítimas e algozes, na mesma trajetória. Por essa razão, a carne é uma bênção para a alma, pelas concessões que faculta: esquecimento temporário do passado, oportunidade de recomeço, ensejo de recuperação, campo de abençoadas disciplinas, sendo a Terra a Oficina-Escola onde aprendemos a construir o barco da felicidade. "O espírito encarnado pode ser comparado a corpo volátil em vasilhame fechado. Tem ação limitada e não sofre influências externas violentamente. Desencarnado, porém, é como ácido livre a expandir-se, combinando-se com similares e misturando-se a eles. Reencontros, reajustamentos negligenciados, dívidas não resgatadas, remorsos candentes... " E após breve silêncio:

— E o caso de Clélia. Guarda consigo um terrível drama, como nós mesmos, quando aqui aportamos, a pedir silenciosamente auxílio e entendimento. Ajude-a como puder.


Compreendi a delicadeza e discrição do nosso administrador e sopitei o desejo de conhecer-lhe o labirinto de dor.


Busquei, desde então, cercá-la de orações e mais ternura animando-a ainda mais e falando-lhe do Paternal Carinho de Deus, mostrando-lhe, enfim, que o passado está inevitavelmente conosco, com todo o caudal de consequências a rogar-nos ânimo e refazimento.


Todavia, mais do que palavras e compaixão, a doente necessitava do amor que gera entendimento fraterno e compreensão. Para que se possa auxiliar devidamente, é imprescindível amar. Muitas escolas e organizações terrenas estão cheias de expoentes da palavra e de intercessores piedosos; no entanto, bem poucos se encontram cheios de amor para doar. Assim, as palavras são mortas, porquanto é inoperante todo conselho que não carrega o selo do entendimento e da caridade.


Dispus-me a ver, na delicada sofredora, não somente a irmã, mas também a filha do coração que necessitava de alguém.


Com o passar do tempo, a fonte do sentimento encarregou-se de transformar o meu cuidado em acendrada ternura e, não raro, juntas, permutávamos nossas recordações sob emoção incoercível.


Clélia procedia de respeitável família paulistana, em cujo seio vivera quase cinco lustros.


Encarnara com graves problemas espirituais no lado afetivo, devendo demorar-se na honradez e na humildade para atrair os familiares à senda do entendimento da qual se afastaram desde priscas eras.


Bela e frágil, cedo constituiu-se o centro de interesse dos familiares e dos amigos alegres que lhe invejavam a beleza suave e as qualidades de inteligência a se aformosearem, cada vez mais, com eméritos professores encarregados da sua formação cultural. Sorria-lhe a vida entre venturas e promessas de felicidade. No entanto, não se sentia feliz. Constantemente era presa de tormentosa tristeza que carregava de dor o solar imenso onde residia. Sentia-se presa a recordações dolorosas que se acentuavam quando em estado depressivo, como se vivesse a evocar pavoroso passado, perdido em brumas e sombras. E nesses estados, invariavelmente era acometida de desmaios imprevistos, despertando, banhada de suores, sob atrozes padecimentos.


Consultados, os especialistas atestavam cansaço mental, necessidade de espairecimento, receios... Passada a crise, só a lembrança dolorosa, como imagem de sonho a diluir-se, e ela permanecia angustiada, até quando os deveres voltavam a povoar-lhe a mente, tomando-lhe a atenção. Algo, porém, seguia-a frequentemente, como um receio ou uma premonição fantasmagórica.


Aos 22 anos, conheceu um jovem de procedência humilde, filho de imigrantes — Carlo —, que a sensibilizou de imediato. Fascinada pelos encantos físicos do moço que servia numa das Organizações da família dela, não se receou de animar um romance que prenunciava, de início, consequências graves.


Todavia, apesar de reconhecer os obstáculos que surgiriam para a concretização de uma aliança feliz, não podia esquecer o homem que a arrebatava.


Nessa ocasião, os estados angustiantes aumentaram, conduzindo-a ao leito, para dissabor geral.


Acreditando que o agravamento da enfermidade tivesse origem na excitação, fruto do romance que ocultava, resolveu falar à mãe, aconselhandose. Na primeira ocasião, em pranto, narrou-lhe a sua aflição e, ante o espanto materno, compreendeu que jamais experimentaria a felicidade que ansiava, ao lado do amado, o que, logo após, pôde positivar.


Passados alguns dias, a conselho médico, seguiu para a França, a repousar nas águas famosas de Vichy, onde certamente se beneficiaria.


Seis longos e tristes meses permaneceu no Velho Continente sob cuidados médicos e desvelos maternos, visitando cidades, demorando-se junto aos famosos lagos e montes da Suíça e nas ensolaradas praias da Riviera.


Por mais tentasse esquecer o jovem, não o conseguia, deixando-se lentamente consumir pelas vorazes labaredas de desenfreada paixão que arquitetava planos macabros quando do retorno.


Carlo, entretanto, dissipador e ingrato, reconhecendo a afeição da filha do patrão, aguardava somente lhe abrissem as portas de acesso à fortuna e ao poder. Esperava assim, a volta da inexperiente menina.


Acreditando esquecido o romance da filha, Madame M. retornou à Paulicéia, acompanhada da jovem que parecia aparentemente recuperada, embora conservando os sinais habituais da melancolia.


No imo da moça, o vulcão do desenfreado amor não se apagara. Ao contrário, rugia violento.


Retornando, tentou logo um encontro com o moço amado e, em breve, irresponsável, entregou-lhe o corpo, como se assim testemunhasse a afeição de que se encontrava possuída.


No lar tudo corria feliz...


Com algum tempo Clélia começou a sentir alarmantes sinais... Consultou, incógnita, famoso ginecologista. A resposta aniquilou-a: ia ser mãe!


Retornou-lhe a inquietação, a necessidade de libertar-se do filho não solicitado. Veio à lembrança a honra da família, a vergonha...como se a desonra se constituísse, apenas, do conhecimento público da falta e não do ato praticado.


Nas visões desordenadas que passou a experimentar, agora mais do que antes, obsidiavam-na vozes de alguém, ensanguentado, rogando-lhe piedade e socorro. A visão hedionda suplicava-lhe a oportunidade de renascimento, a bênção da vida. Despertava, subitamente, banhada de suores frios, com a ideia fixa, porém, do crime planejado.


Ao terceiro mês de gestação, assalariando hábil especialista da grande cidade, libertou-se do débil corpo e, após algum repouso na casa de campo, voltou ao convívio social.


As crises, então identificadas como epilepsia, repetiam-se amiúde, abatendo-a e apresentando sinais de enfermidade mais grave. Durante os acessos que se alongavam qual pesadelo cruel, voltava-lhe à mente congestionada o extirpamento do filho que, aos seus olhos, crescia e se transformava numa visão tenebrosa, como implacável algoz a apontar-lhe o corpo retalhado, clamando em convulsões terrificantes:

— Vingança! Vindita! —, pondo-se a persegui-la até o total mergulhar nas águas escuras do desfalecimento.


Decorridos quase catorze meses do atentado, já não podia mais sequer erguer-se do leito. A tuberculose que a minava lenta e cruelmente, tomou vulto ameaçador, devorando-lhe as últimas energias do organismo combalido.


A este tempo, acidentado na via pública, após uma noite de libações, Carlo desencarnava no Pronto Socorro, sem saber do estado daquela que tanto o amava.


Três dias depois, Clélia fez igualmente a grande viagem, ignorando a tragédia ocorrida com o seu amado.


Cercada do carinho do mundo, recebeu flores, sepultamento honroso, lágrimas, adeuses e ofícios fúnebres.


Ninguém lhe soube o segredo nem o crime.


Quando despertou no sepulcro lodoso onde se lhe decompunha o corpo, viu ao seu lado o fantasma ensanguentado, como nos pesadelos anteriores. Ao tentar fugir, a forma grotesca ergueu-se e aqueles pedaços, como se fossem emendados, celeremente avançaram com mãos crispadas em direção à sua garganta, estrangulando-a impiedosamente. Horrorizada, escutou a narrativa dos seus crimes do ontem remoto e próximo, e foi cientificada de sua desencarnação, enquanto aquelas tenazes cruéis a asfixiavam demoradamente.


Tremiam-lhe todas as fibras e o coração arritmado parecia arrebentar-se.


Tinha a impressão de que logo sucumbiria. Ao aflorar à mente tal ideia, a mesma voz cavernosa lhe gritou: — Estás morta... Isto é a morte... É o fim... — e apontava-lhe dominador, os despojos em lama, naquele triste recinto.


Olhando, aparvalhada, em derredor, verificou que seus pés se encontravam atados às carnes a se desmancharem, enquanto forte liame cinzento a ligava àcabeça inerte, deitada no esquife sedoso.


Angústia indescritível tomou-a de inopino. Era uma morta-viva no inferno.


As lembranças das narrativas religiosas, a que se ligara na Terra, surgiram, tomando corpo, apresentando figuras demoníacas que a torturavam até àexaustão.


Os anos correram-lhe lentos e lúgubres, até quando, não saberia informar, foi conduzida ao nosso plano sob a piedade de Jesus Cristo.


Embora esclarecida sobre a própria enfermidade, tinha, através dos anos, longa estrada reparadora a percorrer.


Libertada da perturbação do desafeto, retornava psiquicamente, com frequência, às recordações plasmadas na retina da memória, e as crises, de quando em quando, recrudesciam.


O filho rejeitado, motivo indireto da sua desencarnação, era a mesma alma ferida de antes, que voltava ao seio materno para o reajustamento e a orientação. Com a reação descontrolada, entretanto, do seu caráter fraco, adiara injustificavelmente a reabilitação, cavando um abismo de lágrimas e sangue, enfermidade e dor para o futuro.


* * *

Oh! minha filha. No caminho da carne encontramos, a cada instante, edificações, aprimoramento e libertação, esperando por nós. Não desprezes a contribuição do sofrimento na tua marcha, em busca da Verdade. Serve-te da doação provacional com a mesma avidez e o reconhecimento com que o sedento recebe o copo d"água fria.


As provações, conforme ensinaram os Espíritos do Senhor ao preclaro Codificador, na resposta à pergunta 266, de O Livro dos Espíritos, são frutos de uma escolha. Quando o espírito "se desliga da matéria, cessa toda ilusão e outra passa a ser a sua maneira de pensar", preferindo, por isso mesmo, as mais dolorosas. Porque, comenta o sábio lionês: sob a influência das ideias carnais, o homem, na Terra, só vê das provas o lado penoso. Tal a razão de lhe parecer natural, sejam escolhidas as que, do seu ponto de vista, podem coexistir com os gozos materiais. Na vida espiritual, porém, compara esses gozos fugazes e grosseiros com a inalterável felicidade que é dado entre-ver, e desde logo nenhuma impressão mais lhe causam os passageiros sofrimentos terrenos".


Abençoada é, pois, a lágrima que rola no silêncio da noite, quando a renúncia e a esperança envolvem o coração!


Enquanto nos demoramos a querer o mundo a golpes de ambição desequilibrada, alongando efêmera ilusão da felicidade pela posse ou pelo círculo de afetos, retardamos a ocasião da ventura legítima.


Todos reclamam quando sofrem e muitos deblateram. As casas religiosas apinham-se de crentes que mais buscam a libertação dos problemas através de concessões indébitas, que propriamente solução aos problemas pelo trabalho sacrificial. Tornam-se negociantes da felicidade. Compram a paz com a prece rápida e o semblante falsamente pungido, enganando-se, positivamente.


As concessões do Céu são misericórdia de acréscimo em favor da nossa debilitada esperança.


A quantos sofrem na escalada evolutiva, digo: Bom ânimo! Muito mais vale sofrer do que fazer sofrer; resgatar para ser livre; evoluir para ajudar. Na vanguarda ou na retaguarda, há muitos amores contando conosco. Os que seguem à frente, amparam-nos e inspiram-nos; os que seguem atrás, rogam auxílio e confiam em nós.


Conquistemos, assim, para doar; ascendamos para socorrer: redimamonos para salvar.


Jesus e nós, nós e o próximo. O caminho é o mesmo para o oásis bonançoso. Sigamos!




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