Além da Morte

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CAPÍTULO 22

MEDIUNIDADE FRACASSADA

Naquela noite, demorei a conciliar o sono. O caso Matilde voltava-me à mente com frequência assustadora. Recordava-lhe as justificações e parecia escutar as palavras proferidas pelo médico. As expressões de advertência e despertamento, invigilância e simonia, atormentavam-me, escaldando-me o cérebro.


Que lhe teria ocorrido realmente? Quais práticas teriam sido aquelas aludidas pelo dr. Cléofas? A quais vampiros se referia a infeliz? Seriam visões imaginativas ou experiências atormentadas que vivera?


Na manhã seguinte, quando a irmã Zélia veio visitar-nos, não pude sopitar por mais tempo a ansiedade de esclarecimentos e atirei-me à sua fonte de experiência. As palavras amigas não se fizeram demorar.


— Otília, todos os nossos atos — começou a informar —, bem como nossos pensamentos, são vitalizantes de realidades que se materializam ou se consomem. Pensar e agir são forças que marcam o espírito. Por isso mesmo vivemos o que desejamos e sofremos o que geramos. Ninguém foge ao reajustamento. A carne é oportunidade; ninguém a malbaratará irresponsavelmente. "Matilde, ligada à nossa Colônia por compromissos múltiplos, rogou o ministério da mediunidade como um náufrago implora batei salvador. Não era portadora de méritos que liberassem a solicitação. Todavia, atendendo-se a interferência superior e considerando-se o valor da ocasião, foi-lhe outorgado o pedido, precedido de advertências, orientação e esclarecimento, permitindo-selhe um largo período de tempo para meditação acurada em torno do assunto. "Em breve tempo retornava à carne sob a proteção de devotados amigos espirituais que a conduziram a abençoado lar, onde foram previstas necessidades financeiras a fim de guardá-la dos perigos da futilidade, amparando-a com a dádiva da oportunidade de santificação no trabalho honesto, para a manutenção da vida física. "A infância correu-lhe em paz, entre os jogos da inocência e as esperanças do futuro. Embora assistida por almas abnegadas, carregava compromissos que necessitavam ser resgatados, permanecendo ligada a afeiçoados de outrora que foram conduzidos a sérios crimes, por sua irresponsabilidade. "Com a chegada da puberdade, enquanto o corpo se modelava ao amadurecer da mente que se dilatava no campo das recapitulações, a mediunidade desabrochou, abrindo-lhe as portas às interferências dos planos espirituais, começando para o espírito, sedento de renovação, as primeiras grandes lutas. "Os débitos do passado jungiam-na a obsessão secundária, sendo por isso, conduzida a veneranda Instituição Espírita de Salvador, onde deveria ter lugar a sua iniciação doutrinária. Ali, em contato com o trabalho da Caridade ativa aos desencarnados, dilataram-se-lhe as possibilidades psíquicas e, sob a égide do Senhor, em breve emprestava a faculdade sonambúlica ao serviço do esclarecimento dos sofredores de Além-Túmulo, concedendo, a alguns dos seus próprios algozes, ensejo de libertação. "Atendida pela dedicação de amigos devotados ao trabalho que o Espiritismo concede a todos, não lhe faltaram, desde o início, diretrizes, carinho e socorro. Na tribuna do esclarecimento, na mesa de comunhão com o Alto, nos livros de estudo, na conduta dos diretores, estavam as bases para uma vida feliz, dignificante. "Incessantemente, chegavam-lhe à mente orientação e roteiro, através das palavras inspiradoras dos 1nstrutores maiores. Convites à humildade e advertências à vigilância não eram regateados, chegando-se-lhe ao pensamento, com frequência... " A narradora fez uma pausa longa. Parecia aprofundar o raciocínio na justeza da Lei, contemplando apiedada a enferma que dormia profundamente. Com carinho na voz, prosseguiu:
—... apesar disso, com o desdobramento dos recursos mediúnicos, vieram os admiradores e, com eles, as tentações perigosas. "Muitos que cercavam a candidata à renovação traziam angustiantes problemas do coração, rogando-lhe amparo e consolo. Os consulentes sucediam-se e as horas que Matilde deveria dedicar ao trabalho do lar, na sua condição de mulher humilde, aplicou, inadvertidamente, atendendo a apelantes que, embora cientes da Imortalidade, se recusavam a assistir ao Culto no Templo Espírita, por circunstâncias óbvias. "Perdendo o patrimônio das horas de aquisição do alimento, no trabalho normal, viu-se constrangida, de um momento para outro, a aceitar doações e presentes que, embora filhos da amizade e da gratidão, conduziam veneno e ruína. " Aproveitando a nova pausa que se fizera naturalmente, inquiri, ansiosa:

— E os Benfeitores Espirituais não advertiram a médium, nessa hora tão significativa para sua vida?


— Evidentemente! — retrucou. — Todavia, Matilde negava-se a ouvi-los, fascinada que se encontrava pela leviandade. Recordava as necessidades até então experimentadas e justificava-se, retrucando, mentalmente. Repassava os problemas que lhe afligiam o ser, esquecida, certamente, de que a dor é mestra da vida, e murmurava: — Afinal de contas estou trabalhando mais do que nunca, em favor dos aflitos, e a doação que recebo fica muito aquém dos benefícios que faço. Que mal existe nisso? Não fazem o mesmo os sacerdotes de outras crenças, vivendo da fé, com o auxílio dos religiosos? — Olvidava, enlouquecida que se encontrava, que o Espiritismo não pode ser comparado às "outras crenças, porquanto é da Lei que "cada um coma o pão com o suor do seu rosto". E nesse sentido, o médium que não é um ser excepcional; sendo apenas um instrumento, nada pode receber, porque, quanto faz, procede sempre do Cristo e nunca dele mesmo. No entanto, as advertências continuavam, constantes, embora não ouvidas. "Por sua vez, os Espíritos maléficos se utilizavam dos consulentes desavisados e estes a envolviam nas suas solicitações, compensando todo o trabalho com moedas e auxílios adquiridos muitas vezes na desonestidade e no crime que procuravam com habilidade acobertar.


E mudando o rumo da conversação, a Benfeitora esclareceu:

— Um dos maiores inimigos dos médiuns está naqueles que buscam o intermediário, com problemas, procurando "consultas". Ninguém pode resolver problemas de ninguém, especialmente por processos mediúnicos. Quem realmente se encontre angustiado, busque a Doutrina Espírita e esta lhe dará os instrumentos de solução, não, porém, o médium, porquanto este é, quase sempre, uma alma aflita, também avassalada por problemas, no trabalho de renovação.


E voltando ao assunto básico da palestra, continuou:

— Atordoada, deslumbrava-se pelo alarido álacre das "novas e generosas afeições que lhe ofertavam o pão e a luz da felicidade na Terra". Era necessário, meditava, afastar-se do Núcleo de trabalhos coletivos, onde ela se perdia na multidão, sem serem reconhecidos os seus dotes mediúnicos, para fazer a sua CASA DE CARIDADE. Além disso, arrematava, o número de pessoas que a procuravam era tão grande, que já não dispunha de tempo para procurar o Centro Espírita.


Dando novo rumo à exposição, a irmã Zélia aproveitou o ensejo para esclarecer-me:

— Quando, minha filha, um médium abandona o Grupo de estudos e sob justificáveis motivos (nem sempre justos) edifica o "seu" Centro de atividades ou permanece "trabalhando" em casa, encontra-se em grave perigo. "O Centro Espírita é uma fortaleza, um abrigo. Quando lhe faltam os requisitos que seriam de desejar, o médium tem obrigação de cooperar ainda mais, entregando-se ao serviço mediúnico com devotamento e deixando aos Mentores, que esclarecem e norteiam os companheiros, a tarefa de orientarem os diretores para a ordem, dentro das bases de Kardec e as sublimes lições de Jesus Cristo. "Aliás, preocupa-nos constatar que os Espíritos infelizes se utilizam da invigilância de médiuns e doutrinadores, atualmente, dividindo, a seu belprazer, os corações, criando, cada dia, novos setores de trabalho, em grupos, quase todos, da divisão, da vaidade e da pretensão. "


— Foi o que aconteceu à médium, objeto de nossa conversação — retornei ao tema.


— Cheia de entusiasmo — continuou a narrativa — abriu "as portas do Lar à Caridade total", como costumava expressar-se, iludindo-se terrivelmente. A medida que os favores humanos a cercavam, inacessível se tornava às vozes dos Amigos Espirituais. "Cercada de entidades inoperantes e viciadas, com as quais afinava pelos pensamentos comuns, aturdida ante o volume de exigências da insaciável clientela sempre crescente, foi-se deixando, lentamente, conduzir pelas inspirações da desordem. Não desejando perder a posição granjeada de "pitonisa" moderna ou avalista de benefícios para almas, insensatamente se atirou a arrojadas aventuras no campo da Goécia, envolvendo-se nas malhas cruéis de perigosos labores que, por fim, a aniquilaram. "Naturalmente, muitas vezes, quando a mente lhe ardia de inquietação, orava e, na doçura da prece, recordava o velho doutrinador de palavra sedutora e conduta salutar, deixando-se empolgar pelas lágrimas de saudade. Desejaria recomeçar, tornar aos dias idos, à necessidade de outrora. Mas, como? Tinha amigos (ou senhores inclementes?) a quem não se poderia furtar. Notava, desde há muito, a ausência das forças vitalizantes e, através das telas do pensamento, parecia descobrir entre espessas sombras uma forma hedionda a dominar-lhe o campo psíquico, arrastando-a e cingindo-a, empurrando-a para a frente escabrosa, com tenazes vigorosas. "Torturada, exausta, adormecia sem forças de abandonar tudo e recomeçar, enquanto o tempo abençoava sua vida com oportunidades facilmente aproveitáveis. "No dia seguinte, entretanto, já cedo, antes de refazer-se da noite mal dormida, os semblantes sorridentes dos necessitados — falsos doentes e aflitos ociosos — buscavam-lhe o concurso em pactos terríveis com os espíritos da zombaria, da irresponsabilidade, do mal... "Passaram-se os anos. Aos quarenta janeiros, Matilde era, em aparência e vitalidade, uma anciã. Os cabelos alvejavam rapidamente, os olhos cobriam-se de amargura e o coração ralava-se na angústia. Tinha conforto para o corpo — a que preço? — e muitas dores na alma. "Alguns ainda a procuravam aflitamente. Desejavam lucros em negócios inescrupulosos, sorte em amores, regularização de compromissos e toda uma longa sorte de enganosas especulações. Outros, entretanto, maldiziam-na. O esquecimento de uns e a maledicência de outros cruciavam-na. "Lentamente a obsessão de outrora retomou-lhe os centros neuropsíquicos e, numa noite de horror, enlouquecida, ateou fogo às vestes rasgadas, sendo consumida pelas chamas, entre gargalhadas de pavor. Antes que qualquer recurso, por parte dos vizinhos, pudesse ser tentado, desencarnou, em circunstâncias apavorantes, lanceada no sentimento e fracassada na mediunidade. " Silenciou a amiga espiritual, e tomada de imensa piedade fitou a enferma que continuava a dormir com o semblante congestionado, como se fosse vítima de terríveis pesadelos.




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