Além da Morte

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CAPÍTULO 21

INVIGILANCIA E SIMONIA

Aguardei a hora anunciada, mantendo a mente atenta às recomendações dos Benfeitores quanto ao concurso da oração.


Quando soavam 20 horas, na noite plena, precedido pela irmã Zélia, Adrião e dois auxiliares, o dr. Cléofas deu entrada em nossa Enfermaria, aureolado da bondade que o caracterizava. O sorriso cândido brincava-lhe no rosto sereno, como no dia em que o conhecera, durante a minha aflição. O amor fraterno que se lhe derramava dos olhos inundava-nos de dúlcidas emoções, e indagações acotovelavam-se em meu espírito ainda não esclarecido.


Depois das saudações gentis, sentamo-nos em volta do leito, enquanto o venerável médico paulista, em breves e significativas palavras, rogava a inspiração e a assistência do Médico Divino.


Atendendo a um olhar expressivo do diretor do trabalho socorrista, o prestimoso passista aproximou-se da sofredora inquieta, em sono movimentado, chamando-a pausadamente, com voz firme, na qual se misturavam ternura e ordem, bondade e energia.


A doente descerrou as pálpebras com um olhar mortiço em que vagavam recordações longínquas e dolorosas.


— Não receie! — disse o magnetizador. — Confie em Jesus e tranquilizese. É necessário despertar para a verdade, minha irmã, embora nos custe o pesado serviço de carregar o fardo dos nossos desencantos e de nossa irresponsabilidade. Esteja certa da vitória final do Bem, sobre todas as coisas incertas e dúbias.


Ante o olhar espantado da doente, que raciocinava vagarosamente, prosseguiu o prestimoso trabalhador:

— Não tente resistir. Entregue-se ao Senhor que muito nos ama e sob cuja direção há oportunidade para mil recomeços. Liberte-se do passado culposo e volte ao presente. Ouça-me atenta!


E como a pobrezinha ensaiasse desespero e pranto, a branda e enérgica voz do dr. Cléofas animou-a:

— Tenha a certeza de que a Justiça não castiga impiedosamente embora não olvide quantos a desrespeitam. Aos infratores, a Lei propicia recursos para a quitação oportuna, não favorecendo quantos a queiram infringir. Estão com o seu espírito aflito os companheiros afeiçoados de ontem, aqueles mesmos que a conduziram à neblina da carne, amparando-a outra vez. "Escute e recorde... Vamos recuar no tempo, rompendo os elos que lhe detêm o pensamento nos últimos acontecimentos. Recue, Matilde... recue... não tema... " A sofredora foi-se deixando conduzir, lentamente, pela voz amiga, e em breve mantinha o semblante sereno, como se agradáveis recordações inesperadamente voltassem à retina da memória.


O dr. Cléofas aproximou-se do leito, e, tomando-lhe a destra umedecida de suor, concitou-a a um exame de atitudes que a levaram a tão rude fracasso, no mundo. E enquanto a magnetizada rememorava a existência, o compassivo orientador cientificou-nos:

— Invigilãncia! Eis o nome do "demônio" que venceu a candidata ao trabalho. E prosseguindo com sua habitual sabedoria, acrescento u — Matilde, após fracassos sucessivos, em reencarnações anteriores, retornou ao Orbe, decorridos dez anos de preparação em nossa Escola, depois de arrancada de dolorosas regiões onde tombara. "Fui informado, ainda, de que ao reencarnar conduzia consigo inestimável patrimônio de boas intenções, ansiosa pela sagrada dádiva do serviço ativo. "Eis, porém, como retorna: andrajosa e aflita, com o patrimônio despedaçado qual ocorreu ao filho imprudente e incauto da Parábola Evangélica. Deduz-se que a boa vontade que conduzia ao viajar não representou vitória. Só o esforço sacrificial aplicado no campo da luta ajuda o espírito a chegar à meta final, como único meio de crescimento.


Mal silenciou o lúcido Instrutor, a doente clamou em desespero:

— Que querem de mim? Quem ousa justiçar-me, apresentando-me como criminosa vulgar? Que fiz para tão cruéis padecimentos? Quem são os meus verdugos a punir-me antes de pronunciada a minha pena? Onde estão?


— Não somos seus algozes, mas seus irmãos que se encontram muito longe da posição de juízes ou jurados e que se apresentam vestidos somente com a toga da piedade e calçados com o entendimento fraterno — respondeu o dr. Cléofas, com bondade.


— Será este o Céu que me prometeram os Espíritos ou aqui é uma estação purgatorial, a Caminho de Celeste Morada? — indagou a enferma, com revolta.


— Matilde, minha irmã — retrucou o generoso esculápio —, o Céu vive em todos os lugares, conosco, quando o construímos na alma. Aqui não é o Céu, certamente, nem o Purgatório, nem o Inferno. É somente um posto de socorro hospitalar para recuperação de almas fracassadas na romagem do mundo, entre o Céu e a Terra...


— Alma fracassada? — inquiriu a albergada, com desespero, em pranto. — Eu, fracassada? Não! Nunca! Deveria ser recebida com bênçãos de alegria. Quais os recursos de que dispus na Terra? Não cumpri, porventura, com os meus deveres mediúnicos? Onde os arquivos de notas de trabalho?


—Na consciência do trabalhador, irmãzinha — elucidou o interlocutor. — Aqui não temos necessidade de anotações especiais, porquanto, cada candidato ao estágio recuperador transpira o aroma das atividades a que se entregou no plano físico. Os seus deveres mediúnicos ficaram à margem quando as relações sociais a convidaram ao parque ilusório dos triunfos mentirosos.


E dando nova inflexão à voz, continuou, convicto:

— Mediunidade é, antes de tudo, sacrifício e renúncia incessante. Os que triunfam no mundo, aqui retornam como vencidos pelo mundo. Só os que realizam a vitória sobre si mesmos são aqui reconhecidos como triunfadores. Os mártires da Humanidade, a exemplo do Senhor Jesus, foram vencidos pelo mundo, vencendo o mundo.


Não desejamos — prosseguiu o mensageirO da saúde — inquietar-me a alma com recordações penosas. Entretanto, é necessário recordar-lhe que mediunidade com Jesus é apostolado santificante, em nome da Caridade. "Mediunidade é serviço. Serviço sem preço, sem retribuição. "A prática mediúnica é singela. Veste-se de suaves cores sem complicações nem artifícios. A mediunidade não pertence ao médium. É patrimônio da vida imperecível, talento emprestado ao jornaleiro para aplicação devida, que o transformará em valor inestimável. "Não creia, filha, que através de práticas exóticas e vulgareS se tenha desincumbido da tarefa do auxílio fraterno. " E ante o silêncio da enferma, prosseguiu:

— Quando o interesse pessoal perturba a mente do medianeiro e a dignidade do sacerdócio cede lugar à bajulação e ao agrado, imprimindo nOVOS rumos às atividades cristãS, compromissos de difícil liberação envolvem o incauto. E o seu caso é daqueles a que se pode aplicar o nome de Simonia, cujas danosas consequências são ainda imprevisíveis.


A doente escutava, magnetizada. Exasperada, entretanto, pela retidão doutrinária do pensamento do interlocutor, gritou, desequilibrada:

— E o auxílio divino? Por que não me salvou na hora precisa? Onde o socorro dos Guias Espirituais, que me não advertiram com justas admoestações?


O esclarecido benfeitor, com humildade e compaixão, retrucou:

— Não lhe faltou jamais o concurso do Senhor, de mil modos. Muitas vezes, nós mesmos visitamos o seu reduto de trabalho e falamos em nome dos compromissos assumidos, à sua tela mental em desequilíbrio, seduzida pelas tentações da facilidade. No entanto, nossas instruções e aspirações eram recebidas com positivas dúvidas por você, então preocupada na solução de problemas triviais, de cônjuges e negócios, de amigos novos, portadores de bolsa polpuda que a visitavam...


— Todavia — afirmou com veemência e azedume, a doente —, trabalhei também de graça.


— Não lhe desconhecemos a bondade e esta não tem sido esquecida — respondeu, com zelo e carinho —. O nosso dever não é utilizar da vida para uso e gozo próprios. Temos deveres maiores...


E mudando de tom, falou, algo humorado:

— Até agora o Senhor nos serve paciente, sem exigência, bondosamente, de graça. Não se deixe mais envolver pela teimosia, escondendo-se na presunção. Medite, Matilde! Desejamos ajudá-la em nome do Compreensivo Médium de Deus, nosso modelo e guia.


Houve um profundo silêncio, cortado por uma voz harmoniosa que entoava o cântico à noite, essa benfeitora constante.


Acometida de súbito transe de loucura, a pobre mulher gritou apavorada:
— Sou uma desgraçada... Sim, sou um a louca

! Olhem os lobos! Socorro!... Os vampiros...


Foram aplicados novos recursos magnéticos por Adrião e os dois auxiliares que se encontravam postados ao lado do leito, atendendo, prestimosos, à irmã tresloucada.


— Por hoje não podemos fazer mais — explicou o médico —. Nossa irmã está com a mente muito abalada, recordando as impressões post-mortem vividas no Despenhadeiro do Horror. Aguardemos o tempo e entreguemo-la ao boníssimo coração da Mãe de Jesus, que tanto nos atende, e ofertemos-lhe o nosso carinho.


Oração balsamizante, proferida pela sensibilidade da irmã Zélia, coroou a reunião.




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