Além da Morte

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CAPÍTULO 18

O TEMPLO DE COMUNHÃO COM O ALTO

Filha do meu coração, enquanto me demorava na Terra, recordo-me de ter ouvido, em versos, o roteiro da felicidade, mais ou menos assim traçado: "essa felicidade que supomos...


toda arreada de dourados pomos, e nunca a pomos onde estamos E muita vez me perguntei se, em verdade a felicidade existia. Hoje, após a claridade da sepultura, posso afirmar-te que a felicidade existe e encontra-se ao alcance de quantos a queiram fruir. Sucede somente que, enquanto a buscamos fora de nós, não a encontramos, porque a felicidade está dentro de nós, onde raramente a buscamos.


Para o homem comum a felicidade resume-se no problema da posse. Possuir ou não, ser dono de algumas moedas ou escravo de alguns milhões, eis o que comumente se acredita como felicidade. Alguns anseiam pelo gozo que a posse pode comprar. Outros se tranquilizam com o que a posse já adquiriu. No entanto, tem-se constatado que não são felizes os que possuem a riqueza. A felicidade não é uma consequência do que se tem ou se deixa de ter. É uma construção íntima que depende da nossa atitude de encarar o que temos ou o que deixamos de ter. Muitas vezes, quem possui algo, torna-se dominado pelo que tem, assim como outros, que nada têm, se tornam escravos desse "nada ter".


Quando Jesus nos falou da "pureza de coração", ensinou-nos a adquirir tesouros inalienáveis do espírito, com os quais o homem é feliz.


Essa realidade, eu a compreendia agora. Embora as circunstâncias em que transcorrera minha existência física, podia, lentamente, ir adquirindo a felicidade tão sonhada, através do descobrimento da faculdade essencial da alma: o amor. Com o amor podemos aprender a ser puros de coração, exercitando essa pureza nas ações que o amor impõe.


Na Colônia, entre os demais sofredores, descobria o Amor de Jesus vestindo almas enregeladas pela indiferença, consolando corações revoltados, socorrendo espíritos desanimados. E um alento novo me animava iluminando minhas horas de meditação e prece.


A cordialidade dos companheiros ensinava-me a fraternidade, exercitando meu espírito no roteiro da compreensão. O cooperativismo era uma realidade vibrante, entre todos. A semelhança de abelhas operosas em colmeia disciplinada, todos trabalhavam jubilosos. O tempo transcorria cheio de esperança que se renovava.


No domingo seguinte, o amigo Adrião, em nome da Senhora Zélia, veio buscar-me para as orações em conjunto no Templo de comunhão com o Alto. Eram quase dezoito horas e o Sol derramava sua luz sobre a Terra, em poente dourado. A natureza emoldurava-se do ouro esvoaçante e púrpura, transformando-se numa tela de indescritível beleza.


Em breves minutos, fizemos o percurso entre o jardim de repouso e a praça Central, em cujo logradouro se erguia o Santuário. Esperava-me o casal Romero, que se tornava interessado no meu progresso espiritual e na adaptação à Colônia.


Guardava ansiedade crescente na medida que chegávamos ao recinto reservado às orações coletivas. Estava acostumada a frequentar redutos de orações e igrejas, na Terra; todavia, a oportunidade que se me apresentava era, em tudo, diferente dos ensejos antigos. Conhecia mais de perto o valor da prece e podia aquilatar os benefícios poderosos dela decorrentes. Além disso, a ocasião oferecia-me nova oportunidade de comunicação com grande número de Espíritos que, à minha semelhança, se encontravam em processo de reajustamento e aprendizado.


A visão do Templo, de linhas austeras, destacava-se dos demais pela alvura das paredes e beleza clássica. Quadrangular, era de grandes proporções, fazendo lembrar velhas construções gregas.


Suaves harmonias envolviam a tarde em crepúsculo.


Largo hall cercado de colunas alvinitentes abriase majestoso para o interior.


Misturando-nos aos grupos que avançavam pelas escadas brancas, nele penetramos e aos meus olhos ansiosos desdobrou-se a visão, imponente pela sua beleza, da Grande Casa de orações. Silêncio eloquente dominava o recinto, embora se encontrasse quase literalmente lotado. Agradável sensação de bem-estar se comunicava entre todos, infundindo profundo respeito.


Adrião, afeito ao culto da prece no austero recinto, conduziu-nos, com prestimosa bondade, às poltronas laterais, donde podíamos descortinar todo o panorama. Era, sem dúvida, um dos celestes departamentos reservados ao abastecimento das almas que granjearam méritos nas romagens sucessivas.


Enquanto assim eu pensava, o carinhoso amigo, que parecia comunicarse com os meus colóquios íntimos, interrompeu-me as conclusões apressadas e, sem afetação, no tom familiar que o caracterizava, esclareceu:

— Sem dúvida, minha irmã, todo lugar, em qualquer parte, reservado ao Apostolado do Bem, é um departamento da Mansão Celeste. Mesmo nas regiões mais primitivas e incultas, constatamos a augusta bondade de Nosso Pai, que se utiliza de todo o material para a assistência misericordiosa das almas. Aqui é a disciplina educadora, noutra parte é o recomeço coercitivo, mais longe são os sofrimentos em admoestações constantes. "Este recinto é um santuário reservado ao culto da prece, onde podemos comungar com as Esferas mais Elevadas; no entanto, é igualmente reduto de meditações, escola de aprendizagem indispensável, onde recolhemos material doutrinário para a devida utilização, oportunamente. "Como é sabido — continuou, pausadamente —, as telas da memória tudo recolhem, guardam, arquivam, selecionando ruídos e vibrações, para um dia devolver ao consciente, no devido lugar e na legítima acepção em que foi catalogado. Muitas vezes, padece-se de perda das lembranças. No entanto tal fato, de caráter facilmente compreensível, é consequência do mau uso da faculdade retentiva, em vidas pregressas. A memória exercitada na astúcia política dos interesses imediatistas ou utilizada para recordar o "lado mau" das pessoas e fatos, perde a sua função nobre e enseja o crescimento de males que virão atormentá-la, mais tarde. Apesar disso, nada se perde; e como o espírito somente evolui pela prática e pelo exercício das virtudes, em múltiplos embates, a memória guarda as aquisições valiosas para as horas próprias da ascensão. "Os apontamentos aqui recolhidos — continuou com naturalidade fascinante —, pela nossa ansiedade, incorporam-se ao patrimônio de que já podemos dispor, ampliando ou esclarecendo os conhecimentos adquiridos para engrandecimento dos nossos recursos. Muitas lições, aqui ventiladas, recordam nossas quedas e fracassos, gritando alto em nosso espírito o apelo para as repetições reparadoras. Entretanto, a nossa Colônia é ainda Casa de Recuperação — mais hospital de emergência — onde a vigilante caridade do Céu recolhe desequilibrados que, se deixados no orbe a pervagar, entrariam em afinidade com encarnados, sobrecarregando-os de dolorosos problemas, além dos que, por Lei purgativa, lhes cabem no reajuste de si mesmos...


E encerrando os esclarecimentos, oportunos aliás, ratificou os argumentos, informando:

— Constitui-nos bênção imerecida, cada encontro sob a abóbada acolhedora que ora nos agasalha.


Só então olhei para cima e notei, surpresa, que o teto era realmente abobadado, rompendo-se em linha circular quando próximo à tribuna reservada ao parlamentário, situada sobre estrado atendido por seis degraus. Podia-se então distinguir uma pérgula ornada de rosas trepadeiras que bebiam as dádivas da noite que se avizinhava.


Suave perfume brincava no ar, carregado por ventos brandos.


Nesse momento ouvimos o canto coral que preparava o ambiente para as orações. Ali se encontravam criaturas que pertenceram a várias correntes religiosas da Terra.


Quando as vozes se quedaram, verifiquei que a emoção que eu experimentava era generalizada, porquanto muitos choravam discretamente. A esse tempo, respeitável ancião, envolto em alva túnica, debruada de azul, recordando venerável sacerdote de épocas mui recuadas, assomou à tribuna, ante a vibração de simpatia geral.


— É o irmão Policarpo — murmurou Adrião, ao meu ouvido.


Com pausada voz, vibrante e melodiosa, começou o Instrutor:

— Irmãos, muito queridos, seja conosco a paz do Cristo a Quem temos a honra de amar e servir. "Entoemos nosso cântico de júbilos por nos encontrarmos na oficina redentora onde somos convidados a forjar, com sacrifícios renovados, a felicidade antes malbaratada, por imprevidência e precipitação. "Nossa condição atual de Espíritos desencarnados, embora a diversificação de rotulagem religiosa, não difere muito do que fomos: nem anjos, nem demônios, mas homens, almas em aprendizagem segura, apenas despojadas da carne. "A matéria que deixamos recentemente e que, durante algum tempo, foi motivo de queixas e imprecações, é o nosso abençoado campo de luta. Ninguém ascenderá sem o resgate com as sombras do passado, na Terra. Embora as ânsias de evoluir em alguns e a saudade cruciante em outros, a reencarnação é-nos ainda bendita oportunidade de evolução, através da qual espalharemos o cimento divino no solo das próprias cogitações para a construção eterna. "Por mais procuremos esquecer, ainda somos aquelas almas que ouviram as mensagens celestes pela boca da iniciação esotérica, na recuada Índia, no longínquo Egito, na remota Caldeia, na antiga florescente Israel, abandonando imediatamente as instruções recebidas, descendo ao seio dos grandes rios, distendendo fronteiras de guerras, saqueando e matando, em nome de mentirosas hegemonias políticas. "Emocionados junto aos venerandos mistagogos, fascinados pelas revelações de Brama aos richis, deslumbrados ao clamor das Vozes nas bocas de intérpretes da Mensagem, tudo esquecíamos na ânsia do poder e da dominação. E depois do Mártir Nazareno, quantos continuamos na mesma tormenta de antes? "Pelas sendas da cobiça ampliamos o campo de batalha, invadimos lares honrados, poluimos famílias inteiras, dizimamos cidades... Cobrindo o pó das sandálias de Átila, Alarico, Gengis Khan ou, antes deles Alexandre, César... procuramos matar a sede de dominação, com o sangue dos vencidos. E até o momento, vibram, em muitos de nós os monstros da animosidade, aguardando apenas o instante de crescerem, escravizarem, destruírem. "Não tenhamos a louca pressa da libertação impossível. É enganosa a felicidade solitária, enquanto vítimas e adversários de nossos Espíritos gemem em regiões desoladoras, imantados a ódios seculares ou atados a postes de dor inenarrável, suportando atrozes padecimentos, devastados pela ânsia da vindita, aos quais temos de oferecer o concurso da nossa renúncia salvadora. "A serenidade, que ora nos visita, representa uma trégua em nosso campo armamentista. E uma contribuição da Misericórdia de Acréscimo, do Conquistador Inconquistado, que nos possibilita o ensejo de aprender para reparar, proporcionando-nos os instrumentos do amor para o refazimento dos caminhos destroçados. Utilizemo-nos de tais graças e, no exercicio da meditação, esforcemo-nos para a realização mental de elevados ideais na matéria, a fim de que, ao soar o apelo de chamado ao retorno, não apresentemos, vazios de sacrifícios, os celeiros de nossas disposições. "Não aguardemos, porém, quando de partida para o terreno a recompor, comodidade sem privações nem provações, amparo do entendimento, cooperação da ternura, acompanhamento da felicidade, recompensas a que não podemos aspirar. "O lavrador que se dispõe à sementeira, primeiramente lavra o campo em fadigas incessantes, sofrendo, com as dores da terra, muitas dores. Depois, quando o solo está preparado, pensa em lançar sementes. "Assim também, não procuremoS lançar as se-mentes das nossas boas intenções, antes do trabalho de destocagem e remoção de obstáCuloS. Os primeiros tempos nunca são fáceis. As grandes noites não permitem, aos que nelas vivem, a possibilidade de agradecer os primeiros jatos de luz. Estes, antes de beneficiarem, cegam aqueles que estão desacOstumados à sua claridade, produzindo choque. "Os grandes ódios, cercados do cortejo de vinganças e revides, não podem receber o penso medicamentoso do entendimento e do amor, e submeter se rapidamente. "Reparação traduz participação. "Reparar o passado é sofrer-lhe as consequências. "Nossas vítimas ainda sofrem e, estando conosco no caminho, em cada gesto nosso recordarão das traições, hipocriSiaS, armadilhas doutrora, revidando, contra o nOSSO carinho, com a rispidez, com a cólera... Não estando capacitados para um perdão que lhes foi negado, quando o suplicaram, não nos podem amar, e vêem-nos como lobos rapaces, vestidos de mansos cordeiros. E, de certo modo, têm razão... "Deste, como de outros redutos de refazimento, diariamente partem viajoreS aos milhares, levando as marcas de seus compromissos com a vida incessante. Outros chegam desolados, carregando dores, sob indescritíveis flagelações. "Alguns seguem e tremem à frente da expectativa feliz. Outros retornam como náufragos recolhidos, em desespero, nos escolhos da insensatez, no mar proceloso dos desequilíbrios. Vários, logo se encontram religados ao fardo material, desrespeitam os laços de santificante compreensão, reatando liames escravizantes, em afeições à base da ilicitude, retornando aos braços fantásticos do Moloc destruidor, junto de quem se comprazem, loucos. Afinamse por invigilância a antigas afeições de desastrosos avatares, seduzidos pelo contato com entidades malevolentes e irresponsáveis, para despertarem, mais tarde, entre a insânia e a selvageria, adiando, indefinidamente, o processo de sublimação. Atravessam, então, acerbas expiações, acolitados pela lixívia do tempo, que através de milênios lhes reparam as arestas, dispondo-os novamente para os recomeços, exatamente nas mesmas condições e circunstâncias em que fracassaram. E os insucessos se repetem... "Ninguém burlará a Lei. Ela segue vibrante, co-fosco, no afã crescente de ajudar-nos, mas também de fazer justiça. Alma alguma será atendida em circunstâncias especiais. "Não existem duas estradas: a de escabrosas veredas para uns, e outra alcatifada de conforto para outros. Todos seguirão o mesmo rumo, construindo o futuro com as atuações do presente. Não há para onde recuar. "Quando desejaremos, por fim, librar acima das vicissitudes? Só Deus o sabe! "De Jesus, nosso Modelo, temos advertências gritantes, no seu Testamento de luminosos alvitres. "Guardamos nos refolhos dalma o exemplo que marcou a História, beneficiados que ainda somos pelo calor da Sua luz e pela compaixão infatigável do Seu coração.


Ouvimos ainda a Sua voz, de mil modos, no coração e na mente, e no entanto permanecemos aguardando, cansados aparentemente, à espera de que Ele volte a morrer para nos animarmos ao trabalho e à ascensão. Será, então, crível que o Mestre desça novamente aos homens, apresentando-Se com a indumentária física, para refazer a via do Matadouro? "Não, meus irmãos, não é necessário! "Recordemos que o Senhor jamais se apartou de nós. Seu ensinamento é luz em nosso caminho, aumentando-nos as responsabilidades, principalmente quando esposamos qualquer rota de fé, nos diversos departamentos do Cristianismo. "A Mensagem do Cristo permanece repetindo, incessantemente: "Buscai e achareis... " "Que mais desejamos? A Boa Nova não é apenas uma notícia a mais na História Universal. E da História, todavia, muito maior do que a História dos tempos. "Além de notícia-lição de despertamento é, igualmente, via libertadora. E nisso difere de todas as notícias chegadas ao mundo. Concita o homem a erguer-se, sacudir o pó do comodismo, reunir ferramentas para a realização e partir resoluto. "Antes da vinda do Mestre, acreditávamos no arrependimento inoperante e na compra dos favores celestes mediante oferendas e sacrifícios que atendiam apenas a sede de espíritos infelizes que se compraziam com a ignorância e a estimulavam. Com Jesus, todavia, aprendemos que o sacrifício "que mais agrada a Deus" e o da própria imolação pela renúncia pessoal, e da luta iluminativa, em favor de todos. "A busca referida pelo Evangelho é veemente convite ao trabalho e não à procura ociosa. "Quem se erga resolutamente, enfrente os fantasmas que giram em torno de seus ideais e vença os óbices, terá encontro marcado. "Guardemos, assim, no espírito ansioso, o desejo de buscar a Vida Superior, vendendo as valetas do "eu" enfermiço, e, certamente, a Vida Maior será encontrada, favorecendo-nos com a paz dos justos e a felicidade dos eleitos. " Calou-se o ancião venerando. Todos guardamos solenemente as preciosas palavras no espírito. Sentia-se a geral preocupação, no ar, misturada àquele senso de responsabilidade que é apanágio das almas em despertamento, sob o aguilhão da dor.


Alguns, como eu, emocionados, chorávamos, recordando, talvez, a condição de náufragos ali acolhidos.


Em seguida, jovem pucela ergueu-se e melodiosa harmonia encheu o recinto de vibrações dulçurosas. Com surpresa, reconheci Susana.


O venerando velhinho proferiu a prece que lhe brotava dos lábios e do coração, como lírios da terra fértil das emoções e desatavam, em cascatas, vibrações renovadoras.


Flores em forma de taças, transparentes e coloridas, voejavam no ar, como borboletas, caindo abundantes. Ao mais leve contato, desmanchavam-se suavemente, penetrando nos poros.


No alto brilhavam as estrelas como olhos de anjos engastados na cúpula do firmamento.


Estava encerrada a reunião.


Abandonamos o abençoado auditório e, silenciosos, retornamos ao seio dos nossos agrupamentos.




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