Além da Morte

Versão para cópia
CAPÍTULO 14

EM MEDITAÇÃO

As palavras do dr. Cléofas conduziram o meu pensamento a um mundo de novas indagações. Pouco habituada aos exercícios mentais, sentia dificuldades em ligar expressões esclarecedoras a acontecimentos ilustrativos para tirar os mais proveitosos ensinamentos. Por essa razão, sentia-me perturbar, embora a clareza com que as ideias me foram apresentadas.


Que magnífico tema esse — Livre arbítrio e Determinismo.


Raramente procuramos examinar os fatos que nos sucedem na vida, descobrindo neles as origens do livre arbítrio ou do determinismo. A grande maioria dos crentes deixa-se conduzir pela sucessão natural dos acontecimentos, sem aprofundar-se nas causas determinantes, em acuradas e úteis observações. Diante de uma tragédia, duas atitudes comumente assaltam os homens: revolta injustificada ou resignação desvitalizada, que traduzem, em ambos os casos, pobreza do conhecimento racional da Fé. Somente poucos indivíduos buscam apreender a razão basilar dos acontecimentos para, esclarecidos, dirimirem as consequências, preparando-se para a aceitação natural do fato.


Crença, compreendia-o agora, não significa, de maneira alguma, aceitação passiva dos postulados doutrinários de uma denominação religiosa. Antes de tudo, crer representa conhecer para crescer através do conhecimento. A crença é um meio de realização objetiva nos domínios da alma. Dessa forma, a fé éuma lanterna inextinguível clareando a senda evolutiva do homem através do discernimento lógico, no intrincado campo dos problemas subjetivos, materializando-se na conduta social. E assim podia, melhor que antes, averiguar quanto é certa a ponderação que se exige no conhecimento religioso, como sói acontecer no Espiritismo.


Quantas vezes, interrogava-me, deixara-me entusiasmar pelas pregações doutrinárias na Seara Evangélica, comovendo-me até às lágrimas, sem o cuidado, porém, de, ao recolher-me ao lar, aprofundar a mente nas análises dos conceitos expendidos pelo dissertador, como frutos da inspiração divina, aplicando-os na vida diária, em favor do porvir? Vezes outras, nos dias destinados ao intercâmbio medianímico, por momentos rápidos mergulhava o pensamento e o coração na leitura da Boa Nova, procurando, nos deveres da higiene preparar o corpo para o sono, sem outros cuidados para com a alma!


A mesa mediúnica, quando deveria cooperar com recursos valiosos da prece e da concentração, mantinha apenas a atitude da face, sem o devido respeito à dor dos desencarnados, esmagados sob crudelíssimas cruzes. E quantas vezes me deixara conduzir, invigilante, tomada pela impiedade, acreditando estar diante de artifícios dos médiuns ou de enfermidades características de maníacos e sugestionados? Terminado o intercâmbio, só excepcionalmente conduzia comigo as impressões da noite de socorro para melhor e mais acurado exame.


Diante dos BenfeitoreS Espirituais, à hora das Instruções PsicofônicaS com que se encerravam as reuniões, a minha atitude não era muito diversa da postura que mantinha ao início assistencial. E, de incidência em reincidência, habituara-me ao serviço religioso com a pontualidade e com postura de semblante, distante, porém, do interesse e da compenetração que o Culto da Prece, convite ao homem para o encontro consigo próprio, nos impunha a todos. Tal fenômeno, entretanto, lamentaVelmente ainda ocorre em muitas células espiritiStaS, exigindo dos seus dirigentes os mais reiteradoS esforços para a manutenção do nível necessário à coleta dos valores legítimos de produtividade intercambial e trabalho. Daí a necessidade constante de estudo com meditação e da sua natural aplicação diária na vida prática, para que o formalismo, tão comum em outras escolas de fé, não se amerceie das almas que se devem esclarecer, tornando-as responsáveis em matéria religiosa.


Recordava as palavras do esculápio e emocionava-me. De fato, era fácil constatar só há realmente destinação para o Bem, para a produtividade útil, consoante as lições serenas e sábias da vida.


O mineral, o vegetal, o animal, o homem, o anjo, todos caminhamos pelas rotas sem termo, para um único fim: a perfeição!


O primeiro sonha, o segundo sente, o animal sofre, o homem conquista e cresce, e o anjo sublima-se.


Com a aquisição do livre arbítrio, cada um escolhe o roteiro a perlustrar. As ações criam consequências que, por sua vez, geram efeitos, mais ou menos graves, apressando, estagiando ou retardando a marcha.


Nos reinos primários da forma, a lei manifesta-se sábia e paciente, usando as dádivas do tempo em retortas e laboratórios transformistas da erraticidade. Nas fases inferiores da vida, o princípio anímico caminha com segurança rumo às escalas mais elevadas. Posteriormente, o princípio espiritual que despertou do sono letárgico do mineral, descortinou os horizontes da sensibilidade vegetal, desenvolveu o instinto animal, penetra nos domínios da mente, dispondo da possibilidade, concessão-divina, para encetar o avanço pelos trilhos da sabedoria, de que, em grau infinitamente pequeno, já é possuidor. Essa dádiva pode ser recebida como um empréstimo da misericórdia paternal de Deus; não é uma aquisição da alma, como muitos pensam. Do seu uso depende o futuro da sua felicidade pelo tempo e pelo espaço. Quantos malbaratem essa preciosa bênção em jogos ilusórios, retornam ao caminho dos recomeços, até à hora, em que se resolvam despertar para o Ilimitado Amor.


Eu concluía, assim, que ninguém deve candidatar-se ao Reino de Deus, se não deseja buscá-lo no próprio mundo íntimo. Por essa razão, afirmou Jesus, é que esse Reino "não vem com aparências exteriores".


Bendita Doutrina é o Espiritismo, que derrama luzes em abundância. Ditosos quantos podem, enquanto na vida física, conhecer as láureaS do Além que lhes estão reservadas após o labor e as canseiras do sofrimento!


Minha filha; Espiritismo significa oferenda preciosa do Excelso Pai, atendendo às rogativaS de Jesus Cristo, para a felicidade dos romeiros do mundo. Aproveitar tão alta doação é carregar um fardo, certamente; no entanto, um precioSO fardo, sacrificando tudo, pela incomum felicidade de aproveitar o ensejo que, talvez, não se renove em tão próximo tempo.


Pouco importam as dificuldadeS em torno do ideal espiritista. É imprescindível lutar e lutar muito! O homem, iluminado pela luz clara da Mensagem Kardequiana, pode ser ridicularizado, nunca porém ridículo; humilhado, porém, jamais humilhante; perseguido sem, porém, ser perseguidor abandonado, maltratado, sem jamais abandonar a fé generosa e pura que o aquece, conduz e anima.


No século da fotografia e das imagens em movimento, do telefone e da telegrafia, da máquina de vapor, do aeróstato, do submarino... das profecias de Maxwell e da obra gloriosa de Zamenhof, o Espiritismo pode ser considerado como a maior conquista do homem no campo da Filosofia, equiparando-se, pela sua harmoniosa amplitude, às Ciências vigentes e se tornando a Religião essencial.


Com a inteligência esclarecida, podendo examinar melhor os fatos e o seu encadeamento, quase retornei ao desânimo. Mas, antes que mergulhasse nas suas águas turvas, evoquei as palavras ouvidas nesses breves dias que me distanciavam da carne e procurei manter o equilíbrio necessário para o aproveitamento das horas.


Jesus é o mesmo: ontem, hoje e amanhã — parecia escutar alguém murmurando aos meus ouvidos. E amparada nessa certeza consoladora, adormeci, confiante.




Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 14.
Para visualizar o capítulo 14 completo, clique no botão abaixo:

Ver 14 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?