Estamos no Além

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Capítulo XIX

Humberto Furlan

Antes de completar três meses de desencarnação do jovem Humberto Furlan, de 16 anos de idade, seus pais tiveram a felicidade de receber, em Uberaba, notícias redigidas pelo próprio filho, portadoras de muito conforto, esclarecimento e paz para toda a família.

A partida inesperada de Humberto para o Grande Além, a 21 de outubro de 1981, em sua própria residência, provocada por enfarte do miocárdio, havia traumatizado, compreensivelmente, seus carinhosos progenitores. Agora, porém, o casal Maria Aparecida Faggion Furlan e Hermenegildo Furlan — residente em Ribeirão Preto, SP, no Jardim Mosteiro, à Rua Miranda, 100 — “sente nova motivação para a vida”, passando a frequentar com assiduidade reuniões doutrinárias, encontrando no Espiritismo uma fonte de luz, a sustentá-los, sob as bênçãos de Jesus, nas lutas planetárias.


MENSAGEM


“Deus nos dará outras esperanças e outras alegrias. Aguardemos, trabalhando para o bem.”

Querida mãezinha Cida, querido papai Hermenegildo e querido Antônio Marcos.

Sou trazido até aqui pela vovó Maria Bortoleto para oferecer-lhes algumas notícias. E começo no conselho da vovó, pedindo a Jesus nos proteja a todos.

Estou surpreendido com tanta gente na sala para a qual me compete escrever na janela que estou ocupando. É um momento difícil, mas entendo que sou conduzido até aqui a fim de pedir-lhes que me auxiliem.

De outubro para cá tenho partilhado as lágrimas de casa com muita vontade de me sentir forte, para enfrentar a minha situação.

Querida mamãe Aparecida, estou vivo. Sou eu mesmo quem escreve, seu filho. Eu queria ser um lenço mágico que lhe enxugasse os olhos e lhe reanimasse o coração, mas como fazer isso, se as lágrimas de minha querida mãe, de meu pai e de meus irmãos provocam as minhas, transformando-me o íntimo numa nuvem que não cessa de se desfazer em gotas de pranto, com que todos vamos marcando o caminho da saudade que Deus nos deu a trilhar?

Ajudem-me. Aceitem o acontecido. Desde muito tempo, eu sentia o coração à maneira de um relógio que estivesse a se despregar da parede interna de meus sentimentos aprisionados no corpo… Seria imprudência comentar as dúvidas que me assaltavam. Tudo por dentro de mim afirmava que o meu tempo seria curto; no entanto, por que haveria eu de ser o dono da verdade para desarranjar a vida das pessoas que mais amo? Aguentei com firmeza aquelas batidas precipitadas na cavidade do peito e rezava. Procurei ler páginas que me preparassem para qualquer eventualidade, conversava com amigos, referindo-me aos assuntos da morte, como se não fosse eu mesmo o interessado em aprender o que se passava no Mais Além da rotina terrestre… Muitas vezes, quando estudando sozinho, fitava o ambiente querido e feliz de nossa casa e me observava possuído pela secreta intuição de que eu era alguém a despedir-me…

Mãezinha Aparecida, digo tudo isso para reconfortá-los. Quando notei que a música do coração estava articulando a nota final, o que me aconteceu quando a sós, entreguei-me à oração que não pude terminar, porque a parada no motor como que me apagava os raciocínios na cabeça. Era um sono compulsivo a que não consegui desobedecer. Nada mais vi, embora sonhasse que a família me abençoava com preces e lágrimas, flores e votos de paz com Deus. Depois tive a ideia de que me despenquei daquele repouso de limiar, para um compartimento mais profundo de mim mesmo e não tive qualquer impressão que me afetasse a memória.

Quando despertei, me achava cercado pela bondade de duas senhoras que me pareceram duas mães que eu não conhecia. Na suposição de que me achava em tratamento de recuperação, guardando ainda muitas falhas na lembrança, por isso perguntei pelos meus. Foi a vovó Maria quem me respondeu se não a reconhecia, pois nos amava tanto… Deu-se-me a conhecer ao ânimo combalido e me disse o seu nome querido, Maria Bortoleto Faggion, informando-me que a companheira era a minha outra avó, a vovó Luíza, e então, compreendendo tudo o que me queriam dizer com a delicadeza de quem não quer incomodar, reconheci que o corpo juvenil havia ficado a distância. Posso dizer-lhes que chorei, porque, embora alguma compreensão me beneficiasse, eu me sentia na condição de uma planta arrancada ao chão que era meu…

Talvez porque a emoção me arrastasse a sentimentos profundos, sem que eu percebesse o processo de minhas novas observações a distância, vi a mãezinha chorando, o papai Hermenegildo acabrunhado, o irmão pensativo e a tristeza da nossa Luíza Aparecida, dominada pelo sofrimento que em mim passou a ser um martírio sem tamanho.

Não preciso alongar-me nestes apontamentos; já sabem que estamos aceitando os desígnios de Deus, com o auxílio do tempo. A vovó Maria me recomenda pedir-lhes a todos que me auxiliem. Preciso refazer-me na própria segurança. Agradeço à querida mamãe todas as preces e votos por minha paz, e desejo a toda a nossa querida família essas mesmas bênçãos.

Não desapareci. Isso seria impossível. Se a semente não morre e sim se transforma, se a lâmpada apagada em vista de algum estrago pode ser substituída para que a luz reapareça, por que motivo a chamada desencarnação haveria de ser o fim da pessoa criada por Deus?

Peço aos queridos pais e aos irmãos queridos que nos consolemos. Deus nos dará outras esperanças e outras alegrias. Aguardemos, trabalhando para o bem.

Não posso estender-me neste comunicado assim longo. Quero, porém, comunicar à mãezinha que o Monsenhor Siqueira tem me auxiliado muito e que as orações dos meus por mim têm me trazido muitas bênçãos.

Querido papai Hermenegildo, querida mamãe e querido irmão, desculpem-me se aqui termino. Muitas lembranças à querida irmã Luíza Aparecida, e que os pais sempre lembrados e o irmão sempre amigo guardem a certeza de que continuam vivendo em meu coração.

Que Deus nos abençoe.


NOTAS E IDENTIFICAÇÕES


1 — Psicografia de Francisco C. Xavier, em reunião pública do GEP, Uberaba, 8/1/1982.


2 — Antônio Marcos — Irmão, presente à reunião.


3 — Vovó Maria Bortoleto — Maria Bortoleto Faggion, bisavó materna, falecida em Rib. Preto, a 8/2/1980.


4 — Procurei ler páginas que me preparasse para qualquer eventualidade — Seus pais confirmam este interesse do filho por livros espíritas, embora a família fosse católica.


5 — Vovó Luíza — Luíza Fachin Furlan, avó paterna, falecida em Rib. Preto, a 8/12/1952.


6 — Luíza Aparecida — Irmã.


7 — Monsenhor Siqueira — Identificado no .


8 — Humberto Furlan — Nasceu em Rib. Preto, aos 26/04/1965. Cursava, com bom aproveitamento, a 2ª série colegial.



Humberto Furlan. n
Francisco Cândido Xavier


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