Esperança e Vida

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Capítulo XXII

Mestre e aprendiz

— Senhor, não seria justo apressar a vitória do Reino Divino entre as criaturas? O contato com a Boa-Nova aumenta-nos a sensibilidade e a visão espiritual… Agora, sinto no mundo verdadeiro vale de treva, cujos males precisamos sanar. Tenho visto romanos enfurecidos contra mulheres e crianças, fariseus que exploram o minguado dinheiro das viúvas, sacerdotes que se tornam comerciantes indiretos no Templo e levitas desapiedados ocultando sentimentos perversos… Por que não criar uma disciplina organizada para o nosso trabalho? E por que não invocar a proteção do Sinédrio para esse fim? Se a beleza da Boa-Nova estivesse garantida pela autoridade de Jerusalém…

Era Judas de Kerioth, em casa de Simão, dirigindo-se ao Mestre, visivelmente preocupado.

Jesus esboçou leve sorriso e ponderou:

— Sim, Judas, a vitória do Reino do Céu seria, no menor espaço de tempo, a fórmula ideal para o nosso objetivo na Terra; entretanto, não nos cabe desprezar a lei do amor e a promessa da esperança…

O discípulo sorriu, irônico, e observou:

— Amor e esperança constituem efetivamente dois astros brilhantes no Alto, mas estamos no chão duro, com refeições a horas certas e imperiosas necessidades. Não seria razoável solucionar, desse modo, certos problemas de ordem regimentar nos assuntos do espírito?

O Mestre, sem surpresa, pediu-lhe a apresentação de ideias mais amplas acerca de quanto pretendia, e Judas, desenrolando caprichoso pergaminho, acentuo, satisfeito:

— Tenho um programa que poderíamos talvez acrescentar aos antigos mandamentos. Creio que transformá-lo em lei rígida para os crentes novos será benefício dos mais substanciais, a fim de corrigirmos imperfeições e defeitos do nosso movimento.

Atendendo a silencioso sinal do Messias, o apóstolo passou à leitura da pequena documentação:

— Os seguidores do Evangelho serão constrangidos à obediência absoluta diante da Lei Antiga e dos Profetas. E serão obrigados, sob pena de condenação, a dispor dos próprios bens, em favor da comunidade, a prestar juramento de pobreza e simplicidade, a viver na castidade perfeita, a servir sem descanso nas obras do bem, a fugir de todas as superficialidades do mundo, a praticar a verdade, em todas as circunstâncias da vida, a dividir o pão e o vestuário com o vizinho em penúria, a perdoar sem exceção de faltas ou pessoas, a atender passivamente aos chefes espirituais e materiais das ideias novas, a se separarem dos parentes, sem lamentações, para servirem à fé, no lugar que se lhes indicar, e a crerem no que se lhes impuser, sem indagação de qualquer natureza.

Depois de pequeno intervalo, o discípulo acrescentou:

— Os faltosos e recalcitrantes serão punidos com advertências e chibatadas, cárcere e expulsão, multa e banimento, conforme o critério da autoridade administrativa. Para isso, estabeleceremos um corpo de fiscais e cobradores, a fim de que todas as atividades de inteligência se realizem com segurança.

Porque o Mestre silenciasse, Judas, irrequieto, voltou à palavra, indagando:

— Senhor, que me diz do projeto?

— Excetuando alguns pontos que ferem a dignidade humana — respondeu Jesus, serenamente — o programa apresenta conteúdo valioso e orientador.

De olhos inflamados na cobiça do mando, o discípulo perguntou:

— Mestre, quando então executaremos as novas ordens? Não seria importante começar desde já?

O Cristo, na expressão melancólica que muitas vezes lhe era característica, deixou que alguns momentos se escoassem vagarosos, sobre a inquirição do aprendiz, e falou afinal:

— Judas, pretendes criar uma disciplina que constranja nossos afeiçoados e companheiros à obediência, à humildade, à castidade, à cooperação, à pobreza e à caridade obrigatórias, mas poderás afirmar, de acordo com a reta consciência, que semelhantes virtudes estejam resplandecendo em teu coração?

Amarelo no desapontamento que lhe assomou ao espírito, o interpelado balbuciou:

— É verdade, Senhor… ainda estou longe do padrão recomendável…

Jesus afagou-o e ponderou:

— Então, por que exigir dos outros o que não lhes podemos dar? Não será o mesmo que pedir frutos à terra que ainda não recebeu a sementeira?

E, depois de curta pausa, acentuou:

— As ovelhas doentes ou infelizes merecem mais cuidado por parte daquele que dirige o rebanho.

Nesse instante, Judas se queixou de grande perturbação nos ouvidos e retirou-se, de repente, alegando estar na hora inadiável de se medicar.


(.Humberto de Campos)


(Psicografia de Francisco C. Xavier)



Irmão X
Francisco Cândido Xavier


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