O Céu e o Inferno

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Capítulo II

Espíritos Felizes

Segunda Parte • Exemplos • O DOUTOR DEMEURE • Falecido em Albi (Tarn) a 25 de janeiro de 1865.
A seguinte comunicação foi obtida em Montauban, aos 26 de janeiro, dia seguinte ao da sua desencarnação, num Centro de amigos espíritas que havia nessa cidade."Antoine Demeure. Não morri para vós, meus amigos, porém para aqueles que não conhecem a santa doutrina que reúne os que se amaram e tiveram na Terra os mesmos pensamentos, os mesmos sentimentos de amor e caridade. Sou feliz e mais feliz do que esperava, gozando de uma lucidez rara entre os Espíritos, relativamente ao tempo da minha desencarnação. "Revesti-vos de coragem, bons amigos, que eu estarei multas vezes junto de vós, instruindo-vos em muitas coisas que ignoramos quando presos à matéria, espesso véu que é de tantas magnificências, de tantos gozos. Orai pelos que estão privados dessa felicidade, pois eles não sabem o mal que fazem a si mesmos. "Hoje não me prolongarei, dizendo-vos somente que me não sinto de todo estranho neste mundo dos invisíveis, parecendo-me até que sempre o habitei. Aqui sou feliz em vendo os meus amigos, comunicando-me com eles sempre que o desejo. "Não choreis, meus amigos, porque me faríeis lamentar o haver-vos conhecido. Deixai correr o tempo, e Deus vos encaminhará para esta mansão, onde nos devemos todos reunir finalmente. Boa-noite, amigos; que Deus vos conforte, ficando eu ao vosso lado. Demeure." Nota - Ainda de uma carta de Montauban extraímos a narrativa seguinte: "Tínhamos ocultado à Sra. G..., médium sonambúlico e vidente muito lúcido - a morte do Dr. Demeure, em atenção à sua extrema sensibilidade. Sem dúvida, secundando o nosso intuito, o bom médico também evitou manifestar-se-lhe. A 10 de fevereiro reunimo-nos a convite dos guias, que diziam querer aliviar a Sra. G... de uma luxação, em conseqüência da qual muito sofria desde a véspera. Nada mais sabíamos, e longe estávamos de pensar na surpresa que nos aguardava. Logo que essa senhora se mediunizou, começou a soltar gritos lancinantes, mostrando o pé. Eis o que se passava: "A Sra. G... viaum Espírito curvado a seus pés com a fisionomia oculta, a fazer-lhe fricções e massagens, exercendo de vez em quando uma tração longitudinal sobre a parte luxada, exatamente como faria qualquer médico. A operação era tão dolorosa, que a paciente vociferava empregando movimentos desordenados. "No entanto, a crise não foi longa e ao fim de uns dez minutos desapareciam a inflamação e os traços da luxação, retomando o pé a sua aparência normal. A Sra. G... estava curada! O Espírito continuava incógnito para o médium, persistindo em não lhe revelar as feições, quando, por mostrar desejos de retirar-se, a doente, que momentos antes não daria um passo, se atira de um salto ao centro do quarto para apertar a mão do seu médico espiritual. Ainda desta feita, o Espírito voltou o rosto, deixando a mão na do médium. Nesse momento a Sra. G... dá um grito e cai desfalecida no soalho, vindo de reconhecer o Dr. Demeure no Espírito que a operava. Durante a síncope ela recebia cuidados de muitos Espíritos afeiçoados. "Por fim, reapareceu a lucidez sonambúlica e ela conversou com muitos desses Espíritos, trocando-se felicitações, sobretudo com o Dr. Demeure, que lhe correspondia aos testemunhos de afeição penetrando-a de fluidos reparadores. "Não é uma tal cena surpreendentemente dramática, considerando-se as personagens como que representando papéis da vida humana? Não será uma prova, entre mil outras, de que os Espíritos são seres efetivamente reais agindo como se estivessem na Terra? Somos felizes por ver, no amigo Espírito, o mesmo coração bondoso do médico solícito e abnegado que foi neste mundo. Ele fora durante a vida o médico do médium, e, conhecendo a sua extrema sensibilidade, poupou-o tanto quanto se fora seu próprio filho. Esta prova de identidade, conferida aos que o Espírito prezava, é admirável e de molde a fazer encarar a vida futura por um prisma mais consolador."NOTA - A situação espiritual do Dr. Demeure é justamente a que se podia antever na sua vida tão digna quão utilmente empregada. Mas, dessas comunicações, resulta ainda um outro fato não menos instrutivo - o da atividade que ele emprega quase imediatamente após a morte, no sentido de tornar-se prestimoso. Por sua alta inteligência e qualidades morais, ele - pertence à categoria dos Espíritos muito adiantados. A sua felicidade não é, porém, a da inação. Ainda há poucos dias tratava doentes como médico, e mal apenas se desprende da matéria, ei-lo a tratá-los como Espírito. Dirão certas pessoas que nada se adianta, então, com a permanência no outro mundo, uma vez que se não goza ali de repouso. É o caso de lhes perguntarmos se é nada o não termos mais cuidados, necessidades, moléstias; podermos livre e sem fadigas percorrer o Espaço com a rapidez do pensamento, ver os que nos são sempre caros e a toda hora, por mais distantes que de nós se achem! E acrescentaremos: Quando no outro mundo, nada vos forçará a vontade; poderíeis ficar em beatifica ociosidade e pelo tempo que vos aprouvesse, mas ficai certos de que esse repouso egoísta depressa vos enfadaria, e seríeis os primeiros a solicitar qualquer ocupação. Então se vos diria que se a ociosidade vos enfada, deveis vós mesmos procurar algo fazer, visto não escassearem ocasiões de ser útil, quer no mundo dos Espíritos, quer no dos homens. E assim é que a atividade espiritual deixa de ser uma obrigação para tornar-se uma necessidade, um prazer relativo às tendências e aptidões, escolhidos de preferência os misteres mais propícios ao adiantamento de cada um.

Demeure


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