Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

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CAPÍTULO 9

"VEM O PRÍNCIPE DESTE MUNDO, MAS SOBRE MIM NÃO TEM PODER ALGUM, PORQUE EU VENCI O MUNDO"

Vai, através de todo o Evangelho e dos livros sacros em geral, a constante afirmação de que este mundo está sob o poder do "príncipe das trevas", inimigo de Deus e dos seus enviados. E o próprio "príncipe das trevas", que, no deserto, aparece a Jesus como sendo o "tentador", confirma esta verdade, dizendo: "Eu te darei todos os reinos do mundo e a sua glória, porque são meus e eu os dou a quem eu quero – se te prostrares em terra e me adorares. " O mundo está posto "no maligno".


Esse príncipe do mundo é um poder de grande inteligência, dono de forças mágicas, em face das quais toda a força e inteligência humana é irrisoriamente pequena. Tem às suas ordens outros seres, também invisíveis, que por Jesus são apelidados de "instrumentos" (skeua, em grego; vasa, em latim) e "armadura" (panoplia, em grego; arma, em latim). O "príncipe das trevas", ou "príncipe deste mundo" aparece também com o nome hebraico de satan (adversário), com o nome grego diabolos (em latim diabolus), que quer dizer opositor; uma ou outra vez é chamado beelzebub ou beelzebul, que significa literalmente "rei da impureza" ou "rei das moscas" (que gostam de impurezas).


Os "instrumentos" e "arma" desse "príncipe das trevas" aparecem, no Evangelho, como "demônios", "espíritos impuros", "espíritos malignos".


Segundo os livros sacros, satan é um ser de alta mentalidade, senhor do mundo material e cheio de orgulho e arrogância – ao passo que os demônios são seres de um mundo muito inferior, que alguns chamam elemental, outros astral, seres que não possuem consciência ética, sendo moralmente neutros, podendo, todavia, instalar-se no corpo humano e até em corpos animais, desequilibrando-lhes as funções mentais e vitais.


A linguagem popular, e, infelizmente, também os teólogos eclesiásticos e os escritores comuns (sem excetuar Giovanni Papini), confundem "diabo" com "demônio", usando esses termos como homônimos, o que é inteiramente contrário ao espírito do Evangelho e do bom senso. Chegam ao absurdo de afirmar que Jesus foi tentado pelo "demônio" e põem na boca desses seres covardes e fracos as palavras de "satan" que revelam estupendo poder e incrível arrogância, qualidades possíveis só no plano de alta mentalidade e magia intelectual. Na cena da tentação, satan exige que Jesus o adore como Deus, presunção que nunca passou pela primitiva consciência de um demônio.


Os demônios tremem à aproximação do Cristo e, covardes, até pedem permissão para entrarem nos corpos de uma manada de porcos, e tão fracos se revelam que nem conseguem manter em vida esses seus vínculos primitivos. Satan nunca fez pedido tão humilhante, mas desafia, com suprema arrogância, aquele homem em que ele suspeita um "filho de Deus": "Se tu és o filho de Deus". . . (O texto grego não diz "o filho de Deus"; o latim, por falta de artigo definido e indefinido, deixa em dúvida o sentido). O que o tentador entendo por "filho de Deus" é um ser humano da mais alta evolução espiritual.


A mentalidade de satan move-se inteiramente no plano dos interesses pessoais, do mundo objetivo, externo, físico-mental, como se vê através das três fases da tentação; os seus reinos são deste mundo, nada sabe de um reino de Deus dentro do homem. "Mundo", na linguagem de Jesus, não é termo geográfico; não significa alguma área de terra com determinada extensão; diante de Pilatos, frisa Jesus esse caráter do seu reino: "O meu reino não é deste mundo. . . se deste mundo fosse o meu reino. . . mas o meu reino não é daqui. " A palavra "reino" (basiléia, regnum) vem de "reger", isto é, "abranger" e indica aquilo que o poder da consciência pode atingir. "Reino" é um estado de consciência de maior ou menor intensidade. O "reino deste mundo" representa um estado de consciência físico-mental; o "reino que não é deste mundo" indica um estado de consciência espiritual, o contato consciente com uma Realidade além de todas as realidades, ou pseudo-realidades, que as vibrações físico-mentais possam abranger.


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Afirma Jesus que "vem o príncipe deste mundo, mas sobre mim não tem poder algum". Vem? Não está aqui? Se o mundo material é dele?


Da mesma forma que o "reino dos céus está dentro de vós", mas, apesar disto, somos convidados a orar sem cessar "venha a nós o teu reino", assim também está entre nós, e até dentro de nós, o reino de satan, mas ainda não em evolução. De semi-manifesto que é, se tornará pleni-manifesto entre os homens. "O príncipe deste mundo virá" e exercerá tremendo poder sobre os homens que se lhe entregarem incondicionalmente, adorando-o como se fosse a suprema divindade. É ele o "anti-Cristo", o "contra-Cristo", persuadindo os homens a estabelecerem aqui na terra o seu definitivo céu.


A humanidade de hoje está longe desse termo. A nossa inteligência depende ainda da matéria. Estamos numa evolução material-mental. Algum dia entraremos na zona astral-mental, realizando as nossas concepções intelectuais diretamente pelas energias invisíveis das leis da natureza, sem a necessidade de concretizarmos as nossas ideias em máquinas e aparelhos materiais. Seremos capazes de transformar pedra em pão pela força da magia mental, desponderar o nosso corpo, lançando-nos de qualquer "pináculo" abaixo sem perigo de vida, e apoderando-nos de todos os reinos do mundo e sua glória, sem necessidade de canhões, metralhadoras, bombas atômicas, e outras infantilidades da nossa atual civilização material-mental. Como Moisés, o maior dos magos mentais que a história conhece, seremos capazes de matar os nossos inimigos através de algum invisível "anjo exterminador" que a nossa mente mágica mandará de casa em casa.


Esse é o império máximo do príncipe deste mundo, o "poder das trevas".


Esse "falso profeta" virá com todo o seu poder. A humanidade da Era Atômica é apenas uma etapa preliminar e um trampolim para esse advento do poder das trevas, que tem poder sobre todos os que não se entregaram de corpo e alma ao Cristo, cujo reino não é deste mundo. "Sobre mim não tem ele poder algum, porque eu venci o mundo. " O homem mental de hoje venceu, em grande parte, embora precariamente, o mundo material, mas quase nada sabe do mundo espiritual, e por isto não tem poder sobre o príncipe deste mundo.


O poder vem da experiência íntima, o contato direto com o Infinito.


Quem entra em contato com o Infinito pela experiência "eu e o Pai somos um", esse tem poder sobre o mundo inteiro e sobre o próprio príncipe deste mundo, porque "tudo é possivel àquele que tem fé". Ter fé, no Evangelho, não quer dizer aderir a uma determinada doutrina teológica, mas sim ter contato íntimo com a Infinita Realidade, Deus. O homem que tem essa experiência está redimido do poder de satan, porque é um homem crístico, e pode dizer com o Cristo: "Vem o príncipe deste mundo, mas sobre mim não tem poder algum, porque eu venci o mundo. "


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Demônio, Lúcifer, Lógos. . .


Convém não esquecer que estes três nomes representam três mundos dentro de cada um de nós, o mundo subconsciente (Demônio), o mundo do consciente (Lúcifer) e o mundo do superconsciente (Lógos, Cristo). Conforme o grau de despertamento e prevalescência de um desses estados evolutivos, é o homem determinado ou pelo mundo elemental (Demônio), ou pelo mundo mental (Lúcifer) ou pelo mundo racional (Lógos, Cristo).


Quando o mundo elemental domina soberano, sem intervenção do mundo mental e racional, vive o homem no plano do subconsciente, como os seres infra-humanos, dos reinos mineral, vegetal e animal; esse estado, natural nos seres desses reinos, é desnatural no homem; não representa apenas uma ausência, mas uma privação.


Quando o mundo mental domina sobre o mundo elemental, mas não sabe do mundo racional, então vive o homem no plano luciférico, isto é, simplesmente intelectual; mas quando esse homem mental se opõe conscientemente ao mundo racional e o rejeita, então entra ele na zona da oposição, que em hebraico se chama satan, e em grego diabolos. Satânico ou diabólico não é o Lúcifer em si, mas apenas na sua atitude de antirracional ou anti-crístico.


Quando o mundo racional do homem consegue dominar sobre os mundos inferiores, elemental e mental, então entra o homem na zona espiritual; se a atitude do homem procura eliminar os mundos inferiores em vez de os integrar na consciência superior, então pratica ele uma espiritualidade mística, isolante;


mas, se consegue integrar na consciência superior todos os mundos inferiores, então atinge ele as alturas do homem crístico, que é o homem integral ou cósmico.


Os mundos fora de nós exercem sobre nós uma atuação diretamente proporcional à receptividade do nosso mundo de dentro, porquanto "o recebido está no recipiente segundo a capacidade do recipiente". Todo homem é afetado por um objeto externo na medida que esse objeto encontra eco e ressonância dentro dele, ou seja, segundo o grau da sua consciência subjetiva.


Um objeto do qual eu não tenho consciência alguma não existe para mim, é totalmente inexistente para mim, embora possa existir em si, objetiva e ontologicamente. O meu único mundo é o mundo da minha experiência subjetiva; de um outro mundo, meramente objetivo, nada sei.


Se o mundo material me afeta exclusivamente, então é este o meu único mundo, como acontece com os seres do mundo mineral, vegetal e animal.


Se o mundo mental predomina em mim, o meu mundo principal é este.


Se o mundo racional (espiritual) atua como mundo central em mim, então os outros mundos – mental e material – recuam para planos secundários, vagos, longínquos, podendo chegar ao ponto de se extinguir completamente, isto é, para mim, embora em si continuem a existir.


O plano de consciência que foi vencido por mim, isto é, ultrapassado, não tem poder sobre mim; mas o que não foi vencido por mim, tem poder sobre mim. Eu sou senhor de tudo que ultrapassei – eu sou escravo de tudo que não ultrapassei.


O homem racional, que atingiu as alturas do Cristo, não pode ser derrotado pelos planos mental ou material, porque já venceu esses planos.


O plano mental-material, do intelecto e dos sentidos, é, nos livros sacros, chamado "o mundo". O homem espiritual venceu o mundo, desertando do mundo, o que não é ainda uma vitória completa e integral, porque deserção supõe medo e fraqueza, embora seja sinal de boa vontade; a vitória completa é a do homem que superou o mundo de tal modo que possa viver no mundo sem ser do mundo; o homem cujo reino não é deste mundo, embora esteja ainda neste mundo.


Esse é o home crístico, integral, o homem cósmico.


Vem o príncipe deste mundo, toda a mentalidade luciférica, mas sobre esse homem não tem poder, porque ele venceu o mundo.


O homem que venceu o mundo não é escravo do mundo nem desertor do mundo, mas senhor do mundo.








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