Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

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CAPÍTULO 28

# OS ÚLTIMOS MOMENTOS DE JESUS

Quatro soldados romanos guardavam a cruz do crucificado. Repartiram entre si as roupas dele. Quanto à túnica inconsútil, não convinha dividi-la, que seria inutilizá-la, por ser toda tecida de alto a baixo, sem costura. Por isso, lançaram a sorte, a ver de quem seria esse chamado "manto sagrado", em torno do qual foi tecida, mais tarde, uma extensa lenda na cristandade primitiva.


Isto prova que o Nazareno, apesar de toda a sua simplicidade, não andava de tanga, como certos orientais, mas se vestia decentemente, ao ponto de deixar esse espólio para os soldados romanos.


Ao aproximar-se do fim da sua vida terrestre, pediu Jesus em voz alta a Deus que perdoasse a seus inimigos o que lhe haviam feito, porque não sabiam o que faziam. Todo o pecado é, em última análise, uma ignorância, mas uma ignorância culpada. Quem pode saber deve saber, e quem, podendo, não sabe, cria débito, pecado.


Um dos dois malfeitores crucificados com Jesus, vendo a atitude estranha do Nazareno e ouvindo o pedido de perdão para seus inimigos, foi iluminado por uma luz interior, e, olhando para Jesus, disse: "Senhor, lembra-te de mim, quando entrares no teu reino. " Jesus lhe respondeu: "Em verdade, te digo que ainda hoje estarás comigo no paraíso".


Estas últimas palavras têm suscitado muitas controvérsias: como podia um homem onerado de meio século de débitos, ter a recompensa de entrar no paraíso nesse mesmo dia, sem pagar os seus débitos?


Nesta controvérsia há uns equívocos: por "paraíso" ou céu, Jesus não entendia um lugar ou um estado definitivo de vida eterna, habitáculo das almas puras – mas entendia a entrada do pecador na linha reta da verdade, depois de meio século de ziguezagues nos caminhos tortuosos do ego pecador. É muito provável que Jesus se tenha referido a essa entrada na linha reta da verdade do Eu divino, com que o recém-iluminado iniciava uma vida nova. Mas essa vida nova, esse paraíso, não é um estado definitivo, mas sim um processo evolutivo, uma jornada em linha reta, e não um ponto final de chegada.


O paraíso, o céu, a vida eterna é uma sinfonia inacabada, que tem o seu princípio, mas não terá fim; é uma evolução sem termo final que teve o seu passo inicial.


Os sacerdotes da Sinagoga presentes no Calvário diziam: "Salvou a outros, a si mesmo não se pode salvar. " De repente, o sumo sacerdote, colocando-se bem defronte à cruz, assim desafiou o crucificado: "Se tu és o Filho de Deus, desce da cruz, e creremos em ti!" Esse desafio, certamente, foi seguido de momentos de grande silêncio e expectativa. Muitos esperavam que Jesus atendesse à provocação, descendo da cruz, glorioso, para provar que ele era realmente o Cristo. Mas – nada disso aconteceu. . .


E, pior do que este silêncio foram as palavras que o crucificado proferiu logo depois: "Meu Deus, meu Deus, como me abandonaste!" Este brado lamentoso foi, provavelmente, seguido por uma jubilosa gargalhada da parte dos chefes da Sinagoga; e uns diziam aos outros: "Ouvistes o que ele disse? Que Deus o abandonou, por sinal que ele não é o Cristo, o Messias, porque este não podia ser abandonado por Deus. " Este momento pode ser considerado como o mais profundo nadir da voluntária humilhação de Jesus; atingiu o último marco da sua antidromia, fazendo crer a seus inimigos que ele não era o Cristo. Esta auto-humilhação é o último degrau da sua cristificação, ou auto-realização, a total desintegração do seu ego humano e a suprema integração no seu Eu divino. Sacrificou até o seu prestígio moral e espiritual perante os seus inimigos, dando-lhes aparentemente razão para o considerarem um impostor e falso Cristo.


E não dissera ele: "Se o grão de trigo não morrer, ficará estéril; mas se morrer, produzirá muito fruto"? O grão de trigo, a sua personalidade humana estava enterrado na mais profunda profundeza imaginável. Em vez de descer da cruz, ele se confessa até abandonado por Deus – tão completo foi o seu voluntário egocídio.


Também os seus dedicados discípulos e suas fiéis discípulas presentes no Calvário ouviram esse brado angustioso: "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste!" Deve ter sido para eles a mais cruel decepção: saberem que seu Mestre se confessava abandonado por Deus. E como podiam eles ainda venerá-lo como Mestre e guia espiritual? Não deviam perder a fé nele?


Estranhamente, porém, o coração tem razões de que a razão não sabe: continuaram a amá-lo como sempre, e Jesus continuou a ser o seu Mestre adorado.


Por fim, coroando a vitória final da sua vida terrestre, Jesus exclama jubiloso: "Está consumado". . .


Consumado, plenamente terminado e realizado estava o plano cósmico da encarnação do Verbo, plano já previsto pelo Gênesis e pré-determinado por Jesus desde o início. Nele a natureza humana atingira o zênite da sua glória e plenitude. E, como toda a plenitude transborda necessariamente, esta plenificação Crística de Jesus beneficiava e beneficia todos os homens capazes de receber da sua plenitude, graça e mais graça, como diz o quarto Evangelho.


Muitos acham que esse "está consumado" se refira à redenção da humanidad " – e eles têm razão se por "humanidade" entende a humanidade individual de Jesus, que com esta voluntária desintegração estava consumada. Até hoje, porém, a humanidade coletiva não está salva, porque ninguém pode salvar alguém, a não ser a si mesmo. E esta auto-redenção é o maior benefício que alguém pode prestar à humanidade redimível, e ainda não remida.








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