Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

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CAPÍTULO 19

# O FIM DE JUDAS

Mais tarde, após a condenação formal de Jesus, foi Judas lançar as 30 moedas de prata no Templo, gritando: "Pequei, atraiçoei sangue inocente. " Os sacerdotes porém replicaram: "Que temos nós a ver com isto?" É quase sempre este o desfecho: O traidor é traído; os seus comparsas se aproveitam da traição, mas desprezam o traidor.


Judas se retirou, subiu a um monte escarpado, e daí se precipitou ao abismo, suicidando-se. O texto grego não diz que se enforcou, como a Vulgata Latina traduziu, mas faz ver que subiu ao ponto culminante e daí se precipitou de cabeça para baixo. Por isto, diz o texto dos "At" que se derramaram todas as suas vísceras, o que seria incompreensível se Judas se tivesse enforcado, como geralmente se supõe.


Os chefes do Templo mandaram recolher o dinheiro e disseram que não era permitido lançá-lo no cofre sagrado, porque era preço de sangue.


Estranha essa lógica dos profanos: pagam ao traidor, matam um justo, são indiferentes à tragédia do traidor – mas têm escrúpulos de recolher o dinheiro ao cofre sagrado. Compraram com o dinheiro um terreno para servir de sepultamento dos estrangeiros que morressem em Jerusalém, porque os não judeus não podiam ser sepultados no cemitério dos israelitas.


Judas, como se vê, se arrependeu do seu crime, mas não se converteu, como Pedro. Arrependeu-se do mal que fez, mas não fez o bem que devia fazer. A metánoia ou transmentalização pregada por João Batista e por Jesus é uma conversão total, o abandono do mal e a prática do bem; não é apenas arrependimento, muito menos penitência, como alguns traduzem erroneamente. Não há pecador tão grande que a conversão não possa transformar num justo.


O papel de Judas na história da morte de Jesus tem suscitado discussões e controvérsias sem fim. Se Jesus devia morrer pela salvação da humanidade, e se Judas serviu de instrumento para essa morte redentora, por que é ele um pecador?


Acima de tudo, não é verdade que Deus exigiu a morte de Jesus para redimir a humanidade; isto é teologia humana, mas não é evangelho divino. Deus não pode sentir-se ofendido, porque toda a ofendibilidade prova mesquinhez; nem se vingou em vez de perdoar, muito menos exigiu que um inocente morresse para pagar os débitos dos culpados.


Segundo os livros sacros e segundo as palavras de Jesus, ele mesmo permitiu que os pecadores, sob os auspícios do poder das trevas, o fizessem sofrer e morrer, para que se cumprisse o plano cósmico que o Verbo encarnado resolvera executar para a plena cristificação e sublimação da natureza humana.


Por este desespero e gesto violento de Judas se conclue que ele não tencionava matar o Mestre, mas apenas entregá-lo à Sinagoga, na certeza de que ninguém conseguiria capturá-lo, como provara diversas vezes. A frustração das suas esperanças de libertação nacional levou Judas a esse passo extremo, que ele praticou só depois que soube da condenação definitiva do Nazareno.


A tradicional alegação de que Judas não podia deixar de fazer o que estava previsto por Deus é inexata; Deus previu que Judas daria livremente este passo, que agia com plena liberdade. De resto, Deus não previu, porque esta palavra supõe o futuro (pre) e o passado (viu), quando para Deus tudo é presente e nada é passado nem futuro. A sucessividade do que foi e será é mera ilusão dos nossos sentidos, ao passo que a simultaneidade do que é representa o presente, o eterno agora, e é o objeto da visão de Deus. Deus vê o que o homem, no momento presente em que o faz, comete livremente.








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