Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

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CAPÍTULO 18

"SALVE, MESTRE! – PRENDEI-O!"

O fato de ter Jesus tido conhecimento nítido de todo o plano de Judas e da Sinagoga, e de não o ter impedido, prova que tudo isto faz parte de um plano superior, que ele provocou se realizasse. A paixão e morte de Jesus não representam uma fatalidade trágica, nem foram exigidas por Deus para receber o pagamento dos pecados da humanidade. Esta ideia é incompatível com a majestade de Deus, nem com a grandeza do Cristo, que não se humanizou para servir de bode expiatório de outros. A encarnação do Verbo e toda a vida terrestre de Jesus obedecem a um plano cósmico pré-estabelecido, e teriam acontecido também sem os pecados da humanidade.


Na última ceia estava Jesus reclinado à mesa em frente a seu traidor, e, sabendo de tudo, não impediu nada. Diz a Epístola aos Hebreus que Jesus sofreu tudo isto "para aprender obediência", isto é, para levar o seu Jesus humano ao máximo da sua integração no Cristo divino. E ele mesmo diz aos discípulos de Emaús que assim devia ele "entrar em sua glória".


Aliás, estava previsto desde o Gênesis que o "sopro divino" da natureza humana devia culminar, um dia, na "imagem e semelhança de Deus". E Paulo de Tarso escreveu que em Jesus "reside corporalmente toda a plenitude da Divindade. " O objetivo diretamente visado é a sublimação da natureza humana em Jesus pela integração no Cristo; e "da sua plenitude todos nós recebemos, graça e mais graça"; a plenitude do Cristo transbordou em benefício da humanidade.


Como dizíamos, sabia Judas que a Sinagoga procurava capturar Jesus sem alarmar o povo, sobretudo os galileus, entre os quais o Nazareno tinha muitos amigos. Judas combinou com o chefe da Sinagoga que lhes entregaria Jesus, recebendo como pagamento adiantado 30 moedas de prata. Escolheu a solidão do horto das Oliveiras, onde o Mestre foi orar na noite da quinta-feira, após a ceia pascal. Sendo noite, e estando Jesus no meio dos seus discípulos, combinou Judas uma senha com os soldados que o iam prender, dizendo: "Aquele a quem eu beijar, esse é; prendei-o. " Na escuridão do Getsêmane, à luz dúbia dos archotes fumegantes, avançou em direção a Jesus, abraçou-o e disse em voz alta "Salve, Mestre!" e o beijou na face. Jesus recebeu calmamente o beijo da morte, e, certamente, o retribuiu com um beijo de amor, dizendo a Judas: "Amigo, a que vieste? Com um beijo tu atraiçoas o Filho do Homem?" Neste momento, avançaram os esbirros enviados pela Sinagoga. Jesus, porém, antes de se deixar prender, quis dar-lhes uma prova de que não era vítima de uma cilada imprevista, e perguntou-lhes: "A quem procurais?" "A Jesus de Nazaré", responderam os soldados. "Sou eu", replicou Jesus. E, neste momento, como que impelidos por um choque violento, todos caíram de costas.


Fácil teria sido a Jesus fugir, se quisesse. Mas ele mandou que se levantassem e disse-lhes com estranha solenidade: "Esta é a vossa hora e o poder das trevas", e estendeu-lhes as mãos para ser amarrado.


A partir deste momento, Jesus retira toda a defesa invisível que sempre o cercava, e entrega-se sem reservas ao poder das trevas, como ele chama sempre o príncipe deste mundo, o anti-cristo e seus auxiliares.


Depois da cena da tentação no deserto, diz o Evangelho, havia o tentador, derrotado por Jesus, resolvido voltar em outra oportunidade.


Essa oportunidade chegara, porque Jesus assim o quis. A partir deste momento, até à tarde da sexta-feira, Jesus se entrega totalmente ao poder das trevas, para que fizessem dele o que quisessem. Tudo que se segue é um corolário natural; o poder das trevas se vinga da luz do mundo, assim como pode. E Jesus permite tranquilamente que seu ego humano seja reduzido a zero, afim de levar à culminância da glória o seu Eu divino.


É esta a estranha antidromia dos grandes avatares: quando resolvem subir a uma altura maior, descem ao ínfimo nadir de sofrimentos e ludíbrios, como Paulo de Tarso faz ver na Epístola aos Filipenses, e como o próprio Cristo diz aos discípulos de Emaús.


A incompreensão dessa enigmática antidromia (contra-corrida) levou a cristandade a falar da ira de um Deus ofendido e dos martírios e da morte do único homem sem pecado, para pagar os débitos dos pecadores.








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