Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

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CAPÍTULO 14

"GLORIFICA-ME, PAI, COM AQUELA GLÓRIA QUE EU TINHA EM TI ANTES QUE O MUNDO FOSSE FEITO!"

Uma das maiores dificuldades e das mais tremendas confusões da nossa tradicional teologia eclesiástica é o conceito do Cristo e sua relação com Jesus.


É de uso e abuso geral, desde os tempos da sinagoga de Israel até à teologia das nossas igrejas, identificarem simplesmente o Cristo com Jesus. Daí nasceu, entre outros, o título absurdo de "mãe de Deus", em vez de "mãe de Jesus" – como se Deus tivesse mãe! Dessa mesma confusão brotou, também, a expressão "divindade de Jesus".


No entanto, é claríssima a distinção que o próprio Nazareno faz do seu elemento divino – o Verbo ou Logos – e o seu elemento humano – o Jesus, no qual aquele se fez carne.


Na oração de despedida, proferida no cenáculo de Jerusalém, em vésperas da sua morte, diz ele: "Pai, glorifica-me com aquela glória que eu tinha em ti antes que o mundo fosse feito!" Quem é que tinha essa glória, antes do princípio do mundo? O Jesus humano, filho de Maria? Certo que não, porque esse não existia ainda. Era o Cristo divino, ou melhor, o Verbo eterno, o divino Lógos, que, depois de se unir a Jesus, se chama o "Ungido" (em grego, o Christós). Ora, se o Cristo, como Verbo, já existia antes do princípio do mundo, existia em forma pré-telúrica, existia como o Cristo cósmico, como o Cristo do Universo imaterial, como, aliás, Paulo explica maravilhosamente no primeiro capítulo da sua epístola aos Colossenses, descrevendo o Cristo cósmico como anterior aos anjos e arcanjos do cosmos imaterial. Também o vidente João, no início do seu Evangelho, escreve: "No princípio era o Verbo (Lógos), e o Verbo estava com Deus; e o Verbo era Deus; por ele foram feitas todas as coisas, e nada do que foi feito foi feito sem ele. . . E o Verbo se fez carne e habitou entre nós. " (literalmente: "Ergueu a sua tenda entre nós. ") Esse Cristo cósmico, anterior à creação do mundo e à origem da humanidade, aparece como o Cristo telúrico, como o Cristo-Jesus, depois de assumir carne humana, e regressou às regiões do Cristo cósmico depois da sua ascensão.


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Em certa ocasião disse Jesus: "Antes que Abraão fosse feito eu sou. " Quem é esse "eu"? Certamente não o Eu-Jesus, que nasceu cerca de 2. 000 anos depois do patriarca Abraão, mas o Eu-Cristo, que "no princípio estava com Deus e que era Deus. " "Que vos parece do Cristo; quem é ele?" – pergunta o Nazareno aos chefes da sinagoga de Israel, e eles respondem: "Ele é filho de David", confundindo o Jesus humano com o Cristo divino. Ao que o Mestre replica: "Se o Cristo é filho de David, como é que David, em espírito, lhe chama meu Senhor? Se é seu filho, como é que é seu Senhor?" E não houve quem lhe soubesse dar resposta.


E até hoje os nossos doutores da lei estão devendo essa resposta dos seus colegas do primeiro século.


David viveu cerca de 1. 000 anos antes do nascimento de Jesus, o qual é, segundo a carne, seu filho ou descendente, mas o Cristo não é filho de David, e sim Senhor dele.


A nossa teologia dualista criou insuperável barreira, afirmando apenas a transcendência de Deus e negando a sua imanência, destruindo, assim, a base para a compreensão da divindade do Cristo, como expliquei amplamente em outros livros. Desde que, em princípios do século quarto, a filosofia neoplatônica foi substituída pela filosofia aristotélica, que culminou em Tomás de Aquino e serve até hoje de fundamento de todas as teologias eclesiásticas ocidentais, tornou-se impossivel a compreensão da relação entre Deus e o Cristo, e entre o Cristo e o Jesus. A compreensão da Verdade sucumbiu à necessidade da hierarquia.


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Do Cristo cósmico diz o quarto Evangelho que ele é "a luz verdadeira que ilumina a todo homem que vem a este mundo" e que os que recebem em si essa luz, recebem o poder de se tornar filhos de Deus, "os que nasceram não do desejo do varão nem do desejo da carne, nem de sangues [2] , mas de Deus. "


Aqui menciona o evangelista uma procriação diferente daquela que está relacionada com o instinto masculino (desejo do varão) e feminino (desejo da carne) e da fusão de dois tipos de sangue, ou elementos vitais, masculinofeminino, mas que depende de uma fecundação pelo espírito divino. "O que nasce da carne é carne, mas o que nasce do espírito é espírito. "


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Nas citadas palavras de Jesus que encimam este capítulo, pede ele que Deus o reintegre naquele modo de existir que ele tinha antes da sua encarnação humana, isto é, a existência em corpo glorioso, impassível, fora da zona da matéria densa do mundo. Quando, após a ressurreição, o Nazareno afirma aos discípulos de Emaús que ele devia sofrer tudo aquilo "para assim entrar em sua glória", refere-se a esse mesmo estado de glória e impassibilidade que o Cristo-Lógos possuía antes de se encarnar no Jesus-homem.


No princípio do segundo capítulo aos Filipenses diz Paulo que o Cristo, antes de assumir a "forma de homem", estava na "forma de Deus", isto é, na forma do Cristo cósmico. "O homem, esse desconhecido", escreve Alexis Carrel. "O Cristo, esse desconhecidíssimo", pode dizer todo mortal, e isto a despeito desse oceano de literatura que se tem escrito sobre o Nazareno. Praticamente, nada sabemos dele, no plano intelectual, analítico. O próprio Tomás de Aquino, depois de escrever a sua volumosa obra "Summa Theologiae", confessa, após uma estranha revelação divina, que tudo aquilo não passa de "literatura de palha", e desde esse dia não mais escreveu uma palavra. . .


Quando, no terceiro século do Cristianismo, Arius, bispo da igreja de Alexandria, afirmou que o Cristo não era Deus nem homem, mas um ser intermediário entre Deus e o homem, foi ele excomungado e expulso da igreja pela hierarquia eclesiástica da época. Em última análise, quem sabe se não havia, nas palavras de Arius, uma verdade oculta? Não era o Cristo cósmico a mais alta individualização do Deus Universal, o Deus-Verbo, que depois apareceu como o Deus-Homem, embora não fosse simplesmente homem como nós? Verdade é que nele havia o elemento divino e o elemento human " – mas seria inexato identificá-lo totalmente com Deus ou totalmente com o homem.


O Cristo continua a ser o grande enigma entre o céu e a terra, o misterioso elo que une o mundo espiritual com o mundo material, o medianeiro entre Deus e os homens, a "escada de Jacó" intercalada entre dois mundos, sem ser propriamente deste nem daquele.


Pode o homem tornar-se igual ao Cristo?


Não ao Cristo cósmico – sim ao Cristo telúrico.


Não ao Cristo-Verbo – sim ao Cristo-Jesus.








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