Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

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CAPÍTULO 12

"EU SOU A VIDEIRA – VÓS SOIS AS VARAS"

Na pessoa e doutrina de Jesus Cristo atinge o monoteísmo absoluto a sua mais gloriosa culminância; ele não é transcendentalista ocidental nem imanentista oriental; nele as antíteses do dualismo do Oeste e do panteísmo do Leste se fundem na mais completa síntese universal. As suas palavras "eu estou no Pai e o Pai está em mim – eu estou em vós e vós estais em mim", revelam um experiência cósmica jamais atingida por outro ser humano. "Eu sou a luz do mundo – vós sois a luz do mundo. " "A luz verdadeira ilumina a todo homem que vem a este mundo. " "Eu sou a videira – e vós sois as varas. " Palavras como estas proclamam a presença do Cristo divino na pessoa humana de Jesus e em qualquer outra pessoa. A essência eterna está em todas as existências temporárias. Se a mesma luz divina que iluminava Jesus, ilumina a todo o homem, como afirma o Mestre e confirma o discípulo amado, então o homem é potencialmente o que Jesus, o Cristo, era e é atualmente. A diferença está apenas em que Jesus possuía plena consciência do seu elemento divino, o que fazia dele o "filho do homem", o "filho unigênito do Pai" – ao passo que em seus discípulos essa consciência é ainda embrionária e se acha em diversas graduações de consciência ou semi-consciência.


A passagem mais profundamente bela, neste sentido, é a comparação que ele estabelece entre o tronco da videira e seus ramos. "Eu sou a videira, e vós sois as varas. Toda vara que, em mim, produzir fruto será purificada, para que produza fruto ainda mais abundante; mas toda vara que, em mim, não produzir fruto será cortada e jogada ao fogo. Permanecei em mim, assim como eu permaneço no Pai. Permanecei firmes no meu amor, para que seja abundante o vosso fruto. " A mesma seiva vital que flui através do organismo da videira flui também através da todas as varas da mesma. Não há na videira dois princípios vitais, um no tronco e outro nas varas. A identidade da vida é absoluta; diferente e varia, porém, é a sua manifestação. Essa identidade da vida, contudo, não determina a igualdade da função do tronco e dos ramos; há autonomia individual em todos. E é precisamente aqui principia o grande mistério da liberdade: pode um indivíduo consciente e livre agir contrariamente ao princípio universal da causa que o produziu. A unidade da essência permite a diversidade funcional das existências. Pode a vara, apesar de estar na videira, ser fecunda ou ser estéril.


Enquanto ficarmos apenas no símbolo material da planta, é verdade, não há essa possibilidade de divergência entre o tronco e os ramos da videira, porque, na planta, não há autonomia individual, uma vez que os ramos são simples prolongamentos do tronco.


Quando, porém, passarmos para o simbolizado espiritual, surge a possibilidade da diversidade entre o tronco e as varas, porque no mundo dos seres conscientes e livres há suficiente autonomia de agir; pode o ramo opor-se à atuação da seiva vital que circula através da videira. Pode o homem ser pecador sem que o elemento divino deixe de existir nele, porque o pecado não consiste na ausência de Deus, que, sendo onipresente, nunca está ausente de parte alguma; o pecado consiste na ignorância que o homem tem em mantém da presença de Deus. Se Deus estivesse ausente de um único átomo, deixaria esse átomo de existir, ou Deus deixaria de ser Deus, por não ser uma Realidade onipresente. Um Deus que não seja onipresente não é Deus, porque limitado e finito.


A vida divina está em todas as creaturas. No momento em que essa vida divina se identificasse totalmente com Deus, deixaria essa creatura de ser algo individual, distinto de Deus; seria um puríssimo nada no plano do "existir" individual, embora continuasse na zona do "ser" universal. Tudo quanto existe individualmente só existe em virtude da imanência do eterno Ser. Nada pode existir sem que o Ser o penetre.


É, pois, possivel que o homem seja pecador, a despeito da imanência de Deus nele. Mesmo em Satanás está Deus imanente. O pecado, repetimos, não consiste em que Deus esteja ausente do pecador, mas no fato de que este ignore voluntariamente essa presença divina e viva como se Deus estivesse ausente.


Quando alguém está em plena luz solar de olhos abertos, o sol está presente a ele e ele está presente ao sol; quando fecha os olhos, o sol continua presente a ele, mas esse homem está ausente do sol – isto é, objetivamente presente, porém subjetivamente ausente.


O homem que peca ausenta-se subjetivamente de Deus, ainda que objetivamente continue presente a Deus, ao Deus sempre presente a ele.


Essa ausentação subjetiva é que é o pecado.


Os seres infra-humanos não possuem consciência suficiente para se ausentarem subjetivamente de Deus; por isto, não podem pecar.


Os seres supra-humanos, de elevada consciência espiritual, não pecam, porque a sua alta sapiência não lhes permite ausentarem-se de Deus subjetivamente; a sua consciência intensamente iluminada os estabilizou definitivamente na verdade.


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A seiva vital da "videira" do Cristo, quando circula livremente nas "varas" humanas, produz nelas fecundidade crística. E, para que produzam fruto cada vez mais abundante, essas varas são purificadas, ou como dizem os lavradores, podadas. A poda consiste na eliminação de uma parte das varas;


destarte, há uma concentração mais intensa da seiva do tronco em poucos ramos, que então produzem rebentos mais vigorosos. A poda faz com que o ramo "chore", porque ela é uma espécie de disciplina dolorosa. Todo homem que pratica disciplina espiritual sabe quão difícil e dolorosa ela é, pelo menos no princípio. É bem uma "poda". O homem disciplinado se priva espontaneamente de muitas coisas agradáveis em que os indisciplinados se comprazem. Enquanto outros se derramam pelos divertimentos fáceis e pelas superfluidades da sociedade, retira-se o homem disciplinado, muitas vezes, a uma intensa concentração mental ou meditação espiritual. Aos olhos dos profanos é esse homem digno de lástima; sua vida parece pobreza e monotonia; na verdade, porém, a vida disciplinada é riqueza e harmonia. A verdadeira felicidade não consiste na quantidade dos prazeres que o homem goze, mas na qualidade do gozo que ele saboreie.


Esta sabedoria, todavia, não é acessível a pessoas que não a tenham saboreado em si mesmas; só pode saber como uma iguaria sabe quem lhe toma o sabor. Esse sabor, porém, não vem de uma teoria, mas da pratica ou da experiência.


Quando alguém produz fruto pela vivência íntima com a divina seiva vital do espírito do Cristo, será purificado cada vez mais das escórias do seu velho ego;


e esse processo de acrisolamento é dolorosamente suave; o que nele há de amargo pertence ao ego físico-mental, à "persona" do homem; o que nele há de suave vem do Eu espiritual, da verdadeira individualidade do homem.


Nem homem, depois de gozar da amarga suavidade da disciplina espiritual, estaria disposto a trocar essa vivência pela vida de algum profano a nadar num oceano de prazeres. Uma minhoca é feliz quando tem bastante húmus para digerir. Um cavalo é feliz quando tem bastante capim para comer. Uma criança é feliz quando recebe muitos brinquedos para se divertir. A plenificação da potencialidade de um ser é a sua felicidade; se essa potência é pequena, também a felicidade é pequena. Aumentando a potencialidade, cresce a possibilidade duma felicidade maior. Mas, enquanto não for atualizada a medida da potência, há no homem um senso de insatisfação, até que seja plenificada essa medida. E, com essa plenificação, cresce novamente a potencialidade.


O profano absoluto, graças à sua cegueira, vive numa horrorosa felicidade.


O iniciando que advinha uma plenitude possuível, mas ainda não possuída, entra numa zona de inquietude metafísica, que é uma gloriosa infelicidade.


O iniciado, porém, depois de sintonizar o seu pequeno querer com o grande QUERER cósmico, sente-se empolgado por uma gloriosa felicidade. "Permanecei firmes no meu amor para que seja perfeita a vossa alegria e ninguém mais vos roubará a vossa alegria. "








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