Triunfo da Vida Sobre a Morte, O

Versão para cópia
CAPÍTULO 11

"DOU-VOS A MINHA PAZ, PARA QUE MINHA ALEGRIA ESTEJA EM VÓS"

E prossegue o Mestre, dizendo a seus discípulos, em vésperas de sua morte: "Para que seja perfeita a vossa alegria, e ninguém mais tire de vós a vossa alegria. " É este o cântico da paz e da alegria de um homem que se acha a poucas horas da mais horrorosa das mortes e da mais profunda das humilhações. Tão abundante é a paz da alma e a alegria do seu coração que ele as faz transbordar para dentro de seus discípulos, que não enfrentavam esses horrores.


Quase todos os cristãos do mundo estão habituados a ler e ouvir que o Cristianismo é a religião da cruz e do sofrimento, por ser a mensagem da renúncia e do sacrifício. E, como o mais profundo e veemente brado da natureza humana e de todo o ser, é o anseio de vida abundante e perfeita alegria, poucos homens estão dispostos a abraçar a alma do Cristianismo em toda a sua plenitude, contentando-se com certas práticas externas. Para eles, Cristianismo e alegria são dois pólos opostos, eternamente incompatíveis, como treva e luz. Sofrimento e sacrifício lhes parecem coisas antivitais, profundamente negativas em si mesmas, porquanto a vida é essencialmente uma afirmação – e como poderia a afirmação conciliar-se com a negação?


E, no entanto, afirma Jesus que a sua mensagem à humanidade é essencialmente uma mensagem de paz e perfeita alegria.


É alegria.


É alegria perfeita.


É alegria indestrutível.


Isto é na experiência de Jesus, a quintessência do Cristianismo.


Em face disto, enfrentamos um mistério de indevassável obscuridade, e chegamos a duvidar seriamente na verdade daquilo que nós, quase todos nós, entendemos por Cristianismo. . .


O Cristianismo é, pois, essencialmente, uma mensagem de perfeita alegria, mesmo na vida presente, por ser uma alegria baseada na paz. Onde não há paz profunda e sólida, alicerçada na verdade, não pode haver alegria perfeita e duradoura. Alegria não pode, em hipótese alguma, ser filha da ilusão, mesmo que fosse a mais bela das ilusões.


Muitos homens profanos parecem ser alegres. Mas a sua alegria é algo meramente externo, periférico, porque motivado por objetos ou acontecimentos de fora, e pode, por isto mesmo, converter-se rapidamente no contrário, em tristeza e desespero. Só uma alegria vinda de dentro do homem, oriunda da verdade da sua íntima natureza, é que é sólida e indestrutível.


Se eu não estou harmonizado com Deus, não estou harmonizado comigo mesmo, não tenho verdadeira paz dentro de mim, e, neste caso, é impossivel que haja em mim verdadeira alegria. Alegria supõe paz e harmonia. Um único grau de alegria nascida da paz interna, vale mil vezes mais que cem graus de alegrias engendradas artificialmente por circunstâncias externas.


* * *

* "Para que ninguém mais tire de vós a vossa alegria. " A pseudo-alegria externa, oriunda de circunstâncias independentes de mim, me pode ser tirada, porque depende de algo que não depende de mim. Essa alegria não é, propriamente, minha, não nasceu dentro de mim, mas me foi acrescentada fortuitamente, e pode ser destruída pelo desfavor de circunstâncias externas.


Há uma alegria que não passou pelo sofrimento – é a dos profanos, incerta, mundana, variável.


Há um sofrimento que não conhece alegria – é o de certos ascetas lúgubres, pessimistas, sadistas.


E há uma alegria que nasceu do sofrimento, de um sofrimento intenso, diuturno e profundamente compreendido – é a alegria dos homens cristificados, que tiveram de sofrer tudo aquilo para assim entrar em sua glória.


Mas é precisamente aqui, que estamos à beira do grande mistério, cuja compreensão é um carisma dos poucos iniciados que a humanidade conhece.


Esta alegria crística é algo indizivelmente leve e luminoso, puro e encantador, é um eco dos mundos de Deus e dos seus anjos. Quando esta alegria crística começa a transparecer de um homem, através das suas palavras, dos seus gestos, dos seus atos, dos seus olhos, e, sobretudo, através da sua vida – então o mundo inteiro parece ser outro, e a nossa alma canta um silencioso TeDeum por ter encontrado esse arauto da eterna Divindade. . .


Uma vez que o homem saboreou essa felicidade que nasceu do sofrimento redentor, a sua alegria é perfeita, e nunca mais ninguém lhe pode tirar essa alegria, porque ela é o reflexo e a melodia do seu próprio ser. Esse homem "venceu o mundo", "entrou em sua glória", está definitivamente "remido" de todas as velhas irredenções da sua vida. Esse homem atingiu um ponto de apoio, fixo e imóvel, para além de todas as vicissitudes das circunstâncias externas da natureza e da humanidade. E quem encontrou o seu centro fixo e imóvel, domina com facilidade e leveza todas as periferias flutuantes e movediças do mundo externo. . . No meio de um mundo de ruídos profanos, habita ele no sacrário do seu grande silêncio. E esse silêncio é força e firmeza, paz e felicidade. . .


É fora de dúvida que vigora secreta relação de estreita afinidade entre "sofrimento" e "redenção", suposto que o sofrimento não tenha feito o homem descer ao nadir negativo da amargura e do desespero, mas feito subir ao zênite positivo da paz e da alegria.


Alegria que nasce do sofrimento é redenção.


É este o mais profundo mistério do Cristo Redentor, que nunca foi explicado por nenhuma teologia; é a última fronteira que o homem pode alcançar, aqui na terra, e, quiçá, em todos os outros mundos da sua evolução.


A cruz telúrica do Calvário tem a haste inferior mais comprida, porque ainda está presa à terra – como o sofrimento doloroso.


A cruz cósmica do Tabor tem todas as quatro pontas iguais, porque flutua livremente no espaço – como a alegria que nasceu do sofrimento.


A alegria parece ter algo de profano e impuro, e por isto certos ascetas a detestam – mas, quando a alegria passa pelo fogo do sofrimento, perde todas as escórias e sai inteiramente pura e sacral, como a luz da Divindade.


* * *

* * *

Uma vez que o homem entrou nessa zona da alegria espiritual, filha do sofrimento redentor, todas as coisas da sua vida material passam por uma metamorfose inexplicável. Há uma purificação e lucificação geral em todos os setores da sua vida.


Em primeiro lugar, esse homem não necessita mais de impulsos externos para ser alegre e feliz, uma vez que possui, dentro de si mesmo, a fonte perene de alegria e felicidade.


Em segundo lugar, as coisas mais insignificantes e ingênuas do mundo externo lhe são motivo de alegria pura, profunda e intensa. Uma singela florzinha à beira da estrada, o zumbir de um inseto, o cântico de um passarinho, o sorriso de uma criança, o sussurro do vento na ramagem, as areias brancas duma praia, uma palavrinha amiga, o tanger de um sino ao longe, o cintilar de uma estrelinha – tudo atua sobre ele como suave carícia, tudo lhe traz fragrâncias do Infinito, tudo é para ele uma mensagem do poder e do amor de Deus. . . "Eu vos dou a minha paz, para que a minha alegria esteja em vós, e seja perfeita a vossa alegria, e ninguém mais a tire de vós a vossa alegria" – palavras como estas só podem ser compreendidas, realmente, por um homem que descobriu o mistério da alegria através do sofrimento. . .


Só esse homem, plenamente realizado, é que pode ser um redentor para outros que necessitem de redenção. . .








Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 11.
Para visualizar o capítulo 11 completo, clique no botão abaixo:

Ver 11 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?