Filosofia cósmica do evangelho

Versão para cópia
CAPÍTULO 8

"DESTRUÍ ESTE TEMPLO – E EM TRÊS DIAS O REEDIFICAREI"

Há um teste infalível para saber em que plano de evolução se acha um homem: é só verificar a atitude que ele toma em face de seu corpo, como o trata ou maltrata.


O homem espiritualmente analfabeto adora o seu corpo como seu Deus.


O homem semi-espiritualizado e asceta odeia e maltrata o seu corpo.


O homem plenamente espiritual, o homem cósmico, não adora nem odeia seu corpo, mas respeita-o, mantém-no em perfeita integridade e funcionamento, como veículo e maravilhoso instrumento para a sua evolução superior.


Há três classes de bens externos: os bens de fortuna, o corpo, e o intelecto. A inteligência é por demais desconhecida às massas para poderem dela fazer o seu Deus e Soberano; isto é privilégio de alguns cientistas. Os bens de fortuna estão fora do homem, sem contato direto e sensível com o seu ser vivo. Mas o corpo é dos três bens externos o mais conhecido e o que está em imediato contato com cada um de nós, ao ponto de muitos identificarem o seu Eu com o seu corpo e suas sensações.


Por isto, é essa atitude em face do corpo o melhor teste para se saber da evolução de um homem.


Jesus nos deixou, no Evangelho, um episódio maravilhoso neste plano.


* * *

* * *

Após a purificação do templo de Jerusalém, é Jesus interpelado pelos chefes espirituais, que querem saber em virtude de que autoridade tem ele o direito de fazer o que fizera. E Jesus lhes responde: "Destruí este templo, e em três dias o reedificarei!" Ao que os chefes espirituais replicam: "Quarenta e seis anos levou a construção deste templo, e tu pretendes reconstruí-lo em três dias"?


Acrescenta o evangelista: "Jesus, porém, falava do templo de seu corpo, e, depois da ressurreição, os seus discípulos se lembraram disto. " Em todas as escrituras sacras é o corpo humano chamado "templo de Deus", "templo do espírito santo" (universal), "habitáculo da divindade".


Deus, é certo, está em toda a parte; a sua onipresença é absoluta, universal, ilimitada. Mas, há certos pontos onde essa onipresente imanência de Deus se torna mais perceptível a nós, às nossas faculdades sensitiva e intelectiva – assim como a vida universal do cosmos se torna mais perceptível em determinados focos vitais, como plantas, insetos, animais.


É possivel destruir um veículo de vida, algum organismo vegetal ou animal, mas não é possivel destruir a Vida, que é essencialmente imortal e universal.


Matar não quer dizer destruir a vida; quer dizer desligar do oceano da vida universal este ou aquele pequeno veículo individual. A destruição do veículo torna esse veículo inapto de servir como veículo ou porta-vida, mas não aniquila a vida por ele manifestada. Morre o veículo, mas continua a viver o veiculado. Morre o contenedor, continua a viver o contido, ou conteúdo. Se a vida cósmica fosse a soma total dos seus veículos individuais, a destruição deste equivaleria à destruição daquela – o que é absurdo e ilógico. Ninguém pode destruir a Vida, só pode destruir os veículos vitais.


O homem comum pode desligar dos seus veículos a vida universal (matar), mas não pode religar esses veículos com a vida universal (ressuscitar). Essa impossibilidade de reatarmos com o imenso oceano da vida universal o seu pequeno veículo individual, o organismo, provém da nossa fraqueza e imperfeição. No estágio atual da nossa evolução só podemos desatar, mas não reatar o vínculo entre o veículo vital e o Oceano da Vida. Não temos poder sobre a Vida Universal, só temos poder sobre os pequenos veículos vitais. Se tivéssemos o poder de religar, como temos poder de desligar, poderíamos dizer com Jesus: "Eu deponho a minha vida quando quero, e retomo a minha vida quando quero"; ou ainda: "Destruí este templo (do meu corpo), e em três dias o reedificarei. " Destruir o templo de Deus, o corpo, não é o mesmo que destruir o espírito universal, o arquiteto, que construiu esse templo, em que habita.


A destruição é um ato negativo, passivo – a construção é um ato positivo, ativo.


A construção é um sim, uma presença – a destruição é um não, uma ausência.


Construir é acender uma luz – destruir é apagar essa luz e chamar as trevas.


Para negar ou apagar serve qualquer agente negativo – para afirmar, acender, requer-se um fator positivo.


* * *

* * *

Não parece estranho que Jesus apresente como argumento da sua autoridade divina de purificar o templo de Jerusalém o fato de ele ser senhor e soberano do templo de seu corpo?


É evidente que ele estabelece um paralelo entre o templo material de Jerusalém e o templo orgânico do seu corpo. Para reunir e argamassar as pedras daquele santuário morto foram necessários 46 anos – para organizar as células deste santuário vivo foram necessários poucos meses.


O templo de Jerusalém foi construído pelo Deus do Universo externo, através de mãos humanas – o templo do corpo humano é construído pelo Deus do Universo interno, mediante as forças biológicas do próprio organismo. Mas as leis do macrocosmo de fora e as do microcosmo de dentro são as mesmas, porque são as leis de Deus, do arquiteto do cosmos e do arquiteto do corpo.


A profanação do templo – quer de pedras inertes, quer de células vivas – é um crime, em qualquer hipótese. Abusar do templo de Deus para fins alheios ou contrários ao culto divino é um sacrilégio.


O templo de Jerusalém estava reduzido a uma "praça de mercado", como diz um evangelista, ou, como diz outro, a um "covil de ladrões", quando a verdadeira finalidade dele era a de ser uma "casa de oração". "Praça de mercado" e "covil de ladrões" é a mesma coisa, na linguagem de Jesus, porque tanto uma como outro é um sacrilégio, uma profanação do santuário da divindade, que só deve ser uma "casa de oração", um centro de culto divino. Servir-se do templo para adquirir e aumentar quantidades de matéria morta ou de carne viva – dinheiro ou animais – é desvirtuar a finalidade do templo de Deus.


O templo de Jerusalém era "casa de oração" – e também o templo do corpo humano é "casa de oração", lugar de culto divino. Conservando o corpo puro e sadio, como o de Jesus, devidamente disciplinado e harmonizado em todas as suas funções, é uma sagrada liturgia, um ato de culto religioso. Todas as células do corpo, todas as gotas de sangue, todas as vibrações dos nervos, todos os sentimentos, pensamentos e desejos, devem formar uma grande orquestra, uma sinfonia cósmica, para louvar e adorar a Deus, arquiteto e habitante desse santuário vivo.


O templo do corpo é profanado com toda e qualquer atividade que não lhe seja natural; por um modo de vida ou alimentação contrários à sua íntima natureza;


por um modo de sentir, pensar ou desejar em desarmonia com a sua verdadeira natureza de veículo e instrumento da alma.


Da completa fidelidade à natureza do corpo, da perfeita harmonia de todas as suas partes e funções desse templo de Deus depende a sua imortalidade.


Enquanto não for completa a harmonia de todas as suas partes e funções não pode haver imortalidade do corpo, porque desarmonia é destruição. A imortalidade do corpo provém da completa harmonização de todas as suas partes e funções; mas essa total harmonização das partes entre si só é possivel no caso que entre o corpo e a alma haja a devida sub- e superordinação; isto é, a disciplina e harmonia entre corpo e alma determina, a disciplina e harmonia entre as diversas partes e funções do corpo. Indisciplina espiritual provoca indisciplina corporal.


Esta sub- e super-ordinação é que é a verdadeira "pureza", ou seja, o elemento "cósmico" do nosso organismo, a sua "beleza", porque a sua "ordem". "Cosmos" significa a beleza nascida da harmonia entre todas as partes componentes e o seu Todo composto. A beleza é a harmonia das partes com o Todo, e, portanto, também das partes entre si. Ordem, pureza e beleza são a mesma coisa. De uma parte é sacrificada em benefício de outra não há harmonia, beleza, pureza, cosmos – há desarmonia, fealdade, impureza, profanação do templo de Deus.


A pureza constrói – a impureza destrói.


A harmonia é vida – a desarmonia é morte.


A beleza é a vontade de Deus – a fealdade é vontade do homem sem Deus.


A palavra latina "mundus" (mundo) também quer dizer "puro", como o seu contrário "immundus" quer dizer "impuro", "imundo". O mundo é puro ou belo porque é ordem e disciplina, sub- e super-ordinação de partes e funções.


O mundo é puro, cósmico, porque é harmonia – o corpo é puro, cósmico, quando guarda a harmonia natural das suas partes e funções.


Desarmonizar as funções do corpo é torná-lo imundo, impuro, feio, e isto lhe acarreta destruição – destruição parcial pelas doenças, destruição total pela morte prematura. Todas as doenças provém da desarmonia de funções. A morte em idade avançada não é doença, é o desenrolar duma lei natural; mas a morte prematura é desnatural.


Quem é capaz de conservar o seu corpo puro, harmônico, belo, tem também o poder de reedificar esse templo de Deus, pelo espírito de Deus, isto é, crear a sua imortalidade corporal. O mesmo espírito de Deus que edificou o nosso corpo desde o momento da sua concepção, pode também reedificá-lo em caso de destruição, parcial ou total. É flagrantemente absurdo e ilógico supor que esse Deus-em-nós, revelado pela alma, não possa reconstruir o que a nossa ignorância destruiu. A sapiência do nosso Eu espiritual constrói o corpo – a insipiência do nosso pseudo-Eu físico-mental destrói, parcial ou totalmente, o nosso santuário orgânico.


Mas, se a sapiência da alma for completa, como a do Cristo, pode ela reconstruir o santuário destruído por outros, insipientes e pecadores.


Jesus não diz que ele mesmo vá destruir o templo de seu corpo, mas que seus inimigos o destruirão, e ele reconstruirá pelo poder do espírito o que outros destruíram pela força da matéria. O homem espiritual não destrói o seu corpo, mas reconstrói o que os pecadores – mesmo o pecador dentro dele – destruíram. Disciplina sensata e bem orientada não é destruição, é construção.


Se o lúcifer do meu ego físico-mental destruir o meu santuário orgânico, pelas doenças ou morte prematura, invocarei o Lógos do meu Eu espiritual, o meu Cristo interno, para o reconstruir.


O homem crístico, que é o homem integral, o homem cósmico, considera o seu corpo como um santuário, que não deve ser destruído por mortificações insipientes, nem profanado por abusos descontrolados – mas deve ser mantido em toda a sua integridade, força e beleza natural, que convém a um templo da divindade.


E este templo, penetrado pelo espírito imortal, participará da imortalidade do espírito de Deus.


É este o homem cósmico, o homem integral, o homem crístico.








Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 8.
Para visualizar o capítulo 8 completo, clique no botão abaixo:

Ver 8 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?