Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 6

"FOI JESUS LEVADO PELO ESPÍRITO AO DESERTO PARA SER TENTADO PELO DIABO"

O episódio da tentação de Jesus representa um zênite e um nadir na história da humanidade. Um zênite, isto é, um ponto culminante, quando compreendido segundo o seu simbolizado espiritual e cósmico – um nadir, uma cena ridícula, quando interpretada apenas segundo os seus símbolos materiais. Nunca foi tão verdadeiro o conhecido dito do apóstolo Paulo tangente à interpretação dos livros inspirados: "A letra mata – mas o espírito dá vida. " Fui perguntado, um dia, se o diabo, quando tentava Jesus no deserto da Judeia, estava fora do inferno, dessa imensa fogueira em que Deus o precipitara. Respondi ao ingênuo consulente que, nessa ocasião, estava o diabo com uns dias de férias e aproveitou o ensejo para se entrevistar com o misterioso eremita, do qual, poucas semanas antes, fora dito, às margens do Jordão, que ele era o "filho de Deus". Mas o meu consulente percebeu a pilhéria e insistiu em uma resposta real. Ao que lhe tornei que o diabo nunca estivera no inferno, mas que o inferno estava dentro dele, também durante essa histórica entrevista com Jesus no deserto.


Provavelmente, a maior parte dos meus leitores de hoje compreenderá tão pouco essa resposta como aquele meu ingênuo interlocutor. Segundo as nossas teologias correntes, é o diabo um determinado indivíduo que habita no fogo eterno; mas que, apesar disto – ninguém sabe segundo que espécie de lógica! – excursiona constantemente pelo mundo da humanidade a fim de recrutar adeptos para o seu reino. Os mais ignorantes chegam ao ponto de identificar esse orgulhoso espírito com aquelas entidades primitivas e covardes que o Evangelho chama demônios ou espíritos impuros.


Entretanto, segundo o texto do Gênesis, espiritualmente compreendido, como também à luz do Evangelho, o diabo – também chamado Satan ou Belzebu – não é um determinado indivíduo, mas sim uma mentalidade, um modo de pensar, sentir e agir. Simão Pedro, o pescador galileu, é chamado "Satan", palavra hebraica que significa "adversário", coincidindo com seu equivalente grego "Diabolos", isto é, "opositor". Judas 1scariotes era diabo, embora esse discípulo de Jesus continuasse a ser o mesmo indivíduo humano que dantes fora.


Judas, era diabo "porque não tinha fé nas palavras de Jesus".


Por que são Pedro e Judas chamados "Satan" ou diabo? Porque o seu modo de pensar e agir era, na frase de Jesus relativamente a Pedro, "segundo o homem, e não segundo Deus"; uma vez que o pescador galileu se opunha à ideia do sofrimento redentor do Cristo. Nenhum egoísta simpatiza com o sofrimento; mas o altruísta, o homem penetrado de compreensão e amor universal, aceita espontaneamente qualquer sofrimento.


Quer dizer que esses indivíduos humanos não se deixaram guiar pelo elemento divino dentro deles, pelo espírito, pelo Cristo interno, pelo divino Lógos "que ilumina a todo homem que vem a este mundo e dá àqueles que o recebem o poder de se tornarem filhos de Deus". E por esta razão é que esses homens são chamados diabo ou "Satan", embora continuassem a ser esses mesmos indivíduos humanos.


A mentalidade egoística e anti-espiritual de "Satan" pode apoderar-se de todo e qualquer indivíduo consciente e livre, humano ou angélico. Por isto, "Satan" pode aparecer tanto em forma de homem como de anjo. Todo homem e todo anjo pode "satanizar-se", e pode também "des-satanizar-se", conforme o uso ou abuso da sua liberdade.


A parte físico-mental do homem, o seu ego sensorial e intelectivo, é essencialmente egoísta, e, portanto, pecador. O que peca não é a alma, esse "sopro de Deus"; o que peca é a inteligência associada aos sentidos. A inteligência é também chamada "lúcifer", isto é, "porta-luz", mas não é a luz.


Enquanto a inteligência não se opõe à razão (espírito, alma), ela não é Satan, diabo, mas tão somente lúcifer; só quando o intelecto se opõe à razão, ao divino Lógos, ao Cristo, é que ele se torna Satan (adversário) ou diabo (opositor).


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Acabava Jesus de jejuar e orar durante 40 dias e 40 noites, no deserto, e dispunha-se a iniciar publicamente a sua obra redentora.


Redenção? – que é isto? Em que consiste? Como se realiza?


Redimir quer dizer resgatar, libertar.


De que modo ia Jesus redimir a humanidade? De que ia ele libertar o homem?


Do Satan do egoísmo físico-mental, base e origem de todos os pecados.


A fim de libertar o homem desse Satan do egoísmo, era necessário invocar um poder superior, ou melhor, evocar das profundezas do próprio homem uma força maior que esse próprio egoísmo, um poder que "esmagasse a cabaça da serpente", segundo as palavras do Gênesis; era necessário erguer às alturas, a serpente ígnea que infligia mordeduras mortíferas ao homem. Quando essa mesma serpente rastejante e mortífera fosse sublimada às alturas do espírito crístico, nasceria vida e saúde da própria serpente, como insinua misteriosamente o próprio Cristo.


Dispunha-se, pois, Jesus a mostrar à humanidade o caminho da redenção, isto é, a abolição do egoísmo físico-mental creado pelo Satan intelectual, e a proclamação do amor universal, baseado na razão espiritual do Cristo interno de cada homem. Em Jesus, esse Cristo estava plenamente acordado e cônscio da sua identidade com o Pai, ao passo que nos outros homens esse Cristo continuava a dormir o sono da ignorância e do aparente dualismo separatista entre Deus e o homem.


Neste momento surge nos caminhos do Nazareno o "tentador". Estabelece-se a grande "tentação", ou "tensão", entre as duas maiores potências sobre a face da terra: o intelecto e a razão, Lúcifer versus Lógos, Satan, o anticristo em conflito com o Cristo. E até ao presente dia não foi solvida essa "tensão"; as relações entre o Lúcifer do intelecto e o Lógos da razão continuam tensas, e até hoje, Satan está levando vantagem sobre o Cristo: a humanidade continua a guiar-se antes pelo intelecto egoísta do que pela razão altruísta. Nada de redenção!. . .


O episódio da tentação no deserto é o maior drama que já se desenrolou no cenário cósmico da humanidade, após o primeiro ato desse mesmo drama descrito simbolicamente nas primeiras páginas do Gênesis.


É de per si indiferente decidirmos se esse drama teve uma projeção externa, no plano objetivo do mundo material – ou se se realizou simplesmente no mundo interno do Cristo, uma vez que esse mundo interno é infinitamente mais real do que todos os mundos externos. Em qualquer hipótese, a projeção desse drama interno entre Lúcifer e Lógos no cenário externo nada de real acrescentaria ao fato, assim como as sombras projetadas por um corpo não adicionam novo elemento à realidade desse corpo. O real é o simbolizado – o pseudo-real é o símbolo. O certo é que entraram em conflito em Jesus – como entram em conflito na alma de cada um de seus discípulos – as duas maiores potências sobre a face da terra: o intelecto e a razão, Satan e Cristo, o egoísmo e o amor.


Trata-se do problema central da humanidade, e de todos os outros seres conscientes e livres; trata-se do problema máximo de decidir em que consiste a redenção do homem: se o homem pode redimir-se a si mesmo pela luz da sua inteligência humana – ou se deve ser redimido pelo poder do espírito divino, pelo Cristo que nele habita.


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Através de três estágios, dramaticamente descritos pelo Evangelho, se desenrola esse duelo entre o Satan do Intelecto egoísta e o Cristo da Razão espiritual.


O Intelecto satanizado está convencido de que a redenção do homem consiste unicamente na potencialização máxima das luzes e forças intelectuais; que o homem pode redimir-se a si mesmo e por si mesmo pela ciência e técnica elevadas ao mais alto grau, ao ponto de isentarem o homem de todos os males e cumularem-no de todos os prazeres da vida terrestre. Redenção é, para o intelecto, essencial e unicamente, uma questão de bem-estar no aquém, sem nenhuma relação com um possivel mundo no além. "Se tu és filho de Deus", diz cautelosamente o Intelecto satanizado à Razão crística – "manda que estas pedras se convertam em pão. " Redenção, segundo a filosofia intelectualista consiste no conforto máximo da vida material; se o homem chegar a conquistar o maravilhoso poder de converter pedras em pão, sem nenhum esforço físico, mas tão-somente pelo poder mágico das forças mentais, é ele um redento e pode ser um redentor para seus semelhantes, irredentos, ensinando-lhes a magia de crear o conforto universal da vida terrestre; a plenitude do estômago, a plena satisfação dos sentidos – eis o que para o Intelecto divorciado da Razão é a redenção do homem! "Nem só de pão vive o homem – replica o Lógos – mas também de toda a palavra que sai da boca de Deus. " Nem só de matéria física, mas também de energias espirituais vive o homem, porquanto a essência de todas as coisas é espírito; a matéria é apenas um derivado do espírito. Este é autônomo, aquela é heterônoma. O espírito causa, a matéria é causada. O homem, no seu estágio de filho pródigo e pastor de suínos, julgava poder fartar-se com as grosseiras vagens que os porcos comiam, mas verificou que era ilusão, que nem só de alimento material podia ele viver – e foi em busca da iguaria espiritual.


O "tentador", evidentemente, ainda não ultrapassou esse estágio primitivo do filho pródigo, e pretende convencer Jesus de que isto é que é ser "filho de Deus"; viver com fartura nesse horizontalismo material.


Derrotado nesse terreno primitivo do materialismo crasso, o Intelecto satânico muda de tática e passa a tentar a Razão crística com a miragem da magia mental, sugerindo a Jesus a ideia de se jogar do alto pináculo do templo ao átrio do santuário, à vista de grande multidão de devotos, a fim de ser por eles aplaudido como um herói descido do céu e miraculosamente preservado ileso.


Essa acrobacia de magia mental, esse faquirismo exibicionista, a serviço da vaidade pessoal, é que o tentador considera como "redenção" – e os seus discípulos são legião. . .


O Cristo, porém, não aceita esse conceito de "redenção", que não passa de outra forma de egoísmo engendrado pelo Satan do Intelecto.


Derrotado em duas investidas, passa o Intelecto à terceira e mais alta esfera dos seus domínios: tenta o Cristo com a suprema fascinação da ambição, do poder político, da inebriante ânsia da autoridade sobre "todos os reinos do mundo e sua glória". Afirma o tentador que tudo isto é dele e que ele o dá a quem entende – afirmação essa perfeitamente exata quando se sabe que é a Inteligência que está falando, ela, que de fato creou todas as maravilhas da ciência e técnica, e, não raro, as oferece como preço da apostasia do Cristo e da deificação de Lúcifer.


E, nestas alturas, o tentador põe uma condição precisa e definida, que revela a sua íntima natureza: "Tudo isto te darei se, prostrando-te em terra, me adorares. " O Intelecto satanizado vive eternamente obsessionado pela ideia de ele ser Deus, a suprema e última realidade do Universo; o seu credo é "Eu sou o senhor teu deus, e não terás deuses alheios ao lado de mim. " É este o pecado dos pecados, o pecado supremo e máximo: a autodeificação do Intelecto, a audácia satânica de querer usurpar o trono da Divindade e "sentar-se no templo de Deus como sendo Deus".


O Intelecto exige que a Razão o adore!


Lúcifer satanizado não reconhece o Cristo como seu senhor e soberano; exige dele que se prostre em terra, que se reduza a adorador da Inteligência anticrística e antidivina! "Vai para trás, Satan!" (em grego: hypage, submete-te, vai em segundo lugar) – é a resposta categórica de Jesus – "porque está escrito: Só a Deus adorarás, e só a ele servirás!" A razão divina do Cristo dá ordem ao Intelecto de Satan para se submeter, ocupar o lugar que lhe compete, não na vanguarda do espírito, mas na retaguarda do mesmo, não como mandante, mas como servente.


Satan não atendeu ao convite do Cristo de se tornar discípulo dele. Outras Inteligências, porém, apareceram no cenário, os "anjos", e executaram a ordem, servindo a Jesus, consoante a reta ordem das coisas.


O tentador, ao que sabemos, continua na sua impenitência anticrística, procurando redenção pelo egoísmo aureolado de todos os fulgores da inteligência. E os seus sequazes são legião, aqui na terra e quiçá em outros mundos do universo.


Só quando a Inteligência humana se associar às Inteligências angélicas e, espontaneamente, servir ao divino Lógos – só então terminará a dolorosa tensão e tentação e despontará sobre a face da terra o reino da Verdade, da paz e da Felicidade. . .








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