Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 41

"NÃO DEVIA ENTÃO O CRISTO SOFRER TUDO ISTO – E ASSIM ENTRAR EM SUA GLÓRIA?"

O nosso Cristianismo vive ainda na 1dade-Média. Para a maior parte dos cristãos, o principal motivo para amarem e seguirem ao Cristo é o senso de pena, dó, comiseração, para com o "rei dos mártires", o "varão das dores". A nossa ideia de redenção consiste ainda no conceito do sofrimento, do sangue, da morte. Durante o ano eclesiástico, esse culto do Jesus sofredor aparece em forma crônica, durante a semana santa assume forma aguda. Procissão pelas ruas enlutadas com o andor do "Senhor Morto", as estações da via-sacra, os cânticos do hinário, as lamentações litúrgicas, e ainda por cima a Virgem dolorosa com sete espadas no coração – tudo isto nos faz crer que o Cristianismo consista essencialmente no culto patético de um homem morto, do Jesus crucificado.


A teologia corrente, quer deste quer daquele setor do Cristianismo, nos faz crer que a nossa salvação depende essencialmente da paixão e morte de Jesus – "sem efusão de sangue não há redenção".


O único ou principal motivo de amor parece ser a lacrimosa comiseração para com os padecimentos do mártir do Gólgota.


Entretanto, o verdadeiro Cristianismo é algo infinitamente mais positivo do que essas teologias negativistas. Não tem base no motivo da pena e compaixão, nem em outro sentimento negativo e passivo. O Cristianismo é essencialmente positivo e ativo em sua íntima natureza. É um misto de intenso amor e admiração, de irresistível entusiasmo e espirito de aventura realizadora.


Um homem sofredor e derrotado, por mais que apele para minha compaixão, não me inspira aquilo de que mais necessito para minha vida espiritual.


Que é isto, de que eu mais de tudo necessito?


Um senso forte e nítido de indestrutível firmeza e segurança. A vida espiritual do homem telúrico é uma noite, noite estrelada, é verdade, mas cheia de mistérios e incertezas. . . As trevas são espessas, e as estrelas são longínquas e altíssimas. . . E eu tenho de me orientar no meio dessa grande escuridão. . .


Para muitos, é verdade, a vida espiritual não parece ser uma noite misteriosa.


Quando estão em dúvida, vão consultar seu diretor espiritual ou ministro, ou a Bíblia, para saberem qual é o caminho certo a seguir, e esses homens e livros lhes dizem com absoluta precisão qual o caminho que leva a Deus.


Suponhamos que tudo quanto os mentores humanos e papiráceos nos dizem seja exato e verdadeiro – teríamos real certeza, neste caso?


Há uma certeza objetiva, lá fora de mim, mas palavras dos outros, não há dúvida – mas que me vale isto se falta a certeza subjetiva dentro de mim, certeza que só a experiência pessoal pode outorgar? Enquanto não me vier uma certeza de dentro, nenhuma das palavras, por mais verdadeiras, que ouço de fora me pode dar sólida firmeza e segurança interior. O que eu preciso é de uma última certeza central vinda de dentro de mim mesmo. É necessário que acorde dentro de mim mesmo o meu Cristo interno, o mesmo Cristo que está em Jesus. Se ele acordar dentro de mim, ele é o meu Cristo, ainda que seja o Cristo de todos, o Cristo universal.


E eu verei nesse Cristo um poder sobre-humanamente grande, alguém que derrota tudo o que sem cessar me derrota.


Que é que me derrota?


Duas coisas, o pecado e a morte é que me derrotam. Cada dia sou parcialmente derrotado pelo pecado, e parcialmente derrotado pela morte, porque, dia a dia, se aproxima mais o meu termo final.


Se eu tivesse um mestre e amigo que derrotasse totalmente aquilo que cada dia me derrota parcialmente; e se eu andasse de mãos dadas com esse invencível vencedor do pecado e da morte – seria eu um homem feliz, porque levaria uma vida tranquila, segura e calma.


Pois, é precisamente este o verdadeiro Cristo: alguém que derrotou os dois inimigos essenciais da minha felicidade: o pecado e a morte.


Derrotou o pecado porque é o amor.


Derrotou a morte porque é a vida imortal.


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Tudo quanto costumamos dizer do Jesus doloroso é verdade – mas não é a verdade total, nem mesmo a parte principal da verdade. Tudo isto é incompleto, imperfeito, penúltimo – nada é último, completo, definitivo. Se apenas temos fé no Jesus doloroso, vã é a nossa pregação, vã é a nossa fé, e estamos ainda em nossos pecados, não fomos remidos, porque redenção não pode vir dum homem morto.


Quem apenas crê no Jesus crucificado, no Senhor Morto, não está remido, é um irredento, porque um homem derrotado pela morte não me pode salvar da morte. Só alguém que tivesse derrotado a morte me poderia garantir vida eterna.


Verdade é que Jesus sucumbiu à morte, mas não sucumbiu porque devesse sucumbir, mas porque quis sucumbir. Quantas vezes se tinha ele subtraído misteriosamente às ciladas de seus inimigos, tornando-se subitamente invisível, ou fazendo-os todos cair de costas por terra! Se sucumbiu à morte, foi unicamente em virtude do seu grande poder. Quem é pouco poderoso deve fugir da morte, quem é muito poderoso pode permitir a morte e a derrota, porque se sabe imortal e inderrotável; as chamadas derrotas não são derrotas reais, senão apenas aparentes, na zona periférica das aparências, mas no centro da sua realidade esse homem continua invulnerável. Para Jesus, essa aparente derrota que ele permitiu espontaneamente, foi a maior das vitórias, porque foi por motivo de exuberante poder que permitiu essa aparente fraqueza. Nunca o homem é mais poderoso do que quando aceita ser fraco.


Nunca a vida é tão gloriosa como em face da morte pela qual se deixa derrotar voluntariamente. "Não devia então o Cristo sofrer tudo isto, para assim entrar em sua glória?" "Onde está, ó morte o teu aguilhão – exclama o apóstolo – onde está ó morte a tua vitória? Foi a morte tragada pela vitória!" Este é o Cristo real, o rei imortal dos séculos, um Cristo tão exuberantemente vivo que pode morrer sem sofrer prejuízo em sua vida. Pelo contrário, essa própria morte lhe intensificou a vida. "Quando eu for exaltado, atrairei tudo a mim. " É só esse Cristo poderoso que pode encher de entusiasmo realizador os seus discípulos, porque lhes dá firmeza e segurança no meio das incertezas. Sob a sua bandeira até o homem mais fraco é forte.


A redenção, em última análise, se consumou na madrugada da Páscoa, quando o Cristo, depois de passar pelas ignomínias, entrou em sua glória.


Penúltimo é o homem das dores.


Último é o rei imortal dos séculos.


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O nosso Cristianismo oficial de hoje, quase todo ele, está ainda na fase preliminar e infantil, emocionando-se profundamente com os sofrimentos de Jesus, incapaz de se entusiasmar intensamente pelo Cristo triunfante.


A cruz, por enquanto, é o símbolo clássico do sofrimento – mas não é este o sentido verdadeiro e último da cruz. O sentido cósmico da cruz, tão antiga como a própria humanidade, é a vida eterna e universal, simbolizada pelas quatro pontas do emblema dirigidas para os quatro pontos cardiais.








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