Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 38

"O FILHO DO HOMEM NÃO TEM ONDE RECLINAR A CABEÇA"

Estas palavras de Jesus são usadas e abusadas por escritores e pregadores para frisar a extrema pobreza do Nazareno, mais indigente do que as raposas em suas cavernas e as aves em seus ninhos. É que o mundo cristão do século vinte está ainda sob o impacto da ideologia medieval, infantil, quando os teólogos tentavam levar os homens em seguimento de Jesus por motivos de piedade e compaixão; amar a Jesus para ter pena da sua grande pobreza e dos seus sofrimentos.


Entretanto, o que o Nazareno frisa nestas palavras não é a sua pobreza externa, objetiva mas a sua atitude interna e subjetiva, isto é, o seu espontâneo desapego dos bens materiais, que, para a maior parte dos homens, formam o cobiçado alvo da desenfreada lufa-lufa cotidiana. A sua "pobreza pelo espírito", a sua "pureza de coração", a sua "gloriosa liberdade dos filhos de Deus", eram absolutas.


Quando certo homem, de índole emocional e um tanto melodramática, manifestou a vontade de seguir o Nazareno aonde quer que ele fosse, fez-lhe ver Jesus que esse seguimento firme e constante supõe uma atitude interna de completo desapego dos bens externos que garantem conforto material e prestígio social no mundo. O genuíno discípulo do Cristo deve ter alma de aventureiro, disposto a se jogar, de olhos fechados, ao tenebroso abismo do nada das coisas materiais, na certeza de que nesse nadir do mundo visível encontrará o zênite do mundo invisível. Essa fé, é claro, supõe o maior heroísmo da alma de que é capaz um ser humano. Aquele candidato de que nos fala o Evangelho não parece ter sido alma de aventureiro incondicional;


nutria alguma segunda intenção; esperava alguma vantagem, algum conforto material. . .


Através de toda a filosofia espiritual do Evangelho vai este pensamento: o que é decisivo não é aquilo que o homem possua ou não possua, mas o modo como o sabe possuir ou não possuir. A arte de possuir corretamente o que se possui, ou de não possuir às direitas o que não se possui, é talvez a mais difícil de todas as artes. O que divide a humanidade em dois grandes campos não é a posse ou falta de posse de bens terrenos; o grande abismo não medeia entre a classe superior dos ricos e a classe inferior dos pobres, não; porque tanto estes como aqueles podem ser igualmente escravos, uns do que possuem, outros do que não possuem mas anseiam loucamente possuir. É possivel até que um mendigo seja mais escravo daquilo que não possui do que um milionário daquilo que possui. Os objetos externos, possuídos ou não possuídos, são feitos de quantidades; mas a atitude interna com que o sujeito os possui ou não possui é feita de qualidade; ora, as quantidades externas não são reais em si mesmas, enquanto a qualidade interna é intrinsecamente real;


daí a grande diferença entre o que e o como da posse ou do seu contrário. E como toda a filosofia do Evangelho é essencialmente qualitativa e verticalista, e não quantitativa e horizontalista como a nossa política, compreende-se o procedimento do Nazareno para com um candidato que parecia bem intencionado, mas, na realidade, não era idôneo.


Muitos compreendem que é difícil ser corretamente pobre, poucos percebem a imensa dificuldade que há em ser corretamente rico. Não encontramos nas páginas do Evangelho uma só palavra sobre a dificuldade de ser pobre às direitas, mas lemos que "é mais fácil um camelo passar pelo fundo duma agulha do que um rico entrar no reino dos céus".


Certo dia, convidou Jesus um jovem, que era incorretamente rico, a conquistar um "tesouro nos céus" – mas o jovem falhou tristemente.


No caso a que se refere o título deste parágrafo insinuou ele a um entusiástico candidato ao discipulado espiritual que era arte difícil possuir menos que as raposas e as aves.


Tanto neste como naquele caso, os candidatos recuaram em face da dificuldade de serem pobres pelo espírito e puros de coração.


Que o homem possua muitas ou poucas coisas não determina o seu valor ou desvalor; o que é decisivo, já o dissemos, é o modo como ele saiba possuir ou não possuir o muito ou o pouco. O fato externo de possuir ou não possuir é um simples ter ou não ter – mas o modo interno como o homem possui ou não possui afeta o seu íntimo ser.


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Três atitudes são possíveis em face dos bens materiais:
1) pode o homem possuí-las interessadamente interessado;
2) pode despossuir-se delas desinteressadamente desinteressado;
3) e pode possuí-los desinteressadamente interessado. Abreviando os termos extensos, poderíamos chamar o primeiro estado: ii; o segundo: dd; e o terceiro: di.


No primeiro caso (ii), o homem, propriamente, não possui os bens materiais mas é antes por eles possuído; a sua atitude não é ativa, mas passiva; ele é um possuído, e não um possuidor, embora esse homem se tenha, erradamente, na conta de um possuidor autônomo e independente. Não são os bens materiais que servem a esse homem, é ele que serve a esses bens. Ora, quem serve é servo, escravo. E quem serve a matéria não pode servir ao espírito, porquanto "não podeis servir a Deus e as riquezas", embora as riquezas possam e devam servir a quem serve a Deus.


No segundo caso (dd), o homem, reconhecendo a dificuldade que há em possuir sem ser possuído, corta o mal pela raiz, despossuindo-se de vez de todas as posses; e assim, longe e liberto de toda a matéria tentadora, pode o homem viver em completa liberdade, como ele pensa. O fato, porém, é que esse próprio medo que ele tem dos bens materiais, e que o levou a essa radical deserção dos mesmos, é também uma escravidão e escravização. Esse homem é livre, sim, dos bens materiais, mas não está liberto do medo desses bens; quer dizer que não é perfeitamente livre, porque todo medo é escravizante.


No terceiro caso (di), o homem alcançou o mais difícil dos triunfos, interessando-se desinteressadamente pelas coisas do mundo; tem íntima e sincera afeição a tudo que faz parte da vida terrestre, mas não está apegado a nenhuma das coisas externas. Não foge dos bens materiais, porque a sua força espiritual é tão grande que nada tem que temer da ofensiva desses bens, que lhe estão perfeitamente sujeitos; e o homem desinteressadamente interessado se serve desses bens com absoluta liberdade e soberania. Ele os possui sem ser por eles possuído. Interessa-se por tudo que faz da vida terrestre uma vida plena e bela, mas de tal modo que o mais vivo e dinâmico interesse pela ciência e arte, pelo comércio e pela indústria, pelo bem-estar individual e pela fama social, em nada lhe destrói a liberdade interior e o sereno equilíbrio do seu Eu integral; intensamente afeiçoado a tudo, não é apegado a nada. . .


É esta, sem dúvida, a vitória máxima que um homem possa alcançar; é este o Cristianismo genuíno e integral, a 100%, a proclamação do reino de Deus sobre a face da terra.


Ser interessadamente interessado é próprio dos profanos e analfabetos do espírito.


Ser desinteressadamente desinteressado é característico dos austeros ascetas que vão firmemente em demanda do reino de Deus, e, algum dia, o alcançarão plenamente.


Ser desinteressadamente interessado é privilégio dos acadêmicos e universitários do espírito, os que sabem por experiência pessoal que, embora o reino de Deus não seja deste mundo, ele contudo está neste mundo e aqui é que deve ser realizado, neste e em todos os outros mundos de Deus. "O Cristianismo é uma afirmação do mundo – que passou pela negação do mundo".


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Uma coisa, porém, é certa e importante: que ninguém consegue possuir os bens terrenos sem ser por eles possuído, se, no princípio, não se despossuir, total e irrevogavelmente, de si mesmo, do seu pseudo-ego físico-mental, por meio de uma luminosa compreensão do seu verdadeiro Eu divino, compreensão essa que é idêntica a um grande e universal amor. Enquanto o homem ainda pertence a si mesmo, a seu falso Eu, não pode deixar de pertencer ao mundo, porque o seu pseudo-ego não é senão uma parte desse mundo. E pertencer ao mundo fora ou dentro de si, é escravidão, é escravidão.


Um escravo, porém, não pode possuir o reino de Deus, que é o reino da infinita liberdade. Só quem se despossui completamente do seu pseudo-ego físicomental é que pode, tranquila e seguramente, possuir o mundo sem o menor perigo de ser possuído pelo mundo.


Só posso possuir com liberdade o que é meu depois de me despossuir do meu falso Eu e entrar na posse do verdadeiro Eu.


Pelo que, para o profano e inexperiente, é sumamente perigoso rejeitar a disciplina ascética da renúncia, sob pretexto de ser um homem livre e independente. O que ele chama liberdade e independência é a pior das escravidões, e tanto mais funesta quanto mais ele considera essa própria escravidão como liberdade, fechando assim todas as portas para a libertação.


Para que um escravo possa ser libertado, é necessário que primeiro reconheça a sua escravidão como escravidão, e não se iluda apelidando liberdade a escravidão, chamando luz as trevas, saúde a doença, palácio um cárcere.


Pode um encarcerado dourar artisticamente as grades férreas da sua prisão e pintar nelas, com letras de ouro, a palavra "Palácio" – nem por isto deixa o cárcere de ser um cárcere.


É, pois, melhor reconhecermos sinceramente que somos escravos dos sentidos e da mente e trabalharmos sem cessar por nos libertarmos, paulatinamente, dessa escravidão, mediante a renúncia espontânea e o desapego voluntário de tudo que nos escraviza. Depois dessa grande obra de emancipação é que poderemos, realmente, libertos e livres, possuir as coisas que nos possuíam, já agora sem perigo de sermos novamente por elas possuídos. "O Cristianismo é uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo. " (Schweitzer.) "Abandona o mundo! Depois recebe-o de volta, purificado, das mãos de Deus!" (Gandhi.)






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