Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 37

"TEU OLHO É A LUZ DO TEU CORPO"

Estas e as seguintes palavras de Jesus são um dos maiores mistérios do Evangelho e denotam uma experiência intuitiva de grande profundidade. Tão enigmático são estas palavras que numerosos tradutores e intérpretes se desnorteiam diante delas e tateiam na escuridão, forcejando por descobrir um sentido aceitável por detrás desse texto.


A interpretação quase geral entre nós é a seguinte: O olho significa a nossa boa intenção interna; o corpo significa os atos externos; enquanto for boa e reta a nossa intenção, os nossos atos também são bons; mas, se a nossa intenção for má, maus também serão os nossos atos, porque os atos revestem o caráter da atitude.


É esta talvez a interpretação mais razoável, no plano da teologia escolástica, em que se encontra, hoje em dia, o grosso da cristandade do ocidente.


Traduzindo fielmente o texto grego do primeiro século, temos o seguinte: "Teu olho é a luz (ou, lâmpada) do teu corpo. Se o teu olho for simples, está em luz todo o teu corpo; mas, se o teu olho se tornar mau, está em trevas todo o teu corpo. E, se a própria luz que em ti está se converter em trevas – quão grandes serão essas trevas!" O que há de mais estranho nesse texto é a oposição de "simples" a "mau".


Esperaríamos que, em lugar de "mau", figurasse "complexo" ou "composto" como contrário de "simples".


Lembremo-nos de outras palavras do Mestre: "Sede inteligentes como as serpentes, e simples como as pombas. " Aqui ele opõe "inteligente" (frónimos, sagaz, astuto, calculador) a "simples". O homem físico-mental é "inteligente", ao passo que o homem racional ou espiritual é "simples". Se compararmos os dois textos, resulta que o "simples" figura em ambos como apanágio do homem racional, espiritual, cósmico, enquanto o "mau" ou "inteligente" caracteriza o homem meramente físico e mental. Lúcifer, quando adversário do Cristo, é Satan, o Mau, o Maligno, o Príncipe das Trevas. Onde dominar o intelecto humano, sem ou contra a Razão divina, aí há "trevas", porque o intelecto é a consciência individual, uni-lateral, egoísta, ao passo que a Razão, o Lógos, o Cristo, é a consciência universal, oni-lateral, altruísta, o amor.


Convém, antes de tudo, esclarecer o que Jesus entende por "olho" (oftalmós).


Embora o símbolo seja tomado do olho físico, corpóreo, o simbolizado referese ao olho metafísico, espiritual. Por esta razão também não diz "olhos" (no plural, mas "olho" no singular). No mundo espiritual não há órgãos visuais, mas um só "olho", uma visão única, que os iniciados denominam o "olho simples", ou o "olho espiritual", que é uma faculdade da alma, e cujo reflexo é localizado na base da testa, entre as sobrancelhas. Esse "olho simples" é também chamado o "olho do Cristo", ou o "olho espiritual", como ocorre frequentemente nos escritos do místico espanhol, San Juan de la Cruz, e de outros iniciados.


Esse "olho simples" não é um órgão corpóreo, que nunca poderia ser simples, mas é uma faculdade espiritual, uma potência divina, uma antena de alta receptividade. Deste ponto de partida se ramifica uma rede de nervos e irradia uma torrente de fluidos que invadem e permeiam o cérebro, culminando no "lótus de mil pétalas", as últimas ramificações nérveas, que captam as vibrações das ondas divinas.


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Diz, pois, o grande Mestre que o olho espiritual é a luz do nosso corpo, da nossa vida; é ele "a luz que ilumina a todo homem que vem a este mundo", pois é o "olho do Cristo". "A luz brilha nas trevas, e as trevas não a prenderam", não a extinguiram. A luz espiritual só pode funcionar como iluminadora da matéria enquanto ela conservar a sua natural simplicidade.


Se o "olho simples" deixar de ser simples, ele se torna "mau", descendo das alturas da pura racionalidade para as baixadas da impura intelectualidade. Se a própria simplicidade racional se complicar intelectualmente, se a ingênua candura da pomba se emaranhar na calculada sagacidade da serpente, "se o sal se desvirtuar", se a luz se extinguir, como a das cinco virgens tolas – então essa luz, que era boa enquanto simples, se torna má, porque complicada – e quão grande devem ser as trevas na vida dum homem no qual se apagou a luz do mundo!








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