Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 36

"NINGUÉM PÕE REMENDO NOVO EM ROUPA VELHA"

O calendário da sinagoga de Israel marcava dia de jejum. E todos obedeciam a essa injunção externa e jejuavam.


Todos – menos Jesus e seus discípulos.


Foi um escândalo! O profeta de Nazaré, que se dizia o Cristo, o filho de Deus, desprezava as leis da igreja do seu povo, e, como agravante, induzia os seus discípulos ao mesmo pecado.


Resolveram os escandalizados mandar uma deputação à presença do Nazareno para lhe exigir uma satisfação. Cautelosamente, dirigiram a pergunta aos discípulos dele: "Por que é que vós e vosso mestre não jejuais. " Jesus, entreouvindo a objurgatória, responde-lhes: "Será que podem jejuar os convidados às núpcias enquanto está com eles o esposo? Mas lá virão tempos em que o esposo lhes será tirado, e, nesse tempo, também eles hão de jejuar. " Quem é esse esposo? Quem são esses convidados? Que núpcias são essas?


Não condena Jesus a praxe antiquíssima e salutar de jejuar para fins espirituais; pelo contrário, afirma que também os seus discípulos jejuarão. O que o Mestre rejeita é o mecanismo do jejum, como era praticado por seus adversários. Isto de jejuar automaticamente, porque está marcado no calendário eclesiástico, não é do espírito do Nazareno. Tudo o que ele faz é por um impulso interno, e não por uma compulsão externa. A lei não é para ele uma norma de fora, mas sim uma necessidade de dentro. Ele vive inteiramente na atmosfera da "gloriosa liberdade dos filhos de Deus".


Também os discípulos jejuarão – quando?


Quando lhes for tirado o esposo, isto é, quando eles sentirem e si desolação e aridez espiritual, oriundo da falta da consciência da presença de Deus. Quando a alma se sentir como que cercada de trevas noturnas, sem suavidade, sem o conforto da serena certeza da presença de Deus – então fará o discípulo do Cristo todo o possivel para reaver a consciência da presença do divino Esposo;


jejuará e orará até que volte o Esposo e lhe dê novamente a certeza da sua presença.


Jejum e oração são, entre todos os povos, considerados meios de purificação moral e espiritualização. Hoje, muitos abandonaram a prática do jejum, porque não lhe conhecem o sentido; outros praticam-no com o fim de mortificar a carne e fazer penitência por seu pecados. Entretanto, o verdadeiro jejum é metafísico, como expusemos em outro capítulo deste livro. Jesus sabia que o jejum unido à oração é um meio poderoso para intensificar a consciência espiritual, contanto que seja feito por um impulso interno, e não simplesmente por uma imposição externa.


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Depois disto, para melhor clarificar o seu pensamento, recorre Jesus a duas comparações cuja simplicidade rivaliza com sua grandeza. Uma dessas comparações foi ele buscar na cestinha de costuras de sua mãe, a outra no bazar de algum negociante de vinhos. "Ninguém põe remendo novo de pano cru em roupa velha; porque, do contrário, o remendo de pano cru (encolhendo-se) arranca parte da roupa e fica pior o rasgão. Ninguém deita vinho novo em odres velhos; porque, do contrário, o vinho novo rompe os odres, vaza o vinho e perdem-se os odres; não, vinho novo se deita em odres novos, e assim ambos se conservam. " Que é esse remendo novo e esse vinho novo?


Que é essa roupa velha e esses odres velhos?


O Evangelho de Jesus Cristo é algo tão novo e inédito que não é possivel cosê-lo na roupa velha ou deitá-lo nos odres gastos das usanças rituais da sinagoga de Israel – no caso presente, o jejum obrigatório a que os chefes eclesiásticos queriam compelir os discípulos dele.


O verdadeiro Cristianismo do Cristo não é algum concerto precário, alguma remendação deste ou daquele rasgão na roupa poída do ritualismo tradicional;


mas é uma veste nupcial inteiriça e totalmente nova; não é uma rotineira continuação de coisas velhas, mas o início de um mundo novo, de um universo original e inédito, aljofrado ainda do orvalho virgem da alvorada cósmica. . .


Queriam os chefes da sinagoga que Jesus acrescentasse mais algum retalho à velha colcha de retalhos que era, nesse tempo, a igreja de Israel, tão vazia de espírito divino e tão repleta de preceitos humanos.


A sinagoga de Israel era a religião do tu deves, tu não deves – ao passo que a mensagem do Cristo é a religião do eu quero. Os dez mandamentos de Moisés se resumem na ideia de um dever compulsório, ou antes de um não-dever: não deves matar, não deves adulterar, não deves mentir.


O jovem rico pergunta a Jesus "que devo fazer", e o Mestre responde "se queres ser".


Quem cumpre o seu maldito dever é um bom escravo – quem realiza o seu bendito querer é um homem livre.


Após o ocaso do tu deves, desponta a alvorada do eu quero. Enquanto o homem profano marca passos no plano horizontal do seu dever compulsório nada sabe ele da "gloriosa liberdade dos filhos de Deus", que começa com a vertical do iniciado no querer espontâneo.


O ego humano só conhece o dever – o Eu divino se guia pelo querer.








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