Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 35

"DEIXA OS MORTOS ENTERRAR OS SEUS MORTOS!"

Um dos ouvintes de Jesus é, espontaneamente, convidado pelo Mestre a segui-lo; ele, porém, pede permissão para primeiro enterrar seu pai, que acabava de falecer. Ao que Jesus lhe responde: "Deixa os mortos sepultar os seus mortos – tu, porém, vai e proclama o reino de Deus. " Magnífico esse jogo com a palavra "mortos" tomado em dois sentidos diferentes!


Jesus faz um engenhoso jogo com a palavra "morto", no sentido físico e no sentido metafísico. O pai do convidado estava fisicamente morto; os membros da família que o iam enterrar estavam metafísica ou espiritualmente mortos, ao passo que o candidato ao seguimento de Jesus começava justamente a ressuscitar para uma vida espiritual, e, como recém-vivo, estava em condições de ajudar outros a ressuscitarem também, proclamando o reino de Deus aos ainda-não-vivos, porém vitalizáveis.


Por que, pois, perder ainda alguns dias para enterrar os restos mortais de um corpo humano, falsamente chamado "meu pai"? Não podiam os outros, os ainda-não-vivos no espírito, fazer esse trabalho mortuário?


É este o terceiro dos três candidatos ao discipulado de Jesus; os dois primeiros ofereceram-se espontaneamente para seguir o profeta de Nazaré, mas não são aceitos, por não estarem em condições de abraçar tão árdua tarefa. O primeiro não tinha suficiente desapego dos bens da terra e comodidades da vida; o segundo quer primeiro despedir-se da gente de casa, e tem de ouvir que não é idôneo para o reino de Deus. Escravos da cobiça e de emoções pessoais não podem ser discípulos do Cristo. O terceiro não se oferece, mas recebe um convite espontâneo de Jesus, e ao que parece aceitou o convite. Também ele quer primeiro voltar para casa, não pra dizer adeus aos vivos, mas para prestar um ato de piedade filial a um defunto. Este, porém, é idôneo para o reino de Deus e tem de Jesus ordem categórica de iniciar no mesmo instante a sua missão apostólica, antepondo-a a toda e qualquer outra consideração.


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Vai através de toda a vida de Jesus um quê de indiferença para com sua família e parentela humana; os laços da carne e do sangue, o parentesco meramente físico não tem valor algum para ele. A afinidade espiritual, por outro lado, lhe merece grande importância. O que, realmente, une os homens interiormente adultos são os liames do espírito, e não os vínculos da matéria.


Que diria Jesus da imensa importância e do culto hiperbólico que uma grande parte do Cristianismo tributa àquela que apenas lhe deu o elemento material, humano, e não o elemento divino? Inúmeras vezes se refere Jesus a sua coespiritualidade com o Pai celeste, nenhuma vez à consanguinidade com sua mãe terrestre.


A importância que um homem dá ao parentesco material, ou então à afinidade espiritual, é bem um teste e uma pedra de toque da fraqueza ou da força do seu Cristianismo.


Nós que ainda vivemos escravizados pelos elementos primitivos do plano físico-mental dificilmente compreendemos essa atitude do Mestre, que, não raro, fere a nossa humana sensibilidade. Para compreendê-lo, teríamos de estar no plano de consciência em que o Cristo se encontrava. Só se sabe e se compreende de fato aquilo que se vive e que se é. Nenhuma coisa apenas percebida pelos sentidos e entendida com a cabeça, isto é, o intelecto, é propriedade nossa, porque não se identificou conosco. Nosso, eternamente nosso é só aquilo que vivemos nas íntimas profundezas do nosso ser.


Os livros sacros empregam a palavra "morte", "morrer" para designar o estado do homem que só vive na ego-consciência, e não entrou ainda na cosmoconsciência. Assim, diz Deus à Adão: "Se deste fruto comeres, morrerás" – mas Adão comeu do fruto proibido e continuou ainda a viver diversos séculos.


O sentido é este: se entrares na zona do conhecimento do bem e do mal, que é a ego-consciência, não te tornarás imortal. A imortalidade só vem da "árvore da vida", que é a consciência espiritual.


O filho pródigo estava "moto e reviveu", estava no ego mental e passou para o Eu espiritual.


O Cristo virá para julgar "os vivos e os mortos" – tanto os ego-conscientes (mortos) como os cosmo-conscientes (vivos).








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