Filosofia cósmica do evangelho

Versão para cópia
CAPÍTULO 34

"NÃO TEMAIS AQUELES QUE MATAM O CORPO!"

É ideia quase geral que, com a morte física, o homem entre subitamente num mundo totalmente diferente do que conheceu até então.


Entretanto, a verdade não é esta. A separação dos sentidos orgânicos, que punham a alma em contato direto com o mundo circunjacente da matéria e suas forças, não representa para o homem mudança radical, porque o conteúdo das suas experiências terrestres continua a subsistir intato. As experiências colhidas em 20, 50, 80 anos de vida terrestre são independentes dos objetos que as condicionaram – tanto mais que essas experiências não vieram dos objetos, mas da própria alma, despertadas pelos objetos. O mundo material não é causa interna, senão apenas condição externa das nossas experiências, e essa condição pode ser substituída por outro ambiente, não menos favorável que o atual. Assim como a luz solar que ilumina uma sala não vem da janela, mas do sol, através da janela, semelhantemente, as experiências que o homem colhe durante a vida terrestre não brotam dos objetos em derredor, mas nascem das íntimas profundezas da alma.


Entretanto, embora a fonte das nossas experiências, a alma, continue a subsistir inalterável, contudo é certo que a falta dos habituais veículos condutores, os sentidos e os nervos, causará à alma desencarnada uma espécie de desnorteamento inicial. De súbito, vê-se a alma privada dos seus instrumentos familiares de tantos decênios. Como trabalhar agora? De que modo colher conhecimentos? Como estabelecer contato entre si e o ambiente, tão alterado?


Em breve responderemos a esses quesitos.


* * *

* * *

Outra ideia errônea a respeito da morte é que a separação entre o corpo e alma seja acompanhada de grandes sofrimentos. A separação é, quase sempre, um processo indolor, uma suave letargia, uma tranquila e progressiva dormência, um imperceptível deslizar para uma região penumbral de crescente inconsciência.


O que faz da morte uma "agonia", isto é, uma "luta" não é a morte em si mesma, mas esse acervo de erros e superstições que em torno dela se tem acumulado no decorrer de séculos e milênios. O apego excessivo a bens ou pessoas da terra, e, sobretudo, o corteja sinistro de horrores que certas religiões crearam em torno do processo natural da transição desta para outra zona da existência, o juízo de Deus, as penas do inferno ou do purgatório – tudo isto converteu um evento natural em sinônimo de angústias e incertezas.


Para o homem que, iluminado pela luz da verdade e do amor, ultrapassou essas fantasias e viveu uma vida dignamente humana, a despedida da vida terrestre não é mais horrível do que a entrada da mesma pelo nascimento.


Nascer também é uma espécie de morte: a separação da criança do útero materno, ao qual estava solidamente apegada pelo cordão umbilical e sem o qual não podia viver, durante nove meses, é também um processo de "morrer" como a separação do homem adulto do seio materno da natureza terrestre, à qual o prendem numerosos "cordões umbilicais", bem mais resistentes do que aquele da criança nascitura.


O melhor que o homem pode e deve fazer é desprender-se paulatinamente, ele mesmo, durante a vida, desses vínculos terrenos; ter afeição sem apego; não derivar os seus melhores fluidos vitais desses "cordões" materiais da cobiça, do egoísmo, da luxúria; habituar-se a morrer espontaneamente antes que a morte o faça morrer compulsoriamente.


Quem não morrer espontaneamente, antes de ser morto compulsoriamente, não pode viver gloriosamente.


* * *

* * *

Que acontece, pois, quando alguém morre?


Quando um ovinho de borboleta "morre" para seu estado primitivo, não morre para dentro da morte, mas "morre" para dentro duma vida mais abundante e bela; quer dizer que a sua morte é, de fato um nascimento ou uma ressurreição. Toda vida maior supõe a morte de uma vida menor. Morre o ovinho para que a lagarta possa viver; mas essa lagarta é o próprio ovo em outro estado, mais perfeito.


Quando, semanas depois, a lagarta também "morre" e se imobiliza no pequeno ataúde da crisálida ou do casulo, mais uma vez essa pseudo-morte preludia uma nova fase de vida, mais ampla e plena que as duas fases anteriores.


Finalmente, vem a terceira "morte" desse inseto em evolução ascensional, e o ocaso desta terceira fase da vida é a alvorada da vida mais deslumbrante que vai despontar – a borboleta.


Em cada nova metamorfose, o inseto morre com a mesma tranquilidade com que nasce e renasce, porque sabe institivamente que essas vicissitudes de luz e trevas são necessárias para atingir a plenitude da sua luminosidade final, em forma de lepidóptero alado a adejar, feliz e glorioso, nos espaços ensolarados.


O homem morre cada noite, quando se deita para dormir – e nasce cada manhã quando acorda. Uma inconsciência entre duas consciências.


Assim como o sono não atinge a vida central do verdadeiro Eu, senão apenas as camadas periféricas dos sentidos, assim também a morte não afeta o nosso ser interno, que dá vida aos invólucros externos.


Cemitério, derivado da palavra grega "koimiterion", quer dizer "dormitório". Os que jazem nesse dormitório, dormem o sono duma noite temporária. Disto sabia Jesus, disto sabiam e sabem seus verdadeiros discípulos.


Por isto, leitor, quando vês morrer algum dos teus entes queridos, não te entristeças, não chores, não fales em perda, não te cubras de luto. Logo depois fica em silêncio e abisma-te em ti mesmo, acompanhando com a alma a metamorfose de uma "borboleta". . . Lava o rosto, veste-te de festa, põe sobre a mesa da sala um ramalhete de flores rodeado de umas velas acesas, e, se tiveres incenso genuíno, lança-o sobre as brasas e canta em silêncio o hino da libertação que a alma de teu ente querido está contando em jubiloso silêncio. O pior que podes fazer é entristecer-te, ou até "fazer cena", porque estas vibrações de baixa frequência dificultariam o voo da gloriosa "borboleta", prendendo-a desnecessariamente às baixadas terrestres. Deixa-a voar livremente rumo ao Infinito, e não sejas tão egoísta e cruel de a quereres reter contigo na jaula que ela abandonou. . .


Se tua alma está realmente unida à outra pelo liame do amor, não há nada que de ti possa alhear essa alma querida. Que poder teria a fraqueza da matéria sobre a força do espírito?


* * *

* * *

A alma não é atingida pela morte do corpo.


A hora da grande transformação está envolta no véu duma suave semiconsciência crepuscular . . . Tudo lhe parece distante, cada vez mais distante. . .


Tudo vago, longínquo, etéreo. . . Recuam as paredes do quarto. . . Perdem-se no espaço os derradeiros sons. . . Entorpecem as extremidades do corpo. . . A semiconsciência centraliza-se no coração e no cérebro, últimos redutos da vida material. . . Por fim, o corpo repousa como um envólucro vazio e a alma parece imersa como num sono profundo. . .


Desce sobre ela a noite duma paz imensa. . .


Quanto tempo durará essa noite da inconsciência, ou semi-consciência?


Ninguém o sabe. Para uns é longa, para outros, breve. . . Depende do modo de vida que alguém levou na terra, depende da qualidade e do conteúdo das suas experiências. . . Para uma alma firmemente presa ao corpo e à matéria do mundo, causa essa separação um choque violento, uma espécie de hemorragia, de maneira que, por largo tempo, ela não consegue recuperar suficiente consciência para saber o que aconteceu e onde está.


Para outras almas, habituadas ao desapego voluntario, é breve esse estado de inconsciência, porque não houve choque violento.


Quando, então, a alma volta a recuperar a consciência de si, não sabe ainda que se acha fora do seu corpo. O longo hábito de sentir e pensar através da rede material dos nervos orgânicos mantém a alma na ilusão de sentir e pensar ainda através desses veículos. Mesmo quando contempla seu corpo inerte e frio, não se convence ainda de que esse invólucro não seja mais instrumento dela. Acontece-lhe mais ou menos o mesmo que acontece a uma pessoa à qual foi amputada uma perna; quando desperta da narcose, julga sentir dores na perna amputada, embora esse membro já não tenha ligação alguma com o resto do corpo. Assim, a alma julga ainda por algum tempo sentir e pensar através do seu corpo material, e tanto mais dificilmente se desilude desse erro quanto mais firmemente costumava identificar-se com seu corpo, durante a vida. O homem espiritual, porém, habituado a não identificar o seu verdadeiro Eu espiritual com o seu pseudo-Eu material, logo percebe a verdade do seu novo estado. E essa descoberta não aterra a alma que, durante a existência corpórea, tenha desenvolvido a sua consciência espiritual; já está ambientada e se sente "em casa".


No caso, porém, que esse veículo mais sutil não tenha sido elaborado, é certo que a alma se sentirá profundamente abalada e desorientada pela ausência do corpo material, sem o qual a vida ulterior parece não ter mais razão-de-ser nem possibilidade de existência e evolução. Neste caso, a alma forcejará por elaborar um novo corpo físico, a fim de poder novamente gozar a única vida que ela conhece e aprecia. E recomeça então o vasto ciclo de ignorância, erros e sofrimentos, o círculo vicioso que decorre entre o nascer e o morrer, no planeta Terra ou em outro ambiente material.


Positivamente, a vida eterna, a feliz imortalidade não é um presente de berço nem de esquife – tem de ser uma gloriosa conquista da vida conscientemente espiritual. Em última análise, o próprio homem é o autor de todos os seus sofrimentos e de todas as suas glórias.


* * *

* * *

No caso que o homem tenha desenvolvido, durante a vida terrestre, um veículo de evolução mais delicado do que esse corpo material, concentrando-se frequente e intensamente no mundo imaterial, verificará com grata surpresa as novas possibilidades inerentes a esse corpo imaterial. E, levado pela lei cósmica da afinidade, se dirigirá espontaneamente àquelas zonas de vida onde outros seres congeniais se acham empenhados em sua evolução ulterior rumo ao Infinito. E dentro em breve essa alma entrará num ambiente propício a seu estado interior. Seres amigos e afins se aproximam e lhe estendem as mãos, entre eles muitos daqueles que, aqui na terra, lhe foram amigos e companheiros.


E enquanto, nas espessas camadas da terra material, o corpo inerte desse homem é chorado como morto, ele mesmo, com o seu corpo mais sutil é muito mais vivo do que nunca dantes, recomeça a sua jornada evolutiva, cheio de juventude e de entusiasmo.


Dotado de novas faculdades e instrumentos cognoscitivos mais perfeitos, entra em contato com novas zonas desse universo de Deus, zonas que outrora lhe eram total ou parcialmente vedadas.


Verifica, então, que o chamado "outro mundo" não é um lugar distante "deste mundo", mas sim um novo modo-de-ser do homem e uma nova maneira-deagir. Verifica que todos os mundos – material, mental e espiritual – são entrelaçados e interpenetrados, e não separados, justapostos nem sobrepostos uns aos outros; são um só mundo ilimitado. A diversidade não é dos mundos, mas provém da nossa maior ou menor capacidade de percepção. Um ser que possuísse todas as faculdades de percepção veria esses mundos como uma grande harmonia, isto é, unidade com diversidade, um imenso cosmos onipresente.


* * *

* * *

Entretanto, esse homem terá de passar pela segunda morte, terá de separar-se mais uma vez do seu corpo, astral, etéreo ou luminoso, e nascer para regiões superiores. Quando esse homem tiver assimilado tudo que assimilar podia, no plano da sua vivência astral, é chegado o tempo para uma nova metamorfose.


O ovo, a lagarta ou a crisálida tem de "morrer" mais uma vez para nascer de novo, rumo a uma vida mais plena; tem de passar sucessivamente por períodos de contração e expansão, de inalação e exalação, de passividade e atividade, da introversão e extraversão, prosseguindo na sua "vida eterna" rumo ao seu grande destino.


Pensamentos e desejos são forças creadoras. O nosso futuro corpo será o resultado dos pensamentos e desejos habituais da nossa vida presente. O corpo é a condensação material dos nossos pensamentos e desejos predominantes. Quanto mais elevados forem esses pensamentos e desejos, tanto mais perfeito e belo será o invólucro da nossa vivência futura.


Qualquer corpo é "templo do espírito santo", em que habita o espírito de Deus.


Quanto mais esse espírito divino, o nosso Cristo interno, penetrar esse invólucro, tanto mais perfeito será o homem.








Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 34.
Para visualizar o capítulo 34 completo, clique no botão abaixo:

Ver 34 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?