Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 33

"QUEM PERDER A SUA VIDA GANHÁ-LA-Á"

Estas palavras paradoxais encerram a maior das verdades. Não se pode possuir algo sem o perder primeiro.


Ninguém pode possuir firmemente a vida do seu ego humano se não realizar o seu Eu divino – assim como ninguém pode possuir uma parte se perder o Todo. Se alguém quisesse possuir o 10, perdendo o 100, não teria o 10 que é uma parte integrante do 100. Mas, se alguém se declarasse disposto a perder o 10 para ganhar o 100, verificaria que, possuindo o 100, não perdeu o 10.


O ego humano não pode imortalizar-se por si mesmo; só pode ser imortalizado pelo Eu divino. Se o ego se integrar no Eu, então se imortaliza. Acontece, porém, que essa integração parece ser uma desintegração, uma extinção, uma morte do ego. Enquanto o ego não se convencer de que a sua integração no Eu maior não é extinção, mas integração e imortalização, não aceitará ele essa integração.


O ego que não se integra – se desintegra.


O ego que não se realiza – se desrealiza.


Por isto insistem os Mestres espirituais nessa integração, para não haver desintegração.


Mas essa integração da parte no Todo é uma espécie de sofrimento, de sofrimento redentor. É um egocídio que leva à vida eterna.


Quando falamos do sofrimento redentor, referimo-nos unicamente ao sofrimento voluntariamente aceito, porque profundamente compreendido como fator positivo de evolução superior. Não incluímos, portanto, nessa redenção os que se revoltam contra o sofrimento, nem mesmo os que se resignam passivamente ao sofrimento inevitável.


A atitude dos revoltados é negativa; a atitude dos resignados é neutra; mas nem a atitude negativa nem a atitude neutra podem redimir o sofredor, por mais intenso e diuturno que seja o seu sofrimento; porquanto, não é o sofrimento em si que redime e espiritualiza o homem, mas sim a atitude positiva e afirmativa que o homem assume em face do sofrimento. Nenhum objeto pode de per si redimir-me; só eu mesmo, o sujeito, é que posso realizar essa redenção.


Qual é, pois, o mais profundo fator de redenção nesse sofrimento positivo e voluntariamente aceito?


É um profundo sentimento de desconfiança que o sofrimento cria no elemento personal do homem, unido a um nítido sentimento de confiança no elemento universal dele.


O elemento personal do homem consiste nos sentidos e no intelecto.


É pelos sentidos que qualquer ser se individualiza, e é pelo intelecto que essa individualização atinge o seu mais alto grau de concentração e intensidade. Os seres infra-humanos são apenas semi-individualizados, porque a sua consciência é infra-intelectual, meramente sensitiva, vegetativa ou mineral.


Com o advento do intelecto adquire a individualização o seu apogeu. A individualidade, porém, quando crea um ambiente de separatismo – autônom " – isto é, de personalidade – é a base do egoísmo. Pelos sentidos torna-se todo o ser um egoísta mitigado; pelo intelecto adquire esse egoísmo a sua maior intensidade. O homem é, aqui na terra, o rei dos egoístas, porque o ser é mais intensamente personalizado.


Quando, porém, esse ser altamente personalizado pelo intelecto ultrapassa essa fronteira e entra na zona da Razão, isto é, do Lógos, do Espírito, do Cristo, então entra ele na zona da universalidade e termina todo o seu egoísmo, transformando-se em amor universal e incondicional.


O homem é a sua alma, a qual tem intelecto e corpo.


Eu sou espírito.


Eu tenho intelecto.


Eu tenho corpo.


O espírito sou Eu.


O intelecto é meu.


O corpo é meu.


Ora, não há sofrimento na zona do universal, do espírito, de Deus. E, como o meu verdadeiro Eu é idêntico a Deus, não há sofrimento no meu Eu central.


Todo o sofrimento principia, persiste e termina nos pseudo-eus periféricos, no plano da consciência personal, constituído pelos sentidos e pelo intelecto. Este plano personal, físico-mental, é a única fonte e sede do sofrimento.


É esta a grande verdade que, aos poucos, se vai revelando à visão interna do sofredor que assume atitude positiva em face do sofrimento. Eu sofro porque sou persona; quanto mais eu me personalizar tanto mais sofrerei.


Como então abolir o sofrimento?


Ou pela involução – ou pela evolução!


Ou regredindo e descendo para uma zona inferior, de infra-personalidade – ou progredindo e ascendendo a uma zona superior, de ultra-personalidade, isto é, de universalidade ou consciência cósmica, onde necessariamente termina todo o sofrimento. Para que o homem possa "entrar em sua glória" é indispensável ultrapassar o plano da consciência telúrica, individual, e atingir as alturas da consciência cósmica, universal. Na zona do Lúcifer (intelecto) impera o sofrimento – na zona do Lógos (razão) canta eterna beatitude.


Gautama Siddhartha, antes de se tornar o grande Iluminado, o "Buda", pensava que o fato objetivo de alguém ser um indivíduo fosse a verdadeira causa dos seus sofrimentos; só mais tarde, quando absorto em profunda meditação, lhe veio a grande iluminação, a verdade definitiva: compreendeu que o homem sofre, não pelo fato objetivo de ser indivíduo mas sim pelo fato de manter em si uma atitude subjetiva de personalismo, de egoísmo.


Quando o homem é apenas Lúcifer (intelecto) sofre pouco; mas, quando o Lúcifer do intelecto se sataniza, isto é, se opõe ao Lógos (razão), recusando-se a sair do seu egoístico personalismo, então é que ascende o inferno nesse ego antirracional, anticrístico, antidivino.


Lúcifer é o intelecto virgem, neutro.


Satan é o intelecto adverso à Razão, é o anti-Lógos, o anti-Cristo.


Pode, pois o indivíduo deixar de sofrer apesar de continuar a ser indivíduo – basta universalizar a sua consciência individual. O indivíduo, depois de atingir a consciência universal não se desindividualiza; continua a ser indivíduo, mas um indivíduo universalizado.


Deus, pela atividade creadora, se individualiza sem cessar, mas nunca se torna indivíduo.


O homem, pela intuição cósmica, se universaliza sem cessar, mas nunca se torna o Universal.


A vida eterna não consiste numa diluição do indivíduo (homem) no Universal (Deus) – consiste em que o indivíduo, continuando a ser indivíduo, se integra na consciência universal.


Com essa transição da consciência individual, telúrica, para a consciência cósmica, a passibilidade acaba em impassibilidade.


Nessa zona universal não existe sofrimento compulsório – mas pode existir sofrimento espontâneo, no caso que o homem livremente permita que o sofrimento entre em sua vida, como aconteceu com Jesus, o homem de consciência cósmica pode permitir que o sofrimento lhe entre na vida, porque sabe que não lhe pode fazer mal. Só o poderoso pode permitir essa fraqueza; o fraco tem de fugir quando possivel da fraqueza precisamente por não ser assaz poderoso. Quem se sabe invulnerável e superior a todas as derrotas, pode permitir derrotas em sua vida, na certeza de que nenhuma derrota o pode derrotar. O sapiente pode aceitar aparência de ignorância, ao passo que o ignorante ou semi-sapiente deve evitar solicitamente quaisquer indícios de insipiência. O SER forte pode permitir o parecer em sentido contrário, ao passo que um ser fraco procura evitar aparências de fraqueza.


Na zona da consciência universal só há sofrimento livre, quando o sofredor o quer, porque nessa zona o homem é absoluto senhor e soberano do seu ego físico-mental, fonte e sede do sofrimento.


Ora, é precisamente esta a gloriosa conquista realizada pelo sofredor que aceita voluntariamente o sofrimento, porque compreende a função catártica e redentora do sofrimento: ultrapassou definitivamente a fronteira da pequena consciência telúrica e entrou no vasto e luminoso mundo da consciência cósmica onde habita indestrutível certeza, segurança, tranquilidade, paz e felicidade.


A cruz é o eloquente símbolo do Infinito, do Universal – norte, sul, leste, e oest " – quatro portas abertas para o Infinito, o Ilimitado, o Eterno. É o sinal do "filho do homem", do homem por excelência, do pleni-homem, que realizou em si a vida plena e universal – o homem cósmico ao qual "foi dado todo o poder no céu e na terra".


Não era possivel, naturalmente, que esse homem entrasse em sua "glória" de homem integral sem primeiro passar pelas "inglórias" do homem parcial. O que os seus discípulos de hoje percebem são as inglórias do homem parcial, os sofrimentos de Jesus, ignorando a glória do homem integral, do Cristo glorioso.


Enquanto o homem não enxergar o ressuscitado para além do crucificado, não terá ele em si suficiente segurança e firmeza nas coisas do mundo espiritual, e procurará instintivamente um ersatz, um substituto para essa firmeza, recorrendo a adjutórios externos; agarra-se a cerimônias e pompas visíveis, faz finca-pé na letra morta de algum livro sacro, fanatiza-se por fenômenos e mensagens do outro mundo – tudo isto porque lhe falta uma sólida e nítida segurança interna, que só vem da experiência direta de Deus, da intensa vivência do Cristo interno.


A experiência interna está na razão inversa do sectarismo externo.


Quem tem perfeita saúde não necessita de andar com muletas.


Verdade é que também o homem de experiência interna e possuidor de segurança interior costuma tomar parte em culto público e social, porque é da íntima natureza humana manifestar por fora o que lhe vai por dentro; o Cristianismo é o reino de Deus, e não apenas uma experiência individual. Mas, para o homem de experiência espiritual, os ritos externos não são a sua espiritualidade, como são, geralmente, para o inexperiente. Para aquele são reflexos da luz divina, para este são a própria luz.


Quando começará a humanidade a ultrapassar a Quaresma do Jesus doloroso para celebrar a Páscoa do Cristo glorioso?. . .


Quando compreenderá a humanidade cristã o supremo poder que o Cristo legou a seus discípulos no seu testamento: "A mim me foi dado todo o poder no céu e na terra. Ide, pois, e proclamai o Evangelho a todos os povos, fazendo-os discípulos meus e ensinando-os a observar tudo que vos tenho dito. E eis que eu estou convosco todos os dias até a consumação dos séculos"?








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