Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 31

"QUANDO TIVERDES FEITO TUDO DIZEI: SOMOS SERVOS INÚTEIS. . . "

". . . Cumprimos apenas a nossa obrigação; nenhuma recompensa merecemos por isto. " Eis a apoteose do homem perfeito, do gênio cósmico, da creatura crística!


Quem executa pesadamente as coisas pesadas é bom – mas não é perfeito.


Quem carrega a sua cruz gemendo é bom – mas não é perfeito.


Quem verifica que o jugo do Cristo é amargo e pesado é bom – mas não é perfeito.


Só quem executa com leveza as coisas pesadas; quem carrega a sua cruz sorrindo; quem sabe por experiência íntima que a amargura da disciplina espiritual é suave e que seu peso é leve – este é perfeito.


Quem jejua desfigurando o rosto para mostrar que jejua, é um asceta tristonho e imperfeito – mas quem, jejuando, mostra semblante alegre como o mais farto dos homens, de maneira que ninguém possa suspeitar que ele está jejuando – esse é um gênio crístico, um homem cósmico.


Isto é a sabedoria do Evangelho do ocidente e do oriente, da filosofia do Cristo e da filosofia dos 5edas e da Bhagavad-Gita: "Mata o desejo de possuir, de gozar, de viver – e depois vive como os que mais desejam possuir, gozar e viver!" Quem é tristonhamente bom descobriu o corpo do Cristianismo – quem é radiosamente bom abraçou a alma do Cristianismo.


É esta a divina alquimia do Cristianismo Universal, de todos os tempos e países: transforma em leve o pesado, em suave o amargo, em sorridente o doloroso, em luminoso o escuro, estende arco-íris de paz e sorriso sobre todos os dilúvios de sofrimentos e lágrimas.


É esta a redenção do homem – redenção não só da irredenção dos seus vícios, mas redenção também da pseudo-redenção das suas virtudes. Quem ainda se considera um herói, uma heroína, pelo fato de ter cumprido o seu dever, não está redimido; a complacente consciência de ser bom impede-o de ser perfeito; o homem perfeito, depois de ter cumprido o último dos seus deveres, diz: Sou servo inútil – nenhum prêmio mereço pelo fato de ser bom;


sou bom unicamente por ter reconhecido que isto está certo, em harmonia com as leis eternas. . .


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Como é possivel realizar essa transformação, se não temos poder sobre os objetos a serem transformados?


Aqui é que está a ilusão fatal da humanidade de todos os tempos: queremos transformar os objetos do plano horizontal, quantitativo – em vez de transformar o Eu, o sujeito do plano vertical, qualitativo. Donde vem essa ilusão? Do nosso inveterado egoísmo, que é a lei da inércia moral: queremos transformar os objetos ao redor de nós, que exige apenas ciência intelectual, mas pode co-existir com o nosso egoísmo – ao passo que a transformação do sujeito dentro de nós exige consciência espiritual, que tem de derribar dos seus tronos os nossos ídolos e fetiches. Por isto, guiados pela lei do menor esforço, preferimos tratar da alquimia dos objetos, e evitamos a alquimia do sujeito.


Aquela é gozosa, esta é dolorosa. Aquela é periférica, quantitativa – esta é central, qualitativa.


Não é necessário, nem suficiente, que tenhamos poder sobre os objetos externos, porque esses objetos quantitativos do plano horizontal não têm realidade autônoma em si mesmos; são reflexos, sombras, efeitos, derivados de uma causa real em si mesma. Os objetos também serão transformados, mas não pelos objetos, e sim pelo sujeito. Não existe transformação do objeto pelo objeto – só existe transformação dos objetos pelo sujeito; ou seja, alorealização por meio de auto-realização. O homem que se realiza a si mesmo realiza todas as coisas fora de si. A alquimia da qualidade traz consigo a alquimia das quantidades.


O maior dos perigos não está em ser mau – o perigo dos perigos está na complacente consciência de ser bom, de ser um herói de virtuosidade, do tipo daquele virtuoso fariseu do templo, que assim orava: "Eu te agradeço, meu Deus, por não ser como o resto dos homens: ladrões, injustos, adúlteros; eu jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de todos os meus haveres. " E voltou este para casa, não ajustado, diz Jesus, porque vivia na complacente consciência da sua justiça e bondade. "Eu detesto os vossos vícios, e mais ainda as vossas virtudes" – exclama Nietzche na sua obra "Also sprach Zarathustra". Dos nossos vícios nos libertaremos um dia – mas das nossas virtudes, isto é, da blandiciosa consciência de sermos heróis, será que algum dia nos libertaremos dessa obsessão? Enquanto o ser-bom não for natural e evidente para nós, sem nenhuma sensação de heroísmo e virtuosidade, estamos longe da alma do Evangelho.


O publicano, pecador, tem consciência dos seus pecados – o fariseu, não menos pecador, tem consciência das suas virtudes; aquele voltou para casa curado – este voltou para casa mais doente ainda, porque chamou saúde a sua doença. Um doente que não reconhece a sua doença, e chega ao absurdo da cegueira de a chamar saúde, é incurável. "Eu detesto os vossos vícios – e mais ainda as vossas virtudes. . . " Eu detesto a vossa doença chamada doença – e detesto mais ainda a vossa doença chamada saúde. Aquela é uma doença curável – esta é uma doença incurável. Aquela é simples fraqueza – esta é um orgulho satânico. Enquanto alguém diz: "Cumpri o meu dever – e sou servo inútil", tem saúde espiritual; mas, se disser: "Cumpri o meu dever – e sou um servo útil", um herói, um homem virtuoso, está doente e é incurável.


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Há, portanto, três atitudes possíveis do homem em face daquilo que é seu dever:
1) há homens que não cumprem o seu dever,
2) há homens que cumprem o seu dever com sacrifício e tristeza, o quer neles gera o senso de heroísmo,
3) há homens que cumprem o seu dever com leveza e alegria, sem nenhum senso de heroísmo nem virtuosidade.


Os da primeira classe são os viciosos.


Os da segunda categoria são os virtuosos.


Os do terceiro grupo são os sábios e santos, os gênios cósmicos, os homens crísticos.


Os da primeira classe são maus.


Os da segunda são bons.


Os da terceira são perfeitos.


Ai do homem que tem a consciência de ser virtuoso. O seu complexo de virtuosismo o impede de ser um homem crístico.


Quem carrega pesadamente o que é pesado, quem executa amargamente o que é amargo, quem padece dolorosamente o que é doloroso é, quando muito, um talento, mas não é um gênio; o gênio riscou do vocabulário da sua vida esses termos negativos "pesado", "amargo", "doloroso", porque nada mais significam para ele. Só quem supera a consciência da sua virtuosidade e do seu heroísmo é que é um gênio espiritual, um homem crístico.


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A todos os seus discípulos recomenda o Mestre que, depois de terem cumprido todos os seus deveres, se considerem como "servos inúteis" sem direito a prêmio algum, porque para o homem integral o cumprimento do dever é natural, espontâneo e gratuito. Quem pensa em prêmio ou recompensa é mercenário. Quem tem de ser recompensado, compensado, ou pensado, está doente, fraco, imperfeito. O homem perfeito não necessita de ser recompensado, porque não é mercenário, nem compensado porque é completo, nem pensado, porque possui perfeita sanidade. O homem cósmico cumpre o seu dever não por dever, mas por querer; porque, na sua sabedoria, compreendeu que ser bom é natural, estar em harmonia com as leis do Universo do Deus do Universo. Sintonizou o seu pequeno querer individual com o grande QUERER UNIVERSAL – e nada mais!








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