Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 3

EXPLICAÇÕES PRÉVIAS

O simples tentame de querer fazer filosofia sobre o Evangelho de Jesus Cristo parecerá a muitos uma profanação, quase um sacrilégio.


A razão disto é obvia: o Evangelho é o reflexo da maior experiência que um homem já teve de Deus – ao passo que qualquer espécie de filosofia comum é um processo intelectual, indireto e, como tal, infinitamente inferior àquele contato intuitivo, direto com a suprema Realidade do Universo.


A experiência do Evangelho é vivida e saboreada – a filosofia é apenas inteligida, pensada.


O Evangelho representa a mais estupenda verticalidade mística, uma linha de luz e força que vem de ignotas alturas e vai a incógnitas profundezas – enquanto a filosofia, por mais vasta que seja, não deixa nunca de ser horizontal, e a soma total de todas as horizontalidades intelectualistas não chega sequer a roçar de leve a verticalidade racional ou espiritual.


É, pois, matemática e logicamente, absurdo querer compreender o Evangelho espiritual mediante um processo intelectual, porquanto, em hipótese alguma, pode o menor compreender (abranger, abraçar) o maior: nunca pode uma causa pequena produzir um efeito grande; nunca pode um compreendedor inferior abarcar um compreendido superior.


Por que, pois, escrever um livro – e lecionar curso – sobre a filosofia cósmica do Evangelho, se este próprio título é flagrantemente paradoxal?


A esta sensata objeção passaremos a dar duas respostas, não menos sensatas:
1) Não entendemos aqui, por "filosofia", um processo meramente intelectual, analítico, horizontal; mas sim uma atitude essencialmente racional-espiritual;


não uma inteligência periférica de aparências, mas uma vivência central da própria essência. A parte intelectiva que, inevitavelmente, acompanha essa atitude intuitiva não é senão o corpo, o invólucro, um simples veículo da alma, medula e conteúdo da Filosofia do Evangelho; é como a sombra que, fatalmente, acompanha a luz.
2) Não é pretensão nossa vazar a alma do Evangelho em capítulos e parágrafos filosóficos; o que o leitor encontra nas páginas deste livro não é o principal do assunto; não passa duma ligeira indigitação, como certas flechas ou outros marcos à beira da estrada e nas encruzilhadas dos caminhos. O viandante que estacionasse diante de uma dessas setas orientadoras e não prosseguisse na direção indicada não atingiria jamais o destino da sua jornada, nem faria jus ao sentido da seta.


Ora, o que passaremos a dizer nestas páginas é apenas indigitação do caminho certo a seguir, mas não apenas indigitação do caminho certo a seguir, mas não é o próprio andar ou seguimento do caminho. Esse andar ou seguir é tarefa eminentemente individual de cada leitor.


A alma do Evangelho é uma experiência individual com Deus (que costumamos chamar "verticalidade"), e que, se for genuína, terá necessariamente os seus reflexos sobre a vida ética e social do homem (apelidada frequentemente "horizontalidade"). Entretanto, convém não esquecer, nenhuma experiência individual do mundo divino é transmissível de pessoa a pessoa. O que o iniciado pode e deve fazer é indicar ao profano e ao iniciável o caminho certo a seguir; mas não pense jamais que possa transferir a seus discípulos a sua própria experiência por mais genuína, intensa e nítida que esta seja. O próprio Cristo, em três longos anos de convivência com seus discípulos, não conseguiu imbuí-los da experiência que ele mesmo tinha do Pai celeste e do reino de Deus. Esta experiência só lhes veio "verticalmente", pelo "poder do Alto", na manhã do Pentecostes.


Para que alguém tenha essa experiência de Deus, tem de crear em si mesmo um ambiente propício, tem de realizar no seu interior uma espécie de atmosfera ou clima em que a delicada plantinha desse encontro com o Infinito possa brotar e medrar.


Esse ambiente favorável consiste essencialmente em dois fatores básicos: fé e vida.


Fé – Deve o homem, antes de tudo, sintonizar com a realidade de um mundo invisível, embora ainda não tenha dele experiência direta. Essa fé é uma espécie de permanente atitude de humildade, sinceridade, receptividade, um senso de vacuidade ou nulidade do próprio ego físico-mental, unido à ansiosa expectativa e certeza de uma plenitude que lhe possa e deva advir de fora.


Esse "de fora" é uma locução provisória, porque, de fato, a plenitude divina não vem de fora do homem: vem do mais profundo abismo dentro dele, vem do íntimo centro do próprio homem, não desse homem periférico, físico-mental, que ele conhece habitualmente, mas vem das incógnitas profundezas do seu Eu espiritual, divino, que lhe é tão desconhecido e tão "longínquo" como a presença da energia nuclear dentro dum átomo não desintegrado. Para o principiante não há mal em que ele pense que a revelação de Deus e o reino de Deus lhe venham de fora, das alturas do céu, embora esse "céu" esteja dentro dele e essas "alturas" sejam as mais profundas profundezas do seu próprio ser. Mais dia menos dia, na sua jornada ascensional, esse homem saberá – não já com surpresa, mas com espontânea naturalidade – que esse "fora" é o seu "grande Além-de-dentro", a quintessência da sua própria alma, o seu Cristo interno, o "reino de Deus dentro dele", reino esse que ele tem de realizar conscientemente em sua vida, clamando sem cessar "venha o teu reino". Como poderia vir o que não estivesse nele?. . .


Vida – Fé vivida! A fé nunca passará a ser experiência direta de Deus se ficar no terreno meramente intelectual ou teórico; é indispensável que ela se encarne na vida total do homem, ou, no dizer de Santo Agostinho, que se torne "fides quae per charitatem operatur" (fé que atue pelo amor). Quando o homem sintoniza toda a sua vida individual e social pelo conteúdo da sua fé, quando vive o que crê, como se já possuísse experiência direta com Deus, então essa fé concretizada em amor universal desabrochará em experiência imediata do mundo divino, porque encontrou ambiente e clima propício ao seu desenvolvimento.


O crente torna-se, então, um ciente, um sapiente, um vidente.


Já não crê simplesmente – sabe!


Enquanto o homem não tem essa experiência direta da Realidade divina, a sua moral é difícil e sacrificial, é um permanente "carregar a cruz". Sintonizar a sua vida moral com uma norma apenas crida, mas não vivida como real – isto é imensamente difícil e doloroso, pelos menos em muitos casos, como no preceito de amar os inimigos e fazer bem aos que nos fazem mal.


É fora de dúvida que essa moral pré-mística, anterior à experiência direta de Deus, é um teste e uma prova de fogo por que o homem tem de passar, é o vasto e doloroso deserto que medeia entre o Egito da velha escravidão e o Canaã da futura liberdade; esse Canaã é para o simples crente um país longínquo, no tempo e no espaço, ao passo que o horroroso deserto da sua renúncia diária é um fato cruciantemente propínquo.


Entretanto, segundo as eternas leis cósmicas do espírito, tempo virá em que essa moral pré-mística, difícil, se converterá numa ética pós-mística, fácil.


Chegará para o crente sincero o dia em que a amarga medicina do duro dever moral passará a ser um lauto festim de suave querer espiritual, dia em que ele saberá por experiência que o "jugo é suave e seu peso é leve", e em que poderá dizer com o Mestre: "O meu manjar é cumprir a vontade de meu Pai".


Quando o homem tiver atingido, através de sucessivos estágios evolutivos, as sublimes alturas dessa "gloriosa liberdade dos filhos de Deus", em que o serbom é o mesmo que ser-feliz, e o ser-feliz interior transborda irresistivelmente num ser-bom exterior – então saberá ele o que quer dizer "Filosofia Cósmica do Evangelho".


Mas, que é que entendemos por "cósmico"?


Cósmico é sinônimo de "univérsico".


Univérsico, em que sentido?


Ninguém cairá na tentação de considerar o Evangelho como um documento pró-materialismo. É, todavia, opinião assaz generalizada no mundo cristão que o Evangelho seja a Carta Magna do maior espiritualismo que já apareceu à face do nosso planeta. Por espiritualismo entendem esses teólogos uma doutrina essencialmente além-nista e visceralmente anti-aquém-nista; o profeta de Nazaré teria ensinado aos homens a desertarem do mundo a fim de possuírem o reino dos céus, entendendo pela expressão "reino dos céus" alguma região distante após-morte. Houve na igreja cristã um período clássico de ascetismo absoluto e radical, quando ser-cristão era idêntico a ser desertor do mundo, habitante de cavernas desnudas e inimigo mortal de todas as grandezas da civilização, cultura, ciência, arte e técnica que a inteligência humana havia engendrado. Aliás, através de todos os séculos até ao presente dia, continua a persistir essa ideologia negativista, correndo paralela a uma outra concepção mais positiva do Cristianismo. Ainda nos últimos tempos, uma das mentalidades cristãs mais sinceras, Leon Tolstoi, caiu vítima desse pessimismo.


Os que advogam essa doutrina espiritualista-ascética-negativa são, em geral caráteres puros e bem intencionados, cuidando manter o Cristianismo em toda a sua original genuinidade, livre de deturpações e incrustações mundanas. Na verdade, porém, prestam apenas meio serviço ao Evangelho, tornando-o inaceitável para a grande parte da humanidade e reduzindo o Cristianismo Cósmico a uma seita de piedosos ascetas e místicos, ou a uma confraria de almas enamoradas do Deus do mundo e inimigas do mundo de Deus.


O Cristianismo é tão pouco ascético-espiritualista como epicúreo-materialista, O Cristianismo é essencialmente "cósmico", isto é, universalista, afirmando todas as obras de Deus, tanto invisíveis e imateriais como visíveis e materiais.


Aliás, a própria vida do Cristo é genuinamente cósmica, o que lhe mereceu, da parte dos espiritualistas ascéticos da época, a alcunha de "comilão e bebedor de vinho, amigo de publicanos e pecadores"; o seu primeiro milagre foi realizado por ocasião de uma festa de casamento e consistiu na conversão de água em vinho ótimo. Esse aparente epicurismo do Nazareno, porém, era compatível com a sua profunda espiritualidade mística, ou melhor, esse aquém-nismo humano não era senão das manifestações do seu além-nismo divino.


A magnífica frase de Albert Schweitzer "O Cristianismo é a uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo" resume lapidarmente o que entendemos por Cristianismo cósmico.


Quem afirma o mundo sem o ter negado, é materialista e idólatra.


Quem nega o mundo sem ter a coragem de o afirmar, é asceta espiritualista.


Quem afirma o mundo depois de o ter negado e continuando a negá-lo, internamente, pelo desapego, esse é cristão genuíno e integral, homem cósmico.


O Verbo se fez carne para que a carne se pudesse fazer Verbo. . .


O espírito se materializou para que a matéria se pudesse espiritualizar. . .


O Cristianismo, e a vida de todo cristão, é uma permanente encarnação do Verbo e uma constante verbificação da carne, uma contínua descensão do espírito de Deus ao mundo e uma incessante ascensão do mundo a Deus.


O Cristianismo, e a vida cristã, é Natal e Páscoa, encarnação e ressurreição, descida do espírito divino para dentro do homem, e subida do homem para o espírito de Deus. A manjedoura de Belém e o túmulo vazio do Gólgota, a noite do nascimento de Jesus e a noite do ressurgimento do Cristo – eis a mais breve síntese do homem cósmico!


No meio entre esses dois extremos, porém, está a cruz, não apenas como símbolo de sofrimento, mas também, e sobretudo, como emblema da vida universal, abrangendo com suas quatro pontas o norte e o sul, o leste e o oeste, a totalidade das coisas que há em todas as alturas e profundezas, em todas as latitudes dos horizontes. A cruz é o símbolo cósmico por excelência.


Quem adora o mundo é idólatra.


Quem odeia o mundo é desertor.


Quem ama a Deus no mundo e o mundo em Deus é homem cósmico, crístico.


* * *

* * *

Sendo, todavia, que o Cristo veio redimir uma humanidade profundamente materialista, era natural que ele insistisse muito mais na necessidade de recusar do que de usar as coisas do mundo material. Quem está habituado a abusar do mundo, como todo pecador, tem de recusá-lo radicalmente antes de o poder usar corretamente; porquanto, "o Cristianismo é uma afirmação do mundo que passou pela negação do mundo".


E até ao presente dia é muito mais importante proclamar o Evangelho do recusar do que o Evangelho do usar, porque o abusar é ainda o grande pecado original desta humanidade profana. É até perigoso recomendar a um abusador do mundo que use esse mundo, porque ele confundirá fatalmente o uso correto com o abuso incorreto a que está habituado; e o seu complacente egoísmo facilmente lhe fará crer que é um homem cósmico, quando não saiu ainda das baixadas do homem telúrico.


Isto, todavia, não invalida a nossa tese de que o Cristianismo é, em sua íntima essência, a religião do uso, ou seja, da afirmação do mundo – naturalmente para os que já se libertaram da velha escravidão do abuso das coisas materiais.


É mais fácil recusar radicalmente o mundo do que usá-lo corretamente. Só quem é perito no recusar é que pode ser mestre no usar. O homem cósmico tem de passar pela escola ascética da disciplina espiritual, a fim de atingir a "gloriosa liberdade dos filhos de Deus".


É esta a Filosofia Cósmica do Evangelho.








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