Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 28

"ESSA POBRE VIÚVA DEU MAIS QUE TODOS OS OUTROS"

A filosofia espiritual de Jesus está em flagrante oposição à filosofia material do mundo profano. Esta trata quase só de quantidades; aquela, de qualidades.


Quantitativamente, os outros ofertantes tinham dado mais do que a viúva, que lançou no cofre apenas duas moedazinhas de cobre, cada uma talvez do valor de um antigo vintém nosso. Qualitativamente, porém, essa exígua oferta material representava gigantesco valor espiritual. Esse valor não era aferido pelo objeto, mas sim pelo sujeito.


Quando o homem profano quer dizer que uma coisa é solidamente real ele diz que é "objetiva"; se é apenas "subjetiva", tem pouca realidade, lá no seu entender. Para o iniciado, porém, o "subjetivo" é muito mais real que o "objetivo", ou melhor, o "subjetivo" é a única realidade verdadeira, ao passo que o "objetivo" é apenas uma aparência, um reflexo derivado daquele. Deus é o grande SUJEITO, os mundos dele são os pequenos objetos. O grande SUJEITO é a causa de tudo, os pequenos objetos são apenas uns efeitos efêmeros. O grande SUJEITO é, os pequenos objetos apenas existem.


Quanto mais real, e, portanto, divino, o homem se torna tanto mais subjetivo vai ficando; quer dizer, tanto mais valor ele dá à qualidade interna, e tanto menos importância dá as quantidades externas.


A pobre viúva do Evangelho possuía pouquíssimas quantidades materiais, mas uma imensa qualidade espiritual. E, como a qualidade interna dá valor às quantidades externas, Jesus afirma que ela deu mais que todos os outros, porque os outros, os ricaços quantitativos, davam muito das suas quantidades de ouro e prata, mas pouco ou nada da sua qualidade humana e espiritual, porque não a possuíam. A viúva qualitativa era uma indigente de quantidades, mas uma milionária de qualidade – ao passo que os outros eram ricos, talvez milionários em quantidades, porém indigentes em qualidade. Objetivamente ricos, subjetivamente pobres.


Esta filosofia qualitativa do sujeito é de difícil compreensão para nós, que tradicionalmente professamos uma pseudo-filosofia quantitativa de objetos.


Não compreendemos ainda que as quantidades objetivas não têm realidade autônoma, intrínseca, senão apenas realidade heterônoma, extrínseca. As quantidades objetivas são como outros tantos zeros, que, por mais numerosos, não representam valores reais, embora somados e multiplicados indefinidamente. As qualidades subjetivas, porém, são como valor positivo "1", que, anteposto aos zeros, confere valor a estes: 1000. O primeiro zero após o "1" vale dez, o segundo cem, o terceiro mil; zeros valorizados pelo "1".


Quando Jesus disse: "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se chegar a sofrer prejuízo em sua alma?" frisou ele o valor intrínseco e qualitativo do sujeito, ou Eu humano, e o desvalor das quantidades externas do mundo.


Para quem, como ele, tem a noção nítida da realidade do valor subjetivo e da irrealidade dos valores objetivos, sabe que é grande sabedoria salvar aquele, mesmo à custa destes, e grande loucura ganhar estes perdendo aquele.


Para que alguém possa compreender essa filosofia qualitativa do sujeito e sobrepô-la à tradicional filosofia, ou pseudo-filosofia quantitativa dos objetos, requer-se que tenha experiência direta do seu próprio Eu, não desse pequeno ego periférico, físico-mental, mas do grande Eu central, racional. Em última análise, tudo depende da experiência pessoal, da vivência direta da realidade.


Ninguém sabe, de fato, senão aquilo que ele vive; e ninguém pode viver senão aquilo que ele é. De maneira que saber, viver e ser são, última análise, uma e a mesma coisa.


O homem profano, que só conhece os pseudo-valores quantitativos do plano objetivo, horizontal, nunca compreenderá o verdadeiro espírito do Evangelho, que só trata dos valores qualitativos do plano subjetivo, vertical. Só no dia e na hora em que o homem viver intimamente esses valores é que saberá o que eles são na realidade. "Quem ouve estas minhas palavras, mas não as realiza (vive), é como um homem insensato que edificou a sua casa sobre areia. Mas, quem ouve estas minhas palavras, e as pratica (vive), este é como um homem sábio que edificou a sua casa sobre rocha. " O espiritual, invisível, eterno, infinito, absoluto, universal, divino – é que é a causa de tudo que é material, visível, temporal, finito, relativo, individual, que são os efeitos derivados daquela causa, inderivada.


A filosofia cósmica é 100% realista. Verdade é que o profano pensa precisamente o contrário, mas o seu errôneo pensamento não modifica a realidade. O profano costuma apelidar de "idealistas" os realistas, porque ignora que eles são muito mais realistas do que ele. Jesus é o rei dos realistas, e o seu Evangelho é a Carta Magna do maior realismo que já apareceu à face da terra; porque reais são as qualidades, irreais as quantidades, quando não "realizadas" por aquelas, assim como os zeros são "realizados" ou "valorizados" pelo "1".


A própria física nuclear dos nossos dias vem em nosso socorro e é nossa grande aliada e auxiliadora, porque prova, matemática e experimentalmente, que tanto mais real é uma coisa quanto menos material ou quantitativa, e tanto menos real quanto mais material. A matéria visível e palpável, que é "energia congelada" é menos real que essa energia em estado não congelado.


Congelamento é passividade, descongelamento é atividade. A energia, por sua vez, é luz condensada, menos real que a luz não condensada. No mundo físico é a luz a mais real das realidades, por ser o menos material dos fenômenos do mundo físico.


No homem, a alma é mais real que a mente e o corpo; a mente é menos real que a alma, porém mais real que o corpo; o corpo é menos real que aquelas duas.


Quanto mais o homem se espiritualiza mais se realiza. Deus, sendo a suprema espiritualidade, ou o espírito absoluto, é a realidade absoluta. Quanto mais o homem se diviniza mais se realiza. O homem mais intensamente realizado que o mundo viu foi Jesus o Cristo, o "filho do homem", isto é, o homem por excelência, e, por isto mesmo, o "filho de Deus", a tal ponto divinizado que podia dizer: "Eu e o Pai somos um. " O supremo destino do homem, aqui ou alhures, é a sua auto-realização, que é idêntica à sua cristificação ou teo-realização, uma vez que a íntima essência do homem é Deus.


Se o homem se realizar a si mesmo, todas as coisas fora dele também serão realizadas, por intermédio dele. O homem é o grande sacerdote e profeta da natureza. O homem auto-relizado, ou espiritual, tem sobre a natureza um domínio muito maior do que o maior cientista ou mais hábil técnico.


Através do seu sujeito, devidamente realizado, realiza o homem os objetos muito melhor do que através dos objetos.


O modesto óbolo da viúva era um grande passo no caminho da sua autorealização, ao passo que as pingues ofertas dos outros eram apenas alorealizações. Ela realizou obra eterna, no plano vertical do seu sujeito – eles tentaram realizar obras efêmeras no plano horizontal dos objetos ao redor deles.


Por isto, ela fez mais que todos os outros.


Ela era iniciada na grande filosofia cósmica – eles eram apenas estudantes primários da pequena filosofia telúrica.


O muito que os outros davam era pouco – o pouco que ela deu era muito.


Os outros jogavam no mealheiro ruidosas quantidades de zeros, gordos, ocos, vazios – ela deitou um silencioso e imponderável "1" de qualidade – e este modesto "1" deu valor positivo aos arrogantes "000 000" negativos dos outros.


Os outros deram do que lhes sobrava – ela deu o que lhe fazia falta.


Outros deram por ostentação – ela deu com amor e humildade.


Para dar do supérfluo não se requer qualidade, basta quantidade – para dar o necessário exige-se grande qualidade.


Outros deram do seu – ela deu o próprio Eu. . .


E o Mestre, que nada tinha de seu, mas era um grande Eu, ficou encantado com o Eu da viúva, que deu o pouco que era seu – e essa migalha do seu assumiu infinito valor em virtude do Eu que a deu. . .


Todo o valor dos nossos atos depende de nossa atitude. Nenhum ato tem valor em si mesmo.








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