Filosofia cósmica do evangelho

Versão para cópia
CAPÍTULO 27

SER.

O meu SER eterno, meu espírito, é idêntico a Deus; mas o meu existir temporário é inferior a Deus, porque é apenas uma das inumeráveis manifestações da eterna Divindade. Mas, se o meu eterno SER penetrar totalmente o meu temporário existir, também este pequeno e efêmero existir adquire eternidade, graças ao grande e eterno SER.


Todo o homem é imortal potencialmente, mas não atualmente. A imortalidade atual é uma conquista, e não um presente de berço. Essa imortalidade atual é que é a vida eterna em toda a sua plenitude.


Atualizar a sua imortalidade potencial – é esta a grande e única tarefa do homem aqui na terra. É isto que Jesus chama "renascer pelo espírito".


Esse renascimento pelo espírito, essa conquista da imortalidade atual, esse ingresso na vida eterna – como é que se realiza?


Realiza-se quando o homem, penetrando nos abismos do seu ser, descobre a sua identidade essencial com Deus, e, depois dessa descoberta, faz penetrar toda a sua vida pela luz e força dessa verdade fundamental. A primeira parte desse processo chama-se mística, a segunda parte chama-se ética. Do consórcio da mística e da ética resulta o crístico. Verdade é que também existe uma ética antes dessa mística, mas é uma ética precária, dolorosa e sem sólida garantia de perpetuidade, como tudo que é difícil e sacrificial. A ética pré-mística se chama moral. Mas a ética que nasce da mística – quer dizer, a vida oriunda da experiência da nossa identidade com Deus – é uma ética diferente daquela primeira, porque é espontânea, sem nenhuma dificuldade nem sacrifício. Deus é bom com infinita felicidade e gozo. Por isto, todo o homem que vive a sua identidade com Deus é necessariamente bom com felicidade e gozo. A ética difícil ou moral é filha de um dualismo, isto é, nasceu da ilusão de que o homem e Deus sejam duas realidades essencialmente diversas; é uma pseudo-ética que crê apenas num Deus transcendente, mas não tem experiência direta do Deus imanente. A fé num Deus transcendente torna o homem bom, mas dolorosamente bom, porque está baseada na ideia de um Deus distante, longínquo, separado do homem. Somente quando o homem ultrapassa o seu velho dualismo e verifica que o Deus transcendente e longínquo é, ao mesmo tempo, um Deus imanente e propínquo, só então é que ele entra na vivência de um grande monismo, que não nega a transcendência de Deus, mas acrescenta-lhe a imanência. À luz do meu existir dualista, Deus é apenas transcendente, porque é infinitamente maior do que esse existir, e por isto parece sempre um Deus longínquo em que se deva crer compulsoriamente; é a voz austera da lei: Tu deves! Mas quando a essa fé na transcendência longínqua de Deus se associa a vivência da sua imanência propínqua, em virtude do meu SER monista, da minha identidade essencial com Deus, então a austeridade da lei do compulsório dever se transforma na suavidade de um espontâneo querer, que é amor. E com essa experiência íntima do Deus em mim, da minha própria divindade essencial, toda amargura da moral se transforma em doçura, a amarga medicina cede lugar ao doce manjar, e o homem, assim remido, quer o que deve, executa com espontâneo amor os imperativos categóricos da lei compulsória. Quer dizer que para esse homem que passou pela experiência mística a lei passa a ser amor, o dever passa a ser querer, o difícil passa a ser fácil. Esse homem cumpre o conteúdo da lei como os outros homens bons, mas não o cumpre como eles. Cumpre o mesmo, de um modo diferente. Verifica que o jugo de Cristo é suave e que seu peso é leve; carrega com leveza as coisas pesadas, faz com suavidade as coisas amargas, estende arco-íris de sorrisos sobre dilúvios de lágrimas.


Em última análise, o verdadeiro Cristianismo não consiste em ser bom e fazer o bem – consiste essencialmente em ser perfeito, isto é, risonhamente bom e em fazer jubilosamente todo o bem que faz a seus semelhantes. A moral é como uma máquina de aço, pesadíssima; o homem tristonhamente bom, o discípulo da moral pré-mística, faz funcionar pesada e ruidosamente esta máquina pesada - mas o discípulo da ética pós-mística, o homem risonhamente bom e perfeito, faz funcionar esta pesada máquina com a leveza de um sopro, com o silêncio da luz e com a exultante felicidade do amor.


A vida eterna é, pois, uma bondade feliz, ou uma felicidade cuja plenitude transborda em torrentes de bondade.


* * *

* * *

Todo homem que, deste modo, atualiza, pela mística e ética, a sua imortalidade potencial transpõe um abismo decisivo e se liberta definitivamente do pecado e da morte metafísica.


Também, como poderia ainda pecar – isto é, desamar a Deus – quem sabe por experiência que ele e o Pai são um?


E, uma vez chegado ao conhecimento intuitivo dessa sua essencial identidade com Deus, como poderia esse homem ainda recear a morte? O temor da morte nasce do dualismo, isto é, da ignorância de que a essência do homem é idêntica a Deus. A experiência mística, sendo a suprema verdade, acaba com toda a ignorância e todo o erro sobre Deus e o homem. Verdade é que o seu existir individual poderia morrer, porque não é idêntico a Deus; mas, uma vez que esse existir individual foi totalmente penetrado pelo SER universal de Deus, segue-se que nem esse existir individual pode morrer, enquanto não se separar do SER universal. Mas, por que razão havia esse existir individual do homem de divorciar-se do SER universal de Deus? A integração do pequeno existir no grande SER é acompanhada de tão intensa felicidade que o homem nem sequer pode ter o desejo de voltar atrás, separar-se novamente do SER divino e tornar a ser infeliz como antes dessa integração. Há um caminho do ser-infeliz para o ser-feliz, mas não há caminho do ser-feliz pra ser-infeliz. Pode alguém descrer hoje do Deus em que ontem creu – mas ninguém pode amanhã ignorar o Deus que hoje sabe e saboreia por experiência íntima. Há ida e volta do crer ao descrer – mas não do saber ao não-saber. Há só ida.








Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 27.
Para visualizar o capítulo 27 completo, clique no botão abaixo:

Ver 27 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?