Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 25

"EU VIM PARA LANÇAR FOGO À TERRA – E QUE QUERO SENÃO QUE ARDA?"

Segundo estas palavras do Mestre, o Evangelho de Cristo, o verdadeiro Cristianismo, é fogo ardente.


Fogo é luz, calor, energia.


Luz é símbolo de sabedoria, compreensão espiritual.


Calor simboliza amor, simpatia, entusiasmo.


Energia realiza praticamente aquilo que a razão compreendeu como Verdade e o coração ama como Beleza.


Nada se realiza dinamicamente que não se tenha compreendido experiêncialmente e amado entusiasticamente. Compreensão e amor são as duas asas para as grandes realizações. Onde há compreensão e amor tudo é possivel, nada é impossivel.


Quando o discípulo de Cristo compreende o que é o Cristo e seu reino não pode deixar de amar entusiasticamente essas grandezas, porque a Verdade aparece então como Beleza, e esta Verdade compreendida pela razão e amada pelo coração como Beleza gera tão intensa Felicidade que o homem se sente irresistivelmente impelido a realizar dinamicamente aquilo que compreende e ama. Não é possivel compreender a Verdade como Beleza e amar a Beleza como Verdade sem as transformar em realidades concretas no plano horizontal da vida. Toda mística genuína é realizadora, ativa, dinâmica. O verdadeiro místico é necessariamente dinâmico, porque se sabe invulnerável e sempre vitorioso no essencial, embora nos secundários, nos resultados externos e palpáveis, pareça, por vezes, derrotado; ele sabe que é absolutamente inderrótavel, e isto lhe dá irresistível coragem e intrepidez em todas as suas realizações em prol do reino de Deus.


Enquanto a Verdade é apenas entendida, perifericamente, pela luz fria da inteligência, ela não atrai, não fascina, porque parece vaga, longínqua, incolor, teórica, austera, uma espécie de região polar, um vasto campo de neve e gelo palidamente iluminado pela luz fria e fantástica da lua. Mas logo que a Verdade passa a ser compreendida vitalmente pela razão, ela adquire cores, vida, beleza – e fundem-se então numa só realidade a Verdade e a Beleza. E em face desse consórcio do verdadeiro e do belo, o homem se sente empolgado por uma força metafísica de possuir a Verdade e gozar a Beleza do reino de Deus – e logo todas as coisas da vida presente, mesmo as que pareciam difíceis, se tornam fáceis e deleitáveis; o jugo amargo da disciplina se torna suave, e seu peso se torna leve. "A verdade – disse Mahatma Gandhi – é dura como diamante e delicada como flor de pessegueiro. " "Eu vim para lançar fogo à terra – e que quero eu senão que arda?"
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O culto do fogo e da luz é antiquíssimo. Se há uma idolatria desculpável, é esta a mais desculpável de todas: a adoração do sol, e, em geral, do fogo e da luz.


Em todos os tempos, o homem sentiu ou adivinhou obscuramente o que os cientistas da Era Atômica acabam de provar claramente: que a luz é a base de todas as coisas do mundo físico. Hoje em dia, sabemos que os 92 elementos do sistema periódico da química não são outras tantas realidades distintas, senão apenas 92 manifestações várias de uma e a mesma realidade fundamental, que Einstein e outros entendidos em física nuclear chama "luz", confirmando cientificamente o que o autor de Gênesis já sabia intuitivamente quando escrevia: "No primeiro dia Deus creou a luz". E desta luz, segundo Moisés e Einstein, nasceram todas as outras coisas, energias e matérias, do universo físico. A luz é a mãe de todas as coisas. Todas as coisas são lucigênitas, filhas da luz. A matéria é "energia congelada", e as energias são "luz condensada". Quanto mais condensada é uma coisa, tanto mais material;


quanto menos condensada, tanto menos material. A luz possui condensação mínima, e, por isto, expansão máxima, isto é, presença; a luz possui onipresença no plano do universo material; ela é imanente em todas as coisas e todas as coisas são feitas de luz, lucigênitas. A luz é a mais imaterial de todas as coisas materiais, e, por isto mesmo, o mais perfeito símbolo da Divindade. Em todos os livros sacros da humanidade Deus é comparado à luz: "Deus é luz, e nele não há trevas. " "Eu sou a luz do mundo, quem me segue não anda em trevas. " Quando Jesus diz que veio lançar luz à terra, afirma simbolicamente que veio permear do espírito de Deus todas as coisas do mundo de Deus. Esse espírito divino, é verdade, já existe no mundo, porque está imanente em todas as coisas, também no homem, porquanto Deus é aquele Ser "no qual vivemos, nos movemos e temos o nosso ser", como Paulo de Tarso disse aos filósofos de Atenas.


Mas, falta que esse espírito de Deus presente e imanente em todas as coisas se torne consciente, plenamente consciente, no homem. A luz do divino Lógos, como diz o quarto Evangelho, "ilumina a todo homem que vem a este mundo";


mas nem todos os homens são conscientes dessa luz do Cristo interno;


somente "àqueles que o recebem dá-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus". Somente aqueles nos quais o Cristo potencial e latente se torna um Cristo atual e manifesto "renascem pelo espírito" e "podem ver o reino de Deus".


Não basta que o fogo de Cristo esteja presente em cada homem; é necessário que "arda", que se atualize, que se torne consciente e permeie toda a vida do homem.


Toda lenha, e qualquer outro combustível, é fogo potencial; mas só arderá quando um fogo atual dele se aproximar e atualizar o fogo potencial latente no combustível. Uma vez iniciada a ignição – mesmo por uma chama pequenina de fogo atual – estabelece-se a misteriosa "reação em cadeia": um fogo atual atualiza o fogo potencial, seu vizinho, e esse, devidamente atualizado, atualiza o combustível mais próximo, e assim por diante, até se estabelecer imenso incêndio de fogo atual. E este continuará sem cessar enquanto houver material combustível, isto é, fogo potencial capaz de ser atualizado.


Basta que uma única alma humana desperte para a realidade do seu Cristo interno, que é o Cristo eterno – e logo se inicia um novo incêndio cósmico, que vai alastrando, empolgando outras almas em gestação espiritual, e todas, atingidas pela mesma luz, dão à luz o Cristo latente nelas – e a "reação em cadeia" prossegue, interminável, iluminando e acalentando as almas do mundo inteiro, até que o reino de Deus seja proclamado por toda parte.


Onde quer que exista uma alma humana capaz de ignição espiritual, uma alma em estado adiantado de gestação crística, lá se operam estupendas maravilhas. De nada valem organizações impessoais, jurídicas, burocráticas, sociais, por mais perfeitas e bem excogitadas, se lhes faltar uma pessoa humana, um Eu, uma alma viva; porque não são as coisas, mas tão-somente as almas que podem iniciar e propagar esse divino incêndio; as coisas não são incendiáveis em si, não podem "pegar fogo"; isto é privilégio das pessoas, das almas humanas. É, pois, trabalho perdido querer promover movimentos de "reavivamento" por meio de organizações eclesiásticas ou técnicas burocráticas. Esse material não é combustível, e o fogo do Cristo não vai romper em viva chama nas coisas impessoais. É necessário e suficiente que haja pelo menos uma alma incendiável – algum Paulo de Tarso, algum Francisco de Assis, algum Sundar Singh, algum Mahatma Gandhi, algum Albert Schweitzer, ou outra alma disposta a fazer nascer dentro de si o Cristo e depois irradiá-lo pelo mundo.


O espírito do Evangelho é essencialmente ígneo. O fogo atua extensivamente na razão direta da sua intensidade. Não pode produzir efeitos externos senão em virtude da sua causa interna. O mais esplêndido fogo artificial, pintado, não produz efeito de fogo, não ilumina, não acalenta, não tem força – ao passo que o mais humilde fogo real é irresistivelmente poderoso, quando encontra no seu caminho fogo potencial, isto é, material combustível ao qual possa comunicar a sua própria natureza. "Se tiverdes fé, ainda que seja do tamanho dum grão de mostarda, nada vos será impossivel. " Se tiverdes fogo, por mais pequenino, tudo será incendiável.


O fogo artificial, apenas pintado numa tela, é uma fé crida, mas não uma experiência vivida, que é fogo real. O que apenas se crê vagamente, intelectualmente, eclesiasticamente, não é fogo real, não ateia incêndios, nem no próprio crente, nem nos outros, porque com fogo pintado não se pode atear fogo real.


O fogo que o Cristo veio lançar à terra é fogo real, vivo, dinâmico, é experiência direta e imediata de Deus, é o contato pessoal com o Cristo, é a gloriosa vivência do reino de Deus.


Naturalmente, para que esse fogo ateie incêndios é necessário que haja suficiente combustível na alma do homem. As cinco virgens tolas tentaram acender as suas lâmpadas, mas não o conseguiram, porque não havia combustível, azeite, nas mesmas – e ficaram nas trevas. O combustível é a vida ética do homem. Se esta não existir, nunca haverá luz permanente na alma. Não posso atear fogo num montão de pedras frias, nem com um pequeno fósforo, nem com uma grande tocha, porque a pedra não oferece combustível.


A moral pré-mística, difícil e dolorosa, é necessária para que possa vir a ética pós-mística, fácil e deleitável. A cruz telúrica, pesada e sangrenta, tem de preceder à cruz cósmica, leve e luminosa. Era necessário que o Cristo sofresse tudo aquilo, para "assim entrar em sua glória". "Eu vim para lançar fogo à terra – e que quero eu senão que arda?". . .








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