Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 24

"NEM EM ISRAEL, ENCONTREI TÃO GRANDE FÉ"

A palavrinha "fé" (fides, pistis) tem, hoje em dia, dois sentidos totalmente diferentes e divide a humanidade espiritual em dois campos. O que, comumente, se chama fé em nossos tratados teológicos e livros devocionais é a aceitação de uma doutrina ou realidade espiritual em virtude do testemunho de uma pessoa considerada competente e fidedigna. O crente crê numa determinada doutrina ou realidade, embora não tenha dela a menor experiência espiritual, direta; encampa cegamente a experiência alheia. O crente continua a ser um "profano" ou "exotérico", aceitando, porém, a experiência de um "iniciado" ou "esotérico".


Para que essa espécie de fé seja razoável, supõe-se tacitamente que, pelo menos, uma pessoa tenha tido experiência direta e imediata da realidade espiritual. Se não existisse no princípio dessa longa cadeia de crentes pelo menos um iniciado ou experiente, não teria valor toda essa subsequente série de elos de crença dos inexperientes.


A fé, tomada neste sentido, como se vê, está baseada num ato de boa vontade: o crente ignora pessoalmente a existência de um mundo invisível;


contudo, benevolente como é, admite a realidade do mesmo, porque fulano ou sicrano lhe afirmam a existência desse mundo; e o crente admite que esses seus mestres não se tenham enganado nem o queiram enganar.


É esta a fé que, geralmente, se descreve nos livros religiosos. Cremos em Deus e na vida eterna, porque os profetas da lei antiga, os grandes gênios religiosos da humanidade e, sobretudo, Jesus o Cristo afirmam que Deus existe e há uma vida eterna.


Entretanto, essa "fé em segunda mão" pouco ou nada tem que ver com o que Jesus proclama como fé. O caso do centurião romano de Cafarnaum ilustra tipicamente o que o Nazareno entendia por fé. Afirma ele que nem mesmo em Israel, entre o povo e os sacerdotes oficialmente religiosos, encontrou tão grande fé como no coração desse oficial gentio.


Será que o centurião cria em algum determinado dogma ou doutrina teológica?


Será que admitia a realidade do mundo invisível pelo fato de outros lhe terem contado da existência desse mundo?


Não, nada disto acontecia com centurião. Não tinha fé neste sentido derivado.


O que ele tinha era experiência direta e imediata do mundo das forças invisíveis, como claramente revelam as suas palavras e como dá a entender a entusiástica exclamação de Jesus. Como o próprio Cristo possuía em altíssimo grau essa experiência direta de Deus, essa fides, ou fidelidade, deve ele ter encontrado uma espécie de afinidade espiritual entre si e o oficial romano.


Acha desnecessário que Jesus vá à casa dele, onde jazia de cama seu servo doente; sabe por experiência íntima que o poder de Jesus não está limitado à esfera da sua presença física, visível; sabe que o Cristo, o eterno Lógos, o Verbo que encarnou em Jesus, é onipresente, presente também lá onde jaz seu servo doente, porque a presença e atuação do Cristo não depende de tempo e espaço; é universal, uma vez que o próprio espírito, de Deus, é a vida que tudo permeia, a luz que ilumina todo homem. Basta, portanto, que o Jesus humano, de presença local e restrita, apele para o seu Cristo divino, de presença universal e irrestrita, imanente em tudo, apesar de transcendente a tudo.


Por isto, diz o centurião, não é necessário que tu, o Jesus visível e físico, vás à minha casa para curar o meu servo; cura-o daqui mesmo onde estás, apela para o Verbo que em ti está, porque o teu divino Cristo, onipresente, está presente lá onde meu servo jaz em tormentos.


As traduções comuns deste episódio fazem o centurião romano dizer: "Dize tão somente uma palavra, e meu servo será curado. " Mas, tanto no texto grego do primeiro século como também na tradução latina está: "Dize ao verbo" (Logô, Verbo, e não Logon, Verbum); a palavra Verbo está no dativo, e não no acusativo, supondo que seja um ser consciente, e não uma palavra inconsciente. Como se poderia falar à palavra, ao Verbo, se se tratasse duma coisa inconsciente, de uma simples vibração aérea?


E que motivo teria a grande admiração de Jesus, se o centurião romano se referisse apenas a essa espécie de magia ritual, a cura de seu servo mediante uma telepatia verbal?


Para ilustrar essa sua fé experiêncial, recorre o oficial romano a uma comparação não menos misteriosa do que genial; diz que sua autoridade de superior militar faz com que seus subordinados executem imediatamente qualquer ordem recebida – do mesmo modo, quer ele dizer, a moléstia de meu servo obedecerá infalivelmente a uma ordem do Cristo, uma vez que todas as forças da natureza veem no Cristo a mais alta manifestação de Deus, a que tudo presta obediência.


O centurião vê o Jesus visível – e tem fé no Cristo invisível, ou antes, sabe por uma experiência íntima que esse Cristo, visível em Jesus, ultrapassa todas as fronteiras dessa presença visível, podendo, pois, agir a qualquer distância do Jesus visível.


O centurião é, sem dúvida, um dos grandes videntes e místicos do Evangelho.


Sabe por vivência própria o que outros admitem apenas por uma crença alheia.


É por isto que Jesus se enche de viva admiração e grande entusiasmo em face das palavras e da atitude do oficial romano. Nunca, nem mesmo entre os eruditos teólogos da sinagoga de Israel, encontrara ele uma experiência espiritual dessa pureza, profundidade e amplitude.


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A teologia de nossas igrejas está marcando passo, há quase dois mil anos, no mesmo ponto em que se achava a teologia da sinagoga, no tempo de Jesus.


Quando Jesus interroga aos mestres de Israel: "Que vos parece do Cristo?" respondem com uma afoiteza só comparável à sua grande ignorância: "É filho de David. " Ao que Jesus lhes faz ver que o próprio David, cerca de mil anos antes do nascimento de Jesus chama o Cristo "meu senhor"; se, pois, é seu "senhor", como é que é seu "filho"? E nenhum dos eruditos teólogos soube dar resposta a essa pergunta. É que identificavam o Jesus humano com o Cristo divino, o veículo visível com o conteúdo invisível.


Quase o mesmo acontece aos nossos dias! A expressão "Jesus Cristo" – em vez de "Jesus, o Cristo" – não permite aos nossos mestres solver o problema.


A ideia de que o divino Lógos, que a princípio estava com Deus e que era Deus, possa ter estado presente no mundo muito antes que a pessoa de Jesus lhe oferecesse um canal e veículo de manifestação visível – essa ideia é rejeitada por muitos como "não ortodoxa". O quarto Evangelho afirma explicitamente que a luz do eterno Lógos "ilumina a todo homem que vem a este mundo", mesmo àqueles milhares e milhões que viveram antes do nascimento de Jesus e que ainda hoje vivem sem jamais terem ouvido proferir este nome. A presença e atuação do Cristo eterno e onipresente não está necessariamente ligada à presença ou ao conhecimento de Jesus.


Só um conhecimento direto do Cristo, adquirido, não pelo estudo analítico do intelecto, mas pela intuição espiritual da razão, é que pode fazer compreender realmente o sentido profundo das palavras do centurião romano de Cafarnaum.








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