Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 23

"ENQUANTO ORAVA, TRANSFIGUROU-SE DIANTE DELES"

Três discípulos seletos – Pedro, Tiago e João, o "círculo esotérico" do colégio apostólico – presenciaram o misterioso fenômeno da transfiguração de Jesus.


Os outros nove ficaram ao pé do monte, como, mais tarde, ficaram fora do horto de Getsêmane para não assistirem à agonia do Mestre. Só quem viu tamanha glória pode suportar tamanha inglória. . .


Era ao pôr do sol quando os quatro atingiram o cume do Tabor, que quer dizer "altar". Distanciou-se dos discípulos o Mestre e entrou numa intensa comunhão com Deus. Enquanto orava, diz o evangelista, mudou-se a expressão do seu semblante. O seu rosto era brilhante como o sol, e as suas vestiduras eram brancas como a neve, resplandecendo com tanta alvura como nenhum lavandeiro da terra as poderia branquear. Ergueu-se aos ares, e apareceram ao lado dele Moisés e Elias, falando com ele sobre a morte que ia padecer em Jerusalém. E uma voz soou dizendo: "Este é meu filho muito querido, no qual pus a minha complacência! Ouvi-o!" As trevas da noite envolvendo a terra – as glórias do céu iluminando os espaços. . .


Moisés, o grande legislador; Elias, o exímio profeta – todo o Antigo Testamento homenageando o iniciador da Nova Aliança. . . A inteligência e o coração, sintonizados com a suprema Razão, o divino Lógos, o Cristo de ontem, de hoje e de sempre. . .


E no meio dessas glórias fala-se em sofrimento e morte. . .


E lá embaixo, os três discípulos, ainda presos no mundo dos sentidos, caem como que fulminados pelos esplendores do Cristo, que por uns momentos permitiu que a luz da divindade rompesse pelo invólucro opaco da sua humanidade.


– "Senhor! – exclama Simão Pedro – que bom que é estarmos aqui!. . . Se quiseres, vamos armar aqui três tendas, uma para ti, uma para Moisés e uma para Elias. . . " Três tendas para os três que não necessitavam de tendas – e esqueceu-se dos três que ainda tinham mister habitar em tendas terrestres. . .


Mas não sabia o que dizia, de tão transido de terror e de gozo. . . Só sabia que felicidade reclama eternidade, profunda, profundíssima eternidade. Felicidade que não seja eterna não é felicidade, é tormento. A perspectiva do fim do gozo deita gotas de absinto na beatitude. . .


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Orar, como já dissemos, quer dizer literalmente "abrir a boca", abrir a consciência rumo ao Infinito.


Por via de regra, a luz do mundo, que é o Cristo, estava encoberta pelos invólucros opacos da natureza humana de Jesus. Nessa personalidade habitava toda a plenitude da Divindade; mas o Cristo-lógos, ao encarnar na pessoa humana de Jesus se havia esvaziado dos esplendores da Divindade, e, por fora, parecia simples homem. Por dentro desta humanidade, porém, continuava a existir a luz da Divindade.


Só de vez em quando permitia Jesus que o seu Cristo-luz transparecesse através do seu Jesus-matéria. E isto acontecia quando a sua consciência crística atingia a mais alta voltagem de intensidade, como aconteceu no monte Tabor, quando ele estava em profunda e prolongada sintonização com a Divindade. Então a matéria do seu corpo humano se desmaterializou e lucificou a tal ponto que a materialidade do seu corpo não era mais perceptível, e todo ele era uma deslumbrante figura de luz. Os evangelistas não encontram termos para descrever essa luminosidade de Jesus; dizem que era tão luminoso como o sol meridiano em pleno fulgor; dizem que as suas vestimentas eram tão alvas como nenhum lavandeiro poderia alvejar uma roupa.


Moisés escreveu que no primeiro período da creação Deus fez a luz, e da luz vieram todas as coisas materiais. Cerca de 3. 500 anos depois desta intuição de Moisés, escreveu Einstein que a matéria prima do Universo, os 92 elementos da química, são luz.


Mas além da luz física existe a luz metafísica, que a ciência ignora, mas que a sapiência conhece por intuição.


A luz metafísica é a consciência do Eu divino no homem. Quando o homem atinge o zênite da consciência "Eu e o Pai somos um", então a própria matéria do seu corpo começa a lucificar-se aos poucos. Por vezes, essa luz metafísica se manifesta fisicamente em forma duma aura, ou auréola, ao redor da cabeça.


Outras vezes, essa luz envolve todo o corpo do homem. Por vezes, essa luz neutraliza a gravidade natural do corpo, fazendo o homem flutuar livremente no espaço. Estes fenômenos ocorreram no monte Tabor durante a transfiguração do corpo de Jesus. E os três discípulos Pedro, Tiago e João presenciaram este fenômeno e foram por ele a tal ponto penetrados que perderam a sua consciência humana normal, e Pedro exclamou: "Que bom que é estarmos aqui. . . vamos armar aqui três tendas. . . uma para ti, outra para Moisés e outra para Elias. . . ".


No Tabor, a irradiação luminosa de Jesus alargou os seus círculos ao ponto de envolver os discípulos que estavam a certa distância. E o envolvimento e a penetração da luz metafísica de Jesus deu aos três uma espécie de cosmovisão, de maneira que eles viram também os corpos imateriais de Moisés e Elias, esses dois dos quais afirmam os livros sacros que não haviam morrido, mas tinham transformado o seu corpo material num corpo imaterial.


E, estranhamente os três transfigurados falavam da próxima desmaterialização ou morte do corpo de Jesus.


Jesus, porém, ao descer do Tabor proibiu os seus discípulos de falarem do ocorrido, até que tivessem presenciado a rematerialização do corpo de Jesus.


O homem profano não pode compreender semelhante fenômeno, que a luz metafísica do espírito tenha poder sobre a física da matéria.


Toda a vez que o homem "ora" de fato, abrindo a sua consciência rumo ao Infinito, aumenta ele a sua lucificação potencial. Orar é a mais importante realidade da religião.


Muitos falam de Deus.


Alguns falam com Deus.


Poucos sabem calar-se diante de Deus para que Deus lhes possa falar – poucos sabem orar.








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