Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 21

"ISTO É O MEU CORPO – ISTO É O MEU SANGUE"

Quanto mais intensamente cósmica é uma verdade do Evangelho tanto mais a inteligência humana, ainda totalmente telúrica, se desorienta em face dessa revelação.


É o que acontece, sobretudo, com aquilo que uns chamam a Eucaristia, e outros a Ceia do Senhor. Esse tópico cindiu a cristandade em campos adversos e, aparentemente, irreconciliáveis. A desarmonia creada no seio da cristandade por estas palavras de Jesus só é comparável a que nasceu das palavras "Tu és Pedro. . . " E essa discórdia é perfeitamente compreensível, uma vez que a nossa teologia é ainda visceralmente escolástica, intelectualista, telúrica – e neste plano não há nenhuma possibilidade de compreensão real, única suficiente e capaz de unificar as dissidências.


Acresce a agravante de que o ritualismo sacramental que uma grande parte da igreja cristã estruturou sobre o texto eucarístico é a base principal que, há séculos, garante a subsistência material, e, não raro, até a prosperidade financeira do clero. Se a interpretação desse tópico estivesse inteiramente divorciado do prestígio social e político e da prosperidade econômica do clero, seria relativamente fácil compreendermos o verdadeiro sentido dessas palavras e teríamos uma porta aberta para um congraçamento universal no seio das igrejas cristãs. Por ora, porém, estamos bem longe dessa solução feliz, porque a imensa maioria da humanidade cristã se acha ainda no estágio meramente intelectual-teológico. Mais fácil seria essa solução no setor do mundo leigo que no setor hierárquico da igreja, porque para o sacerdócio a religião representa uma profissão material, ao passo que para os fiéis em geral é um ideal espiritual.


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Em vésperas de sua morte proferiu Jesus a mais profunda e misteriosa de todas as suas parábolas, não só em palavras, mas em palavras e fatos.


Expressou, num drama de inigualável verdade e beleza aquilo que com o seu corpo e sangue ia acontecer no dia imediato e o que com sua alma e divindade ia perpetuar-se através dos séculos e milênios.


Para compreender o mistério do pão e do vinho, seria necessário compreender primeiro o próprio Cristo.


Que é o Cristo?


Diz o quarto Evangelho que ele é o próprio espírito universal de Deus que se individualizou no Cristo cósmico e, mais tarde, se personalizou em Jesus, no qual "o Verbo se fez carne". Nesta forma individualizada é que o espírito universal de Deus é chamado o Cristo, isto é, o Ungido, aquele que foi totalmente penetrado do espírito divino.


O texto grego do primeiro século usa a palavra profunda e sublime da filosofia antiga "Lógos" (isto é, Razão, ou Espírito) para designar o espírito divino encarnado em Jesus. A tradução latina da Vulgata diz "Verbum", isto é, Palavra ou Verbo, como a mais concreta manifestação da Razão ou do Espírito.


Entretanto, esse mesmo Cristo, individualizado em Jesus, depois de terminado o seu ciclo terrestre, se ia universalizar no Espírito Santo.


Deus, em si mesmo, é "in-nato" (não nato, não individualizado).


Jesus Cristo é "intra-nato" (nascido para dentro do mundo individual).


O Espírito Santo é extra-nato (nascido para fora, universalizado através de toda a natureza do cósmico) [6] .


Em última análise, Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo são uma e a mesma realidade. Apenas as suas funções são diferentes.


Como pessoa física não podia Jesus estar com seus discípulos todos os dias até à consumação dos séculos – como o Cristo universalizado ele podia.


Por isto, ele se despersonalizou pela morte (assim como se havia personalizado pela encarnação).


Essa universalização do Cristo e consequente onipresença no tempo e espaço teria sido impossivel se ele permanecesse aquele Jesus personal e de presença uni-local; porquanto a ubiquidade supõe a universalidade. Se ele não se despersonalizasse e universalizasse, poderia estar num só lugar e nunca poderia realizar o que exprimiu com as palavras: "Onde quer que dois ou três estiverem reunidos em meu nome, lá estou eu no meio deles"; ou então: "Ide pelo mundo inteiro – e eu estou convosco todos os dias até à consumação dos séculos. " Isto implica universalidade, onipresença.


Quando os discípulos estavam tristes com a próxima retirada do Mestre, disselhes ele: "Convém a vós que eu me vá, porque, se não for, não virá a vós o Espírito Santo; porque ele tomará do que é meu e vo-lo anunciará. " O Jesus da Palestina tornou-se o Cristo do universo.


O Jesus visível do primeiro século tornou-se o Cristo invisível de todos os séculos.


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Ora, em véspera desse novo modo de ser, e para simbolizar essa sua despersonalização pela morte e universalização pela ressurreição, recorre Jesus a um símile tão profundo que até hoje os homens eruditos não o compreenderam e forjam interpretações segundo a imagem e semelhança do seu estado mental.


Que acontece quando ingerimos algum alimento, sólido como o pão, líquido como o vinho? O nosso organismo absorve ou assimila, não o alimento em sua constituição material; mas desintegra a matéria dos alimentos e dela extrai as "calorias" ou energias vitais. Essas calorias ou energias não são a matéria do alimento, mas a força imponderável neles contida; não o corpo, mas a alma da comida.


Para que o nosso organismo vivo possa vitalizar esses alimentos, é necessário que primeiro os destrua e desintegre – digamos, "mate" – o alimento, reduzindo-o a seus últimos componentes porque só nesse estado de total desintegração, ou "morte" é que o alimento pode ser reintegrado e revivificado pelo organismo e fazer parte integrante dele. Essa integração do alimento mineral, vegetal ou animal no organismo humano é uma espécie de "ressurreição" ou ressurgimento. O alimento "morreu" para o seu antigo estado mineral, vegetal ou animal – e "ressuscita" para um novo estado no organismo do homem. Por mais estranho que pareça, as calorias dos alimentos assimilados passam a fazer parte real do nosso Eu. De fato, no estado atual da nossa existência, não podemos pensar e querer sem o auxílio das calorias extraídas do alimento material. Nenhum alimento pode ressuscitar para essa vida superior sem que primeiro morra; para se universalizar em nosso corpo deve primeiro desindividualizar-se.


A integração supõe a desintegração.


Ora, Jesus, que possuia profunda intuição dos segredos da natureza, serviu-se deste fenômeno material para simbolizar uma realidade espiritual: ele, Jesus de Nazaré, não podia entrar na alma de seus discípulos sem que primeiro se desintegrasse pela morte voluntária a fim de se integrar em nós como o Cristo onipresente. Por isto, tomou ele nas mãos o pão e disse a seus discípulos que aquilo era como seu corpo, porque, ingerido por eles, faria parte deles; de modo análogo, o seu corpo, entregue à morte, se espiritualizaria de tal modo que partilharia da onipresença do espírito; o Jesus humano passaria a universalizar-se como o Cristo divino. O mesmo aconteceria com o vinho, símbolo de seu sangue, que, uma vez derramado pela morte, passaria a se universalizar para que os seus discípulos o pudessem assimilar espiritualmente. "A carne de nada vale – o espírito é que dá vida; e as palavras que vos tenho dito são espírito e são vida".


A Eucaristia, ou Ceia do Senhor, é, pois, a mais profunda e significativa parábola mística da morte e ressurreição de Jesus Cristo e é neste sentido que ele incumbe os seus discípulos de perpetuarem esse memorial, "até que ele venha", como diz São Paulo. Até que ele venha espiritualmente, porque materialmente já veio. Depois da vinda espiritual do Cristo cessa o simbolismo material, porquanto o símbolo físico encontrará o seu cumprimento no simbolizado metafísico.


A Eucaristia é para os viajores infantis, não para os adultos. Para estes, o Cristo já veio definitivamente; eles fizeram a comunhão crística.


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Este sentido metafísico-místico da Eucaristia pode ser aplicado também no sentido ético, resultando na seguinte verdade profunda: Enquanto o homem não se "desintegrar" ou "despersonalizar", isto é, enquanto não deixar de ser egoísta e egocêntrico, não pode beneficiar a seus semelhantes, porque não é bom, e só pode fazer bem aquele que é bom. Só quando "morrer" para o seu Ego personal, físico-mental – sua cobiça, luxúria e orgulho – é que ressuscitará para o seu verdadeiro e divino Eu espiritual, que é essencialmente altruísmo, amor, benevolência universal.


O divino Mestre exprime esta grande verdade nos seguintes termos: "Se o grão de trigo não morrer ficará estéril; mas, se morrer, produzirá fruto abundante. " O apóstolo Paulo afirma de si mesmo: "Estou crucificado para o mundo, e o mundo está crucificado para mim. . . Morro todos os dias, e é por isto mesmo que vivo, mas já não sou eu que vivo – é o Cristo que vive em mim. " Quem não se desintegrar não se pode integrar.


Se a Eucaristia fosse compreendida e vivida deste modo, seria ela uma verdadeira "sagrada comunhão", uma união diária e permanente com Deus – em vez de ser apenas um rito sacramental, para uns e uma fonte de renda para outros.


Talvez nenhuma outra palavra e parábola de Jesus tenha sido tão mal compreendida e tão sacrilegamente profanada como este mistério máximo do seu Evangelho, eterno memorial da sua morte e ressurreição.


Quando farão os cristãos a sua sagrada comunhão com o Cristo – em espírito e em verdade?. . .


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Se aceitarmos a doutrina tradicional de certa igreja sobre as ocorrências na última ceia; se aceitarmos ter Jesus celebrado a primeira missa, ordenado sacerdotes os 12 apóstolos e ter dado a primeira comunhão a eles, seremos obrigados a aceitar os maiores absurdos e as mais revoltantes blasfêmias.


Logo após a suposta primeira missa, um dos neo-sacerdotes e neocomungantes consumou o plano da traição, e logo depois se suicidou; outro neo-sacerdote e neo-comungante negou três vezes o divino Mestre, mentindo e jurando que não o conhecia e rogando pragas sobre si mesmo, se é que era discípulo dele; os outros neo-sacerdotes e neo-comungantes fugiram covardemente, deixando Jesus entregue a seus inimigos.


Se é pelos frutos que se conhece a árvore, então não é possivel aceitarmos como autêntica uma árvore que tais frutos produziu. Logo, não é possivel aceitar a suposição teológica de ter Jesus celebrado a primeira missa, ordenado os primeiros sacerdotes e ter dado a primeira comunhão a seus apóstolos, na santa ceia.


Tudo isto não passava de uma maravilhosa parábola, cujo significado espiritual se cumpriu na manhã do Pentecostes, quando 120 pessoas, homens e mulheres, comungaram realmente, não a carne e o sangue do Jesus humano, mas o espírito do Cristo divino, em espírito e em verdade, iniciando o verdadeiro cristianismo sobre a face da terra.








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