Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 20

"A QUEM VÓS PERDOARDES OS PECADOS SÃO LHES PERDOADOS"

Há nas páginas sacras do Evangelho, como já dissemos, certas passagens que, no decorrer dos séculos, foram explicadas segundo as necessidades da época. Essas necessidades não nasceram de dentro desses textos, mas das circunstâncias de tempo e lugar.


As palavras acima citadas pertencem e esse grupo. No tempo em que se formou a hierarquia eclesiástica, entenderam os teólogos que era indispensável conferir aos componentes dessa hierarquia poderes divinos para que tivessem suficiente autoridade perante o povo em geral. O poder de perdoar pecados é um poder divino.


De fato, há homens que possuem o poder de perdoar pecados. Mas o erro está em que a hierarquia eclesiástica pretende monopolizar esse poder, de pessoa a pessoa, mediante determinadas cerimônias rituais. Contra esses dois erros, nascidos das circunstâncias, e talvez da ambição, afirmamos:
1) o poder de perdoar pecados não é privilégio exclusivo de determinada classe sacerdotal,
2) esse poder não é conferido por meio de cerimônias rituais, no plano horizontal, mas vem diretamente, na vertical, de Deus e é conferido a toda e qualquer pessoa que seja idônea para o receber.


As palavras esotéricas "A quem vós perdoardes os pecados são lhes perdoados, e a quem vós os retiverdes são lhes retidos" foram dirigidas por Jesus, repetidas vezes, a) a uma só pessoa, b) ao grupo seleto dos seus apóstolos, c) a todos os seus verdadeiros discípulos em geral.


Entretanto, é de suma importância não desligar estas palavras das que as precedem: "Recebei o espírito santo. " Convém notar que a palavra "perdoar" é um composto de "dar" ou "doar".


Perdonare em latim, é composto de "per" e "donare" (doar); da mesma forma em inglês "forgive" é composto de "for" e "give" (dar), ou em alemão "vergeben", composto de "ver" e "geben" (dar). Perdoar quer, pois, dizer "dar plenamente", fazer uma "doação total". A ideia que está no fundo deste vocábulo é esta: quando um pecador recebe uma dádiva ou doação de luz espiritual muito abundante, uma doação plena, ele compreende o seu estado, arrepende-se e se converte a Deus. Está perdoado. Porque é inadmissível que um pecador seja perdoado externamente sem que internamente se converta;


mas essa conversão supõe uma nova compreensão, uma luz divina mais intensa. Se ele receber uma "per – doação", isto é, uma doação abundante que lhe dê a suficiente compreensão intuitiva do seu estado, se converterá a Deu " – e está perdoado.


Se, por conseguinte, Jesus afirma que um homem pode perdoar os pecados a outro homem e que essa "perdoação" é ratificada por Deus, afirma que um homem pode fazer com que outro homem seja a tal ponto iluminado que ele compreenda o seu estado pecaminoso e se converta. Mas, para que um homem possa contribuir para que outro homem seja iluminado deste modo, é indispensável que o primeiro possua luz muito abundante, ou que "receba o espírito santo", isto é, o espírito cósmico de Deus, o espírito da universalidade [5] .


Que é, pois, que Jesus afirma?


Afirma que, se alguém tiver o espírito de Deus, e, em nome desse espírito divino que nele está, fizer a um seu semelhante completa doação da luz divina que nele mesmo está, também o próprio Deus fará essa mesma doação, que tem por inevitável consequência a conversão do pecador. Tudo quanto um homem possuidor do espírito de Deus faz e declara, é Deus mesmo que o faz e declara, porque esse homem e o Pai são um só. Neste mesmo sentido dizia Jesus: "As obras que eu faço não sou eu que as faço – é o Pai que em mim está que as faz. " Ou: "A minha doutrina não é minha, mas daquele que me enviou. " A seus discípulos dizia ele: "O Pai está em vós, assim como o Pai está em mim. " Se, pois, um homem, repleto do espírito de Deus que nele habita, perdoar pecados, não é ele, o seu ego físico-mental, humano, que os perdoa, porquanto já não é ele que vive, mas o Cristo que vive nele. Quem, neste caso perdoa é o Eu divino no homem, sua alma, seu espírito santo, seu Emanuel;


porque esse homem já não age em seu nome pessoal, individual, mas age sempre em nome de Deus, do Deus imanente nele.


Enquanto o Lúcifer (intelecto) do homem liga a consciência de alguém, não está ela ligada; mas se o Lógos (razão, Cristo) do homem desligar a consciência de alguém, ela está realmente desligada, porque esse Lógos no homem é o mesmo Lógos em Jesus e o mesmo Lógos que no princípio estava com Deus e que é Deus. Já não é o homem que desliga, é o Cristo, vivo nele, que desliga.


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Pensar e ensinar que essa iniciação cósmica do homem seja resultado dum determinado ritual litúrgico, ou que possa ser transmitida de pessoa a pessoa, ou transferida, é ignorar um dos dispositivos fundamentais da Constituição Cósmica do Universo. Se uma realidade espiritual fosse transferível de pessoa a pessoa, no plano individual, horizontal, deixaria o cosmos de ser o que é, um sistema de ordem e harmonia, e acabaria num horripilante caos de confusão e desordem; haveria uma espécie de ilegalidade ou contrabando no reino de Deus. Em hipótese alguma pode alguém receber ou herdar a experiência espiritual de outra pessoa, porque essa experiência é estritamente individual e deve ser adquirida individualmente pelo iniciando, embora outro, já iniciado, o possa ajudar externamente, removendo certos obstáculos e aplainando os caminhos para a experiência espiritual.


No caso que alguém me abrisse as portas do céu (se tal coisa fosse possivel) sem que eu mesmo estivesse maduro para esse acontecimento máximo, eu, de fato, não estaria no céu, mas no inferno; porque, devido à minha imaturidade espiritual, me sentiria de tal modo desambientado no meio daquela companhia celeste se seres altamente espiritualizados que suspiraria pelo momento redentor de sair desse "céu infernal", a fim de encontrar um ambiente mais congenial, em algum "inferno celestial".


Só quem passou pela grande experiência divina e teve o seu encontro pessoal com Deus é que está em condições de entrar no céu e ficar nele – aliás, ele já está no céu, no reino de Deus, graças a essa mesma experiência, uma vez que o céu está nele.


O poder de ligar e desligar, de perdoar ou reter pecados não é transmitido nem transmissível no plano horizontal humano, mas advém ao homem idôneo pela vertical divina. Os nossos mestres, guias e educadores espirituais podem preparar esse nosso encontro com Deus, podem levar-nos até ao limiar do santuário, mas não nos podem introduzir nele.


Virgílio despede-se de Dante na fronteira entre o Purgatório e o Paraíso, e daí por diante é Beatriz que guia o poeta-filósofo. Virgílio é o homem físico-mental, profano, a consciência telúrica, experiente nas coisas da vida terrestre (inferno e purgatório), mas inexperiente nas coisas celestes. Virgílio é a inteligência "virgem", não fecundada pelo Espírito, pelo divino Lógos, pelo Cristo. Beatriz, a "beatificadora", é a Razão espiritual, o espírito divino, capaz de introduzir o homem nos divinos mistérios do paraíso.


Certos "Virgílios" humanos se arrogam o direito e privilégio de iniciar os viajores telúricos no reino de Deus, mediante determinados ritos externos, usurpando assim a prerrogativa que cabe a Beatriz.


Quem recebe o espírito cósmico (ou santo) é conduzido por Beatriz, pela razão, pelo Cristo, pelo Lógos universal, por Deus mesmo. O que ele liga ou desliga está ligado ou desligado por Deus; o que ele perdoa ou não perdoa está perdoado ou não perdoado por aquele que é a vida desse iniciado. "Recebei o espírito santo! A quem vós perdoardes os pecados são lhes perdoados; e a quem vós os retiverdes são lhes retidos. "


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Analisamos a palavra portuguesa "perdoar". Mas convém não esquecer que nem o texto grego do primeiro século, nem mesmo o texto latino dos séculos subsequentes falam em "perdoar". O grego usa o vocábulo aphíemi, que quer dizer desligar, soltar, libertar. O latim usa a palavra demittere, que significa demitir, que é um sinônimo de soltar, libertar.


Quer dizer, o perdão é considerado como uma libertação ou um desligamento entre o ofendido e o ofensor. Quando alguém não se dá por ofendido pelas ofensas do ofensor, então ele se desliga, ele se põe numa outra dimensão de consciência: há um ofensor, mas não há um ofendido. O ofensor se acha no plano do ego ofendido; e o ofendido se acha no mesmo plano. Mas, se o suposto ofendido se tornar inofendível, então abandona ele o plano do ego e passa para a dimensão superior do Eu divino, que é inofendível. O ego é comparável com a água, que é "ofendível", isto é, contaminável pelo ambiente.


O Eu é como a luz, que é "inofendível", incontaminável pelo ambiente. "Vós sois a luz do mundo. " De maneira que, à luz do texto, o homem espiritual não perdoa propriamente as ofensas, mas ignora-as; desligou-se do plano do ego ofendível e subiu às alturas do Eu inofendível.


O ego vicioso, quando ofendido, se vinga.


O ego virtuoso, quando ofendido, perdoa.


O Eu crístico, se desliga da ideia de ser ofendido; está para além de vingança e perdoação. "Sede perfeitos assim como é perfeito vosso Pai que faz nascer seu sol sobre bons e maus e faz chover sobre justos e injustos. "








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