Filosofia cósmica do evangelho

Versão para cópia
CAPÍTULO 19

"SOBRE ESTA PEDRA EDIFICAREI A MINHA IGREJA"

Há no Evangelho de Jesus Cristo três passagens-chave, que têm sido origem de violentas controvérsias teológicas e devastadoras guerras de religião. A mais central dessas três passagens – as outras duas falam do "perdão dos pecados" e do mistério do "pão e do vinho" – talvez seja a de que nos ocuparemos no presente capítulo.


Boa parte do Cristianismo, no período da sua cristalização eclesiástica, se apoderou desses textos sacros para provar que só ela é que é a verdadeira e genuína igreja do Cristo. Em todos os três casos, essa sociedade eclesiástica interpreta as palavras de Jesus em sentido intelectual-eclesiástico-teológico, favorável à organização hierárquica, quando essas palavras foram ditas num plano diferente, puramente espiritual.


Sobretudo no caso das conhecidas palavras "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja", é evidente que a tradicional interpretação escolásticaintelectual não atinge o sentido real das palavras do Nazareno, que pertencem a um plano de consciência e experiência racional-espiritual. Entretanto, devido à baixa evolução espiritual da humanidade, essa interpretação teológica passou a ser a mais conhecida, e, por muitos, tida como a única verdadeira.


Tem ela a vantagem de se prestar admiravelmente como substrutura para um edifícil hierárquico mundial.


À luz das circunstâncias, e do próprio contexto, é fora de dúvida que a exegese tradicional dessas palavras de Jesus não é uma interpretação real do sentido, mas antes uma injeção mental da parte do homem, que nelas descobre o que dantemão deseja descobrir. O nosso entender vai sempre na direção do nosso querer; a nossa inteligência reveste insensivelmente as cores da nossa vontade. É difícil pensar imparcialmente. . .


* * *

* * *

Em Cesareia de Filipe, perguntara Jesus a seus discípulos o que é que dele diziam os homens; ao que os discípulos referem diversas opiniões correntes a respeito do Mestre. Depois disto, interpela Jesus os próprios discípulos para saber o que dele pensam eles mesmos. E Simão, o pescador galileu, sempre explosivo e entusiasta, responde: "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo!" De relance percebe Jesus que tão gloriosa confissão não vinha da parte humana ("carne e sangue") de seu discípulo, cujas deficiências humanas conhecia sobejamente, mas que era a voz do elemento divino no homem ("o Pai que está nos céus"): "Não foi a carne e o sangue que to revelou, mas sim meu Pai que está nos céus. " Todas as vezes que Jesus se refere ao elemento divino no homem – ao seu Eu espiritual, eterno, ao Emanuel, ao Deus no homem – ele o chama o "Pai". "As obras que faço, não sou eu que as faço, mas sim meu Pai que em mim está. " "A minha doutrina não é minha, mas sim daquele que me enviou. " E em virtude da íntima união que havia entre o elemento humano e o elemento divino do Nazareno, entre o seu Jesus e o seu Cristo, pode ele em verdade afirmar: "Eu e o Pai somos um. " No mesmo sentido diz Paulo de Tarso: "Já não sou eu (meu elemento humano) que vivo – o Cristo (elemento divino) é que vive em mim. " Neste sentido, diz Jesus a seus discípulos: "O Pai está em vós, e vós estais no Pai. " Toda vez que o homem pensa, fala ou age em virtude de seu ego, ou pseudoeu humano, físico-mental, pensa, fala e age ele como simples pessoa, como carne e sangue – mas, quando ele se deixa guiar pelo Eu divino, por seu Cristo interno, o homem pensa, fala e age inspirado pelo Pai.


Em Cesareia de Filipe, em face da pergunta: "Quem dizeis vós que eu sou?" desperta o elemento divino em Simão Bar-Jona, e, impelido por esse espírito divino, o "Pai dos céus", o discípulo exclama: "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo!" Jesus, sempre animado por esse mesmo espírito do Pai, reconhece de relance que aqui não falou a pessoa humana e frágil do pescador galileu, "carne e sangue", mas sim o espírito de seu Pai celeste.


Por isto, replica Jesus: "Também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja. " Em aramaico, dialeto hebraico falado por Jesus e seus discípulos, "Pedro" e "pedra" são a mesma palavra, kepha. De maneira que, na realidade, Jesus disse: "Tu és kepha (pedra) e sobre esta kepha (pedra) edificarei a minha igreja. " Que é que Jesus chama kepha, pedra?


Evidentemente, o elemento divino e forte em Simão. O divino é firme, como a rocha, o humano é inseguro, como a areia. Neste mesmo sentido, concluindo o Sermão da Montanha, dissera Jesus: "Quem ouve estas minhas palavras e as realiza assemelha-se a um homem sensato que construiu a sua casa sobre a rocha – mas quem ouve estas minhas palavras e não as realiza é como um homem insensato que construiu sua casa sobre areia. " Rocha ou pedra (kepha) é, pois, o elemento divino no homem; areia (ou carne e sangue) é o elemento humano. Construir o edifício do Cristianismo sobre elemento humano, físico-mental, não oferece solidez e garantia; é incerto e mal seguro como movediço areal – ao passo que construir o seu Cristianismo sobre a rocha viva da intuição espiritual ou revelação de Deus – isto é seguro e indestrutível.


Não era a matéria visível, mas era o espírito invisível que fizera o discípulo conhecer e confessar: "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo!" E foi por esta mesma razão que Jesus, intuindo a íntima natureza de Simão, lhe dera o cognome simbólico de "Pedro" ou "pedra" (kepha), porque nele o elemento divino se manifestava de um modo especial.


Em Cesareia de Filipe, esse elemento divino em Simão Pedro – o seu "Pedro", a sua "rocha" – conhece, reconhece e confessa que há em Jesus um elemento divino, o seu "Cristo", o "Messias", o "Ungido", o eterno "Lógos". O divino no discípulo percebe e proclama o divino no Mestre.


E foi por isto que Jesus, após ouvir a voz do elemento divino no discípulo, que confessa o Mestre exclama entusiasticamente: "Bem-aventurado és tu, Simão, filho de Jonas (Bar-Jona); porque não foi a carne e o sangue (o humano) que to revelou, mas sim meu Pai (o divino) que está nos céus. " E prossegue: "E por isto, também eu te digo que tu és Pedro. . . " Quer dizer: Porque tu me disseste que em mim há um elemento divino (o Cristo), por isto também eu te digo que em ti há um elemento divino (a pedra, o Eu). "A pedra porém, é o Cristo", escreve São Paulo, continuando: "É ele o fundamento da igreja, e ninguém pode lançar outro fundamento. " Jesus proclama, pois, em Simão o mesmo Cristo que Simão proclamara em Jesus. O Cristo em Simão fala ao Cristo em Jesus. Pode o Cristo em Simão conhecer o Cristo em Jesus, mas a carne e o sangue em Simão não podem conhecer o Cristo em Jesus. Não pode o menor conhecer o maior; o cognoscente só pode conhecer o que é igual a ele, ou inferior; mas não pode conhecer o que é superior. Conhecer perfeitamente é compreender, que significa abranger, abarcar, prender totalmente. Não foi a pessoa humana de Simão que conheceu a divindade de Cristo, mas foi o seu Eu divino, crístico.


E sobre este elemento divino oculto na pessoa humana de Simão Pedro é que Jesus fundou sua igreja; e é esta a razão porque as "portas do inferno não prevalecerão contra ela".


Poucos momentos depois desta cena, as portas do inferno prevaleceram contra a pessoa humana de Simão Bar-Jona; pois, quando, saindo dali, Jesus começou a falar da sua próxima paixão e morte, esse mesmo Simão que tão gloriosa confissão fizera é chamado "satan", isto é, adversário, inimigo do Cristo – por quê? Porque nele prevaleceu o elemento humano, carne e sangue, que se opôs ao elemento divino. O ego humano de Simão Pedro recua diante da perspectiva do sofrimento – ao passo que o Eu divino aceita voluntariamente a paixão e morte. E o Mestre repreende asperamente o discípulo, dizendo: "Vade retro, satan!" vai no meu encalço, na minha retaguarda, adversário, e não te ponhas na minha vanguarda, tentando impedir o meu sofrimento voluntário! E logo passa Jesus a explicar porque dá ao discípulo o nome de "satan" ou adversário: "Porque o teu modo de pensar é de homem, e não de Deus. " Esse "modo de pensar humano" revelara-se em Simão no medo que tinha em face do sofrimento e da morte, e tentou contagiar da mesma fraqueza humana o divino Mestre. Sucumbira ao embate da carne e do sangue, ao seu satan, adversário do Cristo.


Ora, seria absurdo, e até blasfemo, supor que Jesus tivesse edificado a sua igreja sobre tão movediço areal, sobre esse punhado de carne e sangue, sobre esse satan, sobre a pessoa humana e frágil do pescador da Galileia. Se assim fora, se tão fraco fosse o alicerce da igreja do Cristo, já nessa mesma hora teriam as "portas do inferno" prevalecido contra ela.


Entretanto, a frágil natureza humana de Simão Bar-Jona nada tem que ver com o fundamento da igreja. Por isto, Jesus não desdisse o que dissera. Cedeu a areia – não cedeu a rocha! Jesus não edificou a sua igreja sobre "o Pedro da confissão", escreve Santo Agostinho, mas sobre "a confissão de Pedro": portanto não sobre um homem, mas sobre o Cristo confessado por Pedro, "edificou a sua igreja sobre si mesmo", sobre o Cristo, que é a rocha dos séculos.


Até ao quinto século, como revelam os escritos de Santo Agostinho, era esta a interpretação predominante no seio da igreja; que Jesus havia fundado a sua igreja sobre a confissão da divindade de Cristo, revelada a Simão Pedro pelo Pai celeste – e não sobre a pessoa humana deste discípulo [4] .


Citaremos apenas as seguintes palavras de Agostinho: "Tu es Petrus, et super hanc petram, quam cognovisti dicens: Tu es Christus, Filius Dei vivi aedificabo Eccelesian meam. Id est: Super meipsum, Filium Dei vivi, aedificabo Ecclesiam meam. Super me aedificabo te, non me super te. " Como se explica, então, uma interpretação, quase geral, tradicional na igreja romana dos nossos dias, segundo a qual a pedra é o discípulo Simão Pedro?


A razão é uma razão de conveniência histórica, e não uma razão de verdade intrínseca. Durante toda a Idade Média, que começa depois dos tempos de Santo Agostinho, acentua-se cada vez mais no seio da igreja cristã do ocidente a tendência de centralizar o poder espiritual numa só pessoa, praticamente no bispo de Roma, por ser esta a cidade e sede do império romano. E, quando, em fins do século V, o império dos Césares ruiu ao tremendo embate dos povos nórdicos – godos, hunos, vândalos, etc. – a igreja passou a ser também o império, papa e imperador eram uma só pessoa, e assim continuaram por diversos séculos. Nesse período de progressiva centralização era de vital interesse provar que tanto o poder espiritual da igreja como também o poder material do império eram de instituição divina e como tal devia ser respeitado.


Ora, o melhor modo de provar a origem divina desse duplo poder hierárquico do chefe da igreja era o apelo para as palavras de Jesus dirigidas ao pescador galileu, em Cesareia-de-Filipe.


Era necessário provar que o bispo de Roma era o sucessor direto e legítimo de Simão Pedro, e, portanto, detentor do mesmo poder divino confiado a este.


Ora, a sucessão é de pessoa a pessoa, e não de espírito a espírito. Muitos poderiam ser os herdeiros do espírito divino de Simão Pedro, um só, de cada vez, podia ser o sucessor da sua pessoa humana. Era, pois, necessário provar que o bispo de Roma era o sucessor pessoal de Simão Pedro, porque só assim teria valor para a ideia da centralização do poder. Se prevalecesse a concepção antiga, de Santo Agostinho e seus contemporâneos e predecessores, nada seguiria daí para o poder hierárquico do bispo de Roma.


Mas, se se aceitasse que a superestrutura da igreja cristã tinha como subestrutura a própria pessoa de Simão Pedro, recairia sobre o bispo de Roma todo o poder e toda a glória que Jesus teria conferido a seu discípulo.


E assim foi que, obliterando séculos de intuição espiritual e cristã, a hierarquia eclesiástica suprimiu tudo que fosse contrário à interpretação hoje adotada, proclamando ter a pessoa de Pedro sido nomeada o fundamento da igreja, sendo, por isto, o bispo de Roma o legítimo detentor do mesmo privilégio da primazia que Jesus conferira a Pedro.


Esta teoria, hoje corrente na igreja de Roma, falha em três pontos:
1) admite que Jesus fundou sua igreja sobre a pessoa humana de Simão Pedro, quando isto é claramente desmentido pelo próprio texto do Evangelho, como também por toda a tradição antiga, pelo menos até ao século quinto,
2) que Simão Pedro tenha recebido de Jesus uma primazia de poder e jurisdição sobre os outros apóstolos e os cristãos em geral, o que é totalmente ignorado tanto pelo próprio apóstolo Pedro, como também por seu colega Paulo e a igreja cristã primitiva,
3) que Pedro tenha sido o fundador da igreja de Roma e o primeiro bispo da mesma, o que é totalmente incompatível com os fatos históricos, porquanto está provado tanto pelos textos sacros do Novo Testamento como pelos historiadores antigos, a) que Pedro não fundou a igreja de Roma, b) que não foi bispo de Roma, c) que não residiu na capital do império, d) que, depois do ano 64, início da perseguição da igreja por parte de Nero, Pedro, como também seu coapóstolo Paulo, foram visitar os cristãos de Roma em 67, e após breve período de atividades apostólicas foram presos e condenados à morte.


A igreja de Cristo possui alicerce divino, infinitamente mais poderoso do que o que a teologia eclesiástica admite. Se tão humano fosse o alicerce do reino de Deus, já teria ele sucumbido às potências do Hades, isto é, aos fatores negativos do erro e da morte.


O elemento divino da igreja, a "rocha dos séculos", não tem sucessor em nenhuma pessoa humana. A rocha da igreja é o Cristo, porquanto "ninguém pode lançar outro fundamento a não ser aquele que foi lançado", o Cristo, a "pedra angular" do reino de Deus. Todo homem unido ao Cristo, faz parte do alicerce da igreja.


Essa rocha, porém, não é transmissível por sucessão histórica, no plano horizontal, de pessoa a pessoa – essa rocha, o Cristo, só existe por meio do poder de Deus. Quem aceita o Cristo e confessa com Simão Pedro "Tu és o Cristo, o filho do Deus vivo!" – esse faz parte do alicerce da igreja do Cristo.


Contra ele não prevalecerão as potências destruidoras do mal, porque edificou a sua casa sobre a rocha: soprem os vendavais, desabem os aguaceiros, transbordem os rios e deem de rijo contra essa casa – ela não cairá, porque está edificada sobre a rocha, "a rocha, porém, é o Cristo", o "rei imortal dos séculos". Cristo "o mesmo, ontem, hoje e para sempre".








Acima, está sendo listado apenas o item do capítulo 19.
Para visualizar o capítulo 19 completo, clique no botão abaixo:

Ver 19 Capítulo Completo
Este texto está incorreto?