Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 18

"AS PALAVRAS QUE VOS DIGO SÃO ESPÍRITO E VIDA"

Há, nas páginas do Evangelho, sobretudo três grupos de palavras de Jesus que, através dos séculos, estão sendo usados – ou abusados – pelos chefes eclesiásticos para cingir de um halo de autoridade divina as suas instituições hierárquicas. São as palavras seguintes:
1) "Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja".
2) "A quem vós perdoardes os pecados são lhes perdoados. "
3) "Isto é meu corpo, isto é meu sangue. " Em todos os três casos temos palavras de sentido puramente espiritual, profundamente metafísico-místico, que de forma alguma visam fins organizatórios, nem pretendem favorecer esta ou aquela classe de homens.


Entretanto, todos esses tópicos estão sendo interpretados em benefício de uma determinada classe de homens eclesiásticos, com o fim de levar os fiéis, a uma obediência cega e incondicional a seus chefes hierárquicos.


O primeiro desses tópicos é explorado teologicamente com o fim de conferir poderes divinos ao supremo hierarca da igreja romana, cujo primeiro antecessor teria sido o pescador galileu Simão Pedro, embora as fontes históricas sejam contrárias a essa pretensão.


O segundo e terceiro textos têm por fim provar que Jesus conferiu à classe sacerdotal poderes divinos de perdoar ou de reter pecados, e de converter pão e vinho no corpo e sangue dele.


Toda essa teologia eclesiástica peca por um erro fundamental, porquanto supõe que um elemento espiritual, divino, possa ser transmitido por meio de cerimônias, de pessoa a pessoa. No entanto, sabemos que é impossivel transmitir de pessoa a pessoa um poder divino. Nenhuma experiência ou iniciação espiritual é susceptível de transmissão, no plano horizontal; só pode ser recebida na vertical, do alto, de Deus, suposto que haja entre os homens um receptor idôneo para a captação dessas realidades divinas. Não existe nenhuma classe social especialmente apta para o recebimento de poderes divinos; nem um estudo teológico de dez ou mais anos torna o candidato apto para ser receptor de poderes divinos; muitas vezes esse escolasticismo intelectual até destrói no estudante a capacidade receptiva. A verdadeira aptidão receptora depende da disposição individual do receptor, disposição que pode encontrar-se em qualquer ponto do globo, dentro ou fora do Cristianismo ou de qualquer outra religião organizada. Deus não conhece gente – Deus só conhece indivíduos. Perante Deus não existem sociedades, instituições, grupos, organizações – só existem almas humanas individuais. Melquisedec era pagão, e, no entanto, era "sacerdote do Altíssimo", que abençoou o patriarca Abraão. Saulo de Tarso era rabino judeu, e foi escolhido por Deus para ser o maior apóstolo do Cristo naqueles tempos, com grande estranheza de certos discípulos de Jesus palestinenses. Francisco de Assis era um jovem negociante italiano, e foi eleito por Deus para ser um dos maiores sacerdotes da humanidade de todos os tempos e países, ele, que nunca aceitou o sacerdócio ritual, uma vez que já recebera sacerdócio espiritual muito superior àquele. Mahatma Gandhi, chefe espiritual e político hindu, foi designado por Deus para ser o guia religioso de centenas de milhões de almas e um dos mais lídimos sacerdotes da humanidade de todos os tempos. Albert Schweitzer, ministro evangélico, tornou-se o modelo do místico dinâmico que exerceu o seu heroico sacerdócio universal no meio da porção mais abandonada do gênero humano.


Deus não conhece acepção de pessoas nem de classes; outorga poderes a toda e qualquer pessoa, de qualquer raça, classe ou credo, desde que essa pessoa possua a necessária receptividade para receber os dons divinos.


Supor que Jesus tenha instituído determinada sociedade hierárquica e designado certos homens para, com exclusividade, servirem de veículos de privilégios divinos, é reduzir o maior gênio espiritual da humanidade à condição de um talento medíocre, de um hábil codificador de dispositivos teológicos e jurídicos.


De mais a mais, como poderia ele designar, dantemão, os seus sucessores sem saber se eles seriam capazes de receber e canalizar tão grandes realidades espirituais? O veículo é escolhido individualmente por Deus, e não fabricado pelos homens.


Há mais sacerdotes de Deus fora do sacerdócio ritual do que dentro dele. "O sopro sopra onde quer. " Para Deus não existem barreiras nem fronteiras de organizações ou seitas humanas. Dá o seu espírito a quem encontrar preparado para o receber. "Quando o discípulo está pronto, o mestre aparece", diz o provérbio oriental, que bem poderia ser aplicado ao nosso caso. Quando o homem for iniciável, será iniciado por Deus – seja ele Melquisedec, Job ou Gandhi, seja ele Saulo de Tarso, Francisco de Assis, Albert Schweitzer, ou outro homem qualquer. Deus nada sabe das nossas burocracias hierárquicas ou jurídicas.


Queixaram-se, certo dia, uns discípulos de Jesus, ainda não iluminados, porque um homem que não era do grupo deles expulsava demônios em nome do Mestre; este, porém, lhes replicou: "Deixai-o! Quem expulsa demônios em meu nome não é meu inimigo!" Esse exorcista era um sacerdote de Deus espiritualmente iniciado, embora não ritualmente ordenado.


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Passaremos a expor, nos seguintes capítulos, o sentido espiritual de certas palavras de Jesus, independente da interpretação que as sociedades eclesiásticas lhes imputaram através dos séculos.








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