Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 17

"PROCURAI PRIMEIRO O REINO DE DEUS – E TUDO ISTO VOS SERÁ DADO DE ACRÉSCIMO"

O Evangelho de Jesus está repleto de afirmações categóricas como esta, afirmações que se podem resumir e parafrasear nos seguintes termos: Todo homem que buscar sinceramente as realidades do mundo espiritual receberá espontaneamente as coisas necessárias para uma vida terrestre decentemente humana.


Haja vista palavras de Jesus como estas: "Tudo que pedirdes a meu Pai em meu nome, crede que o recebereis".


Ou estas: "Tudo que, na oração, pedirdes com fé, se não vacilardes, crede que o recebereis. " Ou ainda: "Tudo é possivel àquele que tem fé. . . Se tiverdes fé, que seja como um grão de mostarda, e disserdes a este monte: Sai daqui e lança-te ao mar!


Assim acontecerá. " Ou, finalmente, o texto completo parcialmente citado na epígrafe deste capítulo: "Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e sua harmonia e todas as outras coisas vos serão dadas de acréscimo. " Nestas e em outras afirmações promete Jesus, não só a consecução das coisas espirituais ("o reino de Deus"), mas também toda e qualquer outra coisa material que não seja contrária àquela; promete mesmo o completo domínio sabre a natureza física em virtude duma simples ordem, sem aplicação de aparelho algum. Dizer a um monte: Sai daqui e joga-te ao mar! Não faz parte do mundo espiritual em si, mas também isto garante o Nazareno a quem tiver fé, isto é, quem estiver identificado com o mundo espiritual pela consciência cósmica.


Com outras palavras: Todo homem que tiver, de fato, realizado a si mesmo, o seu Eu espiritual e divino, será capaz de realizar tudo fora de si. A realização do sujeito produz a realização dos objetos. É esta a filosofia do Evangelho, por mais estranho e inverossímil que pareça ao homem inexperiente.


Para fins de brevidade e simplicidade, passaremos a chamar o processo subjetivo "auto-realização", e o processo objetivo "alo-realização".


O homem profano vive na estranha ilusão de que deva realizar, aqui na terra, umas quantas coisas fora dele, e, quanto mais coisas externas realizar tanto mais vitorioso foi na vida. Ganhar dinheiro, comprar terrenos, construir casas, gozar grande soma de variados prazeres, adquirir celebridade, fazer um bom casamento, criar filhos, conquistar posição social e política, etc. – tudo isto considera ele como a quintessência da sua vida terrestre. Entretanto, tudo isto é alo-realização, realização de objetos vários, no plano horizontal, de algo que é dele, mas que não é ele. Realiza objetos, não realiza o sujeito. Conhece a fundo todos os recantos no plano horizontal, ignorando, talvez, por completo os mistérios do plano vertical.


A diferença essencial entre a filosofia dos grandes gênios espirituais da humanidade, sobretudo Jesus de Nazaré, e a política do homem comum, é precisamente esta: o homem profano vive na permanente, e quiçá inconsciente obsessão de que deva realizar tais e tais coisas fora de si, no plano material, científico, social, para que sua vida tenha valor e plenitude; feito isto, esse homem morre tranquilamente, na certeza de que a sua vida foi fecunda e próspera – os grandes iniciados, porém, procuram realizar plenamente o seu próprio Eu divino.


Que é que faz o homem profano? Faz uma enorme coleção de zeros, de todos os tamanhos e de todas as cores; soma e multiplica essas vacuidades, pequenas e grandes, e despede-se da vida, na convicção de ter acumulado grande cabedal de valores. Em sua cegueira, não percebe que esses zeros não têm valor intrínseco, autônomo, em si mesmos, pois representam qualidades negativas. E essa ignorância da sua própria cegueira lhe dá aquela tranquilidade em que vive e morre. Se ao menos suspeitasse a ilusão em que se encontra!. . .


Seria possivel dar valor a cada uma dessas nulidades, a essa coleção de zeros?


Seria possivel, sim; bastaria antepor-lhes um valor positivo, por exemplo o algarismo "1". Neste caso, o primeiro zero teria o valor de 10, o segundo o de 100, o terceiro valeria 1000, e assim por diante. Cada uma das quantidades negativas dos zeros fez, por assim dizer, um empréstimo no "banco" da qualidade positiva "1". Esse valor positivo "1" é, por assim dizer, uma fonte inesgotável para todos os zeros a ele associados, um foco luminoso que, por mais luz que irradie aos objetos escuros em derredor, nada perde da sua intrínseca luminosidade. De fato, o "1", por mais que valorize os desvalores dos zeros atrás dele, não se desvaloriza a si mesmo. Dá sem nada perder.


Se o homem profano descobrisse essa maravilhosa matemática do reino de Deus, essa sapiência espiritual, deixaria de ser um profano e se tornaria um iniciado.


Todos os iniciados sabiam desta grandeza e fizeram dela o centro da sua vida.


Daí a sua imperturbável firmeza e segurança, daí a sua inabalável serenidade e felicidade em todas as conjunturas da vida.


Enquanto o homem não é ainda plenamente iniciado no âmago da verdade, mas já deixou ser um profano absoluto, trata ele com certa desconfiança esses zeros das coisas do mundo; não os quer ver associados ao grande "1" da sua vida espiritual; deserta do mundo, isola-se numa caverna ou mosteiro, porque quanto mais longe do mundo tanto mais perto se sente ele de Deus. É que não compreendeu ainda que esse "1" que ele busca com tanto afã pode e deve valorizar todos os zeros – quando estes ocupam o seu lugar à direita que lhes compete: 1. 000. 000; se ocuparem a esquerda, é claro que o "1" sairia diminuído e tanto mais desvalorizado quanto maior é o numero dos zeros; 000. 000. 1. "Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se chegar a sofrer prejuízo em seu próprio Eu" (alma) – é com estas conhecidas palavras que o maior auto-realizador da história exprime a grande verdade.


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O homem inexperiente pretende realizar os objetos pelos objetos – o homem experiente descobriu que os objetos só podem ser realizados pelo sujeito, suposto, naturalmente, que este se ache plenamente realizado. A causa é o sujeito, os efeitos são os objetos; não podem estes nascer se aquela não for perfeitamente sadia e forte. Uma fêmea imatura não produz filhos; para que estes possam nascer deve ela adquirir plena maturidade.


Querer realizar objetos do plano horizontal por meio de objetos desse mesmo plano – eis a ignorância multimilenar da humanidade.


Realizar quaisquer objetos externos pelo sujeito interno, do plano vertical – eis a grande sabedoria de todos os gênios espirituais!


Alo-realização pela auto-realização!


Só quando o sujeito individual (homem) se identifica totalmente com o SUJEITO UNIVERSAL (Deus) é que ele pode, de fato, realizar algo no plano dos objetos; toda e qualquer outra espécie de alo-realização é puramente ilusória e irreal.


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A filosofia cósmica é a única ciência realmente exata, porque o seu contrário é metafisicamente impossivel. Podem-se provar, com todo o rigor da lógica, três coisas baseadas nesta verdade:
1) que alo-realização não é possivel sem autorealização,
2) que a auto-realização acontece infalivelmente quando o sujeito individual (homem) consegue adquirir a consciência cósmica da sua essencial identidade com Deus, essencial identidade essa que, todavia, não exclui, mas inclui, a nítida consciência da sua diversidade e inferioridade existencial, humana,
3) que, uma vez efetuada a auto-realização, a alo-realização acontece infalivelmente, consoante a lei básica da Constituição do Universo, porque o efeito segue necessariamente à causa, quando esta atinge sua plenitude.


O que acabamos de expor, em terminologia filosófica, naturalmente difícil para os não-habituados, encontra-se, em substância, no fundo de todas as afirmações e declarações dos grandes mestres espirituais da humanidade.


Como, porém, o gênero humano não possui um vocabulário adequado para experiências espirituais, servem-se os mestres da linguagem comum, com a diferença de que por detrás desses símbolos materiais deve o homem experiente descobrir o simbolizado espiritual. Toda linguagem espiritual é uma parábola: o contenedor é humano, o conteúdo é divino; o corpo é material, a alma é imaterial.


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O texto diz "o Reino de Deus e sua harmonia", ou justiça, que quer dizer ajustamento, ou harmonia. O homem espiritual percebe a harmonia ou a justeza que vigora entre o mundo espiritual e o mundo material. As leis cósmicas primam por uma perfeita complementaridade: se o homem realizar o seu Eu espiritual, então as leis cósmicas se encarregam de manter o seu ego material. O homem espiritualizado não necessita de correr atrás das coisas materiais, porque estas correm atrás dele.


A melhor confirmação desta complementaridade é a vida do próprio Jesus, que nunca adquiriu nenhum bem material, nunca mendigou nada – e nunca sofreu necessidade de coisa alguma. Andava tão bem vestido que, ao pé da cruz do calvário, os soldados romanos repartiram entre si as vestimentas dele, e ainda sobrou a túnica inconsútil, que foi sorteada pelos guardas.


O homem-ego deve "comer o seu pão no suor do seu rosto", mas o homem-Eu que realizou em si o Reino de Deus receberá "de acréscimo" todas as coisas necessárias a uma vida decentemente humana.


É esta a misteriosa matemática do Reino de Deus, dificilmente compreensível para a aritmética dos homens.








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