Filosofia cósmica do evangelho

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CAPÍTULO 16

"QUEM PECOU PARA ESSE HOMEM NASCER CEGO – ELE OU SEUS PAIS?"

Refere o Evangelho que Jesus se encontrou com um cego de nascença.


Quiseram os seus discípulos e outros saber do mestre quem é que pecara, esse homem ou seus pais, para ele ter nascido cego.


Os consulentes não querem saber se o sofrimento da cegueira era castigo dum pecado, o que para eles era evidente; querem tão-somente saber quem contraíra esse débito moral que esse cego estava pagando, ele mesmo ou seus pais. Que o débito existia parecia estar fora de dúvida, porque sofrimento supõe culpa; onde não há culpa não há sofrimento.


Como se vê, os consulentes só conhecem o caráter negativo do sofrimento;


nada sabem do seu aspecto positivo. Que possa haver um sofrimento-crédito lhes é totalmente ignoto; só conhecem um sofrimento-débito.


Supõem eles, além disto, que o homem possa, na vida presente, solver um débito contraído numa vida passada; alguém deixou aquela existência anterior sem estar quite com a justiça cósmica, e tem de saldar a sua dívida na atual existência terrestre. A ideia da reencarnação é tão antiga como a própria humanidade pensante, patrimônio geral de muitas das antigas religiões e filosofias.


Supõe esta pergunta ainda a possibilidade de não ter o homem contraído débito algum, nem na vida atual nem numa existência anterior, mas ter de solver o débito de outros homens, seus pais ou antepassados.


Nesta pergunta, como se vê, temos as duas teorias para explicar o problema do sofrimento humano: a teoria da reencarnação, defendida pela teosofia, pelo espiritismo e ideologias afins – e a doutrina do pecado original, advogada pelas igrejas cristãs, discípulas do apóstolo Paulo.


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E Jesus, que atitude assume? De qual dessas duas doutrinas se confessa adepto? Toma atitude a favor da reencarnação, ou a favor do pecado original?


Afirma que o cego está pagando seus próprios pecados, ou os pecados herdados de seus pais?


Não se declara a favor de nenhuma dessas doutrinas, mas contra ambas. "Nem ele pecou nem seus pais pecaram, para ele nascer cego!" O sofrimento desse cego não é pagamento dum débito, nem próprio nem alheio. Que é então? Visa a um crédito! "Isto aconteceu para que nele se revelassem as obras de Deus. " Jesus declara categoricamente que esse sofrimento tem uma função positiva!


Por meio dele se revelam as obras de Deus.


Mas que obras?


Dizem uns que essas obras são os milagres, como esse que Jesus ia realizar: Deus teria feito nascer cego esse homem e o teria deixado nessa cegueira, quiçá uns 40 anos, para que, em momento dado, Jesus tivesse ensejo para realizar um dos seus milagres de cura.


Quem é capaz de aceitar essa explicação, aceite-a – mas saiba que reduz Deus a uma espécie de tirano arbitrário que se diverte com as dores dos seus súditos inermes.


A obra de Deus no homem é a evolução ascensional do ser humano, potencialmente creativo, e que deve tornar-se atualmente creador. Muitos homens, porém, não saem da sua creatividade potencial e entram na creação atual se não passarem por um grande sofrimento.


Verdade é que não é o sofrimento como tal que redime o homem – pode até levá-lo ao suicídio – mas é a atitude positiva que o homem assumir em face do sofrimento que o redime das suas misérias e o faz entrar na sua glória.


Evidentemente, esse homem nascera cego, não para pagar débitos, próprios ou alheios, mas para realizar créditos. Esse crédito de aperfeiçoamento não era possivel senão através do sofrimento. Era esta a obra de Deus que se devia manifestar nesse homem: a sua evolução espiritual.


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Um dos mais esplêndidos livros do Antigo Testamento, obra-prima de literatura dramática, versa esse misterioso problema do sofrimento humano. Um abastado e santo fazendeiro gentio, na terra de Huz, perde subitamente toda a sua vasta fortuna, sua saúde e seus filhos; da sua família só lhe ficou, para cúmulo de desgraça, uma mulher insipiente e cínica que nada compreende da alma profunda e sublime de seu esposo.


Sentado num fétido monturo, raspa Job o pus das suas chagas com o caco de um vaso partido, derradeiro vestígio de passadas grandezas – quando aparecem, para o consolar na sua imensa dor, três amigos da vítima, filósofos do oriente. Consternados param ao longe; depois, aproximando-se do infeliz, mudos de dor, sentam-se no chão ao redor dele, sem poderem proferir uma só palavra à vista de tão grande sofrimento.


Finalmente, um dos filósofos abre os lábios e procura elucidar o porquê do sofrimento. O que ele sabe dizer é, em resumo, o seguinte: Deus não castiga inocentes, só castiga culpados.


Replica Job que não tem consciência de pecado que tal sofrimento lhe haja merecido.


Mas o filósofo responde que Job deve ter algum pecado inconsciente, ignorado, pelo qual esteja sofrendo, algum resíduo de "karma negativo", diriam os hindus, algum débito oculto de existências anteriores, diriam os reencarnistas, débito que, finalmente, na presente encarnação ele deva pagar.


Neste mesmo sentido, com ligeiras variantes, abundam também os outros dois filósofos. Todos os três, portanto, admitem que Job é culpado, consciente ou inconscientemente, que o seu sofrimento é o pagamento de uma dívida moral.


Nestas alturas intervém o próprio Deus e rebate com palavras veementes os argumentos dos pretensos exegetas do mistério da dor: Insensatos! Que estais aí a adulterar com palavras tolas a sabedoria dos meus planos?


Declara Deus que seu servo Job não sofre para pagar algum débito negativo, de tempos passados, mas sim para acumular crédito positivo e glórias futuras.


Implicitamente, diz o mesmo que Jesus disse tangente ao cego de nascença: que esse sofrimento o colheu para que nesse homem se revelassem as obras de Deus.


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Na tarde da primeira Páscoa, deixaram dois discípulos de Jesus a cidade de Jerusalém e foram em demanda da sua aldeia natal, Emaús, profundamente revoltados com os sofrimentos e a morte do profeta de Nazaré, inocente e just " – quando se associou a eles o próprio Jesus, sem que eles o reconhecessem.


E começou a expor aos dois, à luz das Escrituras, provando-lhes que o "O Cristo devia sofrer tudo isto e assim entrar em sua glória. " Nenhuma palavra sobre débito! Jesus sofreu tudo aquilo – por quê? A fim de pagar um débito, próprio ou alheio? Que ele mesmo tivesse débito a saldar, ninguém o admite; mas que os seus sofrimentos tinham por fim solver os débitos de terceiros, da humanidade pecadora de todos os tempos, isto é doutrina geral das igrejas cristãs. Entretanto, Jesus não afirma nem isto nem aquilo. Diz simples e positivamente que esse sofrimento era necessário para ele atingir a plenitude da sua evolução e perfeição, que ele chama "glória".


Admite, pois, o sofrimento como um fator de evolução espiritual, isto é, o sofrimento-crédito.


Em síntese: o sofrimento é um elemento evolutivo, tanto em Job, como no cego de nascença, como também em Jesus. O sofrimento, à luz desses textos, atualiza algo que era potencial no homem, despertando do sono o que dormia nas profundezas da alma, tornando visível algo que jazia invisível e latente nos abismos da natureza humana.


Quem puder compreendê-lo compreenda-o!


Enquanto o homem não atingir as alturas do Cristo não compreenderá que o sofrimento – embora possa, em certos casos, ser pagamento de débitos negativos – crea também um crédito positivo, sendo assim uma etapa para o homem "entrar em sua glória" de homem integral. "HÁ QUEM DEIXE DE CASAR, POR AMOR AO REINO DE DEUS"

Há, ou pode haver, na vida humana dois apogeus de felicidade peculiar, determinados ou pelo êxtase da carne ou pelo êxtase do espírito.


Alguns não conhecem nenhuma dessas experiências; a maior parte das pessoas adultas só conhece a primeira: uns poucos sabem por experiência pessoal da segunda.


Toda felicidade, material ou espiritual, consiste fundamentalmente na consciência de uma intensa e exuberante vitalidade, de uma espécie de transbordamento de energias vitais.


Quando a vitalidade do corpo humano atinge o seu máximo, na culminância da juventude, podem o jovem e a jovem gozar a mais intensa felicidade corporal, que consiste no êxtase da carne. A imensa maioria da humanidade, no presente estágio evolutivo, não ultrapassou ainda essa etapa de prazer sensorial ou felicidade meramente material. E é por isto que não reagem com entusiasmo quando ouvem falar numa felicidade ultra-sensorial, que consideram como quimérica e irreal em face de veemência brutal da embriaguez erótica. Falta-lhes a antena receptora espiritual; quando muito, creem vagamente numa satisfação espiritual, mas nada sabem experiêncialmente desse mundo desconhecido.


Uns poucos seres humanos, no presente plano evolutivo, alcançaram uma vitalidade espiritual suficiente para saberem de experiência direta, o que quer dizer o êxtase do espírito, ou seja, a vivência mística pelo contato imediato com a Divindade.


Em ambos os casos – tanto na erótica da carne como na mística do espírito – a intensa consciência de uma exuberante vitalidade, que é o segredo da felicidade, nasce de uma espontânea integração da parte no Todo, porque Vida é essencialmente um Todo.


O êxtase erótico vem duma integração da parte no Todo.


O êxtase místico nasce duma integração da parte no Todo.


Daí, a profunda afinidade entre esta e aquela, por mais paradoxal que isto pareça à primeira vista.


A diferença está no seguinte: no primeiro caso, trata-se de um Todo relativo – no segundo caso, do Todo Absoluto.


O sexo não passa duma secção ou segmento da natureza humana total. Nem o homem nem a mulher são a natureza humana em sua inteireza, o Anthropos, o Mensch. O homem e a mulher são apenas duas individualizações parciais e imperfeitos do SER HUMANO em si.


Por isto, a união sexual, que parece integrar o ser masculino e o ser feminino no seu Todo maior, produz uma espécie de êxtase supra-individual ou uma embriaguez erótica, que não deixa de ter certa afinidade com a morte ou o suicídio. Parece que ele ou ela deixa de ser um indivíduo à parte e, através dele ou dela, se funde num Todo supra-individual, universal, cósmico, "de maneira que já não são dois, mas um só". Tanto o orgasmo erótico como o entusiasmo místico têm caráter cósmico, seja para o subconsciente, seja para o supraconsciente.


Essa desintegração dos indivíduos, masculino e feminino, e sua reintegração num Todo ultra – ou extra-sexual, tem algo de comum com a morte ou dissolução do indivíduo e sua absorção pelo grande Todo. Não é sem razão que consideramos a virgindade como uma espécie de "integridade" individual, e sua perda faz lembrar uma tal ou qual "desintegração" individual seguida de uma "integração" universal.


O êxtase da carne, a embriaguez erótica, é a transição daquele para este estado.


Ora, na experiência mística há essa mesma sensação, essa espécie de volúpia que empolga o indivíduo no momento da sua integração no Todo relativo, pela erótica sexual; mas, na experiência mística já não se trata duma integração do indivíduo num Todo relativo mas sim no Todo Absoluto, na Divindade.


A erótica da carne é suplantada pela erótica do espírito, que é a mística; mas a afinidade continua a vigorar, embora num plano essencialmente superior, imaterial. Não é mais o indivíduo que se cosmifica – é o próprio homem, a creatura humana, que se super-humaniza, para se divinizar. Na mística é bem mais radical o egocídio do que na erótica. Amor, erótica, mística, morte – é impossivel dissociar estes fenômenos, diversos nas suas ramificações externas, mas idênticos na sua raiz interna, no misterioso subsolo da sua unidade essencial.


Essa integração do Eu humano no Tu divino, essa fusão da consciência individual na Consciência Universal, essa submersão da onda da minha vida limitada no ilimitado oceano da Vida Cósmica, vem necessariamente acompanhada de uma sensação de indizível felicidade, de uma embriaguez beatífica incomparavelmente mais intensa e fascinante do que a momentânea embriaguez erótica do sexo. Esta é como que um relâmpago em plena noite, um parêntesis de luz violeta no meio de duas trevas profundas – ao passo que aquela é semelhante a uma serena e tranquila claridade solar em pleno dia.


Na erótica do orgasmo sexual não há nem pode haver verdadeira fusão dele e dela, porque se trata de dois indivíduos, necessariamente separados como tais;


nunca pode o indivíduo A ser realmente o indivíduo B. Mas na experiência mística a fusão é possivel, porque se trata de um individual e dum Universal.


Não se pode fundir a parte A na parte B, mas pode-se fundir o indivíduo parcial e finito no Ser Universal e Infinito.


Na erótica, a fusão é ilusória – na mística a fusão é real.


Por isto, daquela resulta uma felicidade efêmera – desta, uma beatitude eterna.


A fusão mística, porém, não é uma absorção, substituição, aniquilamento ou extinção do indivíduo em prol do Universal – e é precisamente aqui que principia a grande e jamais devassada obscuridade para o nosso intelecto analítico! De que modo continua a existir o indivíduo após a sua definitiva fusão no Universal, na Divindade? Em vez de analisar esta pergunta inanalisável, lembramos apenas que é experiência de todos os grandes gênios espirituais da humanidade, sobretudo do Cristo, que a identidade individual do Eu continua a persistir após a fusão do homem na Divindade. É que todos esses gênios viviam num plano superior onde a lógica intuitiva da razão espiritual eclipsa toda a lógica, ou pseudo-lógica, analítica da inteligência personal.


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Sendo que a mais intensa felicidade (ou prazer) no plano material é o êxtase da carne erótica sexual, e como, por ora, a nossa humanidade não possui vocabulário próprio para experiência mística, é geral em todas as literaturas o uso de termos eróticos para designar experiências místicas. O inexperiente corre, então, o perigo de tomar esses símbolos materiais pelo simbolizado espiritual, uma vez que "o conhecido está no cognoscente segundo a capacidade do cognoscente". Quem nunca teve experiência espiritual não pode saber o que simbolizam os símbolos materiais.


Nos livros sacros de todos os povos, sobretudo na Bíblia, quer no Antigo, quer no Novo Testamento, como também nas obras dos místicos, dentro e fora do Cristianismo, o encontro direto da alma com Deus é, invariavelmente, representado sob a forma de uma "festa nupcial", de um conúbio da alma com o divino Esposo.


No âmbito dos livros sacros do ocidente, é o "Cântico dos Cânticos" o poema clássico da mística divina apresentada em roupagens de erótica humana, e é indício de uma verdadeira intuição espiritual que tanto a sinagoga de Israel como também a igreja cristã tenham incluído o livro dos Cantares no cânon dos livros divinamente inspirados. Nas páginas desse grandioso poema eróticomístico não ocorre nenhuma união sexual, nenhum acasalamento no sentido tradicional, nenhuma procreação de filhos, porque no terreno do simbolizado místico não há união carnal nem procreação material: há uma espécie de autocreação, por mais paradoxal que isto pareça.


Se Salomão é o autor do "Cântico dos Cânticos", pode-se afirmar que esta epopeia mística marca a verdadeira grandeza desse homem singular, tão humano e tão divino – assim como a vida erótica com suas esposas e concubinas assinala o limite da sua grandeza: depois de gozar a plenitude do êxtase da carne, anseia Salomão, insatisfeito, pelo êxtase do espírito.


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Quando o homem chega ao zênite da sua experiência mística, eclipsa-se nele todo o desejo erótico, não por uma violenta supressão, mas por um processo de espontânea integração deste naquela. As núpcias espirituais da alma humana com o divino Lógos sobrepujam totalmente as núpcias materiais do homem e da mulher.


São estes os "eunucos por amor ao reino de Deus", na misteriosa linguagem de Jesus; não os que nasceram incapazes para o casamento, nem os que foram feitos incapazes por crime de outros, mas os que a si mesmos se tornaram incapazes da erótica sexual graças à plenitude da mística divina. No mundo dos "regenerados" – isto é, dos novamente gerados ou renascidos pelo espírito – não se casa nem se dá em casamento, porque "todos eles são como os anjos de Deus nos céus, por serem filhos da ressurreição".


Quem ressuscitou da matéria para o espírito, da erótica para a mística, se tornou a si mesmo inidôneo para as núpcias humanas, não por deficiência de vigor orgânico, como os eunucos naturais ou artificiais, mas por abundância e plenitude de vigor e poder divino, porque contraiu núpcias com o eterno Lógos, cheio de graça e de verdade.


Quanto mais completo é um ser humano pela integração do seu pequeno indivíduo no grande Universal, tanto menos lhe falta uma "outra metade", porque a integração no Todo Absoluto fez silenciar nele todo o desejo de uma integração num Todo relativo. No caso, porém, que viva em regime de núpcias humanas, estas não lhe representam o último centro de gravitação da sua vida, mas lhe são antes como que uma periferia concomitante com a qual todo o seu ser sexual e humano gira em torno do centro cósmico do eterno Lógos.


O Cristo, que era totalmente "um com o Pai", já não necessitava de integração humana; a plenitude da sua mística eclipsara nele toda e qualquer erótica sexual. É possivel que, para o homem comum, a integração no Todo relativo da erótica seja uma ascensão e um meio de aperfeiçoamento – mas, para o Cristo, no qual "habitava corporalmente toda a plenitude da Divindade", essa integração relativa teria sido uma diminuição e decaída da sua grandeza. "Há quem se torne incapaz para o casamento por amor ao reino de Deus – quem puder compreendê-lo compreenda-o!"








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